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[110] O 3º encontro «Educação e Memórias (Almada e Seixal)»

Memórias

Este 3º Encontro foi realizado no dia 1 de Abril de 2026 na Escola Básica e Secundária Professor Ruy Luís Gomes, tendo nele participado 18 professores e educadores e sido apresentados três testemunhos.

Aprender, Viver e Trabalhar na Península de Setúbal, um Vídeo produzido por Eduarda Dionísio, João Carlos Louçã e Vítor Ribeiro, em 1997, por encomenda do Instituto das Comunidades Educativas, e agora comentado por Ângela Luzia.
Organizado em 4 partes, nele se aborda: na primeira, o «Tocar, cantar, conviver, representar»; na segunda, o «Ler, escrever, falar, divulgar»; na terceira, o «Reunir, conservar, instruir, fazer»; e na quarta o «Herdar, trocar, descobrir».
Pretendeu-se, com este Vídeo, “produzir mais um recurso de formação, de desafio à reflexão sobre os diferentes contextos e experiências, em que os participantes, diferentes protagonistas sociais, crianças, jovens, músicos, atores, professores, educadores, técnicos, famílias, vizinhos,…, são simultaneamente atores e destinatários, numa perspetiva intergeracional, intercultural e de educação inclusiva, formalizando enquanto formação os tempos de reflexão e questionamento sobre práticas e metodologias, articulando a produção de inovações educativas com a produção de saberes, numa perspetiva de criação de Comunidades de Aprendizagem.
Eis um momento em que os participantes no encontro observam o Vídeo:



1as Jornadas Interativas de Divulgação de Ciência, por Luísa Beato, orientadora do estágio de Anabela Viseu, Cristina Azevedo e Eduardo Gomes em 1994-95.

Estas Jornadas Interactivas, que decorreram durante uma semana (de 19 a 26 de Maio) em Almada, não se limitaram a envolver estes professores, pois mobilizaram os grupos disciplinares da Biologia, da Física-Químia, da Informática, da Matemática, da Mecânica e da Robótica da Escola Secundária Emídio Navarro e muitos apoios e patrocínios no concelho de Almada e para além dele.

Como razões para esta iniciativa foram na altura explicitadas estas duas:
* “a escola continua a ser hoje, apesar dos discursos de reforma, uma realidade virada demasiado para si própria, muito pouco conhecida quer dos pais, quer dos restantes agentes educativos.
* “a ciência ainda hoje [é] vista como um produto meramente de laboratório, acessível apenas a alguns, com uma linguagem fechada, o que gera falta de sensibilidade e atitude crítica para a informação científica e para os problemas éticos e sociopoliticos que envolve.

A dimensão que este projecto atingiu pode ser compreendida através das iniciativas que o integraram:

1as Jornadas Interativas de Divulgação de Ciência, por Luísa Beato, orientadora do estágio de Anabela Viseu, Cristina Azevedo e Eduardo Gomes em 1994-95.
Estas Jornadas Interactivas, que decorreram durante uma semana (de 19 a 26 de Maio) em Almada, não se limitaram a envolver estes professores, pois mobilizaram os grupos disciplinares da Biologia, da Física-Químia, da Informática, da Matemática, da Mecânica e da Robótica da Escola Secundária Emídio Navarro e muitos apoios e patrocínios no concelho de Almada e para além dele.

Como razões para esta iniciativa foram na altura explicitadas estas duas:
* “a escola continua a ser hoje, apesar dos discursos de reforma, uma realidade virada demasiado para si própria, muito pouco conhecida quer dos pais, quer dos restantes agentes educativos.
* “a ciência ainda hoje [é] vista como um produto meramente de laboratório, acessível apenas a alguns, com uma linguagem fechada, o que gera falta de sensibilidade e atitude crítica para a informação científica e para os problemas éticos e sociopoliticos que envolve.

A dimensão que este projecto atingiu pode ser compreendida através das iniciativas que o integraram:


Se se pudesse fazer uma síntese do que foi feito, ela poderia ser: a escola saíu para a rua.



Almada um lugar para todos / Projecto colaborativo interturmas na Escola Básica Marco Cabaço (Iª parte), por Angélica Curto.

Este projecto concretizou-se em 2013.
Neste encontro apenas se apresentou a história que foi produzida pelos alunos, e depois animada num Vídeo por uma empresa especializada. Ficaram por contar no próximo Encontro as razões e o processo da sua produção.
Uma imagem da projecção deste Vídeo (que, além do normal som áudio inclui uma tradução para quem não o pode ouvir):




Comentários

Os testemunhos apresentados nestes Encontros resultam da compreensão, por parte dos seus autores, da importância do registo das suas memórias, não as abandonando nem ao esquecimento, nem à expropriação por terceiros.
E os debates incluídos em cada um destes Encontros proporcionam um primeiro olhar crítico sobre o passado, quer analisando os seus contextos, quer procurando um novo entendimento das estratégias que foram resultando, quer das que, a dado momento, deixaram de resultar.



Imagens: fotografias de Lídia Matias durante o Encontro e imagem do Power Point das «1as Jornadas» que nele foi mostrado

[093] Um ano lectivo muito diferente (sobretudo para mim): 1995-96

Memórias


As eleições legislativas de 1995 foram ganhas pelo candidato da oposição, António Guterres, o que levou, no dia 28 de Outubro, a uma mudança de ministros da educação: saíu Manuela Ferreira Leite e entrou Eduardo Marçal Grilo (este manteve-se no cargo até 25 Outubro de 1999, quase quatro anos).
Houve um única outra novidade relevante no sistema educativo durante este ano lectivo, a generalização da Reforma Curricular ao 12º ano de escolaridade. Mas, para mim, este ano foi muito diferente do habitual, por razões que nada tiveram a ver com estas mudanças vindas do topo do sistema educativo: com a parte curricular do mestrado concluída, o respectivo projecto de investigação aprovado e um Ano Sabático para o implementar, não tinha turmas para leccionar, embora, cumulativamente ao desafio que assumira, quisesse continuar a dar um apoio na minha (Ludoteca e elaboração do Projecto Educativo) e no Núcleo da APM (Interescolas de Jogos de Reflexão e Encontro Anual de Professores).

Pretendia, com a investigação, compreender a dinâmica cultural gerada pelos professores de Matemática que se tinham envolvido no Núcleo da APM, desde que este fora fundado, em 1989-90. Para isso, precisava de apreciar documentos que haviam registado esta curta história e, para os interpretar, precisava de entrevistar alguns dos colegas que nela tinham estado mais empenhados.
Para as entrevistas escolhi a Filomena Teles, o José Tomás e a Rita Vieira (mais tarde o meu orientador, o José Manuel Matos, quis que eu acrescentasse uma auto-entrevista). Concretizei as três entrevistas em 26 de Setembro e em 16 e 23 de Novembro, usando, como era inevitável naquela altura, um gravador analógico e as respectivas cassetes para as registar magneticamente numa fita:


O gravador analógico e as cassetes com as entrevistas gravadas


A parte mais dura foi a transcrição do som (analógico) para a escrita (digital). Ainda hoje é uma actividade demorada, apesar de tudo ser digital, mas naquela altura era-o ainda mais, pois os dispositivos de controlo do som (pára, arranca; pára, arranca) eram difíceis de manejar. No entanto tinha uma pequena compensação estética: como este trabalho foi feito na Alemanha (onde estava a minha família mais próxima), fi-lo sentado em frente a uma janela onde, frequentemente, podia ver a neve a cair lá fora.

Uma das vantagens de ser o entrevistador a fazer a transcrição (há quem a encomende) é passar mais tempo com os entrevistados. Não é só ouvi-los de novo, é também escrever o que ouve, tendo portanto mais tempo para ir pensando no que ouviu e assim reforçando a empatia com quem falou. Este maior envolvimento levava a que, ao fim de algumas manhãs, quando saía de casa para ir almoçar, ainda estava a «falar» ou com a Filomena, ou com o Zé, ou com a Rita, até me dar conta de que, à «nossa volta», estava a nevar.

Já usei parte destas três entrevistas quando fiz o balanço do projecto AlterMATivas [testemunhos «069» a «073»]. E nelas também abordei os outros dois projectos interescolas que o Núcleo da APM lançara, o MATlab e o InterMAT; além, claro, da vida associativa que os tornou todos estes projectos possíveis.
Vou voltar a essas entrevistas, seleccionando desta vez o que nelas há de «balanço» do que fizéramos e, por vezes, de «sonho» em relação ao futuro. Estávamos, por volta desse ano lectivo, num momento de «transição», que nada tinha a ver com a mudança de ministros, e que estava muito para além daquilo que nos era de imediato perceptível. Na altura não o percebi, mas hoje essa «transição» já se me tornou muito mais clara.

Para a Rita Vieira, saber que existiam materiais didáticos, como o geoplano, que se podiam usar na aprendizagem da Matemática, não tinha sido suficiente para que ela se decidisse levá-los para as suas aulas. Foi sobretudo com o projecto AlterMATivas que ela deu “o grande salto”: se “já sabia” que era importante os alunos usarem “alguns materiais”, “trabalharem em grupo”, “tirarem conclusões”, “fazer conjecturas”, também sabendo que havia quem o fizesse, sem que “nunca” o tivesse “visto”, foi com os colegas do Núcleo com quem viria a trabalhar no AlterMATivas que ela sentiu ter um “apoio de rectaguarda”, um grupo onde poderia “discutir aquilo”.
Já antes do AlterMATivas, na altura em que foi fundado o Núcleo da APM, com colegas que ela não conhecia (à excepção da Ângela e da Filomena), se tinha gerado um ambiente do tipo «E se a gente fizesse, e se a gente fizesse?», ela sentira ter-lhe aparecido um grupo onde teria a coragem para dar “o grande salto”.
As vantagens de trabalhar em grupo também existiram no projecto MATlab, embora aí as oportunidades fossem menos intensas, pois os produtos finais não as exigiam tanto, dado se tratar de um projecto extracurricular. Foram portanto estes projectos, e o Núcleo, que “vieram resolver um problema, que foi o trabalho em grupo”. E isso foi importante para ela porque não tinha tido situações dessas na escola, a não ser muito pontualmente.

No entanto a Rita ficou com uma dúvida fundamental acerca do relacionamento que tinha com os alunos, conforme trabalhava com eles nas aulas, ou fora das aulas: “Eu gostava de perceber o que é que se passa dentro de uma aula que faz com que duas pessoas, as mesmas, mudem de espaço e tenham uma atitude completamente diferente, não só em relação um ao outro mas em relação ao próprio trabalho”, desabafou. No ano anterior ela tinha estado “com não sei quantos miúdos a construir sólidos” geométricos para uma exposição que os professores estagiários de Física e Química da sua escola fizeram em Almada; “eles estiveram ali [sempre com grande “alegria”] a fazer aquilo, a contar os quadrados que eram precisos, a contar quantas faces, e depois como é que é os vértices, e depois como é que [tudo se une].” Então, “o que é que se passa? o que é que muda?” entre a aula e o fora da aula?

Mas, continuou ela, naquela altura os projectos associados ao Núcleo também estavam a ter problemas, pois nem estavam activos, nem os seus materiais estavam a ser utilizados. E deu uma pista para isso: “Se não tivesse havido Reforma [Curricular] a gente tinha continuado a trabalhar”; os novos manuais escolares até tinham sido elaborados por colegas com quem nós concordávamos “mais ou menos”, pelo que teremos sentido que não precisávamos de fazer os nossos materiais, e o AlterMATivas “esvaziou-se aí”.
Quanto ao MATlab, que não desapareceu logo, se se verificou um aumento do número de participantes, a sua intensidade de trabalho passou a ser mais reduzida, apesar de haver imensas ideias por explorar.

O que se estava a passar com os projectos, comentou a Rita, também tinha a ver com o Núcleo. Ela chamou a atenção para haver professores que tinham deixado de aparecer, talvez para tratarem das “suas coisinhas” nas respectivas escolas, ou para evitarem assumir responsabilidades na coordenação do Núcleo (nós defendíamos que esta devia ser rotativa). E também reparou que havia professores que intervinham nos encontros anuais organizados pela APM mas não nos do Núcleo. E isso trazia o “perigo” de os encontros regionais serem transformados “em ir lá alguém [de fora] a debitar” e nós [os de dentro] apenas a “receber”.
“O que me apetecia propor” concluiu a Rita, era “fazer um levantamento exaustivo do que as pessoas estão a fazer, mas as pessoas podem não estar para isso, não é”, podem não querer que aquilo que fazem seja “como um trabalho integrado no Núcleo”; e, nesse caso, “o Núcleo não serve para nada e então acaba-se com ele”, pois além do encontro regional de professores “começa a não servir para nada”.

O José Tomás não se tinha envolvido tanto no Núcleo e nos seus projectos interescolas, preferindo investir na mobilização dos colegas da sua escola. Por isso, nesta entrevista, queixou-se exclusivamente das dificuldades que aí encontrara.
Depois de defender o “direito ao projecto” e de chamar a atenção para que a possibilidade de realizar projectos nas escolas não estava a ser respeitada, por não lhes serem proporcionadas as adequadas “condições”, considerou que aquilo a que se chama “cultura de escola” é a “cultura do funcionalismo” do Estado (uma “entidade que ninguém percebe quem é”). Era a primeira vez que ele estava tanto tempo na mesma escola, pelo que só agora se apercebia das “profundas relações que se estabelecem [nelas]”, ou seja, “aquilo que a gente quer dizer quando fala na cultura de escola”, e que “não vai mudar nos próximos séculos”. Para ele, as escolas eram “instituições anti-projecto”, porque os professores têm nela um grande poder, exercido através da avaliação dos alunos, e porque a maioria dos Conselhos Directivos procura controlá-la em seu benefício. O que existia de interessante nas escolas eram as “bolsas de resistência”, sendo a partir delas que podia haver alguma frontalidade em relação a esse duplo poder. A “condição de profissional da educação”, concluiu o Zé, deveria equivaler a estar “na escola de corpo inteiro”, nas aulas e fora delas; para se implementar um projecto não é possível fazê-lo sózinho, pois há constantes exigências para o “reflectir”, para o “reformular”, para o “reapreciar”.

Por isso, na altura em que foi entrevistado, aquilo que o Zé gostava de fazer “era ir experimentar outras coisas", pois na escola não via “condições de mudança”. Talvez iniciar um “projecto novo”, como “uma cooperativa ou coisa do género”. Mas, interrogou-se, receava que “o sistema” acabasse por fechar essa via, pois os miúdos, “mais tarde ou mais cedo”, terão de entrar nele, terão de “fazer exames e provas pedagógicas, e exames profissionais”, problema que já havia sido colocado pelo Movimento da Escola Moderna: aí os miúdos têm “direito à palavra”, a “questionar o professor”, a “questionar o poder do professor” e o seu “poder de saber”; mas mais tarde esses alunos iam “com a mesma postura” para a escola oficial e eram “cilindrados pelo sistema”, eram “considerados irreverentes, mal-educados”.

O que atraíu inicialmente a Filomena Teles na escola foi a possibilidade de aí fazer “trabalho extra-curricular”, tendo a “profissionalização em exercício” sido uma primeira oportunidade para isso. E a Escola Cultural foi uma outra, dando “mais importância à formação integral do aluno” e exigindo que as actividades escolhidas fizessem “parte do Plano de Escola, com objectivos, com estratégias de trabalho, com uma série de preocupações que ligavam o que se passava nos clubes aos objectivos gerais dos currículos”; mas quando os professores que não estavam interessados em “mudar” notaram que os alunos aderiam a esse tipo de actividades, desencadearam-se os “conflitos”.
Por isso, a certa altura, a Filomena procurou realizar actividades semelhantes às extracurriculares nas suas aulas, onde não teria de enfrentar conflitos provocados por outros professores. E mais tarde interessou-se pelo trabalho com os seus colegas do Núcleo da APM no AlterMATivas e no MATlab, pois aí se poderiam realizar “actividades que não estavam directamente ligadas aos objectivos do programa”.

No entanto, desabafou a Filomena, todas estas actividades dependiam do ambiente da escola, e esta cada vez dizia menos aos alunos: até ao início do 3º Ciclo a escola ainda lhes dizia qualquer coisa, a partir daí a “sociedade”, através dos “valores” que a “comunicação social” transmitia, tinha “mais força”, e a “cultura da escola” não a conseguia contrariar, porque leva muito tempo a mudar (não adiantando tentar mudá-la “por decreto”); alguns anos antes ainda havia uma abertura à mudança mas, naquela altura, o “retrocesso” era enorme, com cada vez mais “problemas sociais”, pedindo-se à escola que os combatasse “com armas que não [têm] a mesma força” que a da televisão.

Por isso, desejou a Filomena, teria “piada” que o grupo do AlterMATivas e do MATlab, tal “como ele está, com as experiências enriquecidas que tem, fosse trabalhar todo para uma escola”, por exemplo uma “escola integrada”, onde pudesse fazer uma experiência” de desenvolvimento dos alunos, “não só na Matemática”, também com psicólogos e sociólogos, com a sociedade “mais dentro da escola” e com a escola “mais cá fora”, de modo a que “as próprias famílias se fossem modificando e tivessem um papel”, como talvez já acontecesse na Escola Primária.


Comentários

Estes três testemunhos tiveram dois aspectos fortemente em comum: por um lado, olharam de um modo muito crítico para as escolas e, um pouco, para o Núcleo da APM; por outro, preocuparam-se menos com os condicionamentos externos do que com a procura de uma continuação para o trabalho conjunto que até aí tínhamos feito.

A Rita não encontrara na sua escola gente com quem trabalhar em grupo. A Filomena deparara, nas escolas que conhecera, com muitos professores que estavam contra as «mudanças». E o Zé, em vez de colegas com uma atitude profissional «de corpo inteiro», encontrara nas escolas por onde passara muitos «funcionários do Estado», que usavam a avaliação dos alunos (ou os cargos directivos) como fonte de poder, deduzindo daí que as escolas seriam «instituições anti-projecto», apenas confrontáveis por algumas «bolsas de resistência».
Por isso a Filomena, considerou que os projectos em que se envolvera com colegas do Núcleo da APM tinham sido uma solução para as dificuldades que encontrara; mas, para a Rita, também estavam a surgir sinais preocupantes no Núcleo, pois muitos dos professores que aí se tinham inicialmente envolvido estavam a desviar a sua atenção para outras prioridades.
Segundo a Rita, uma explicação para a redução do interesse em trabalhar no Núcleo poderia estar na Reforma Curricular que se estava a generalizar, quer pelos desafios que a sua implementação na escola colocava, quer porque esses colegas preferiam o apoio que os novos manuais escolares lhes trouxeram.

A negatividade do «balanço» feito pela Rita, pelo Zé e pela Filomena encontrou um eco só parcialmente esperançoso quando eles formularam o que desejavam para o «futuro».
A Filomena gostaria que o grupo com que trabalhara nos projectos, em vez de estar disperso por várias escolas, se transferisse para uma mesma escola, onde dispusesse de condições institucionalizadas para fazer um trabalho com maiores hipóteses de sucesso; mas, receou ela, ainda seria necessário enfrentar a influência crescente que a «sociedade», via «meios de informação», exercia sobre os alunos.
O Zé imaginou uma «cooperativa» onde pudesse concretizar «projectos» (para o que seria necessário reunir um grupo com as mesmas intenções); e, tal como a Filomena, receou o que aconteceria aos alunos quando fossem envolvidos no choque entre esse isolamento e a realidade exterior.
E a Rita, mais próxima da realidade em que estávamos, apenas gostaria de fazer um «levantamento» do que estava a ser dispersamente feito, para poder imaginar que ligações estabelecer entre todas as iniciativas que estavam em curso, admitindo, no entanto, que os colegas poderiam não estar interessados nisso.

Sentíamo-nos isolados, procurávamos uma solução para a nossa vontade de intervir e de cooperar, mas estávamos bastante cépticos.

Já não me recordo claramente do que eu próprio sentia nessa altura. Mas como tinha decidido entrar no mestrado [testemunho «090»], a minha escolha terá sido «aprender mais» e, ao investigar com novos conhecimentos, «compreender melhor» o que me rodeava. E só depois decidiria o que fazer, mantendo entretanto contacto com a minha escola e com o Núcleo.

Mas havia muitas coisas que estavam a mexer nesses anos de transição para a segunda metade da década de 90, algumas delas já identificadas, retrospectivamente, nos testemunhos anteriores:

* Acabava de ser decidido que o próximo Encontro Nacional de Professores de Matemática (ProfMAT), organizado pela APM, se iria realizar, no final de 1996, em Almada; mas essa decisão fora tomada sem consultar os sócios do Núcleo da APM em Almada e Seixal, embora dependesse inevitavelmente do apoio de muitos deles, pelo que teria consequências no trabalho aqui realizado; foi um sinal de que o associativismo a nível nacional começava a impor interesses que podiam não coincidir com o associativismo regional;

* O início da Reforma Curricular absorvia muitas atenções dos professores que a implementavam; foi o caso da Área Escola, que mobilizou alguns grupos de professores mas que também gerou fortes indiferenças, ou até alguma resistência, por parte doutros [testemunho «086»];

* Uma minoria dos professores não se sentia confortável com a Reforma Curricular que estava a ser generalizada, sentindo-a já como tendo falhado; se eles procuravam manter a sua «autonomia» (iniciativas curriculares próprias; formação contínua independente), a maioria dos seus colegas hesitava acerca dos exemplos em que se deveria inspirar, se nos do Ministério da Educação, se nos do Ensino Superior, se nos dos seus colegas mais «autónomos» [testemunho «090»];

* À medida que a generalização da Reforma Curricular foi sendo feita, alguns professores do ensino superior começaram a pretender «ensinar os professores do ensino não superior» (e não apenas os futuros professores) [testemunho «090»]; paralelamente, começaram a surgir medidas que tornavam a formação académica hierarquicamente mais importante que os outros tipos de formação [testemunho «092»];

* As escolas estavam a ser gradualmente envolvidas na elaboração de um Projecto Educativo próprio; o poder de um tal instrumento, ao desencadear os interesses de quem o queria usar a seu favor, obrigou todos os outros actores a esforços mais intensos e apressados para o transformar em ferramenta comum [testemunho «088»];

* Alguns parceiros das escolas começaram a propor-lhes «grandes iniciativas» destinadas à sua «participação», o que alienou as alienou do controlo sobre as iniciativas em que se envolviam; a «naturalização» destas «parcerias», a vontade que alguns desses parceiros tinham em hegemonizar certas áreas da educação e a fraca vontade de autonomia da maioria dos professores, impediu que este problema fosse atempadamente identificado [testemunho «087»];

Havia, pois, uma profunda mas silenciosa mudança em curso, e todos nós estaríamos com bastante dificuldade para a apreender e indecisos acerca do que deveríamos (e poderíamos) fazer.



Fontes:
Wikipédia (para os ministros da Educação)
Pedro Esteves / Arquivadores digitais «Tese de Mestrado» (Doc.s: 4EXPR11, 4EXPR12, 4EXPR13, 7ANEX3, 7ANEX4 e 7ANEX6)

[091] O 1º Encontro «Educação e Memórias: Almada e Seixal

Memórias


Há cerca de dez anos um grupo de professores e outros educadores iniciaram o esboço de um projecto de recolha das memórias ligadas à educação nos concelhos de Almada e Seixal. Inicialmente chegaram a reunir-se duas dezenas de interessados, mas, pouco a pouco, o grupo foi-se reduzindo, destacando-se entre os resistentes o Antão Vinagre, o Carlos Abreu, o Joaquim Guerreiro e o Pedro Esteves.
Em 2016 o projecto foi interrompido, tendo sido retomado no final de 2024.

Em vez de um grande encontro» optou-se agora por organizar vários «pequenos encontros», cada qual com a duração máxima de um dia, de modo a que no espaço «entre-encontros» pudéssemos ir mobilizando mais testemunhantes e garantir-lhes tempo para preparar os respectivos testemunhos.

O 1º destes encontros foi realizado no passado dia 14 de Novembro, na Escola Básica de Vale de Milhaços, tendo sido constituído por três intervenções, seguidas de debate e acrescentadas com uma conversa final. As actas, bem como outros documentos relacionados com este encontro, estão acessíveis através do link referido no final desta mensagem.

O Manuel Lima contou como, ao longo de vários anos, na Escola Secundária João de Barros, com os seus alunos, foi «salvando pedras» que contavam partes da história do concelho do Seixal:


O Joaquim Guerreiro testemunhou o modo como experimentou, na Escola Básica António Augusto Louro, a metodologia do Movimento de Escola Moderna (MEM) com as suas turmas:


E a Lídia Matias descreveu o que fez para, ao longo de mais de trinta anos, ir mantendo e melhorando a Ludoteca da Escola Básica de Vale de Milhaços:


O 2º Encontro «Educação e Memórias: Almada e Seixal» será realizado no dia 29 de Janeiro, na mesma escola.


Comentários

Como participante neste encontro, gostaria de destacar cinco das questões em que ele me fez pensar:

(1) a dada altura o Manuel Lima lembrou que a preocupação em salvaguardar vestígios materiais do património local havia sido aprendida no Ecomuseu Municipal do Seixal, onde ele já trabalhara - não deveriam os professores envolver-se em muitas experiências exteriores às escolas de modo a terem uma compreensão mais vasta das potencialidades educativas que se lhes deparam?
(2) o Joaquim Guerreiro, quando decidiu inspirar-se na metodologia do MEM, alterou radicalmente a sua forma de ensinar – não terão os professores falta de contactos associativos frequentes, capazes de lhes trazerem inspirações transformadoras?
(3) a Lídia Matias iniciou a Ludoteca da sua escola com o apoio do associativismo, mas depois fez um longo percurso sem dispor de quaisquer apoios – não mereceriam as experiências de longa duração de uns professores ser aproveitadas por outros?
(4) estas três histórias tiveram, sem excepção, uma forte (ou até exclusiva) componente extracurricular, o que agradou bastante aos participantes nos respectivos debates – não andaremos a deixar-nos fechar demasiado nas prescrições curriculares?
(5) enquanto professor fui múltiplas vezes abordado para ajudar a encontrar colegas que respondessem a inquéritos destinados a teses de mestrado, mas nunca os resultados dessas teses chegaram à minha escola – não deverão ser os professores (ou outros profissionais) a recolher, a debater e a organizar as suas próprias memórias?


Fontes
: arquivos digitais de Pedro Esteves, pasta «Educação e Memórias: Almada e Seixal», ficheiro 1º Encontro (e) Actas


Link para download da documentação relacionada com o 1º encontro: https://www.dropbox.com/scl/fo/62a158ffpjbinmq5eu0yz/AOqzXqnvT3n8qkEyiRiRAk0?rlkey=fq90xev8duxtek4q28qikxo9n&st=h1d712nw&dl=0

[068] Os primeiros anos da Filomena Teles como professora

Memórias

Eu acho que as coisas às vezes acontecem na vida das pessoas por acaso”, disse-me a Filomena, logo no início da entrevista que lhe fiz, em Novembro de 1995, “há um acaso feliz que leva as pessoas a correrem” e “«olha! pode ser que seja isto»”.

Entre dois estágios

Quando acabou os estudos no Secundário a Filomena escolheu Medicina, esteve em Medicina, e depois mudou para Matemática “por problemas unicamente familiares”: “tinha que fazer uma coisa mais rápida e escolhi a Matemática porque pensei, bom, para ser rápido e não fazer aquilo que eu quero, vou fazer uma coisa que em princípio no Secundário nunca tinha tido grandes problemas ... e achava interessante”. Mas esta escolha não foi com a intenção de vir a “ser professora”, mas sim “para trabalhar em Matemática Aplicada”.
A meio do curso deu-se o 25 de Abril, com todas aqueles desafios “sociais que se colocaram e que mexem um bocado connosco, e que na altura, no final do meu curso, criaram imensos problemas de se conseguir emprego na área da Matemática Aplicada”. “Então aconteceu-me a mim o que aconteceu a muita gente nessa altura, que foi, eu preciso de um emprego, preciso de trabalhar, e vou dar aulas.” Mas nem sabia, nem imaginava o que é que seria”.
Entrou para o ensino em Maio de 1976, para dar Francês”. No ano seguinte, 1976-77, colocada numa escola do Ciclo Preparatório, leccionou Matemática e Ciências Naturais. E só em 1977-78, desta vez na Veiga Beirão, em Lisboa, apenas leccionou Matemática, à noite, pois durante o dia precisava de fazer o estágio em Matemática Aplicada, num Banco. A Veiga Beirão “era uma escola extremamente convencional, com imensas lutas lá dentro”, “foi um ano muito quente e havia reuniões gerais de professores todos os dias, enfim, grandes polémicas, lavajens de roupa suja e não sei quê - nada que levasse, até ali, a estar atraída pelo ensino”.

Assim, para a Filomena, ir ensinar foi “porque a pessoa precisa de dinheiro, mas depois, quando a pessoa começa a pensar, e começa a estar por lá”, vê “o que é dar aulas, o que será provavelmente ser professor”, e aí é que se coloca a questão se eu fico por aqui ou se eu me vou embora”.
Foi “por acaso, não por um projecto de vida que eu tivesse definido e que tivesse seguido, mas um bocado porque as coisas vão acontecendo.

Como por essa altura começou a profissionalização em exercício (uma modalidade de formação inicial para professores que já estavam a ensinar, e que decorria totalmente na escola), a Filomena decidiu-se pelo estágio, mas quis fazê-lo fora de Lisboa, tendo sido colocada em Faro, em 1978-79.
Quando o terminou ela ainda não tinha decidido se optaria exclusivamente pela docência, pelo que regressou a Lisboa para concluir o estágio científico, em 1979-80, acumulando-o com aulas em regime misto, uma turma de dia e as restantes à noite, numa escola próxima, a Dona Maria Iª. Esta experiência também não lhe trouxe razões para se decidir definitivamente sobre o seu futuro.

Almoço do primeiro dia 1º Encontro Regional de Professores de Matemática,
na Escola Secundária do Seixal, em Julho de 1991: a Filomena é a segunda a contar da direita

Contacto com escolas «diferentes»

Em 1980-81 a Filomena foi colocada na margem Sul, onde se manteria até ao fim do seu percurso profissional. Tratava-se da Escola Secundária da Amora, uma escola nova, com professores também muito novos, e talvez por isso o ambiente era diferente dos que ela conhecera nas escolas por onde tinha passado em Lisboa e em Faro: “havia um grupo de pessoas que se mexia e que tentava fazer qualquer coisa lá dentro” (alguns estavam na profissionalização em exercício) e isso levou-a a começar a ver a escola de uma forma diferente.

No ano seguinte, 1981-82, foi colocada na Escola Secundária Nº 1 do Laranjeiro, onde esteve dois anos. A perspectiva que se lhe começou a abrir sobre “o que poderia ser a escola, do que era a escola, do que devia ser a escola [...] mexeu um bocado comigo, porque a ideia que eu tinha de escola era a escola que eu tinha frequentado [como aluna], que era o Liceu Dona Filipa, [aonde] eu ia, tinha as minhas aulas e vinha para casa, havia lá umas actividades circum-escolares [...] mas [...] não havia uma dinâmica de escola, [e a Nº 1 do Laranjeiro] foi de facto a escola que mexeu comigo, e é isso no fundo que me levou depois, nessa fase, a fazer um balanço e a pensar que se calhar é aqui que eu quero [...] estar, porque há outras compensações na vida que não sejam o dinheiro e que não sejam [...] uma carreira reconhecida, [...] mas para mim nem era o problema da carreira, era [...] ser um trabalho que mexe com o raciocínio”; e a “informática”, a “programação”, etc., “foram coisas, provavelmente por defeito de formação, por ser uma formação em Matemática”, que mexiam com ela, por gostar de “resolver problemas”, de “fazer um programa para resolver uma situação”.
Se essa foi a razão pela qual a Filomena decidiu continuar a leccionar, o seu “percurso a partir daí é um envolvimento sobretudo mais nas actividades extra-aula”, “não é a aula de Matemática em si, mas é o resto.
Foi aí, no Laranjeiro, que ela se começou a envolver nos jornais escolares. Na altura não havia computadores nas escolas e por isso o jornal “mexeu com vários grupos disciplinares, mexeu com a Educação Visual, para a maquetagem, [...] os miúdos [tinham de procurar] notícias [e] esta era uma actividade que permitia mexer imenso com a escola e que me levou no fundo a contactar com os miúdos e a vê-los de forma diferente, do que eu poderia vê-los na aula de Matemática, porque eu penso que o professor de Matemática, [...] por causa do tema da aula, é provavelmente dos professores todos o que se calhar tem mais dificuldade em conhecer os alunos no sentido de que [...] os temas que foca não são muito propícios a outros tipos de conversa. Penso que um professor de línguas ou um professor de História, ou um professor até de Biologia, porque as coisas estão mais ligadas à vida e tal, provavelmente conseguem mais facilmente extrapolar para o dia-a-dia e conhecer melhor os miúdos, e portanto, para mim acaba por ser um contacto com os alunos a nível diferente e a tentar ver o professor como não só aquele indivíduo que tenta arranjar as melhores estratégias para o aluno saber Matemática, ou conhecer a Matemática, ou trabalhar dentro da Matemática, mas tentar ver o aluno como um indivíduo que no seu todo está a crescer, e há uma série de coisas que mexem com ele, e que se calhar a Matemática é importante mas não é assim tão importante.

O primeiro conflito cultural

Depois de dois anos no Laranjeiro, a Filomena foi colocada no Pragal. Aí conheceu a Ângela Queiroz, que lhe falou num projecto que estava para começar, o Minerva, “e que metia o Spectrum, ela tinha um Spectrum em casa, já, e eu, na altura, como já vinha com o bicho da informática, [...] é evidente que não foi muito difícil [...] começar a mexer com isso.” Mas o Pragal ficou-lhe na memória sobretudo por “um grande projecto”, que ela a Ângela e mais gente desenvolveram, o “Grupo de Intervenção Cultural”. A escola estava a atravessar uma fase muito má, e nós “decidimos pegar nos professores da escola que de facto estavam dispostos a fazer coisas”, eles aderiram e “houve imensos clubes a funcionar, houve o jornal, houve a informática, houve dança, houve teatro”, “sem exagero, umas sete ou oito áreas a funcionar e no fim do ano fizemos um sarau com todas as actividades que a escola tinha a funcionar e não só.” “Fomos [também] à procura de actividades que os miúdos desenvolviam fora da escola, que nós nem sabíamos, e que achámos que era interessante as que pudessem estar no palco [...] para as pessoas saberem [...], por exemplo, o jogo do pau, havia uma data de miúdos a fazer o jogo do pau e que tinham essa actividade fora da escola”. Com essa iniciativa, e apesar de a escola ser “extremamente convencional”, conseguiram implicar o Conselho Directivo e o Conselho Pedagógico. O “sarau não foi feito na escola, foi feito numa colectividade, foi na S.R.U.P. [Sociedade Recreativa União Pragalense], e havia um certo pudor dos professores de irem até ao S.R.U.P., porque o S.R.U.P, enfim, era frequentado por gente, enfim, de camadas muito baixas [...], quando nós fomos falar com o S.R.U.P. o S.R.U.P. ficou surpreso connosco, de os professores estarem interessados numa coisa daquelas, mas eles de facto tinham um palco, [...] e foi a primeira vez que isso aconteceu, ou seja, a escola saíu fora [...] das suas paredes, foi ali para o S.R.U.P, que é mesmo ao lado, mas o que é facto é que os professores da escola [...] ficaram surpresos com aquilo que viram”; “tínhamos um grupo de teatro muito bom na escola, porque tínhamos a Maria Santos à frente”, “e as pessoas não imaginavam o nível que os miúdos da área de Teatro (porque nós tínhamos a área de Teatro no 9º ano) atingiam. Digamos que foi uma maneira de as pessoas, elas próprias professoras, de verem a escola de uma forma diferente, porque os miúdos de facto tinham outras actividades fora da escola, [...] que fazem parte da formação dos miúdos, [havia um] mundo paralelo à escola que o professor de uma forma geral ignora.
Mas isso foi uma coisa que deu um bocado cabo de nós, porque nós para fazermos isso tudo, se por um lado conseguimos envolver muita gente, por outro lado tivemos que sustentar muitas guerras, foi, é horrível mas é verdade, desgastou-nos um bocado, e nós saímos um bocado as duas, eu e a Ângela, um bocado aborrecidas do Pragal, porque achámos que tínhamos dado muito mais do que aquilo que tínhamos recebido, tínhamos tido de facto imensos problemas”.
Aquela escola [...] na altura era muito convencional e vinha com vícios muito de trás, [...] quando alguém tenta inovar há sempre uma interrogação que se coloca, [...] «o que é que estes querem?», «o que é que eles pretendem atingir?»” Na altura ainda não havia a preocupação com a “carreira", mas “as pessoas sentiam-se incomodadas, porque no fundo havia coisas que o Conselho Pedagógico devia assumir e não assumia, [...] essa dinâmica que existia não tinha nada a ver com o Conselho Pedagógico, tinha a ver com um grupo de gente nova, que estava na escola e que queria fazer coisas diferentes, mas em que o Conselho Pedagógico se sentia um bocado em falta, nós conseguimos envolver alguns membros do Conselho Pedagógico, que eram pessoas interessantes, o caso do professor Pedreira de Educação Física e da esposa". Mas o Conselho Directivo tinha um presidente ainda “demasiado director”, e “sentia que as coisas lhe fugiam das mãos ou pensava que nós provavelmente estávamos a envolver demasiados professores” e que isso poderia ser uma eventual candidatura para o próximo Conselho Directivo, “e não era nada disso”; “no fundo nós tentávamos mudar a escola e fazer com que a escola fosse um espaço agradável onde as pessoas gostassem de estar, mas isso desgastou-nos muito, desgastou-nos muito mesmo a nível do próprio grupo, [...] os professores de Matemática não percebiam [...] porque é que um professor de Matemática tem que estar metido nessas coisas”.

O segundo conflito cultural

Em 1984-85 a Filomena saiu do Pragal, com a Ângela, tendo ambas sido colocadas na Escola Secundária Anselmo de Andrade.
Aí, entrou “numa de não me meter absolutamente em nada, [...] ser um professor normal, dar as minhas aulinhas, ir-me embora, num sítio onde ninguém me conhece”. “Só que a Anselmo fica ao lado do Pragal e portanto é muito difícil, eu penso que as coisas passam e as pessoas souberam o que a gente tinha lá feito, porque essas coisas sabem-se”.
Esse era o segundo ano da Escola Cultural. No primeiro ano tinham sido escolhidas 25 escolas para experimentar este projecto e agora abrira concurso a nível nacional para que as escolas se candidatassem. A presidente do Conselho Directivo”, a Lucília, falou-lhe nisso, “porque a escola estava muito murcha, porque havia que fazer coisas e tal, ela sentia-se também um bocado isolada e tinha necessidade de mexer um bocado com a escola”, pelo que a Filomena, que “tinha este bichinho” dos projectos, aceitou envplver-se em mais um. Foi elaborado um projecto experimental para o ano em curso, enquanto se preparava, para o ano seguinte, a candidatura a nível nacional. O projecto experimental envolveu muitos professores, foram criados “17 clubes, e nós de facto mexemos se calhar demasiado com a escola e foi tanto, tanto, tanto”, que a própria presidente levantou problemas, no princípio não muito abertamente, “porque as pessoas continuam sempre com a mesma preocupação, «o que é que esta fulana quer»”, “[«ela] está a mexer demasiado e não convém mexer tanto»”, e “o que é facto é que eu tive problemas outra vez”.
A candidatura nacional à Escola Cultural foi aprovada, tendo sido atribuídos 600 contos à escola, mais 200 contos em livros atribuídos pela Gulbenkian através da candidatura a um outro projecto.
A Lucília tinha pensado no Filomena para vir a coordenar a Escola Cultural no ano seguinte, 1985-86, mas ela já não o queria fazer, pois duvidava da “margem de manobra” que lhe seria dada: “quem manda no dinheiro é que controla tudo, e de facto quem manda no dinheiro é o presidente do Conselho Directivo”, “e de facto havia imensos problemas porque as pessoas queriam dinheiro para que os clubes funcionassem e o dinheiro não era disponibilizado”.
Há maneiras de, no fundo, controlar as coisas”: se o presidente do Conselho Directivo está interessado em fazer um projecto, fala com alguém que sabe ter alguma experiência”, que faz um projecto, a escola candidata-se e se a escola ganhar, para ter algum benefício disso”, vai “controlar tudo isso”, deixando as coisas correr quando isso for em seu benefício, mas, “quando vir que isso está a correr para outro lado, fecha os apoios.
Uma pessoa sente-se um bocado um boneco, não é, sente-se um bocado um boneco, de uma coisa que não tem nada a ver com o que eu estou a fazer”. “Levantaram-se tantos problemas às pessoas, tantos, tantos, tantos, tantos, que as pessoas acabaram no ano seguinte, no final do projecto, por me dizer assim, olha Filomena, nós gostamos imenso de ti, eu gosto imenso do que ando aqui a fazer, gostei de algumas coisas do que fiz, não gosto destas lutas, porque todas as pessoas se sentiram no fundo um bocado em conflito, mesmo quando o conflito não era directamente com elas e era comigo, portanto eu queria que as coisas funcionassem, queria que as pessoas tivessem condições, porque queria que essa dinâmica não se perdesse, indirectamente as pessoas acabavam por ter conflito porque elas próprias tinham elaborado um projecto do seu clube e queriam levá-lo à prática [...]. As pessoas o que acabaram por me dizer é que não estavam dispostas a participar numa coisa que lhes trazia tanto conflito, ou que trazia conflito nem que fosse pequeno”, “e que fariam as mesmas coisas com os seus alunos através das suas aulas”.
Foi o caso do clube de cinema: a sua colega, que era de Filosofia, além de pôr os miúdos a trabalhar com a câmara de video, [punha-os] a fazer entrevistas” e a participar no jornal da escola, promoveu “ciclos de cinema em que o cinema se discutia”; ela pegava, por exemplo, no Charlie Chaplin “e a partir daí ela teve que meter isso nas próprias aulas” e “discutir várias questões relacionadas com a Filosofia, através do cinema”. Essa colega chegou um dia ao pé dela e disse-lhe: «Filomena, “sabes, eu possa fazer estas coisas através da minha disciplina, com os meus alunos, tenho prazer na mesma, sei que mexo com eles, sei que mexo só com os meus alunos, é um facto, mas lamento imenso, [...] o resto das polémicas que se arranjam à volta [...] não é o que me faz estar na escola, e portanto isso cansa-me e eu não estou para andar cansada, esgotada, aborrecida, sempre com receio [do] que as pessoas interpretem»”.

Em 1986-87 o projecto manteve-se mas a Filomena decidiu sair, já “não era o que eu queria”, “o projecto funcionou com muito menos clubes, não sei se foi com meia dúzia de clubes”, “numa dinâmica completamente diferente”, “passou a ser um bocado ocupação de tempos livres, enquanto no projecto inicial era uma coisa que pretendia mexer com a escola, nós tínhamos um café-concerto que se realizava de não sei de quanto em não sei de quanto tempo, em que os miúdos, para realizar esse café-concerto, tinham que ir às actividades dos clubes e mandar alguma coisa cá para fora”, “o que se pretendia no projecto inicial era uma interligação entre o trabalho que se estava a desenvolver nos clubes e as aulas, ou seja, o que se poderia fazer nas aulas, e portanto não era uma coisa só de ocupação de tempos livres, ter ali os miúdos entretidos, não era só isso”, era, “para além disso”, “permitir aos alunos uma formação complementar da formação que o currículo normal prevê, era o poder estabelecer-se trabalhos de interdisciplinaridade entre várias disciplinas, mas também o poder estabelecer-se uma ligação entre o que se estava a fazer fora da aula e o dentro da aula”, o que “exige uma dinâmica de trabalho que confronta muita gente, na sua forma de trabalhar, e o professor parecendo que não [...] é de facto extremamente sensível”, “qualquer professor, penso”, tenta preservar a sua imagem, “e o facto de haver outro tipo de professores, o facto [...] dos alunos aderirem a determinados professores, porque eles dizem-lhes mais, porque estão de facto a desenvolver este tipo de actividades, [...], e se calhar a entendê-los muito melhor e a ligar [...] esses temas [...] com muito mais facilidade, [...] isto mexe muito, [...] mexe de tal maneira que começa a criar uma teia de diz que diz [...] que deita abaixo qualquer projecto, e [...] o projecto deixou de ter o espírito inicial, a partir daí eu [...] desliguei-me da Escola Cultural”.

Antes, durante os dois anos no Pragal, a Filomena tinha estado ligada ao Projecto Minerva, mas, na Anselmo, só o voltou a estar em 1987-88, “para desenvolver um projecto na área do jornal.” Como “a colega que tinha ficado com o jornal era uma colega de Português, [pela] ligação, digamos, entre o que se está a fazer na aula” e a “experiência de execução de um jornal”, “o apoio que eu dava, estando no Minerva, era mais o apoio logístico, dar aos miúdos a formação [de processamento de texto]”; “outro apoio que eu dava era o transmitir um bocado a minha experiência [à colega, para] facilitar um bocado o trabalho e para ela reflectir um bocado o que é que queria fazer”; "estive, eu penso que foi só um ano, no Minerva com isso.

Uma reflexão transformadora

Eu quando [...] fui dar aulas, no fundo fui um bocado [...] a imitação [do] que os meus professores me faziam quando eu era aluna no Liceu Filipa de Lencastre”. “Só que [...] eu gostava de Matemática, Matemática era uma coisa que me divertia e sempre me divertiu muito, divertia-me a fazer exercícios de Matemática, divertia-me a resolver problemas de geometria, eu lembro-me [...] que tinha muita facilidade para aquilo e divertia-me de facto com aquilo, gostava de pensar e achava que o raciocínio era uma coisa belíssima, lindíssima, e sentia-me extremamente frustrada de não conseguir fazer com que os alunos gostassem, não digo tanto de Matemática como eu, mas pelo menos não estivessem nessa situação de a Matemática é um horror.” E “no fundo o meu trabalho era isto, era tentar arranjar processos diferentes de os pôr a executar as coisas com mais facilidade, ou seja, eles tinham que resolver determinados exercícios, então eu andava à procura de técnicas [...] para os fazer executar os exercícios, [mas] a perspectiva era unicamente [...] de lhes facilitar a vida e de lhes dar receitas, [...] ao fim e ao cabo era dar-lhes receitas, e quando depois começo a ter a consciência de que de facto o que eles queriam era a receita, e o que eu estava a fazer era no fundo um caminho para que eles chegassem à receita, não é, e depois eles sabiam a receita e faziam os exercícios mas não eram capazes de resolver um problema, de mexer com as coisas, de ligar, de lerem um enunciado, [...] isto é uma segunda fase que eu tenho, [...] que me deixa muito insatisfeita, porquê, porque no fundo [...] eles não gostam de Matemática [mas] têm de saber Matemática [...] e agarram-se à receita e de facto eles não apreciam a Matemática como eu a aprecio, e então começei a fazer um balanço, o que é que eu gostava na Matemática, o que é que mexia comigo”. No modo “como resolvia os problemas [...] havia uma certa emoção”, “eu lia um problema, [...] sentia o desafio [...] e não saía dali enquanto não resolvesse, [...] emocionalmente eu estava envolvida naquele problema”; “e se eu fosse fazer um balanço dos alunos todos que eu tinha tido, [...] se eu conseguisse arranjar [...] vinte alunos [...] que vissem a Matemática de uma forma diferente e que se conseguissem emocionar com a própria Matemática, seria muito, e portanto [...] eu sentia que o aluno tem que ser desenvolvido em todas as suas áreas e sentia que a adesão a qualquer coisa, e hoje isso para mim é bastante claro, eu adiro a uma coisa que mexa com as minhas emoções, e de facto a Matemática é uma área que nós temos que saber mexer com as emoções dos alunos e eu não estava a conseguir isso através de todas as estratégias que eu arranjava para que eles ficasse a saber as receitas.

Comentários

A propósito das entrevistas que realizei ao José Tomás [testemunho «050»] e à Raquel [testemunho «060»] lembrei-me de quatro das dez conclusões da minha tese de mestrado, que também seria adequado lembrar a propósito desta entrevista com a Filomena.
No fundo, a tese também se baseava nestes meus colegas, pelo que foi natural que pelo menos uma parte das suas conclusões tivessem sido lembradas a propósito destas entrevistas.

Eis os títulos dessas quatro conclusões:

Os professores envolveram-se enquanto pessoas na profissão.

O envolvimento profissional dos professores apoiou o seu desenvolvimento pessoal.

Os espaços incorporaram a acção profissional dos professores.

As ferramentas inscreveram a acção profissional dos professores.

A releitura e resumo da entrevista à Filomena (agora feita, quase trinta anos depois!) lembrou-me, especialmente, duas outras das conclusões da minha tese. Transcrevo-as a seguir, na íntegra:

O aluno foi encarado sobretudo como pessoa envolvida num processo educativo.

Os professores preocuparam-se acima de tudo com a participação dos seus alunos enquanto pessoas, o que implicou referências à aceitação das suas culturas de pertença. Assim, e pelo menos na escolaridade obrigatória, a aprendizagem da Matemática surgiu para os docentes como parte de um processo educacional mais geral, do qual pode estar metodologicamente dependente. Como consequência, as teorias da aprendizagem foram encaradas pelos professores como menos relevantes do que as teorias da educação e a construção educacional foi feita sobretudo a partir do concreto e menos como dedução derivada de uma teoria. Esta centração no aluno surgiu como condição para a realização de mudanças tanto curriculares como não-curriculares.

A dinâmica cultural só se consolidou através da afirmação dos seus valores.

Nalguns casos, os professores expressaram a sua dinâmica cultural sobretudo através da acção e da interacção profissional. Quando assim foi, e de acordo com as anteriores proposições, os valores encontraram dificuldades quer no campo dos deveres (a responsabilização foi condicionada pelos limites externos à intervenção e a organização profissional pelo questionamento da predominância da horizontalidade das interacções), quer no campo dos direitos (a iniciativa não esteve sempre garantida na escola e só muito limitadamente foi apoiada pela afirmação do colectivo). Noutros casos, a dinâmica cultural dos professores baseou-se, também, na explicitação dos valores. Quando se afirmou a necessidade de partilha e a importância da iniciativa, tornou-se mais fácil aos professores anteciparem mudanças, sobretudo no momento em que o contexto lhes era favorável (caso de as suas ideias convergirem com as reformistas no plano educacional); nestas circunstâncias, a articulação entre a organização profissional e a assumpção da palavra foi suficiente para dar início à elaboração de estratégias de desenvolvimento profissional, individuais e colectivas, com efeitos nos espaços, nas ferramentas, nos saberes, nas identificações e nas oposições.


Fontes: Pedro Esteves / Arquivador digital Tese de mestrado (4EXPR 13) / Livro (Esteves, 1998; ponto VII.1.2.9) / Álbum de fotografias analógicas ESJA 4 (F102: 22 [fotografia recortada])

[062] Novembro de 1992, em Viseu: o meu primeiro ProfMAT

Memórias

Desde 1987 que a Associação de Professores de Matemática (APM) organiza um Encontro Anual de Professores (ProfMAT). O primeiro foi em Portalegre; os seguintes foram mudando de cidade, tendo, em 1992, sido em Viseu, na Escola Secundária Alves Martins.
Antes do ProfMAT propriamente dito, e para quem quisesse e pudesse ir mais cedo, havia dois dias (2ª e 3ª feira), destinados ou à frequência de Cursos de Formação, ou à participação no Seminário de Investigação em Educação e Matemática (SIEM). Depois vinham os três dias e meio do Encontro, com Sessões Plenárias, Sessões Temáticas, Grupos de Trabalho, Painéis, Comunicações Orais, Comunicações em Cartaz, Sessões Práticas, uma Feira de Ideias e Materiais, a Assembleia de Sócios da APM e, até, um dia de Abertura à População - foi esta a oferta em Viseu. Era um nunca mais acabar de oportunidades para troca de ideias e para pensar.
Eu nunca tinha ido a um ProfMAT, mas desta vez fui. E o motivo pelo qual fui deve ter estado associada a duas razões (já não me recordo do que me passou pela cabeça), por um lado a vontade de partilhar o que se fazia no Núcleo da APM em Almada e Seixal, por outro perceber qual o ambiente gerado a nível nacional pela chamada Reforma de Roberto Carneiro, chegada ao 3º Ciclo no início deste ano lectivo [ver testemunho anterior].

O ProfMAT decorreu de 4 a 7 de Novembro (4ª, 5ª e 6ª feira por inteiro, mais a manhã de Sábado) e esta foi a imagem de Viseu com que os organizadores nos foram convencendo, ao longo dos meses anteriores, a nos inscrevermos:



Como o Ministro da Educação, o António Couto dos Santos (19 de Março de 1992 a 7 de Dezembro de 1993), tinha autorizado a “dispensa de serviço” aos participantes, não me foi dilemático faltar às aulas durante três dias (não me inscrevi num Curso de Formação e ainda não me interessava pelos SIEMs).
Havia cerca de 1000 (!) inscritos, pelo que a organização tinha de estar permanentemente em todo o lado. E uma das formas de o conseguir foi através de um «Boletim Informativo» (cada dia tinha o seu), no qual havia lembretes, comunicados de alterações, etc., etc..

Tanto neste como nos seguintes ProfMATs em que participei tive intervenções a fazer, o que me deixou sempre afastado das tentações turísticas. Mas recordo-me bem de duas escapadelas em Viseu, a participação num corta-mato destinado aos inscrito (cheguei à meta num honroso penúltimo lugar) e, sobretudo, o jantar das gentes do Núcleo de Almada e Seixal que por lá se encontravam.

As equipas dos projectos AlterMATivas e MAT lab tínham preparado uma Sessão Prática, intitulada Laboratório de Matemática: das explorações às elaborações.
Não me recordo exactamente do momento em que nos surgiu a noção de «Laboratório de Matemática» (sei que foi num reunião, talvez do MATlab, e que foi o José Tomás a dizer que aquilo de que estávamos a falar se poderia chamar assim). Mas esta foi a primeira vez em que, fora de Almada e Seixal, nos decidimos a usá-la [no ProfMAT seguinte, nos Açores, a decisão foi conceptualizá-la].
As duas equipas prepararam, para os que iriam participar nesta Sessão Prática, três áreas de exploração, uma ligada aos «jogos de reflexão» (que são importantes para o raciocínio lógico e a demonstração), outra aos «fenómenos quotidianos» (desde que pudessem ser representados graficamente) e a última aos «modelos físicos para conceitos matemáticos» (os quais permitem aos alunos realizar pesquisas concretas antes de lhes serem desafiados a abstrai-las).Para nós, foi uma boa oportunidade para amadurecer o trabalho já feito - e para o divulgar.

Comentários

Em 1992-93, a reforma curricular foi generalizada aos 2º, 5º e 7º anos de escolaridade. Mas fazia parte de uma reforma mais geral, conhecida como Reforma de Roberto Carneiro, que tinha outras componentes. Uma delas foi a experimentação de um novo modelo de administração e gestão das escolas, que (felismente) não vingou. E outra foi a formação contínua de professores.
E foi precisamente durante este ProfMAT, em 9 de Novembro, que o «Diário da República» publicou o Decreto-Lei nº 249/92, onde se estabelecia o Regime Jurídico da Formação Contínua de Professores.
Num seminário promovido pelo Instituto Irene Lisboa, o investigador José Alberto Correia comentou assim este documento:

Por um lado, ele reconhecia um direito dos professores;
Mas, por outro, veio revelar “interesses” na utilização dos “fundos comunitários” que o iriam ajudar a ser implementado, razão pela qual só foi discutido depois de aprovado;

Apesar de se saber que é na formação de professores que se situa “o espaço de maior concentração ideológica dos sistemas educativos”, o próprio documento infomava ter sido uma “emanação do mundo académico”;

Politicamente, ele assentava nas “leis da economia de mercado” (oferta e procura, embora sujeita a alguma regulação);
Teoricamente, levantava questões sobre a relação entre a «formação» e a «identidade profissional», sobre o papel do «local de trabalho» na formação e sobre as reais «necessidades» de formação;
E, na prática, iria privilegiar a «reprodução e não a «produção», ao favorecer a formação «individual», «cumulativa» e, em muitos casos, «a partir de cima» (quer centralmente, quer regionalmente);

No entanto, para os professores cujas “práticas” eram uma “crítica em actos a estas concepções”, esta lei poderia proporcionar algum “espaço de legitimação e de desenvolvimento”.

 

Como eu tinha sido um dos estreantes nos ProfMATs, pediram-me um testemunho sobre como eu o vira, que seria publicado no »educação e Matemática», a revista da APM.
Levei bastante tempo a escrevê-lo, talvez porque os meus focos de atenção voltaram a ser os exigentes mundos da escola e do Núcleo da APM. Só o entreguei mesmo no último dia do prazo que me deram. E, ainda talvez, porque quis referir nele um pouco de tudo o que vira e sentira. Quem quiser pode lê-lo na página 3 do Nº 24 da revista. Eu, ao relê-lo, quase que voltei a sentir-me de novo neste meu primeiro ProfMAT, apesar de já não me lembrar bem de vários acontecimentos  que descrevi e das justificações para diversos comentários que fiz. Transcrevo, no entanto, o último parágrafo, que hoje considero ter sido um aviso certeiro para os problemas associativos e profissionais que se iriam avolumar nos anos seguintes:

O desequilíbrio associativo interno à APM, na qual já existe um grupo de trabalho de «investigadores», outro está a nascer para a «formação contínua« - mas não existe para os «inovadores», isto é, para aqueles que constituem a base de todo o sistema educativo.

Esta fotografia não é, associativamente, feliz:
evoca «todos a ouvir um»


Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico APM Um (Doc.s 1, 10 a 14) e APM Três (Doc 7) / Arquivadores com as revistas «Educação e Matemática» (revista Nº 24)

[060] Os primeiros anos da Raquel como professora

Memórias

Das três entrevistas que realizei, perto do final de 1995, para a minha tese de mestrado, a feita à Raquel foi a primeira (seguiram-se as entrevistas ao José Tomás [testemunho «050»] e à Filomena Teles).

A escolha da Matemática, a Faculdade e o Instituto Geográfico Cadastral

Quando a Raquel concluiu o antigo 5º ano de escolaridade (correspondente ao actual 9º ano) escolheu seguir Ciências. Depois, ao concluir o 7º ano (actual 11º ano), não tendo manifestado antes qualquer preferência por esta ou por aquela disciplina, mas por gostar de resolver equações disse para si mesma: “Bom! Então é Matemática!” E foi esta a escolha que fez para entrar no Ensino Superior.

Os primeiros anos não lhe correram muito bem, pelo que precisou de ir trabalhar, tendo entrado no Instituto Geográfico Cadastral como desenhadora cartográfica. “E então não tinha possibilidade de ir às aulas, não havia nessa altura - como há agora - ensino pós-laboral, [...] as aulas a que eu conseguia ir era pedindo ao chefe, mas [...] ele achava que os outros também podiam pedir para ir fazer não sei o quê e portanto aquilo era sempre uma grande confusão.” Mas, apesar destas limitações, ainda foi “fazendo umas cadeiras”, sem saber “muito bem como”.
Um dia, no início de 1972-73, uma sua conterrânea veio ter com ela e diz-lhe: “«Eh! pá, estou muito triste, o Manel quer que eu vá com ele para a guerra, para a África, mas eu tenho que deixar um substituto. Não me queres ir substituir?» [...] E portanto isto foi uma 6ª feira, nunca mais me esqueço, e na 2ª feira estava na Escola, porque ela foi lá e disse «tenho aqui uma pessoa» [para me substituir].”

A entrada naquela que seria a sua escola de sempre

A Escola era uma Secção Preparatória Industrial de uma outra, de Lisboa. A Raquel foi recebida pelo Director, que lhe pôs um “horário nas mãos”, para ensinar à noite, e lhe disse que tinha de “andar de bata”.

“Comecei a dar aulas um bocado loucamente, jovem e inconsciente, toda aquela gente era tudo mais velho do que eu, [...] naquela altura em que o ensino noturno era de facto para homens, para pessoas adultas, e não como é agora. Portanto a experiência foi muito engraçada porque acho que os alunos adoptam os professores, [...] nessa altura tinha quê? [...] vinte e poucos anos [...]. Portanto, eu comecei a dar aulas assim, sem saber nada, [...] sem haver reuniões de grupo, [...] sem conhecer livros, sem saber os programas, sem saber como funcionava a Escola, sem saber nada, à noite ...”

Como a Raquel preferiu não deixar o Instituto, “das nove às cinco trabalhava na Estrela, depois apanhava o eléctrico e vinha para Almada, de barco, até às onze da noite, às vezes mais!” Mas este esforço era compensado pela grande “cumplicidade” que havia entre os que trabalhavam como ela.

No ano seguinte, 1973-74, a Raquel, que gostara do seu primeiro ano com professora, deixou o Instituto. Estrando a leccionar à noite, ficou com tempo para, de dia, regressar às aulas na Faculdade.
Logo após o 25 de Abril uma Assembleia Geral de Escola, para substituir o Reitor, elege, “de braço no ar,” uma Comissão de Gestão, de que a Raquel fez parte. Era necessário fazer “tudo, desde arrumar cadeiras, varrer o chão, pintar paredes ... bom! apanha-se aquela [...] euforia de que é tudo nosso e que portanto temos que fazer tudo”. Assim, a Raquel teve de escolher, “e as aulas foram as preteridas de facto, porque aquilo não dava tempo de fazer tudo”.
Esta Comissão manteve-se até à eleição do primeiro Conselho Directivo, em 1976, altura em que a Raquel voltou a estudar, de dia, e a dar aulas, à noite.

E, ao concluir o bacharelato em Matemática, a Raquel optou pelo ramo educacional: ela sempre tinha gostado de vir a ensinar, “já tinha essa na cabeça, mas [...] depois de experimentar achei que [...] era aquilo!”

O estágio em Lisboa e as aulas em Almada

O ano em que a Raquel fez estágio foi o último em que este não era pago. E por não ser pago, a Raquel foi obrigada a continua a dar aulas em Almada, à noite, depois de estagiar, de dia, no Liceu D. Diniz, nos Olivais. E foi durante este ano que se travaram as lutas que levaram a que mudasse a situação dos estagiários nas escolas: “No ano a seguir as pessoas já foram pagas e já tiveram direito a estar num sítio só”.

“O estágio foi muito engraçado”, contou-me a Raquel. Havia, por um lado, o grupo das estagiárias, que ela já conhecia, e, por outro, um orientador de estágio “retrógrado ao máximo”.
O orientador não dava aulas, eram as estagiárias que, rotativamente, uma semana de cada vez, davam as aulas na turma do orientador: “Fizemos coisas engraçadas, [...] sobretudo com muita alegria e [...] o orientador nunca percebeu o que é que a gente estava a fazer”, ficando “um bocadinho perplexo”, pois era-lhe “impensável” fazer-se qualquer mudança, como os alunos trabalharem em grupo, ou uma aula ser dada simultaneamente por duas ou três professoras.
O que este grupo de estágio fez, comentou a Raquel, só foi possível por se estar “numa situação daquelas, numa situação de grupo”. E foi a partir desta experiência como grupo de estágio que ela se começou a interessar pelos jogos, pelos quebra-cabeças e pelos materiais manipuláveis no ensino da Matemática.

Eis um dos quebra-cabeças que a Raquel divulgou através do projecto MATlab:


Como o grupo de estágio da Raquel quis ajudar a acabar com os estágios feitos daquele modo, as estagiárias tiveram a ideia de gravar testemunhos sobre o que os alunos acharam de diferente “na maneira de dar as aulas e na maneira de abordar as coisas, na postura como as pessoas estavam na aula - porque aquilo já era depois do 25 de Abril”, e, apesar disso, o orientador “continuava de bata branca e impávido e sereno de gravata [...], de óculos, hirto, a dar aulas”.

Definitivamente em Almada

Terminado o estágio, a Raquel foi colocada como professora efectiva na sua escola de sempre, em Almada. Como um dos membros do Conselho Directivo saíu para se efectivar no Seixal, a Raquel reentrou na gestão, dando aulas de dia a uma única turma do 7º ano.

A nova experiência na gestão foi “má”, pois o Conselho Directivo era “muito conflituoso”, já havia “posições políticas” muito “demarcadas”, mas a experiência com a única turma foi muito forte, pela “afectividade” que foi possível desenvolver entre ela e os seus alunos.

Ao deixar este Conselho Directivo a Raquel começou “com aquela mania da Sala de Jogos." E ela não tinha “dúvida nenhuma”, na altura em que a entrevistei, acerca da importância que os espaços extracurriculares têm para os alunos. Para ela, “o espaço fora da aula é um espaço privilegiado para tudo”:

é impressionante “a relação diferente que há numa aula e num espaço fora da aula, com os mesmos alunos”. “Eu gostava de perceber o que é que se passa dentro de uma aula que faz com que duas pessoas, as mesmas, mudem de espaço e tenham uma atitude completamente diferente, não só em relação um ao outro mas em relação ao próprio trabalho.”
Até a postura física rígida da sala de aula se quebra, “não há problemas de comportamento”.

 Comentários

A propósito da entrevista que realizei ao José Tomás lembrei-me das duas primeiras conclusões da minha tese de mestrado. Também me poderia ter lembrado delas a propósito da entrevista com a Raquel:

Os professores envolveram-se enquanto pessoas na profissão
.

O envolvimento profissional dos professores apoiou o seu desenvolvimento pessoal.

No caso da Raquel lembro-me ainda de duas outras conclusões, uma relacionada com a sua «sala de jogos», a outra com os «jogos e quebra-cabeças» que ela divulgou.
Transcrevo-as por completo:

Os espaços incorporaram a acção profissional dos professores.

Toda a acção dos professores decorreu num espaço (a criação de um novo tipo de acção implicou a criação de um novo tipo de espaço) e interagiu com esse espaço (as mudanças no agir produziram mudanças na organização e por vezes na designação ou até na localização do espaço). Ao invés, cada espaço facilitou um tipo específico de acção profissional (a sala de aula pareceu induzir o método expositivo) e, ao extremo, aceitou apenas aqueles que promoveram esse tipo de acção (o associativismo local não foi favorável ao individualismo). A primeira característica revela como os espaços são sensíveis à acção (e portanto aos seus autores) e a segunda como eles influenciam a acção (embora não possam ser seus autores). Os espaços, por conseguinte, tanto são limitadamente moldáveis como passivamente conservadores.

As ferramentas inscreveram a acção profissional dos professores.

A construção de ferramentas educacionais foi a acção a que os professores atribuíram a principal prioridade. Sempre que se verificou, em paralelo, a construção de ferramentas organizacionais, as potencialidades das ferramentas educacionais (nomeadamente para mobilizar e articular saberes internos e externos) foram multiplicadas. Uma tendência notável desta associação foi a sua produção de efeitos sobre os espaços profissionais: nas escolas, através da constituição de um ambiente favorável à interligação de iniciativas dispersas e, no associativismo local, através do desenvolvimento de uma rede de apoios profissionais. Em ambos os casos, recuou a tradição de estabelecer externamente os objectivos de mudança e cresceu a categorização interna dos espaços, que passaram assim a constituir marcos para a identificação profissional (os projectos, a ludoteca, o laboratório, as realizações inter-escolas, o Núcleo associativo local, etc.). Contrariamente aos espaços, que operam através do implícito, as ferramentas favorecem a explicitação dos processos e a exploração das potencialidades.

Fontes: Pedro Esteves /Arquivador digital Tese de mestrado (4EXPR11) / Livro (Esteves, 1998; ponto VII.1.2.9) / (fotografia pessoal de um quebra-cabeças)

[050] Os primeiros anos do José Tomás como professor

Memórias

O José Tomás Gomes foi quem impulsionou a criação do Núcleo Regional da APM (Associação de Professores de Matemática) em Almada e Seixal [ver testemunho «040»].
Foi também ele que redigiu a primeira versão do projecto AlterMATivas [ver testemunho «045»].

Eis as duas páginas de uma das fichas do AlterMATivas produzida pelo José Tomás:



Quando eu quis estudar, através de uma tese de mestrado, estas e outras iniciativas dos professores de Matemática nesta região, um dos professores que entrevistei foi o Zé. A entrevista foi realizada no dia 16 de Novembro de 1995.
Segue-se um resumo do que o Zé me disse, organizado por épocas do percurso pessoal e profissional (as citações são do entrevistado; os destaques, a vermelho, são meus).

Os anos como professor em Tondela

O Zé começou por estudar em Tondela. Depois, terminado o Secundário, veio estudar Engenharia para o Instituto Superior Técnico, em Lisboa.
Em 1975-76, quando frequentava o 3º ano, já estava “farto do Técnico”. Inscreveu-se para diversos empregos e também concorreu para professor: foi colocado em Tondela para dar aulas de Educação Visual.
Tinha lá “um grupo de rapaziada conhecida”, todos com vinte e tal anos, e o momento político que se vivia levou-os a ligar-se à Comissões de Melhoramentos (“uma parte do concelho não tinha electricidade, não tinha água”) e a criar uma Associação Cultural, um Infantário, o Grupo de Teatro Trigo Limpo, Cursos de Alfabetização e um jornal regional. Eram actividades que utilizavam as instalações da escola, embora tivessem pouca ligação com ela.

Assim, “durante quatro anos toda a minha vivência da escola passa muito pelo exterior da escola”, o que se tornara possível por haver lá aquele grupo de professores “mais animados”, que fazia “esta transposição para o trabalho cá de fora". Na escola propriamente dita não fizeram um “grande investimento”, a prioridade era a “ligação à comunidade” e a “afirmação” contra o “caciquismo local”. Nesses anos o Zé aprendeu e descobriu “algumas das coisas” que “gostaria de fazer”.
Foi por esta altura, em que o Sottomayor Cardia era o Ministro da Educação, que surgiram as questões do “poder” e da “estruturação” das escolas, e, lembrou o Zé, “durante algum tempo até fui delegado sindical”, com envolvimento em “algumas das lutas, das greves”.

Surgiu então o “dilema” entre ficar na escola ou ir acabar Engenharia. Foi nessa altura que o Zé decidiu “ficar mesmo na escola”, mas ainda sem pensar em leccionar Matemática.
“Gostei muito de dar Educação Visual”, “era uma área giríssima de intervenção”, “com tudo aquilo que eu gosto na escola”, “os espaços exteriores de animação” e de “intervenção”, capazes de “surpreender os miúdos”, que chegam “com determinados valores culturais, [...] e a escola pode ser um momento de rasgo, um momento de os confrontar com novas experiências e novas vivências”. E a Educação Visual era para isso “um espaço excelente. Português também seria um espaço excelente”. E igualmente a História, não a curricular, “mas a percepção da História no seu todo”, com consequências “na história de cada um.

A conclusão do curso em Lisboa e o estágio no Barreiro

O curso onde as cadeiras de Engenharia seriam mais aproveitáveis era a Matemática. E assim o Zé regressou a Lisboa, onde, de 1979 a 1982, concluiu o Curso Geral de Matemática na Faculdade de Ciências de Lisboa, durante o dia, dando aulas de Matemática em diversas escolas, à noite.
Ao regressar à Faculdade depois dos anos de interrupção em Tondela, o Zé percebeu a “incongruência daquela instituição”. Nos anos anteriores tinha andado a “estudar a vida”, a ver e a “ouvir coisas, a investigar, a experimentar, [...] a reflectir”, e na Faculdade percebe “como aquele estudo é livresco”, embora, por vezes, tenha “pontos de reflexão interessantes e novas pistas, mas [...] afunila as coisas”. A Matemática leccionada era “extremamente formal”: uma vez entrou numa aula e sentiu que o que a professora dizia era como se estivesse “a falar chinês”. Por isso, chegou a pensar no regresso a casa – “«Estou tramado, nunca mais vou acabar»” o curso.
Teve de “marrar desgraçadamente” para acabar o Curso Geral: “foi um horror, foi uma coisa extremamente pesada”; mas, desde que conseguido, pensou ele, seria capaz de concluir qualquer outra coisa.

Ao começar a leccionar Matemática, por contraste com a Educação Visual, o Zé teve medo, pois se lembrava da Matemática “árida”, de que os miúdos “não gostam”, pelo que mudar para esta disciplina foi, nos primeiros anos, “um bocado chato”; e os modelos lectivos de que se socorreu foram “perfeitamente clássicos”, trazidos das escolas onde fora aluno.

No final do Curso Geral o Zé escolheu prosseguir pela via educacional. Quando a iniciou “entrei no céu. Era onde eu gostava de estar.”
Para ele, “A Matemática era perfeitamente secundária”, poderia ter sido Física, ou Ciências, o que ele queria era trabalhar com os alunos, “e não era tanto o espaço aula”, “eu vou para o Educacional pelo espaço fora da aula”.
Com alguns dos seus colegas, quase todos vindos das Engenharias, formou “um grupo de trabalho” que se mantém até ao estágio, que se orienta “para a intervenção no próprio Educacional.” Através de um inquérito, obtiveram dados que depois dirigiram para as várias cadeiras e para o lançamento de uma série de debates dedicados ao “ensino da Matemática na Faculdade”.

E é assim que o Zé se começa “a virar para a Matemática” e a sensibilizar-se para as questões da Metodologia do Ensino da Matemática, descobrindo a Emma Castelnuovo e o Sebastião e Silva e achando interessantes as propostas do Paulo Abrantes.
No entanto, o seu grupo de trabalho, dada a experiência que os seus membros já tinham das escolas, pois já lá leccionavam, chegou à conclusão de que aquilo que se discutia na Faculdade “não tinha nada a ver com os problemas concretos”, não “questionava” nem “desenhava possíveis saídas”, pelo que começaram a travar “batalhas interessantes” contra os professores “que vinham com modelos «os livros dizem assim»".

O estágio, correspondente ao 5º ano do Educacional, foi realizado no Barreiro, em 1983-84. O seu grupo “conseguiu conduzir o processo”, pois “os orientadores eram impostos pelo Ministério” e os futuros estagiários delinearam "os núcleos de estágio” e conseguiram “impor alguns orientadores”.
O ano de estágio foi mais um ano em que o Zé trabalhou em grupo, “um grupo muito giro”, instalado no Barreiro durante a semana, “aquilo era esgalhar e partir”; o orientador desempenhou um papel “fundamentalmente facilitador”, não interferiu “muito no nosso trabalho”, “deixou-nos andar”, respeitando “absolutamente” as “opções” do grupo, “e se aquilo tinha a ver com a Matemática, óptimo, se tinha a ver com o [quotidiano], também”.
Com base nesta sua experiência, o Zé proporia que a Formação Inicial de Professores fosse baseada nas vivências pessoais, revelando uma certa simpatia pelas potencialidades da modelo da «profissionalização em exercício», que ligava o Professor às várias dimensões da Escola.

Os anos no Magistério Primário e na ESE de Lisboa

Acabado o estágio o Zé foi destacado para a Escola do Magistério Primário de Lisboa, onde esteve em 1984-85. E no ano seguinte transita para a Escola Superior de Educação (ESE) de Lisboa, que veio substituir o Magistério; e onde acabara de entrar “um conjunto de malta nova”.
Sendo necessário refazer todos os programas, “aquilo é uma descoberta”, sempre “à procura de coisas novas”.
Uma experiência que marca especialmente o Zé é o “espaço comum, às Quartas-feiras, ao longo de todo o dia, onde professores e alunos se organizavam por grupos, cada um com o seu “projecto de trabalho” para o ano inteiro, sendo um dos papeis dos professores definir pequenas etapas para cada projecto; esta experiência, lembrou o Zé, iria ser mais tarde reinvestida na Área Escola.
O seu grupo de trabalho descobre a Escola da Torre, o Movimento da Escola Moderna (que se inspira no Papi) e, na Matemática, descobre os “materiais manipuláveis” como as barras Cuisenaire, os Geoplanos e os Blocos Lógicos.

“Para mim”, resumiu o Zé, “as grandes descobertas” dessa altura, além dos materiais manipuláveis, foram “as intersecções com as outras áreas disciplinares” (o que é “muito mais claro, e muito mais rico” no Primário, devido à “monodocência”) e os computadores (com as ideias do Seymour Papert).

Foi nesta fase que esteve ligado ao lançamento e à coordenação do Projecto Minerva; andou com os computadores TIMEX`s “às costas”, para fazer formação com eles; aprendeu o Logo, o processamento de texto e a utilização da folha de cálculo; e o grande desafio foi “a montagem dos Clubes, de experimentação, de encontrar aquele espaço na escola, encontrar aquele espaço na relação com os professores”, pois o corpo docente “é bestialmente resistente”.
Uma “discussão que houve muito acesa no Minerva”, lembrou o Zé, foi sobre se se “devia logo inflectir para a sala de aula” ou se se “tinha que manter os Clubes como uma fase de experimentação por professores e alunos e mais tarde passar para a aula.” Segundo ele, “nunca foi possível resolver este problema” e “os computadores nunca conseguiram sair muita da fase de Clube, de espaço exterior”.

Os anos iniciais como professor no Laranjeiro

Quando o Zé veio viver para a Margem Sul vinha a pensar nesta zona em termos de “comunidade”, como em Tondela, se haveria por lá, por exemplo, algum “clube”. Foi essa uma das motivações que o levou a impulsionar a criação do Núcleo Regional da APM.

E foi através do Núcleo, e das duas primeiras escolas onde leccionou (as actuais Escola Secundária Francisco Simões e Escola Secundária Rui Luís Gomes), que entrou em contacto com novos professores de Matemática.

Já havia sido na Escola Superior de Educação que o Zé começara a perceber “a importância da sala de aula”, mas é quando começa a trabalhar com estes professores que pela primeira vez o começa a aceitar “em termos de terreno”, pois havia “propostas” e “desafios” suficientemente estruturados para entrarem na serem usados, permitindo que se desse “essa descoberta”, do “descer ao espaço aula, ao gozo de trabalhar a Matemática”.
Por outro lado, em termos de «projectos», o Zé encontrou nos professores do Núcleo da APM os companheiros que lhe permitiram não os enfrentar “sozinho”, daí o seu envolvimento mo AlterMATivas, no MATlab e no InterMAT, que também foram apoios para outros empenhos nas suas escolas: os clubes de jogos e os laboratórios.

Foi sobretudo na segunda escola onde leccionou que o Zé teve outra experiência importante: “pela primeira vez tenho possibilidades de pensar um trabalho a médio prazo, de investir num trabalho a médio prazo”, de realizar “a inserção no mundo da escola”, e poder compará-lo com o que se passava noutras escolas inseridas nos projectos colectivos do Núcleo.
Na sua escola, o Zé vai-se inserindo no Projecto Minerva, cria um Clube de Jogos, depois avança para os projectos da «Sonora» e do «Multimédia», pretendendo com isso “criar um conjunto potente de possibilidades e de coisas potencializadoras para as actividades dos miúdos e depois de projectos, de sala de aula, fora da sala de aula, etc.”. Mas as “coisas não correram nada bem”, desabafou ele, “acho que me correu muito bem a parte do trabalho com os miúdos, as infra-estruturas ficaram montadas, mas depois falta a outra parte” – “como é que tu integras aquilo na vivência da Escola”, pois essa “é uma outra fase, é uma outra faceta dos projectos na escola”.
Em particular em relação ao Clube, onde 1992-93 foi um “primeiro ano riquíssimo”, “giríssimo, com montes de potencialidades”. Pensando que ele estava estabilizado, decidiu mobilizar os seus colegas de Matemática na direcção das mudanças curriculares, deixando-lhes o Clube à sua responsabilidade; e os colegas envolveram-se, retirando-se ele. “Infelizmente”, voltou o Zé a desabafar, eles “iam lá abrir o Clube, ver se chegavam miúdos, se não chegavam miúdos vinham-se embora ao fim de uma hora, fechavam”, “não conseguiram dar o salto”, pelo que durante dois anos o Clube foi uma “experiência para esquecer”.

Quanto à sua experiência inicial no Clube, onde trabalhou o Logo com os alunos, o Zé reparou que a “tentação dos miúdos ao programar é fazerem um jogo”, mas o Logo para isso “é muito pobre e pouco rápido”, frustrando-os; e ele acabou por não lhes encontrar “o desafio adequado”.

Foi ainda nesta escola que o Zé esteve envolvido na coordenação dos Directores de Turma e no apoio ao Conselho Directivo (para a elaboração dos horários e para o lançamento do projecto PEPT).

Comentários

Durante cerca de duas décadas, a seguir ao 25 de Abril, a enorme expansão do número de alunos a frequentar o sistema educativo levou à entrada neste de muitos jovens professores.
O José Tomás, bem como outros professores envolvidos no Núcleo da APM em Almada e Seixal, foram exemplos desse enriquecimento geracional da docência.
Para muitos destes novos professores, não tinha sido inicialmente evidente a profissão que acabaram por abraçar, o que lhes proporcionou anos de experimentação de outras inserções sociais, cuja experiência trouxeram depois para as escolas.

As duas primeiras conclusões da minha tese de mestrado basearam-se em testemunhos como aquele que o José Tomás me prestou (além de outras fontes, materiais, associadas aos professores envolvidos no Núcleo da APM).

Eis a transcrição dessas conclusões:

Os professores envolveram-se enquanto pessoas na profissão
.

O envolvimento pessoal do professor foi sobretudo claro no início de carreira, quando não existe ainda uma experiência profissional constituída. Então, a construção já realizada como pessoa foi um forte recurso na procura de soluções para a construção profissional a realizar na escola: o jovem professor mobilizou o que já sabia e preferia e interveio do modo como acreditou ser possível mobilizar os saberes e preferências de outros. Esse envolvimento da pessoa prosseguiu posteriormente, sob a aparência, no entanto, de envolvimento profissional, por se ter fundido com este: as diferenças entre os percursos dos docentes parecem reflectir mais as escolhas que estes fizeram do que as oportunidades de que dispuseram.

O envolvimento profissional dos professores apoiou o seu desenvolvimento pessoal.

A mais importante das consequências pessoais da acção profissional dos professores foi constituída pelo conjunto de transformações das suas capacidades, atitudes e conhecimentos. Se apenas alguns dos professores, como resultado das suas escolhas pessoais, desenvolveram as competências particulares exigidas por certos espaços ou ferramentas, todos, através da sua participação, puderam desenvolver as competências gerais necessárias para o envolvimento na concepção, na intervenção e na regulação exigida pelos processos colectivos. Os dilemas e incompletudes pessoais e profissionais verificados nestes processos indicam que eles são uma função do tempo e sugerem a existência de limites externos.


Fontes
: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Três (Doc. 34) / Arquivador digital Tese de mestrado (4EXPR12) / Livro (Esteves, 1998; ponto VII.1.2.9)