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[120] As minhas turmas em 1998-99

Memórias

O meu regresso às aulas trouxe-me um desafio novo: uma turma dos Cursos de Educação e Formação, conhecidos no dia-a-dia das escolas por CEFs.
E aquela em que me envolveram era uma turma de «Nível II», com a componente profissional de Electricista de Instalações.
Assim, depois da experiência na Siderurgia Nacional (em 1983-85), voltava a ter uma turma vocacionada para a aprendizagem de uma profissão, embora as características destas duas vias fossem diferentes: nos CEFs, os jovens aprendiam as bases de uma profissão numa escola, e não numa empresa, pelo que perdiam em autenticidade profissional; mas ganhavam em socialização com os da sua idade, uma das faltas sentidas pela malta da Siderurgia.

Eis o pessoal que compunha esta minha nova turma:




Tal como na Siderurgia, os jovens que entravam nas turmas CEF andavam a matutar no seu futuro, hesitando entre diversas vias possíveis. Foram claros os sinais disso nesta turma: ao fim de algumas semanas um deles acabou por desistir do curso, por não conseguir conciliar os estudos com o trabalho à noite, a que acrescia o trabalho em Lisboa nos fins-de-semana (alguns anos mais tarde encontrei-o a trabalhar na TransTejo, tendo-me então desafiado a ver a travessia do rio na cabina de pilotagem, o que fiz) e dois outros viram-se excluídos da sua frequência devido ao excesso de faltas. Dos que permaneceram, dois já tinham concluído o 9º ano, procurando neste curso apenas a sua componente profissionalizante; e um dos que não tinha o 9º ano queria obtê-lo para depois seguir a via artística no Secundário. Portanto, até perto do fim do ano lectivo, apenas oito alunos permaneceram nesta turma.

Tive como colegas nesta turma: o José Calado; a Emília Dionísio; a Carla Ferreira; o Fernandes; o Luís Farinha; e a Luísa Gracioso. O Calado e o Fernandes garantiam a parte profissional, ficando a parte escolar a cargo dos outros.

Penso que ainda não havia um programa «vindo de cima» para este curso pois, numa das primeiras reuniões do Conselho de Turma, foi afirmado que o Ministério da Educação pretendia que cada escola desenvolvesse os métodos que achasse correctos para o seu sucesso. Caberia a cada professor construir o seu programa, ouvidas as eventuais sugestões do Conselho de Turma. Por exemplo, o Calado pediu-me para trabalhar as «percentagens» (como em: se algo custa N escudos e tem 17% de IVA …) e o Fernandes afirmou-me que as «equações» eram muito importantes, mais do que os «sistemas de equações» com que se resolviam as Leis de Kirchoff. E, pela minha parte, sugeri que, a haver «interdisciplinaridade», a organizássemos em torna das disciplinas técnicas e não das outras disciplinas.
O que me pareceu então razoável foi escolher os seguintes temas:
Unidades;
Percentagens;
Equações;
Trigonometria;
Geometria.
Eram temas que tinham relevância para um Eletricista de Instalações (e que ajudavam à peparação básica de qualquer cidadão).

Trabalhámos sempre na sala E28, com as mesas colocadas em «U», sendo uma delas, a mais próxima do quadro, a do professor (todos os professores usaram a mesma disposição, mas com o tempo surgiram queixas sobre a maior facilidade com que os alunos conversavam uns com os outros estando as mesas nesta disposição).

Tal como já fizera na Siderurgia, procurei partir do que os alunos já sabiam. Por exemplo, na primeira aula perguntei-lhes que unidades ligadas à electricidade conheciam: responderam-me com o W, o V, o kW e o A, além de, despropositadamente, incluirem os nomes de dois aparelhos de medida, o Amperímetro e o Voltímetro. Depois perguntei-lhes qual a unidade de resistência eléctrica, e ninguém se lembrou do
W. Perguntei-lhes ainda se havia unidades ligadas entre si, e responderam-me que o eram o W e o kW, tendo um dos jovens explicado o significado do k; mas ninguém conhecia a expressão V = I R.
Com os diversos fundamentos que coligi (o meu conhecimento; as sugestões dos meus colegas; e os conhecimentos dos meus alunos; e ainda com a consulta de alguma bibliografia sobre Electricidade) lá fui construindo, pouco a pouco, o «programa» deste CEF.

Houve alunos que em anos anteriores tinham tido dificuldades na Matemática e que pouco a pouco começaram a «encontrar pontas por onde lhe pegar», inspirando até algum entusiasmo participativo em parte dos seus colegas. E uma das razões para isto foi a possibilidade de utilizar máquinas de calcular simples, que não entediavam os cálculos e permitiam explorar novas formas de proceder aos cálculos.
Mas também houve casos de alunos com bloqueamentos psicológicos prévios em relação à escola e que não os conseguiram superar, apesar do apoio prestado pelos professores.
E ainda houve um caso de conflito racial, em parte sediado na turma, que só dificilmente acalmou, tendo a socióloga da escola, a Augusta Cabral, contribuído para isso.

Tal como era usual fazer com estas turmas mais ou menos experimentais, esta foi inserida num projecto externo, tendo sido escolhido os «Castelos de Risco», integrado na «Arisco», do «Projecto Viva a Escola», sendo a Carla a responsável pela ligação. E também como era habitual, esta turma teve direito a uma visita, organizada pelos coordenadores do curso, desta vez ao «Visionário», que abrira recentemente, em Santa Maria da Feira - tive pena em não ter participado.
E se não fosse o documento seguinte (e algumas notas manuscritas que tirei sobre este curso), não me lembraria de que, um tanto à última hora, eu e três dos alunos deste CEF garantimos um pequeno espectáculo de «Magias com Matemática», realizado após a exibição de uma peça de Teatro, no «último 15 de Junho» do anterior Milénio:



As coisas com os alunos desta turma foram, de certo modo, sempre piorando: no 3º período houve mais «perdas de ano» por faltas, a que se adicionaram mais perdas por classificação no final do ano. Um dos alunos que se perdeu foi o meu melhor aluno a Matemática nesta turma.

Apenas três jovens concluíram favoravelmente este curso!

Além desta turma, tive ainda três outras à noite, do Ensino Recorrente, a A, a B e a D, partilhadas com a Clorinda Agostinho e com o Rui Rodrigues (já não me lembro desta «partilha», penso que dividiríamos os alunos entre nós). Os meus vinte e oito alunos tinham (na altura em que se inscreveram) entre os 16 e os 43 anos: dez deles com menos de 20 anos, quinze na casa dos 20 anos, nenhum na dos 30 e três na dos 40.
Dezoito destes alunos já dispunham de «equivalências» ou de capitalizações» de «unidades (respectivamente: o que tinha sido considerado aprendido antes de entrarem neste sistema; o que tinham concluído dentro deste sistema).
Dos vinte e oito, nove não capitalizaram nenhuma unidade, cabendo aos dezanove restantes 70 capitalizações de unidades (uma média de quase 3,7 unidades por cada um das capitalizadores). E quatro deles capitalizaram 7 unidades (num total de 13 correspondentes ao 3º Ciclo)!


Comentários

Mais uma vez não me posso queixar do horário que a escola me proporcionou: um fim de tarde seguido de noite na escola, à 3ª feira; uma manhã e uma tarde, à 4ª feira; e duas noites à 5ª e à 6ª feira. Além da 2ª feira livre, ainda o estavam imensas horas ao longo da semana:



Eu precisava deste tempo para continuar a explicitar a minha tese. Já não me recordo em que parte se encontrava o meu trabalho nela, durante este ano lectivo, mas presumo que, depois da recolha de dados e do seu tratamento, estaria a juntar o que já tinha num único texto, de modo a poder trabalhá-lo como um longo e convincente argumento.



Noto hoje que os meus anos com menor criatividade lectiva e extralectiva estavam por esta altura a começar. Utilizava o que já experimentara antes, adaptando-o ao que era necessário em cada turma, acrescentando-lhe pormenores, eventualmente interessantes, mas sem produzir ideias qualitativamente novas. O «envolvimento total» que tinha tido, como acontecera com as turmas da Siderurgia, ou o «mergulho total» num projecto, como acontecera nos que haviam sido realizados entre diversas escolas de Almada e Seixal, já não aconteciam agora.
Estava a entrar no que foram os meus últimos doze anos como professor, durante os quais me desdobrei em vários aspectos da profissão docente, como a investigação e a escrita, a formação continua, a organização e a avaliação  da escola e, nos primeiros destes anos, o associativismo docente …

Pensando em termos profissionais, que tempo e que condições precisarão os professores de reclamar para que estes diferentes envolvimentos lhes sejam possíveis, sabendo que nem todos se envolverão em tudo, nem o farão com a mesma intensidade?


As turmas CEF concentram problemas pessoais e sociais que afectam muitos alunos nas turmas normais. Apesar da dedicação que os professores lhes prestam, em particular os seus coordenadores, esses problemas muito dificilmente se resolvem. Depois, as turmas de Ensino Recorrente concentram os adultos, ou os jovens a caminho de o serem, que tentaram resolver por eles mesmos aqueles problemas e que regressam à escola para prosseguirem o que dantes não foram capazes nas turmas normais, ou nas turmas especiais. E as escolas são o local onde este vai-e-vem permanentemente acontece, e onde há muito pouca consciência do que se passa «lá fora» e ainda menos capacidade de aí intervir ...



Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Oito (Doc.s 2, 6, 7, 12 e 15)

[104] As minhas duas turmas do 3º Ciclo Recorrente em 1996-97

Memórias

Uma tese de mestrado exige, em princípio, dois ou três anos. A minha iria durar bastante mais: eu tinha vontade de compreender o que se passara nos sete primeiros anos de vida do Núcleo da APM em Almada e Seixal, e para o conseguir também precisava de instrumentos teóricos que me ajudassem a pensar, e isso exigia muito tempo. O ano sabático em 1995-96 não chegara, pelo que solicitei ao Conselho Directivo da escola um horário lectivo nocturno para 1996-97, tendo-me este sido concedido: iria trabalhar na tese durante o dia e leccionar à noite.

Nessa altura o ensino nocturno estava organizado segundo a filosofia da Educação Recorrente. Curiosamente, eu tinha estado envolvido na primeira experiência desta via em Portugal, nos anos lectivos de 1980-83 (daqui a uns tempos testemunharei sobre ela), que havia sido muito diferente da que agora viria a encontrar.
Em princípio, esta via era destinada alunos que trabalhavam durante o dia e que estudavam à noite. Mas pelo menos este ano uma das turmas que me coube não correspondia bem a esse perfil. Em geral, todos tinham abandonado os estudos em anos anteriores, e agora pretendiam prossegui-los.

Começo pelo meu horário


Tinha dois dias livres e a «carga horária» não era pesada: por qualquer razão que eu desconhecia (por falta de professores?), o Ministério da Educação contabilizava cada hora de «serviço lectivo» à noite como hora e meia.
Além das duas turmas, a B e a E, ainda tinha responsabilidades pelo MATlab da minha escola e pela Ludoteca, ou seja, estava em contacto semanal com a escola diurna, sendo quase certo que uma parte importante desse contacto tivesse sido feito nas Quartas-feiras à tarde (ou seja, num dos meus dias «livres»).
Sobretudo, agradou-me que este horário me permitisse continuar a trabalhar no «meu» Pavilhão D.

Estes foram os alunos que me couberam na Turma B:


E estes os da Turma E:


A diferença entre estas duas turmas é que os alunos da segunda eram muito jovens, talvez até tivessem idade para continuar a estudar de dia, mas a escola decidiu, face ao seu percurso de muito fraco sucesso, enviá-los para a noite. Deve ter sido essa a razão pela qual se realizou no dia 23 de Janeiro, tal como anotei à mão na segundo destas listas de alunos, uma reunião destinada aos seus Encarregados de Educação (coisa que na outra turma não faria qualquer sentido).

O currículo não era o mesmo das turmas diurnas. E, sobretudo, era trabalhado e avaliado (através de exames) unidade a unidade (ao 3º Ciclo de Matemática correspondiam 13 unidades). Isso introduzia algum estímulo aos alunos, pois poderiam ter disponibilidade pessoal para as aulas durante apenas alguns meses mas, no momento em que interrompiam os estudos, já tinham tentado «capitalizar» as unidades lectivas que tinham frequentado. Aliás, teoricamente (e muitas vezes na prática), eram eles que pediam ao professor: «Por favor, prepare-me o exame da unidade N pois eu já me sinto preparado!».

O professor deveria seguir a ordem das unidades definida pelo Ministério. U1, U2, U3, etc.; ou, pelo menos, no caso de algumas unidades, deveria respeitar a precedência entre certas unidades (por exemplo, na Matemática, primeiro abordaria a Aritmética e só depois a Álgebra).
Se a ideia de ir capitalizando as unidades era boa, estas restrições a sua ordenação eram más, pois implicava que, na mesma turma, houvesse alunos interessados em unidades muito diferentes, conforme as que tivessem já «capitalizado», obrigando o professor a leccionar várias unidades ao mesmo tempo e, portanto, não dando grande atenção a muitos alunos.
Sei que havia professores que punham os alunos a estudar as unidades que desejavam através duns livrinhos editados pelo Ministério da Educação, e que se vendiam (penso eu) na Papelaria da escola. Eu preferi uma estratégia diferente: via com os alunos quais eram as unidades que nenhum tinha, não ligava nada à precedência teórica entre as unidades e trabalhava com todos ao mesmo tempo. E a estratégia funcionou, pois havia sempre conversa matemática entre mim e eles e ninguém cedia facilmente ao cansaço acumulado pela profissão que desempenhara durante o dia.

Criei algum material didáctico novo (e até produzi novos materiais do tipo «laboratorial», pois tinha a responsabilidade pelo MATlab na escola); e usei uma ou outra ficha que havia sido produzida no âmbito do AlterMATivas e do MATlab.
Os exames foram-se fazendo ao longo do ano, à medida que os alunos se sentiam preparados para eles, mas como o trabalho nas diversas unidades havia sido colectivo, quase todos os exames foram-no para a maioria dos alunos, e não para um só aluno, o que reforçava a consciência de que se estava a lutar em comum, ajudando a combater a vontade de abandonar de novo os estudos devido à acumulação de esforços de dia e à noite.

Na turma B houve 13 alunos que realizaram exames, 40 no total, tendo 37 proporcionado a capitalização da respectiva unidade (sucesso de 92,5 %).
E na turma E houve 19 alunos a realizar 40 exames, tendo apenas 23 deles correspondido à capitalização da unidade (sucesso de 57,5 %).


Comentários

Espantosamente, o livro destinado à comemoração dos 50 anos desta escola não refere a existência nela de ensino nocturno, apesar de ele ter durado pelo menos duas décadas (não me apercebi disso quando o li: foi o Vítor Santos que me chamou a atenção para esse facto).

O que me pareceu mais interessante no trabalho lectivo deste ano não constituiu para mim uma surpresa, pois já o aprendera na minha primeira experiência de Educação Recorrente (em 1980-83): estes alunos, mesmo que ainda fossem relativamente jovens, tinham aprendido, nas suas vidas posteriores ao abandono escolar precoce, muitas regras de pensamento e alguns conteúdos que figuravam nos currículos, pelo que nestas aulas era muito útil recorrer a um diálogo entre o que eles sabiam e o que eu tinha de lhes ensinar.
Este diálogo também é possível (e portanto desejável) com alunos mais jovens, apesar de abranger temas e ter profundidades diferentes. Não termos estado atentos para aproveitar melhor este potencial pode ter sido um dos maiores limites profissionais dos professores que leccionaram depois do 25 de Abril de 1974.



Fontes:
Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Sete (doc.s 3, 5, 6 e 7)
Livro de Santos, Santos, Ferreira e Contreiras (2017)

[023] O Conselho Pedagógico da Escola Secundária do Seixal em 1988-89

Memórias

A minha passagem pelo Conselho Directivo tinha-me deixado com vontade de intervir na vida global da escola, pelo que me candidatei a Delegado do Grupo de Matemática para 1988-90 e, por esta via, a membro do Conselho Pedagógico (CP). O Grupo aceitou-me como Delegado.
Iria ser a única vez em que fiz parte de um Conselho Pedagógico, tal como, nos dois anos anteriores, 1986-88, tinha sido a única vez em que fiz parte de um Conselho Directivo (ou de um dos seus equivalentes posteriores).

No primeiro destes dois anos o Conselho Pedagógico reuniu por 19 vezes, a primeira em 8 de Setembro e a última em 11 de Julho. Quem presidiu a essas reuniões foi o Alfredo Monteiro, pois, segundo a lei, tal função incumbia ao presidente do Conselho Directivo.
Na primeira reunião, a Ana Chorincas, um outro membro do Grupo de Matemática, foi eleita para coordenar os Directores de Turma. E foram constituídas três secções do CP, a da «Formação», a «Cultural» e a «Pedagógica».

Entre as incumbências da Secção de Formação incluía-se o acompanhamento da formação inicial, na qual estavam envolvidos, nesse ano, dois professores do 5º grupo, um do 8º B e um do 12º D. Tratava-se da chamada Formação em Exercício, que durava dois anos. A minha formação inicial também decorrera nesta modalidade, meia década atrás (1983-85), sempre numa escola, onde acumulava o «ensinar» com o «aprender»; mas, agora, mudadas as regras, o primeiro ano decorria numa ESE, para que os formandos «aprendessem» Ciências da Educação, e só o segundo ano decorria numa escola, para que o formando «ensinasse», com o apoio de um professor local (que, para esse efeito, tinha reservadas duas horas no seu horário semanal).

Estes formandos faziam parte de uma enorme mudança que estava a ocorrer no corpo docente da escola: no grupo 4º A tínhamos dez novos professores (em 12); no 10º A tínhamos nove (também em 12), “todos decepcionados por não entrarem em estágio”, escrevi eu nas minhas notas às reuniões do CP; no 10º B toda a gente estava pela primeira vez na escola; e no 11º A só tinham permanecido na escola dois dos professores do ano anterior.
Além de se tratar de uma mudança profunda, também foi, parcialmente, tardia: em meados de Novembro alguns dos horários que correspondiam aos novos professores ainda não tinham sido atribuídos.

No que respeita às outras condições para o normal funcionamento das aulas e da escola o Conselho Directivo informou o CP de que:
Tinha reorganizado vários espaços de apoio (caso dos audiovisuais) e mandado executar pequenas obras, um pouco por toda a escola (caso do Bar da Sala de Professores);
O número de turmas que a escola tinha era excessivo (as salas estavam 97 % ocupadas, contra os 85 % de ocupação noutras escolas);
Continuava a haver falta de funcionários (no início do 2º período o Pavilhão D chegou a encerrar por um dia devido a esta dificuldade; pouco tempo depois foram colocados na escola vários funcionários, ao abrigo de diversos «programas», todos eles por tempo limitado).

Logo nas primeiras reuniões do CP foram ainda escolhidos os 3 dias de interrupção lectiva para debates na escola (justificados pela participação na reforma que estava a ser preparada), um em cada período lectivo, mais uma semana de interrupção de aulas no 3º período.

A capa do Plano de Actividades, concluído em meados do 1º período, foi esta:


Nas minhas notas às 19 reuniões do Conselho Pedagógico deste ano menciono diversos nomes, além dos já referidos acima (e do meu próprio). Por ordem alfabética: Alice Santos, António Gomes, Francisco Sacramento, Luís Rosado, Madalena Ferreira, Vítor Campos e Vítor Louro. Todos seriam membros deste CP.

Houve dois temas que foram mais intensamente discutidos ao longo do ano. Inicialmente, a distribuição do orçamento. Depois, as opções curriculares.

Havendo pouco dinheiro para distribuir (estávamos numa situação de “miséria orçamental”, escrevi eu), e existindo cursos com natureza profissionalizante (os quais exigem maiores apoios), surgiram dois tipos de tensões: por um lado, entre os grupos «técnicos» e os «não técnicos»; por outro, entre os próprios grupos «técnicos». Tentando resolver essas tensões, exigiu-se mais informação, discutiram-se critérios, propôs-se uma estratégia; mas, no fim do ano, subsistiam em muitas as dúvidas sobre se as coisas teriam sido bem feitas.

O outro tema, o das opções curriculares, tinha algumas ligações, a montante, com o do Orçamento. O melhor exemplo desta ligação foi o da Quimicotecnia, um curso que alguns professores da escola pretendiam iniciar, que o Conselho Directivo garantiu estar em primeiro lugar nas suas prioridades, mas que, no final do ano lectivo, se soube não ter sido contemplado pelo Ministério da Educação para o ano seguinte (não haveria dinheiro, assim foi explicado ao Conselho Pedagógico).
Além da azarada Quimicotecnia, foram sugeridos no CP diversas escolhas curriculares, umas para o 9º ano, outras para os «Complementares» (Secundário) do ano lectivo seguinte: Artes e Design; Artes dos Tecidos; Informática; Planeamento e Urbanismo; e Saúde.

Numa das últimas reuniões do ano lectivo o Conselho Pedagógico foi informado de que, contrariamente às expectativas que haviam surgido, as salas conhecidas por «Portugal dos Pequeninos» (parte do Pavilhão D) não iriam ser encerradas em 1989-90. Estava em perspectiva mais uma inundação de turmas.
O CP também foi informado de que não iria ser iniciado o curso de Informática nos Complementares, mas que prosseguiria a experiência começada em 1988-89 no 7º ano.

Comentários

No meu percurso como professor houve duas ocasiões em que desejei um «cargo»: em 1988-89, quando me candidatei a Delegado de Matemática; e cerca de dez anos mais tarde, quando quis fazer parte da primeira Assembleia de Escola (o que consegui, tendo-me nela mantido durante oito anos).

Até ao fim dos anos 90, os órgãos de administração e gestão das escolas do ensino não superior eram o Conselho Directivo, o Conselho Pedagógico e o Conselho Administrativo.

Por impedimento do Alfredo Monteiro, uma das últimas reuniões do Conselho Pedagógico em 1988-89 foi presidida pela Teresa Ré, um dos membros do Conselho Directivo.

Não é do meu agrado a alteração introduzida na Formação em Exercício, transformando «dois anos a ensinar e a aprender na escola» em «um ano a aprender mais um ano a ensinar», pois se baseia na filosofia «primeiro a teoria, depois a prática», desvalorizando a «interacção entre prática e teoria».

O curso de Quimicotecnia continuou a ser defendido em anos posteriores, sem nunca ter conseguido impor-se. Mas houve cursos que, aquando da remodelação das instalações escolares, no início deste século, obtiveram boas condições de trabalho e que de pouco lhes foram úteis, dado ter desaparecido a respectiva procura. Que teria acontecido à Quimicotecnia se tivesse conseguido vingar?!

No início de 1988-89 o curso de Técnico-Profissional de Manutenção Mecânica não tinha tido inscrições no 10º ano. Assim, durante este ano, apenas esteve a funcionar o curso iniciado em 1987-88, a que eu agora estava leccionar o 11º ano.

O Conselho Pedagógico mostrou-se pouco interessado em apreciar um conjunto de preocupações colocadas por mim a propósito do Plano Anual de Actividades, cujos contributos achei estarem pouco articulados. Defendi que no ano seguinte ele fosse elaborado através de uma estratégia participada, coerente e flexível, de modo a evidenciar a “dinâmica” e as “ideias próprias” da escola, e não as provenientes do Ministério da Educação, da Câmara Municipal e das instituições de formação inicial (a ESE, de Setúbal, e a FCT, do Monte da Caparica). Eram preocupações diametralmente opostas às que levaram um dos membros que viria a ser eleito para o Conselho Directivo de 1988-90 a propor, na reunião que descri no testemunho «020», que o papel do CD deveria ser o de «preparar a escola para a mudança».

Depois de terminadas as aulas, na altura em que o Conselho Pedagógico apreciou os «recursos» sobre as notas finais, anotei assim o que então se disse sobre os casos de insucesso que lhe tinham sido apresentados: “desinteresse profundo dos alunos ou dificuldades não acompanhadas; afastamento dos pais em relação à Escola; arrogância dos professores” (ninguém referiu a arrogância do próprio sistema educativo).

Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Dois (Doc.s 61 e 62); o desenho era meu

[012] Que dizer da «Acção Piloto» para jovens?

Memórias

Houve cinco anos lectivos em que foram abertos cursos da Acção Piloto de Formação de Jovens, tendo a Siderurgia Nacional participado em cada um desses anos. No quadro seguinte está resumido o que sucedeu aos alunos que passaram por esses cinco cursos (nalguns casos, à entrada para o 2º ano, ou para o 3º ano de um dos cursos, o número inicial de alunos foi aumentado ou reduzido devido a razões não escolares): 


Desconheço o balanço que o Ministério da Educação e o Ministério do Trabalho terão feito da generalidade desta Acção Piloto. Mas posso lembrar alguns factos.

Os jovens que se inscreveram nestes cursos, tanto na Siderurgia como nas outras empresas participantes, pertenciam ao largo grupo dos que, antes, se haviam sentido desconfortáveis no «ensino formal». Para podermos perceber o que aí se passava, a percentagem dos alunos que se haviam matriculado no 7º ano do Curso Unificado em 1977-78, em todo o país, e que três anos depois, portanto em 1980-81, tinham concluído o 9º ano, foi de 41,6 %. Portanto, quase 60 % destes alunos inscritos haviam sido retidos pelo menos uma vez ou haviam abandonado os estudos ao longo destes três anos.
É pois difícil aceitar que em centena e meia de jovens que passaram pelos cursos da Siderurgia, quase metade tenha voltado a não ter sucesso, desta vez duplamente: nem na componente «escolar», nem na «profissional».

Esta também parece ter sido a certeza das autoras de um estudo, feito em 1985 para o Instituto de Emprego e Formação Profissional, no qual se queixaram de os “métodos e conteúdos pedagógicos na Área Formativa Comum” da Acção Piloto, elaborados por “técnicos”, não diferirem dos da “escola tradicional”, pelo que, escreveram elas, “podemos considerar que traímos as expectativas dos jovens em relação a esta formação: a maioria deles decidem deixar a Escola porque não a aceitam e vêm encontrar aqui, uma outra, que é a mesma nos seus defeitos e limitações”. E, acrescentaram, “os professores da componente formativa comum”, colocados pelo Ministério da Educação, “não foram sensibilizados, por esta ou por qualquer outra entidade, para as características especiais desta formação e da população a que a mesma se dirige”.
Mas a estas queixas deverão ser acrescentadas outras. A componente «profissional» da Acção Piloto visava formar, na Siderurgia, electricistas, fresadores, serralheiros e torneiros. Mas no inquérito que dirigi aos meus 44 alunos de 1985-86, apenas 16 tinham como preferência a profissão que correspondia ao curso que frequentavam, estando na mente dos restantes 28 uma enorme variedade de alternativas. Adicionalmente, 31 destes alunos disseram que o curso deveria ser diferente: apesar de os seus principais argumentos focarem a falta de raparigas, as férias curtas e a impossibilidade de sair da empresa quando não havia aulas, estes aspectos também contam para o sucesso de um curso destinado a «jovens».

Comentários

Estes alunos ainda não eram adultos, pelo que não terá sido bom que cada um dos cursos em que eles foram envolvidos fosse dirigido a uma única profissão, num ambiente concentracionário de empresa, onde não havia contacto com outros jovens da mesma idade.
Quanto aos professores e aos programas, é de notar que quem tinha a formação escolar a seu cargo dispunha de uma redução do número de horas que leccionava, o que parece ter sido uma aposta na sua criatividade profissional; então, mais importante do que os programas deveria ser o modo como os professores os transformavam, à medida que conheciam os seus alunos e os cursos. Teria pois sido importante, dado o carácter experimental desta Acção Piloto, a existência de contactos regulares entre os professores envolvidos em empresas diferentes: o que parece não ter passado pela cabeça dos responsáveis por estes cursos …

O facto de não se ter pensado num contacto entre professores envolvidos em diferentes empresas, ou até entre os envolvidos, em anos diferentes, na mesma empresa, mostra como a ideia de que o professor trabalha isoladamente era então dominante …

Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Um (Doc. 03, Doc. 04, Doc. 06, Doc. 97, Doc. 98 e Doc. 120)

[002] As turmas da Siderurgia Nacional

Memórias

Em 1985-86 as quatro turmas da Siderurgia tinham um total de 44 alunos.
Nas duas turmas do 2º ano, cada uma com 14 alunos, estavam misturadas as quatro possíveis opções profissionais: a dos Electricistas, a dos Fresadores, a dos Serralheiros Mecânicos e a dos Torneiros Mecânicos.
As duas turmas do 3º ano separavam os Electricistas (5 alunos no 3º B) de de todos os outros (11 alunos no 3º A).

Como era Director de Turma do 2º A e do 3º B, pedi aos alunos das quatro turmas, a meio do 1º período, numa das aulas de Matemática, para responderem a um inquérito (já que inquiria os alunos das minhas duas turmas, inquiria os alunos de todas!).
Uma das questões incidia sobre a localidade de nascimento. Sintetizei assim as respostas (a cada localidade, ou país, correspondem dois números, o da esquerda refere os alunos do 2º ano e o da direita os alunos do 3º ano):


Mais de metade destes jovens tinha nascido noutro distrito, ou no estrangeiro.

Outra das questões incidia sobre a localidade onde, na altura, viviam:


Para participar nas aulas, um em cada três destes jovens deslocava-se de concelhos vizinhos.

Os onze aprendizes de Fresador, de Serralheiro de Mecânico e de Torneiro Mecânico, misturados no 3º A, eram estes:


E estes eram os cinco aprendizes de Electricista, juntos no 3º B:


Comentários

Os jovens envolvidos nesta «acção piloto» foram seleccionados entre os muitos que se haviam manifestado desconfortáveis com a «escola regular». Estes cursos, portanto, deveriam ser cuidadosos quanto à alternativa que ofereciam, juntando-lhe os cuidados que se devem ter com os jovens de qualquer curso, nomeadamente para a socialização dos alunos, para a integração curricular, para as oportunidades de emprego e para o prosseguimento da formação (escolar e profissional). Numa das próximas memórias juntarei algumas notas sobre estes diferentes aspectos.

As «memórias» de uma pessoa existem independentemente dos «documentos» a que ela tem acesso; mas a existência de documentos sobre os acontecimentos a que as memórias pessoais se referem ajuda muito a alargar aquilo que é possível recordar. Sem a enorme quantidade de documentos que fui guardando, dificilmente arriscaria contar as minhas memórias sobre os anos em que trabalhei na Escola Secundária do Seixal, hoje José Afonso. E sem as memórias dos cursos que decorreram na Siderurgia a história desta escola ficaria mais pobre.
Parafraseando a actual terminologia informática, os «documentos» são como uma «memória externa».

Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Um (Doc. 06, Doc. 14 e Doc. 16)

[001] A chegada à Escola Secundária do Seixal

Memórias

Depois de um ano no Pragal, de três em Lisboa e de dois (de estágio) em Portimão, fui colocado como professor efectivo na Escola Secundária do Seixal ou, como ainda era chamada na altura, a «Escola das Cavaquinhas».

O espaço da escola era, em 1985-86, consideravelmente menor do que o actual. E os pavilhões outros, excepto o pavilhão C, naquela altura o mais novo.
A planta da escola seria, muito esquematicamente, assim:


No ano em que cheguei conheci muito mal este espaço, pois as minhas aulas não foram aqui. Mas tenho uma vaga impressão de que a Sala de Professores e o Conselho Directivo estavam no pavilhão assinalado com um (a) e de que o pavilhão situado em (b), de madeira e talvez pintado de verde, tinha umas escadas para nele se poder entrar.
Só nos anos seguintes me apercebi de que o pavilhão B estava encostado a uma barreira, que nos separava do espaço da futura expansão da escola.

Penso que o meu primeiro contacto com a escola, uma reunião geral de professores, terá sido no Pavilhão A. No fim dela, como se se tratasse de um ponto fora da ordem de trabalhos, falou-se de alguns «projectos» que estavam em curso. Esta foi, certamente, informação a que mais me interessou, pois não me lembro de mais nada.
Não me recordo da primeira reunião com o grupo de Matemática, que pode ter decorrido imediatamente após a que se destinou a todos os professores. Só sei que me calhou um horário bastante interessante: iria leccionar Matemática a quatro turmas cujas aulas decorriam nas instalações do Centro de Formação da Siderurgia Nacional, em Paio Pires. Duas dessas turmas estavam no equivalente ao 8º ano e as outras duas no equivalente ao 9º ano. Numa parte do dia os alunos destas turmas aprendiam para a «escola» e na outra parte aprendiam para uma «profissão».
Cabia-me, ainda, ser Director de Turma do 2º A e do 3º B.
Eis o meu horário (a letra mais clara e maior é a minha):


Estas turmas estavam inseridas na chamada Acção Piloto de Formação de Jovens. Nos cinco anos lectivos anteriores ela tinha estado a ser experimentada em várias empresas, cada qual com o apoio de escolas próximas, e a evolução do número de alunos inscritos em cada um desses anos está indicada no seguinte quadro:

A Península de Setúbal estava bem representada nesta experiência!

Comentários

O impresso utilizado para registar o horário (um modelo da Direcção Geral do Pessoal, do Ministério da Educação, como se nota em baixo, à esquerda) tinha espaço para 6 dias semanais: por esses anos ainda se trabalhava ao Sábado, o que seria (entre outras eventuais razões) uma forma de ocupar mais plenamente as instalações escolares que então eram muito deficitárias face à «explosão» de alunos inscritos nas escolas.

Nos anos anteriores tinha-me interessado pela ligação entre os currículos e os diversos saberes, nomeadamente os saberes profissionais (em Lisboa tinha trabalhado com adultos, profissionais da EPAL), razão pela qual o horário que me coube me interessou bastante. Mas não estou certo se tive algum papel na sua escolha, ou se pura e simplesmente ele sobrou para o professor que tinha acabado de chegar.

O quadro com as empresas participantes na Acção Piloto e o número de alunos nelas inscritos foi construído a partir de um documento que, na altura, encontrei no Centro de Formação da Siderurgia, intitulado “Acção Piloto de Formação de Jovens”. Tinha sido publicado em 1985, pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional, e as autoras eram a Maria Alice dos Santos Pombo, a Isabel Constança Oliveira Belchior e a Inácia Rosa Zambujo Canelas.

Em cada um dos anos lectivos referidos neste documento, as empresas participantes podiam iniciar um novo curso, com a duração de três anos: as colunas apenas referem o número de alunos que iniciaram um novo curso. No caso da Siderurgia, em 1985-86, os 30 que iniciaram o curso em 1983-84 iriam estar no 3º ano e os 30 que o iniciaram em 1984-85 estariam no 2º ano. Foram eles os meus primeiros alunos no concelho do Seixal.

Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Um (Doc. 01 e Doc. 03)