Memórias
No âmbito dos muitos documentos que foram produzidos este ano, um deles mostra
uma lista os Projectos
que estavam a funcionar este ano na «José Afonso»:
- Actividades em Férias;
- Atelier de Fotografia;
- Centro de Recursos;
- Clube do Ambiente;
- Clube de Ciência;
- Clube Mãos Verdes;
- Coro;
- Desporto Escolas;
- Educar-se Comunicando (Nova Maré / TV3D; Rádio SOS);
- Expo Dança;
- Expressão Plástica;
- Karting;
- Laboratório de Matemática;
- Ludoteca;
- Mini Half Pipe;
- Núcleo de Teatro:
- Sala de Estudo;
- Viva a Escola.”
Além do que já referi sobre o Laboratório de Matemática e sobre a Ludoteca no
testemunho «105», apenas possuo algumas notas sobre o Projecto «Viva a Escola»
(que fazia parte do Projecto Vida, do Ministério da Educação): no dia 20 de
Janeiro, o Luís
(Cardoso?), a Luísa
Gracioso, o José Calado, o José Calqueiro, a Maria do Céu
e o Pedro
Esteves reuniram-se para preparar o Dia «D» (de «Droga»), que viria
a decorrer no dia 28 de Janeiro, misturando jogos físicos com jogos mentais
(estes foram concretizados na Ludoteca, com relevância para jogos envolvendo
mais de 2 jogadores).
Além desta, muitas outras reuniões foram realizadas este ano.
O Ministério da Educação (ME) quis que todos os grupos disciplinares apreciassem
as suas propostas
de Revisão Curricular: as reuniões decorreram no dia 20 de Novembro
e delas foram feitos relatórios parciais, a partir dos quais se redigiu um
relatório global, enviado para o ME.
Também prosseguiu a elaboração do Projecto Educativo de Escola (PEE),
que envolveu várias reuniões e um considerável número de documentos auxiliares,
que faziam a ligação entre o caminho já feito e o que faltava fazer.
As reuniões que registei ocorreram em 15 de Novembro, 16 de Dezembro, 29 de
Janeiro e 30 de Abril e foram destinadas, contrariamente às reuniões dos anos
anteriores (este processo começou em 1993!), a ir elaborando um documento
final, pelo que a diversidade daqueles que nelas participaram diminuiu: anotei
os nomes da Adelaide
Duarte, do António Cardoso, da Célia, da Élia, da Dª Helena (da Biblioteca), do José Calqueiro,
da Lucília
Pita, da Paula Viegas, do Pedro Esteves e do Sílvio (da A. Estudantes); e anotei que a Lucília
foi eleita coordenadora deste processo.
Pelo meio houve diversas outras reuniões, que se abriram à participação de toda
a comunidade, visando recolher comentários críticos preparatórios do documento
final.
Ao voltar a folhear os documentos que foram sendo produzidos gostei
especialmente de três pequenos contributos:
Os princípios propostos para o PEE eram: “diversidade”,
“convivialidade” e “solidariedade”;
A imagem de escola que se sugeria era: “Uma Escola
que conta com Todos”;
E o comentário que se encontrava no topo de um dos documentos era: “Tratar do corpo da escola / mas também da sua alma”.
Perto do final do ano, em 13 de Junho, concretizou-se a 1ª fase da votação
sobre a proposta de Projecto Educativo (a 2ª fase deveria concretizar-se em
Setembro, envolvendo então as turmas). De 220 eleitores, votaram 140 (63,6 %);
114 aprovaram o PEE (81,4 %); 16 não o aprovaram (11,4 %); 8 votaram em branco
(5,7 %); e 2 votaram nulo (1,4 %):
Penso que o comentário “Tratar do corpo da escola /
mas também da sua alma” tinha a ver com o facto de, paralelamente ao
processo de definição do Projecto Educativo decorrer, durante este ano lectivo,
o processo de participação da comunidade educativa na definição das novas instalações da escola.
Ou seja, tanto a alma como o corpo da escola estariam sob a atenção de todos
nós.
Curiosamente, verifico ter registado mais reuniões respeitantes ao «corpo da
escola» do que à «alma da escola», apesar de aquelas se terem realizado quase
exclusivamente no 3º período lectivo:
Estas reuniões tiveram uma evolução de espírito e de conteúdo:
- Inicialmente, a preocupação dos participantes oscilou entre definir uma posição de escola e aguardar pelas propostas da DREL (Direcção Regional da Educação de Lisboa);
- Pouco depois colocou-se a questão da relação entre os que se reuniam espontaneamente e os que no Conselho Directivo (CD) e no Conselho Pedagógico (CP) podiam tomar uma posição institucional;
- A reunião de 27 de Maio foi na DREL: segundo nos disseram lá, a 1ª fase corresponderia à remodelação do r/c do Pavilhão C; a 2ª fase à construção do Novo Pavilhão (com uma planta de mais ou menos 50 x 20 metros e dois pisos); a 3ª fase à construção de novos Pavilhão Gimnosdesportivo, Pavilhão para a Mecanotecnia (planta de 20 x 20 metros) e Refeitório; para o Sérgio, foram os Fax`s que a escola enviou que conduziram a esta reunião; para mim foi a gradual emergência da nossa opinião;
- Em 30 de Maio desabafei o seguinte nas minhas notas: havia duas estratégias paralelas à do grupo que se reunia, a secretista (algumas reuniões de grupos particulares com técnicos da DREL, não publicitadas) e a do CP (que queria que tudo passasse por lá que mas nada fazia por isso);
- A partir da reunião de 27 de Maio as reuniões foram foram marcadas pela aceitação da posição da DREL e pela preocupação com a obtenção de esclarecimentos complementares por parte da DREL e de restar informações à escola (o CP não se mexeu, mais uma vez);
- A dado momento, segundo as minhas anotações, alguns dos envolvidos nas reuniões começaram a falar em “diálogo” e em “negociação”, depois de andarem a tentar duplicar o preço do que pretendiam para satisfazer os seus interesses;
- Foi ficando claro que, com a proposta da DREL, não sobrariam espaços para «clubes» dos alunos e para «salas de trabalho» dos professores; para alguns poucos, como eu, a luta estava centrada na recusa da “lectivização” das instalações;
- Por outro lado, as posições mais institucionais concentraram-se na resolução dos problemas dos espaços associados às Ciências da Natureza e da Fisica-Química (melhorias no r/c do Pavilhão C) e, sobretudo, da Mecanotecnia (pavilhão a substituir);
- As reuniões de Julho destinaram-se a preparar uma segunda reunião com a DREL (que esta adiou), sempre com a tónica na “pressa” (ou seja, a de reduzir as obras de 3 para 2 anos).
Sabemos hoje que as obras só iriam começar alguns anos mais tarde …
Como curiosidade, entre os que acreditaram que a escola poderia vir a ter um papel na definição das novas instalações, foram ensaiados cenários para a evolução das obras e para o seu perfil final. Eis as duas versões em que eles apostaram:
Houve ainda uma reunião que, como as anteriores, teria tudo para ser considerada fazendo parte do processo de elaboração de um PEE: destinou-se a perspectivar o lançamento dos Currículos Alternativos na escola, para o que precisaríamos que estes figurassem no Projecto Educativo. Ela decorreu no dia 23 de Abril e juntou a Ana Chorincas, a Anabela (qual?), a Augusta Cabral, a Madalena Ferreira e o Pedro Esteves.
Não sei como ainda tive tempo para organizar uma pequena exposição intitulada «10 ANOS à mão livre». Esteve patente de 10 a 23 de Dezembro no corredor do 1º andar do Pavilhão C e exibia alguns desenhos meus feitos na escola ou para a escola. Talvez começasse a estar consciente que o meu tempo disponível para desenhar estava a terminar, devido aos outros envolvimentos. O que hoje acho de mais marcante nos desenhos mostrados é a mudança dos feitos à mão para os feitos com o computador (e os mais recentes, penso, já com o Windows).
Eis um exemplo de desenho feito à mão (integrei-o na capa do folheto produzido para divulgar a exposição):
Comentários
Sob o ponto de vista do contexto em que a escola trabalhava, senti ao longo deste
ano que cada vez mais coisas se estavam a ser decididas fora da escola, o que
contrastava com as reuniões que internamente fazíamos (alguns pensando que através
delas tínhamos um papel importante na definição do nosso futuro). Desabafei
sobre isso nos apontamentos que tomei no dia 29 de Maio: “cada vez se decide mais o que é a Escola a partir do
exterior – a formação inicial vê-se duplicada pela contínua (obrigatória), há
diversos projectos lançados pelo Ministério da Educação, muitas vezes em
ligação com as Universidades (depois do P. Minerva, há agora o P. Galileu, o P.
Viva a Escola, o P. Bibliotecas abertas, etc., etc., etc.; as Câmaras
Municipais começam a exibir a sua existência com Feiras Pedagógicas; o mesmo já
faz o Instituto de Inovação Educacional; cada vez mais a indústria do ensino
pressiona para vender máquinas de calcular, livros escolares, etc., promovendo
encontros de defesa dos seus produtos … fora da Escola (ou entrando nesta para
o fazer …).”
O exemplo das futuras instalações mostrou bem a insignificância dos esforços
feitos na escola para «influenciarmos» o que viria a ser a nossa futura «casa».
E não foi só a DREL que se limitou a simular que nos ouvia. Também internamente
a postura de muitos dos participantes nas reuniões se reduziu a estarem atentos
aos seus estritos interesses.
Como consequência, as instalações escolares que viríamos a ter passados alguns anos
foram planeadas para uma escola pura e simplesmente curricular – tal como o
Ministério da Educação deveria pensar que deveriam ser todas as escolas.
Estávamos portanto na escola a pensar na conclusão do PEE, mas com as nossas
cabeças preocupadas com as obras. Ou seja, estávamos a deslocar o nosso
pensamento da «alma» da escola para o seu «corpo», e um número significativo de
nós apenas pensava na sua parte do «corpo que nos era comum».
Era um muito mau sinal.
Pretendia-se, com a proposta de PEE, que Escola conta-se “com Todos”, admitindo assim a nossa “diversidade”, que prosseguissemos com a “convivialidade” que desde sempre nos caracterizara
e que o reforçássemos através da criação de laços de “solidariedade”.
Não queríamos ser «Uma Escola para Todos», pois o «para» indicaria uma atitude
«paternalista».
Mas já não iríamos ser capazes deste golpe de asa.
Anotei também, já perto do fim do ano lectivo, as múltiplas capacidades que
gerir as múltiplas reuniões nos tinham exigido, um sinal claro de que não
estava a ser fácil seguir um caminho colectivo: “capacidade
de iniciativa, de colocar problemas, de fantasiar, de ouvir, de racionalizar,
de afrontar (a rotina, o egoismo), de organizar, de expressar o pensamento
comum, de registar, de sugerir, de ser diplomata (e de o não ser), de elucidar
(equívocos), etc..”
Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Sete (doc.s 37, 38, 40, 78,
80, 81, 91 e 92) / Album fotos analógicas ESJA Nove (F130: 36A)
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