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119] O sistema educativo em 1998-99

Memórias

Marçal Grilo inicia o seu último ano lectivo à frente do Ministério da Educação.

E Maria do Céu Roldão, no âmbito das vastas movimentações que Marçal Grilo iniciara e que viriam a ser conhecido como «revisão e reorganização curriculares», escreveu um livrinho a que chamou «Gestão Curricular. Fundamentos e Práticas»:



Vou recordar o modo como vi este escrito, socorrendo-me de algo que escrevi um quarto de século mais tarde.
A meu ver, a autora, uma investigadora educacional, escreveu-o para afirmar três coisas.
A primeira, que os papéis actualmente desempenhados pelas escolas são: (a) a «passagem estruturada do quadro referencial da cultura dominante», (b) a «socialização conjunta dos indivíduos de todas as culturas», (c) o «apetrechamento com instrumentos cognitivos de análise, reflexão, pesquisa e produção de conhecimento» e (d) o «ensino explícito de estratégias organizativas do conhecimento e do discurso».
A segunda, que o modelo curricular e organizativo das escolas deveria ser mudado: ele era uma herança do tempo em que a educação estivera orientada «para o acesso de apenas um sector da população aos postos e funções sociais mais relevantes» e, apesar das inúmeras e valiosas «mudanças e melhorias» que o “esforço dos decisores e dos professores» tinham nele introduzido, o essencial não fora posto em causa, «como se acreditássemos que a escola que conhecemos tem de ser forçosamente assim» e este seja o seu «modo «natural» de ensinar (professor, compêndio, turmas …).»
E a terceira, que o modelo curricular que estava em preparação para o Ensino Básico não seria «uniforme», resultando da articulação de duas grandes influências: «o que é socialmente reconhecido como competência(s) indispensável(is) que o aluno deverá adquirir na escola» e a «concretização que cada escola faz desse core curriculum, concebendo-o como um projecto curricular seu, pensado para o seu contexto e para a aprendizagem dos seus alunos concretos, e incorporando adequadamente as dimensões locais e regionais.»

A “primeira impressão que a leitura deste texto me deu foi a de abarcar tudo, recorrendo a conceitos bastante gerais, integrando-os em fórmulas apelativas e, de forma imperceptivelmente imperativa, apresentando uma solução. Depois, à medida que o tempo passou, começaram a surgir-me as dúvidas. Umas sobre a coerência da argumentação; outras sobre a plausibilidade da solução.
O primeiro dos papéis atribuídos à escola, a «passagem estruturada do quadro referencial da cultura dominante», revelou-se ser uma boa primeira dúvida. A palavra passagem parecia ter sido colocada nesta frase para evitar uma outra, transmissão, muito apreciada pelos educadores com uma visão mais conservadora. Para estes, a escola é o local privilegiado onde a cultura é transmitida de geração em geração, enquanto para os que se lhes opõem a transmissão é um dos mecanismos que foram sendo instalados nas escolas para assegurar quem iria beneficiar de um futuro relevante. A solução para os próximos currículos que este livrinho preconizava teria, portanto, de prever formas de atenuar as concretizações mais estreitas dessa passagem.
As competências podiam ter sido pensadas com essa intenção. Elas descentravam a atenção do que era mais fácil de transmitir, os conteúdos, favorecendo que se trabalhasse com os alunos de um modo mais aberto, e portanto mais democrático. Mas a «passagem» a que as «competências» iriam estar submetidas não as fariam correr o risco de se constituírem como outros mecanismos de privilégio, mais modernos, ditados pelas actualizações da «cultura dominante»?
Uma outra forma de atenuar o estreitamento curricular era o papel de cada escola na «socialização conjunta dos indivíduos de todas as culturas», e o livrinho exprimiu-a de um modo particularmente feliz: o crescimento das diversidades tornara cada cidadão num «`mestiço`» cultural» e a escola era a instituição que podia «torná-lo `fluente` no entendimento das várias culturas e competente na articulação e uso das respectivas ferramentas.» Mas esta interessante antecipação do futuro pressupunha que se confiasse nas escolas, e não havia sinais da existência dessa confiança: as escolas eram descritas como incapazes de reconhecer os problemas que tinham herdado e, claro, de perspectivar «a sua resolução». E esta falta de confiança tornava ainda mais incompreensível que se propusesse às escolas visar, simultaneamente, a aquisição de competências (normalizadoras e convergentes) e as interacções culturais (omnipresentes, divergentes e permanentes). E também não se percebeu o que iria acontecer a cada uma destas intenções quando, em cada escola, estilos profissionais muito diferentes tivessem de decidir, em conjunto, sobre elas.


Comentários

Ao olhar de novo para o livrinho da Maria do Céu Roldão resumo assim as incongruências explícitas e implícitas que nele encontro, e que exprimem, muito para além de dificuldades teóricas da autora, as inconsistências práticas de um grupo de académicos reformistas:
* Estes, ao assumirem o papel de «orientadores» de novas mudanças no sistema educativo, em função da «sua própria opinião» (que tomavam por «científica»), não consideraram que o seu posicionamento sobranceiro os faria perder uma parte importante do apoio dos professores mais interessantes das escolas, ao mesmo tempo que não iriam ganhar qualquer apoio sincero por parte de todos os outros professores;
* Por outro lado, ao se associarem ao Ministério da Educação, não controlavam as decisões tomadas por este, tornando-se cúmplices das respectivas consequências; e o Estado acabara de legislar sobre uma nova organização das escolas (o Decreto-Lei nº 115-A/98 foi publicado em 4 de Maio) que, como se tem observado desde então, as tornou mais burocráticas e, por essa via, mais controláveis a partir de cima (uma das peças desse controlo iria em breve começar a intervir: a avaliação externa das escolas feita pela Inspecção Geral do Ensino; o Estado, com diversas conivências, havia começado aquilo a que se pode chamar um school building;
* Por fim, esse grupo de académicos isolou-se da corrente mais interessante dos investigadores educacionais, como se pode depreender do que José Alberto Correia escreveu num ensaio publicado sensivelmente na mesma ocasião em que tudo quanto se evocou acima ocorreu: nele fustiga repetidamente o «estadocentrismo» e a «ignorância em relação aos saberes profissionais», seriando depois as seguintes queixas: sobre os “militantes pedagógicos” que são “legitimados por diplomas académicos” e que “contam com o apoio financeiro do próprio Estado”; sobre a “«transmutação»” das “chamadas ciência da educação” em “Tecnologias de Acção ou da Reforma Educativa”; sobre a “ocultação” pelo Estado do seu “controlo sobre os professores” e das suas “opções políticas”; sobre os “interesses dos escribas em busca de uma notoriedade, mesmo que fugaz”; e sobre os envolvidos na “indústria do ensino”, “ocultado[s] pela pretensa seriedade da sua contribuição na promoção de uma imprensa pedagógica ou no apoio à divulgação de uma pretensa cientificidade.



Fontes: Wikipédia (para os ministros da Educação); e livros de Correia (1998; p. 137), de Roldão (1999) e de Esteves (2023)