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[066] Para além das escolas (um balanço pessoal - até 1992-93)

Memórias

Desde o meu primeiro ano como professor estive em contacto com o imenso mundo que se actua nos bastidores das escolas.

Em 1979-80, quando começara a leccionar no Liceu Nacional de Almada (actual Escola Secundária Fernão Mendes Pinto), participei, durante duas semanas, em São Pedro do Muel, num encontro de preparação do lançamento da Educação Recorrente em Portugal. Tinham-me proposto vir a ser um dos professores experimentadores, pelo que, ao longo dos três anos lectivos seguintes (1980-83), leccionei o 2º Ciclo a adultos na Empresa Pública das Águas de Lisboa (EPAL). E, paralelamente, estive fui mantendo o contacto com as estruturas que coordenavam esta experiência, tanto na Direcção-Geral da Educação de Adultos como na própria EPAL.

A posterior passagem pelos Cursos de Formação de Jovens na Siderurgia Nacional, em 1985-87, assemelhou-se, na forma de trabalhar, ao que se passara na EPAL [testemunhos «001» a «005», «007», «011» e «012»]; mas o contacto com a respectiva coordenação foi muito diferente, pois esteve a cargo de gente da empresa que vinha falar directamente com os professores e os alunos. Senti-me muito mais livre para trabalhar deste modo.

O meu gradual envolvimento na Associação de Professores de Matemática (APM) iniciou-se através da participação num ou dois encontros organizados pelo seu Núcleo de Lisboa, ainda antes de, em Almada e Seixal, se ter fundado o respectivo Núcleo [ver testemunho «040»].
Um dos resultados desse contacto surgiu pouco tempo depois (em 1989): o José Paulo Viana, a Odete Bernardes, a Paula Teixeira e eu publicámos, através da APM, um livrinho que intitulámos «mais JOGOS, mais ENIGMAS, mais PROBLEMAS».

Não me recordo das circunstâncias que levaram o José Paulo e eu a fazer parte da redacção da revista da APM, a Educação e Matemática. Era então coordenada pela Leonor Moreira, e dela também faziam parte o António Bernardes, o Eduardo Veloso, o Henrique Guimarães e o Paulo Abrantes.
Estive lá cerca de um ano, aproximadamente coincidente com o ano lectivo de 1989-90.
Foi durante esse tempo que o Henrique e eu escrevemos (para o Nº 24, publicado com a data de Março de 1990) um artigo intitulado: «Que papel para os manuais de Matemática? Uma sondagem junto dos autores.»

Em 1990-91 a minha escola, a Secundária do Seixal, achou que eu aí deveria vir a ser o coordenador do Projecto Vida, que estava a ser preparado, a nível nacional, pela Catalina Pestana. Tinha como finalidade a prevenção em relação as comportamentos de risco dos alunos, como o consumo de droga. O método usado para preparar os coordenadores escolares foi, mais uma vez, um «retiro», desta vez mais curto: três dias (19 a 21 de Março) no Vimeiro, para ouvir preleções sapientes.
Mas não gostei do que ouvi, pelo que, ao regressar, pedi à escola que me substituísse.

Em 1992-93, não me recordo novamente em que circunstâncias, fui desafiado a integrar um Grupo de Trabalho que tinha por objectivo criar o Centro de Formação da APM. Lembro-me de também lá estarem o Albano Silva, a Cristina Loureiro, a Graciosa Veloso e o Paulo Abrantes.
Depois de um processo que passou pela Direcção e pelo Conselho Nacional da associação, o Centro de Formação foi criado, no final do ano lectivo, tendo sido criada uma Comissão Pedagógica onde estavam os membros do Grupo de Trabalho mais a Helena Correia, a Margarida Goulão e a Maria José Oliveira.
Os sócios ficaram a saber da novidade através do boletim «APMinformação» (nº 16, Julho de 1993), onde, por um lado, se fazia uma queixa sobre a “relação estabelecida [na lei] entre formação contínua e progressão na carreira docente” e, por outro, se resumia a aposta feita pela APM como uma ”simbiose entre projectos e formação”.
E, de facto, o Plano de Formação anexo a este boletim reconhecia que “Praticamente toda a actividade da Associação, desde o seu nascimento, tem uma componente de formação (nalguns casos mais informal, noutros mais explícita e organizada)”, pelo que propunha que os seus objectivos fossem os da “formação centrada em projectos”, considerando que um “projecto” tanto seria o “contexto geral no qual se desenvolve uma grande variedade de processos e formas de trabalho” como “uma acção ou intervenção pedagógica, na sala de aula ou na escola, com objectivos definidos, que é planeada, desenvolvida e avaliada de modo cooperativo por um grupo de professores, e na qual eles se envolvem de uma forma interessada e empenhada”, ou seja, não se destina a formandos que sejam «consumidores passivos» nem «correias de transmissão».

A primeira página (de quatro) do Plano de Formação

Acabei por ficar dois anos (1993-95) na Comissão Pedagógica do Centro de Formação; mas, de novo, não gostei do rumo tomado, e decidi sair.

Talvez por estarmos envolvidos na criação do Centro de Formação, o Albano Silva e eu fomos desafiados a animar sessões práticas para os sócios do Núcleo de Coimbra da APM. Fizemo-lo no dia 29 de Março de 1993. Mas não apreciei muito o trabalho que preparei.

Um mês e meio mais tarde, em 15 e 16 de Maio de 1993, foi realizado o 4º Interescolas de Xadrez do Seixal, organizado pelos mesmos professores que já o haviam feito nas anteriores edições (o Emílio Quaresma, o Francisco Caetano e eu). Desta vez, por proposta da Câmara Municipal, a iniciativa foi integrada nas Xas Seixalíadas Escolares.
Individualmente, o vencedor foi o Ricardo Sousa (ES da Amora), tendo as melhores equipas sido, em sub 20, a ES da Amora; em sub 16, a ES Nº 1 do Seixal; e em sub 12, a EP de Corroios.
Esta iniciativa não voltaria a ser realizada, tendo sido substituída pelos Interescolas de Jogos de Reflexão de Almada e Seixal [testemunho «065»].
Breve balanço destes quatro interescolas:



Comentários

Há várias razões para as escolas precisarem de parceiros educativos a actuar nos seus bastidores: eles organizam, coordenam, apoiam, investigam, constroem, divulgam, etc., etc.. No entanto, também é nos bastidores da Educação que se concentra o poder de decidir, o que os torna espaços particularmente problemáticos.

As minhas passagens por estes espaços, tal como pelos órgãos de administração e gestão da Escola Nº 1 do Seixal (actual José Afonso) foram, por isso, sempre conflituosas. Aprendi aí o que só passando por lá se pode aprender. Mas também discordei, frequentemente, do modo como aí se actuava, em particular devido ao autoconvencimento e aos jogos de poder.


Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico APM Três (Doc. 123) / Arquivador analógico ESJA Cinco (Doc.s 122 e 132)

[058] Projectos ligados à Matemática nas escolas de Almada e Seixal (balanço em 1991-92)

Memórias

O grupo de professores estudado na minha tese de mestrado tinha como um dos seus contextos de acção as escolas dos concelhos de Almada e Seixal. Por isso procedi, entre outras recolhas, ao levantamento dos projectos ligados ao ensino e aprendizagem da Matemática (a disciplina em causa) que aí estavam em curso.
As iniciativas que identifiquei estão a seguir ordenadas alfabeticamente por escolas (e, dentro destas, por ano lectivo).


Escola Preparatória da Amora (actual Escola Básica Pedro Eanes Lobato)

1991-92

A Celeste Ganço e a Maria José Marques criam, na Biblioteca da escola, um espaço tipo Ludoteca, onde os alunos dispõem de jogos e de desafios.


Escola Preparatória de Corroios
(actual Escola Básica de Corroios)

1991-92

É criado um Clube de Jogos Matemáticos, “numa perspectiva do complemento curricular e a título experimental”. Funciona com o apoio de sete professores, que garantem uma hora semanal para cada um dos 5 grupos de alunos do 6º ano inscritos; os alunos preferem utilizar os “materiais manuseáveis” (quebra-cabeças com fósforos, Tangram) aos passatempos com “o lápis e o papel”. Foram organizados campeonatos de jogos de reflexão. E o Clube editou, com o apoio da Associação de Pais, uma colecção de cartas com «Quebra-cabeças com Fósforos», que pensam vender como forma de auto-financiamento.

As regras, o primeiro e o último quebra-cabeças desta colecção

Segundo uma das professoras, a Fernanda Coelho, “Acreditamos que os passatempos, problemas e quebra-cabeças seleccionados são motivantes para os alunos e lhes permitem desenvolver capacidades contempladas nos currículos de Matemática, embora por caminhos diferentes”; para a Escola, “esta experiência poderá vir a ter reflexos na própria área curricular, não só pela relação criada com os alunos como pelo aproveitamento de estratégias e materiais utilizados no clube”; “A natureza e a classificação dos jogos, a sua relação com a Matemática, o interesse da sua integração nas aulas, a comunicação de estratégias e de soluções, são algumas questões que se levantaram ao longo deste trabalho”, sendo também de destacar o “interesse que os jogos podem suscitar em professores de outras disciplinas ...”


Escola Preparatória da Cova da Piedade
(actual Escola Básica Comandante Conceição e Silva)

1991-92

Por decisão dos professores de Matemática é criada uma Janela da Matemática, com os objectivos de motivar os alunos para a Matemática, sob aspectos diferentes do habitual, e de a mostrar à Escola. O recurso a um expositor resultou de não haver na escola “condições físicas e humanas” para “assegurar o funcionamento de uma sala” para actividades extracurriculares; o conteúdo afixado no expositor é renovado de mês a mês e inclui “Matemáticos portugueses célebres, História do mês, Curiosidades e Problemas”; os alunos também participam, “inclusivamente recolhendo e levando para a Escola problemas”, bem como os professores de Educação Visual e de Trabalhos Manuais.

No Nº 1 do «Boletim Informativo» do Núcleo Regional da APM
esta «Janela» aparece desenhada assim (já que não havia uma fotografia)


A Teresa Nascimento, uma das promotoras desta «Janela», foi uma das autoras do MATlab interescolas.


Escola Preparatória Elias Garcia (actual Escola Básica Elias Garcia)

1991-92

É criado um expositor e organizado um armário com materiais dedicados à Matemática.


Escola Primária Nº 2 do Laranjeiro (actual Escola Básica Nº 2 do Laranjeiro)

1988-92

Integrada numa larga rede de Escolas Primárias, cada uma com um ou dois Professores, a Nº 2 do Laranjeiro está envolvida no projecto Ensinar a Investigar.
Os seus principais dinamizadores utilizam o método global / natural (oposto ao mais comum analítico / sintético) e têm apoio do Ministério da Educação (os novos currículos do 1º Ciclo, acabados de ser generalizados ao 1º ano de escolaridade, inspiraram-se nesta experiência).


Escola Secundária Anselmo de Andrade

1990-91

A professora Ana Paula Natal faz uma experiência de produção de materiais para o ensino e aprendizagem da Geometria do 7º ano, e de utilização nas suas aulas, designando-a por Materiais na Geometria do 7º ano.

O projecto Novas Tecnologias no Ensino da Matemática, da responsabilidade do Sérgio Valente, foi implementado a “dois níveis: a) com os alunos (utilização do computador na sala de aula e em propostas de trabalho de grupo); b) concepção, em colaboração com o Pólo do Projecto Minerva da Faculdade de Ciências e Tecnologia, de software específico para esta disciplina”.
São usados os programas Microcalc e Logo, em turmas normais do 11º ano, com 30 Alunos e metodologia de trabalho de grupo. No debate que se seguiu à apresentação deste trabalho no 1º Encontro de Professores de Matemática, organizado pelo Núcleo A. P. M. de Almada e Seixal, o Sérgio disse que “depois do trabalho no computador fazia sempre o feed-back e que este ano houve pessoas que pegaram nas fichas deles e as reformularam o que acha positivo”; depois, lançou a questão sobre se é preferível utilizar apenas um computador na sala de aula, com o Professor centrando em si a discussão, mais ou menos aberta, ou se seria melhor, havendo mais do que um computador na Sala, deixar os Alunos experimentarem os programas.

O projecto A viagem num mundo em transformação (de Eratóstenes a Pedro Nunes), das estagiárias Cristina Neto, Joana Guerreiro e Patrícia Cascais, apoiadas pela sua orientadora, a Filomena Teles, desenvolveu-se com os alunos do 8º ano, fora do espaço aula, não tendo havido preocupação com os conteúdos programáticos, apenas com as “noções” necessárias para a realização do trabalho (“ângulos, triângulos, polígonos, quadriláteros, proporções, semelhança de triângulos, Teorema de Thales”). No debate que se seguiu à apresentação deste trabalho no 1º Encontro de Professores de Matemática organizado pelo Núcleo A. P. M. de Almada e Seixal, a Patrícia reconheceu que “foi complicado e levou muito tempo, fins de semana, noites, etc.”, apesar de, como estagiárias, terem trabalhado “em condições especiais”, “em grupo, com menos turmas”.

É criado o Clube da Matemática, no qual colaboram a Ana Paula Natal e a Lídia Lourenço, tendo cada uma 2 horas semanais extra correspondente a horário lectivo. “Nesse espaço são construídos materiais de suporte a jogos e puzzles.” Um das horas da Lídia “é dedicada à resolução de problemas.” Uma das suas alunas, que frequentava este Clube, a Joana, ganhou as Olimpíadas de Matemática, por “mérito da aluna”, mas tendo o Clube “uma importância enorme na motivação e desenvolvimento do raciocínio matemático na resolução de problemas.”

1991-92

É realizada, com “resultados animadores”, Uma experiência interdisciplinar (Física-Matemática), “com alunos” de uma turma do 12º ano comum à Luísa Lopes e ao Sérgio Valente.
No 2º Encontro de Professores de Matemática organizado pelo Núcleo da A. P. M. de Almada e Seixal os autores afirmaram: “Pensamos que se deve dar aos alunos pelo menos uma oportunidade de contactarem com uma situação deste género. Para além do carácter interdisciplinar da experiência, é uma visão da matemática e da ciência em geral que está em jogo.”

É aberta uma Sala, designada Projecto MATlab, a utilizar “livremente pelos alunos”, para “a realização de actividades e para a exploração de desafios de carácter matemático (em sentido amplo)”. Começou a ser apetrechada com materiais, com o apoio financeiro do MATlab inter-escolas, de que a sua coordenadora, a Filomena Teles, é uma das autoras.
É aí realizada uma final interna das Olimpíadas da Matemática.


Escola Secundária da Cova da Piedade (actual Escola Secundária António Gedeão)

Antes de 1991-92

O grupo de Matemática organiza Concursos Inter-turmas, com questões de cultura geral e, também, de Matemática.

1991-92

Ao comemorar o “Dia da Matemática” no dia 9 de Abril, o Cantinho da Matemática foi inaugurado numa sala que, no ano seguinte, viria a ser reservada para este projecto. Nela se disponbilizavam jogos (alguém afirmou que esta Sala «até parece um casino») e materiais ligados à Matemática.
Os autores deste projecto começam a participar nas reuniões do MATlab interescolas (oficiosamente, pois não tinham sido dele autores).


Escola Secundária Emídio Navarro

Desde 1983 (ou 1985) até 1991-92

A Rita Vieira criou a Sala de Tempos Livres. Esta sala teve o apoio de uma funcionária e ajudou a completar o horário a professores de outras disciplinas, ao abrigo do artigo 20.
A Rita não se lembra de ter aberto esta Sala com intenção de a ligar às aulas, pretendendo, possivelmente e apenas, ocupar os miúdos, dar-lhes algo interessante para fazer; essencialmente, tratava-se de uma Ludoteca, que apoiou “O Problema da Semana”, o “Dia da Matemática”, a intervenção da Matemática na “Semana da Escola”; e que, durante alguns anos, albergou os TIMEX´s para uso dos alunos, e também uma mini-Biblioteca e o Clube de Filatelia, mantendo ligações transversais, através da sua coordenadora, ao Projecto Minerva, ao concurso “Problemas Via Telemática” e ao Laboratório de Meteorologia da Escola; foi ainda base de apoio para intervenções de divulgação noutras Escolas.
A Rita Vieira foi uma das autoras do MATlab interescolas.

1988-89

O Projecto GEODA foi uma experiência de ensino da Geometria em turmas do 7º ano, que envolveu o Ludgero Leote e a Rita Vieira, que utilizou o programa “Autosketch” e que esteve ligada ao Projecto Minerva, sendo inspiração para os projectos posteriores ligados ao Núcleo A. P. M. em Almada e Seixal.


Escola Secundária Nº 1 de Corroios (actual Escola Secundária João de Barros)

1991-92

Em 1990-91, numa reunião dos professores de Matemática destinada a analisar o insucesso escolar na sua disciplina, foi considerado que as “causas” deste se encontravam no «mito» associado à Matemática, nas reprovações consecutivas, no excessivo número de alunos por turma, na heterogeneidade de conhecimentos presente na mesma turma, na falta de hábitos de trabalho, na inadaptação dos programas, no não cumprimento destes nos anos anteriores, na falta de tempo para os professores trabalharem em conjunto e na indisciplina dos alunos.
Como consequência, no fim desse ano lectivo a Doroteia Costa e a Mirita Sousa redigem o Projecto da Matemática da Escola Secundária Nº1 de Corroios, pensado para três anos, ao longo do 3º Ciclo de escolaridade, para que os alunos desmotivados em relação à Matemática (nomeadamente por terem repetências sucessivas nesta disciplina) desenvolvam as suas capacidades e atitudes (construindo o “seu próprio saber”, com o seu “ritmo pessoal” e ganhando “maior confiança em si próprios”). Propõem que se utilize o trabalho de pesquisa, de grupo e de projecto, as visitas de estudo e a exposições, a comunicação oral, os jogos educativos, os materiais manipuláveis, as máquinas de calcular e os computadores.
E propõem a separação dos “alunos com sucesso em Matemática” dos “alunos desde sempre desmotivados na Matemática (com repetências sucessivas na disciplina)”, para se concentrarem nestes últimos, de acordo com “um programa no sentido do desenvolvimento das suas capacidades e atitudes”, de modo a eles construam o “seu próprio saber”, ao seu “ritmo pessoal” e ganhando “maior confiança em si próprios”.
No balanço feito no fim do primeiro deste projecto, durante o 2º Encontro de Professores de Matemática organizado pelo Núcleo da A. P. M. de Almada e Seixal, as autoras referem que os alunos com menor dificuldade nesta disciplina trabalharam com o “currículo normal” e “um pouco ao nível da investigação, circunscrita aos temas História da Matemática, Geometria e Pavimentações, enquanto que os alunos com mais dificuldades puderam, frequentemente, “escolher o tema e o material para trabalharem”, usaram, “exaustivamente […] os computadores e os materiais manipuláveis”, foram particularmente acompanhados no que respeita à “organização dos cadernos diários”, tendo sido todos classificados com o nível “3”, apenas com diferenças qualitativas expressas numa “grelha de observação”.

Já tinha havido nesta escola o Clube de Matemática, mais tarde transformado em Clube de Ciência, que a seguir se dividiu de tal modo que os Professores de Matemática ficaram sozinhos, com a “sala de jogos”. A dada altura de 1991-92 esses professores começaram a participar oficiosamente nas reuniões do MATlab interescolas.


Escola Secundária Nº 1 do Laranjeiro (actual Escola Secundária Rui Luís Gomes)

1989-90

O
José Tomás (quando estava na Nº 2 do Laranjeiro) e a Palmira Barroso implementam uma experiência pedagógica no 7º ano, que designam por Geoplano. Constroem geoplanos, com a colaboração dos alunos, e produzem uma planificação geral e 14 fichas de trabalho.

Este foi um dos projectos que inspirou o AlterMATivas interescolas.

1990-91

A partir de uma preocupação comum de professores de Matemática, Português e Francês, a “necessidade de em determinados momentos da aprendizagem agrupar os alunos e envolvê-los em actividades diversificadas de modo a possibilitar-lhes um acompanhamento mais individualizado, consoante as dificuldades e respeitando os seus ritmos de trabalho”, é implementado o Projecto «Mais uma Proposta para o Sucesso» em 3 turmas do 7º ano com horários coincidentes naquelas disciplinas, permitindo a “rotatividade dos alunos ao longo do ano”.
Na opinião de 6 dos Professores envolvidos, apresentada no 1º Encontro de Professores de Matemática organizado pelo Núcleo da A. P. M. de Almada e Seixal, “Foi uma aposta contra o cepticismo reinante”, pois “é necessário inventar, recriar sempre algo de diferente para os nossos alunos”.

1991-92

É realizado um “projecto” intitulado Descobrir a Geometria com o CABRI-Géomètre, tendo como “dinamizadoras” a Ana Teresa Mateus e a Palmira Barroso, com o apoio da Margarida Junqueira, sendo concretizado com uma turma do 9º ano, da Ana Teresa, dividida em duas metades de 12 alunos, que alternam na utilização do programa CABRI e na resolução de outros problemas sobre o mesmo tema, com materiais tradicionais.

É inaugurado o Clube de Jogos, um espaço destinado a funcionar como sala de jogos, estando envolvidos nele 4 professores, um deles com 2 horas de redução de serviço lectivo para a dinamizar; alguns alunos ajudam no arranjo da sala e no arranque das actividades.
O José Tomás, coordenador deste espaço, e a Palmira Barroso foram dois dos autores do MATlab interescolas.


Escola Secundária Nº 2 do Laranjeiro (actual Escola Secundária Francisco Simões)

1991-92

Os professores de Matemática organizaram, durante a Semana da Escola (1 a 5 de Junho), uma sala onde os alunos puderam “«jogar», «pensar» e divertir-se com jogos, problemas, puzzles e labirintos”.


Escola Secundária Nº 1 do Seixal (actual Escola Secundária José Afonso)

1988-92

Em 1991-92 a Sala de Dinamização Cultural foi equipada pelo Pedro Esteves com jogos de reflexão, puzzles e desafios matemáticos; a primeira actividade pública, durante a recepção aos novos alunos da Escola, é uma exposição intitulada “A Outra Face da Matemática”; é comemorado o Dia Mundial do Xadrez, em 19 de Novembro (o que se repetirá nos anos seguintes), e realizado o 1º Campeonato de Xadrez da Escola; neste ano o Xadrez está associado ao Núcleo do Desporto Escolar e a escola é a principal organizadora e sede de realização do 1º Torneio de Xadrez Interescolas do Concelho do Seixal. Com uma funcionária própria, esta sala também teve, durante o 2º e o 3º períodos, a colaboração de mais dois professores de Matemática e, para a fabricação de vários jogos e quebra-cabeças, a de diversos alunos.
Em 1990-91 esta sala, além de ser uma Ludoteca, começa a integrar actividades de Laboratório de Matemática; é nela iniciada a produção sistemática de materiais de apoio (jogos, puzzles, problemas, labirintos, desafios matemáticos, ...) e a edição de um boletim informativo; e estabelece-se uma ligação ao Projecto Viva a Escola, e, em 1991-92, ao MATlab interescolas (de que o Pedro Esteves foi um dos autores) e ao Clube Recreativo e Desportivo das Cavaquinhas.

1989-90

Realizada uma experiência pedagógica, pelo Pedro Esteves, intitulada Projecto AlterMATivas (outro dos projectos que inspirou o AlterMATivas interescolas). Prevista inicialmente para 4 anos (primeiro ano, turmas do 7º ano deste professor; segundo ano, turmas do 8º e 10º; terceiro ano, turmas do 9º e 11º; quarto ano, turmas do 12º), o plano foi alterado com a integração no projecto comum com as outras escolas.
Tinha como “objectivos: inovação de metodologias, produção de materiais, animação do colectivo de professores de Matemática da Escola, divulgação para o exterior, reflexão, eventualmente investigação“; foram produzidas algumas fichas de trabalho para utilização pelos alunos das turmas do 7º ano.


Comentários

Todos os projectos destinados a fomentar actividades extracurriculares que foram acima descritos envolveram-se no Projecto MATlab (interescolas), ou oficialmente (através dos autores deste), ou oficiosamente (participando, a partir de dada altura, nas reuniões, que para o permitirem se tornaram abertas). O mesmo já não sucedeu com o Projecto AlterMATivas, que se manteve em exclusivo nas mãos dos seus autores, embora tenha sido pródigo em deixar pistas para que outros professores o pudessem diversificar.

No quadro seguinte, que agrupa esses projectos, se são patentes pequenas iniciativas pioneiras, é sobretudo evidente a explosão de iniciativas que se verificou após 1989-90, ano em que foi fundado o Núcleo da A. P. M. em Almada e Seixal. Terá pois sido o associativismo o factor decisivo na enorme expansão dos projectos relacionados com a Matemática nas escolas desta região:



Fontes: Pedro Esteves / Arquivador digital Tese de Mestrado (Doc. T005) / Caixa com materiais do Núcleo (QUEBRA-CABEÇAS COM FÓSFOROS)

[040] Novidades no associativismo docente em Almada e Seixal

Memórias

Já não me recordo do ano em que me fiz sócio da Associação de Professores de Matemática (adiante refiro-a como APM). De início, limitei-me a adquirir algumas das publicações da minha nova associação; mas, em meados de 1988-89, recebi um folheto anunciando a realização de quatro sessões, a organizar pelo Núcleo Regional de Lisboa da APM:



Tratava-se de um folheto, dobrado em quatro partes, como se depreende da observação das dobras nas imagens da sua «frente» e do seu «verso». Nele estavam escritas três frases que me decidiram a participar (não me lembro se foi numa ou se foi em duas das sessões): «mudança da escola», «renovação do currículo em acção» e «encontros para intercâmbio e ideias».
Lembro-me de aí ter conhecido a Rita Vieira e a Paula Teixeira, uma leccionando em Almada, a outra na Amadora. Pouco depois, com elas e com o José Paulo Viana, que tinha sido meu colega no Pragal (quando me iniciei como professor, em 1979-80), escrevemos um livrinho de problemas que a APM pôs à venda.

Depois, no início de 1989-90, a dinâmica deste associativismo trouxe-me outra surpresa: havia, em Almada e Seixal, professores de Matemática interessados em criar aí um Núcleo Regional da APM!
A iniciativa foi do José Tomás, que argumentou assim:


Depois de uma reunião inicial, os professores que nela apareceram não perderam tempo.
Durante o ano lectivo, o José Tomás e a Palmira Barroso, na Escola Secundária Nº 1 do Laranjeiro (actual Rui Luís Gomes), exploraram o ensino da Geometria no 7º ano; e o Sérgio Valente, na Escola Secundária Anselmo de Andrade, explorou a utilização didáctica dos Computadores.
Adicionalmente, alguns professores decidiram organizar uma final regional das Pré-Olimpíadas de Matemática. Habitualmente, estas eram destinadas aos alunos mais jovens, enquanto as Olimpíadas eram destinadas aos alunos entre o 8º e o 12º ano, sendo umas e outras organizadas pela Sociedade Portuguesa de Matemática. No entanto, apenas as segundas, depois de uma fase inicial, em cada escola, dispunham de uma continuação regional e de uma final nacional. Portanto, a ideia destes professores foi proporcionar uma «final regional» aos alunos mais jovens de Almada e Seixal. Na reunião de preparação, em 29 de Março, estiveram presentes o Adelino Santos (E. S. da Sobreda), a Ângela Queiroz (E.S. Anselmo de Andrade), a Ana Baltazar (E. S. Nº 1 do Laranjeiro) a Ana Paula Machado (E. S. da Cova da Piedade), o Carlos Fonseca (E. B. do Feijó), a Isabel Amaro (E. S. Fernão Mendes Pinto) o Pedro Esteves (E. S. Nº 1 do Seixal) e a Rita Vieira (E. S. Emídio Navarro). A final aconteceu no dia 9 de Maio e os alunos tiveram pela frente os seguintes problemas (penso que foram a Filomena Teles, o Sérgio Valente e eu que os formulámos):


Houve entrega de prémios (em 19 de Maio) e agradecimentos aos apoios dados por um dos municípios.

Para terminar este primeiro ano do Núcleo Regional, ainda foi organizada, desta vez para professores, uma Oficina de Materiais: decorreu num Sábado de manhã (26 de Maio), tendo sido anunciada através deste folheto (frente e verso; para dobrar em dois):




Comentários


O associativismo docente junta professores de diversas escolas e de diversas regiões, proporcionando-lhes dinâmicas de colaboração e de partilha que não são fáceis de encontrar no espaço fechado de cada escola.

Fontes:

Pedro Esteves / Arquivador analógico Núcleo APM Um (Doc. 1) / Arquivador analógico APM Um (Doc. 1) / Arquivador digital Tese de Mestrado (4EXPR61)

Núcleo / Arquivador analógico Encontros Um

[030] Terá 1988-89 sido um ano lectivo de «transição» na Escola Secundária do Seixal?

Memórias

No final de 1987-88, precisamente no dia 8 de Junho, o Conselho Pedagógico da Escola Secundária do Seixal aprovou um conjunto de recomendações a ter em conta no Plano de Actividades de 1988-89. O documento que as propunha foi redigido pelo João Louro, que estava a concluir o seu mandato como presidente do Conselho Directivo e do Conselho Pedagógico, e era apoiado por alguns documentos anexos.
O que os membros do Conselho Pedagógico tiveram nas suas mãos tinha a rara virtude de descrever o «presente», tendo em conta o «passado» e olhando para o «futuro».

Os dois parágrafos iniciais da “Caracterização da Escola” descreviam-na assim:
“Localizada à entrada da Vila do Seixal, em zona semi-Urbana, onde se mistura a proximidade dum espaço dormitório (Torre da Marinha) com a gigantesca presença Industrial da Siderurgia (Paio Pires), a difusa permanência do meio rural e a crescente teia dos serviços, a Escola Secundária do Seixal é parte de um mundo cultural em mudança e assume-se, junto com múltiplas colectividades e o município, como um dos seus agentes e centros de reflexão.
Tradicionalmente Escola Comercial e Industrial, ampliou recentemente o seu domínio às áreas humanistas. Aqui se lecciona o 3º ciclo do ensino básico, o secundário, os cursos nocturnos (geral e complementar) e ainda o profissional (secretariado e metalomecânica) e o técnico-profissional (manutenção mecânica). Frequentam-na 2700 alunos e possui um corpo docente de 170 professores.”

As recomendações aprovadas incluíam um “Projecto Pedagógico”, um “Projecto Direcção de Turma”, um “Projecto Cultural”, um “Projecto Formação Contínua e Projecto Investigação”, um “Projecto Informação” e um “Projecto de Recursos e Infraestruturas”. E propunham um “Tema Anual”, sendo dada como exemplo para ele esta questão: “a defesa dos patrimónios diversos e o avanço das novas tecnologias são compatíveis ou incompatíveis?”

Esta dialéctica entre a «continuidade» e a «mudança» estava também presente no “Projecto Cultural”. Entre as suas seis linhas de trabalho encontravam-se estas três:
“manutenção das festas tradicionais realizadas na Escola”;
“criação de espaços (físicos e temporais) a atribuição de animadores (professores ou não) para todas as iniciativas estruturadas em «grupo», ou «clube», ou «associação»”;
“criação de uma coordenação eficaz deste conjunto de actividades (é impossível fazê-lo exclusivamente a partir do Conselho Directivo ou do Conselho Pedagógico).”
E entre as origens para as “tendências renovadoras” que se estavam a revelar na Escola destacou-se a animação trazida pela “formação em serviço”, que então prolongava a que acontecera nos “tempos da profissionalização em exercício” e que fora “consubstanciada nas iniciativas culturais e desportivas da Associação «Nova Maré», símbolo da nossa história mais próxima.”

Como materialização desta dinâmica são referidos oito grupos / clubes / núcleos, quatro já activos em 1987-88 (a Associação «Nova Maré»; o Clube de Ciências Sociais; o Grupo de Teatro «Os Arlequins»; e o Núcleo de Fotografia) e outros quatro preparados para iniciar actividades em 1988-89 (o Cine Vídeo Clube, o Clube Galileu de Ciência; o Clube de Informática, Electrónica e Novas Tecnologias; e o Núcleo Cristão).
E, acrescentava-se, “A interacção directa entre as actividades curriculares e as extracurriculares pode esquematizar-se através do seguinte quadro” (em cima estão identificados os grupos curriculares, segundo o código daquela altura):

Comentários

As citações feitas acima têm origem nas recomendações aprovadas pelo Conselho Pedagógico e num dos seus anexos (“Caracterização da Escola e do seu Projecto Cultural”).

A Escola Cultural, que tinha como objectivo promover as actividades extracurriculares nas escolas, foi idealizada por Manuel Ferreira Patrício, da Universidade de Évora, e assumida pelo Ministério da Educação, tendo sido experimentada em diversas escolas ao longo de três anos lectivos, 1987-90. Para a integrar, e assim obter os respectivos apoios, era necessário elaborar uma candidatura de que fazia parte o Projecto Educativo de Escola.
A Escola Secundária do Seixal candidatou-se uma vez à Escola Cultural, tendo as recomendações aprovadas no Conselho Pedagógica tido a ver com essa candidatura.

O facto de esta candidatura não ter sido aprovada pela Escola Cultural levou ao arquivamento do Projecto Educativo que tinha sido elaborado.
Esta «desistência» em relação a uma coordenação global das actividades da Escola pode ser entendida por outras manifestações mais fundamentais: a expectativa em relação ao papel agregador que a Associação «Nova Maré» poderia desempenhar, e que lhe estava inscrita nas origens, foi gorada (apenas funcionou o respectivo jornal); o Clube Galileu de Ciência também não conseguiu juntar os professores de Matemática, de Física e de Química, de Biologia e de Geografia; e o Clube de Ciências Sociais iria desaparecer em breve, como consequência da saída do Escola do seu principal animador, o Alfredo Massapina.
O espírito «colectivo», que, segundo alguns testemunhos, era muito forte na Escola Secundária do Seixal até (cerca de) meados da década de 1980, estava a ceder perante as iniciativas «individuais».

A existência da «Associação Nova Maré», com sede na Escola Secundária do Seixal, foi oficializada em «Diário da República» no dia 5 de Março de 1983 (IIIª série, nº 53, página 3164). Eis o respectivo texto:


E o jornal «Nova Maré», tendo como proprietária a «Associação Nova Maré», foi inscrito no dia 22 de Agosto de 1983, após solicitação de António Matos, como publicação periódica na Direcção-Geral da Comunicação Social.

 Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Dois (Doc.s 56, 57, 58, 59 e 60)

[029] Um segundo contacto com a S. P. M.

Memórias

Pouco depois do início do ano lectivo, de 8 a 11 de 1988, a Sociedade Portuguesa de Matemática organizou, no auditório do Instituto Franco – Português, em Lisboa, uma Escola de Outono em História da Matemática. Os temas a abordar interessaram-me, pelo que me inscrevi, e lá estive, mas apenas nos dias 8 e 10, de manhã e de tarde.
Tomei notas a sete das conferências, proferidas em português, espanhol e francês. Nelas se abordou a história de alguns ramos da Matemática, como a «estatística» e a «análise diofantina», mas também a vida e obra de Sebastião e Silva e, com especial interesse para mim, alguns das facetas sociais e culturais em que a Matemática esteve e está inevitavelmente envolvida, como a «astronomia» e as interacções entre povos.

Das notas que tomei, as que agora mais gostei de reler foram as sobre uma das conferências de R. Rashed, intitulada «Problèmes de la transmission de la science grecque en arabe»:

Como não são fáceis de ler, transcrevo essas notas a seguir:

“Problema da transmissão de conhecimento: quem transmite? por que transmite? como?
Para o caso da mediação árabe em relação à ciência grega há uma primeira razão forte para as nossas preocupações pois várias obras nos chegaram só parcialmente em grego, conhecendo nós outras partes apenas na sua tradução árabe (caso dos “Elementos” de Euclides, dos trabalhos de Apolónio sobre as cónicas, das análises de Diofanto, etc.).

Primeira observação: foram os descendentes dos produtores da ciência grega (em Alexandria, em Antioquia, etc.) que traduziram esta para árabe; não houve uma emigração; tratou-se de continuidade através de povos que, entretanto, haviam sido convertidos religiosa e linguisticamente.
Segunda observação: não se tratou apenas de uma “tradução” sem vida; algo mais passou de mão em mão, as técnicas, os hábitos administrativos, as formas de pensamento, etc..

Início do século IX, em Bagdad: a ciência começa a profissionalizar-se; até esta altura apenas se tinham traduzido algumas obras, das quais por vezes só nos chegaram os títulos e que, aparentemente, resultaram de iniciativas individuais; ao ser iniciada esta organização da ciência (e ao se começarem a notar as primeiras escolas concorrentes), as ciências exactas já são abrangidas e não apenas a jurisprudência, a medicina, etc..
As traduções foram feitas massivamente, sem deixar textos de parte, mas sem nenhuma ordem especial (cronológica, por dificuldade, ou outra), e foram feitas deliberadamente; verifica-se que acompanharam trabalhos paralelos de investigação e por vezes seguiram-nos (isto é, não foram elas que, forçosamente, desencadearam a investigação); melhor ainda, foram investigadores de primeira ordem que se encarregaram (ou supervisionaram) as traduções.


São de rejeitar portanto as teses de recepção passiva da tradição grega e do desencadeamento do pensamento árabe a partir do seu contacto com a tradição grega.”

Comentários

Devo ter precisado de justificar faltas às aulas da tarde nos dois dias em que assisti às conferências, uma 3ª e uma 5ª feira, pois elas constavam no meu horário (conforme se pode verificar no testemunho «022»).

O conceito desta «Escola de Outono» correspondeu apenas a «conferências».

O que me agrada na conferência do R. Rashed é a noção de que cada «actor» (neste caso os «cientistas árabes») tem as suas motivações próprias, podendo inspirar-se noutros actores, sem nunca se lhe submeter (se não for obrigado a isso, claro).
Por conseguinte, este agrado também se deve aplicar à participação numa conferência, uma modalidade, entre outras, de «formação contínua»: que motivações nos levam a conhecer o que outros investigam e como pretendemos trabalhar essas informações de acordo com os nossos propósitos?

Fontes: Pasta analógica ESCOLA DE OUTONO (Doc. 2)

[028] Primeiras dúvidas sobre os ventos de mudança que sopravam no sistema educativo

Memórias

No testemunho «019» designei as intenções reformistas do Ministério da Educação como «ventos de mudança».

Durante o ano lectivo de 1988-89 foi publicado o Decreto-Lei nº 43/89, de 3 de Fevereiro, através do qual foi estabelecido o Regime Jurídico da Autonomia das Escolas Oficiais do Ensino Básico e Secundário, segundo o qual cada escola deveria elaborar um Projecto Educativo.

A construção dos novos currículos ainda estava em curso.

Mas os professores não estavam satisfeitos com as suas condições do seu trabalho. Daí este cartoon, que desenhei e afixei na Sala de Professores em 1988 (o original tinha algumas cores, feitas com marcadores):


Comentários

O conjunto das reformas que estava em curso começou pela «organização» das escolas e só muito mais tarde chegou aos «currículos». Este padrão ir-se-ia repetir uma década mais tarde, com a «revisão» e a «reorganização» curriculares, que foi antecedida por uma profunda reorientação da organização das escolas.

É também de notar que, há exactamente 35 anos, a «dignificação dos professores» já era por estes reclamada.

Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Dois (Doc.s 62 e 89)

[027] As fotografias das turmas do 9º ano no final de 1988-89

Memórias

Para «colorir» as fotografias das turmas divulgadas no testemunho «022», eis as da malta do 9º M no final do ano lectivo (16 de Junho de 1989), nas escadas da antiga entrada da escola (ao fundo vêem-se as janelas da Sala de Professores):

Eis a malta do 9º P, no mesmo dia, em pleno campo de futebol do Pavilhão D (lá ao fundo vê-se o Portugal dos Pequeninos):


E eis a malta do 9º Q, ainda no mesmo dia, de costas para a antiga entrada da escola (ao fundo vêem-se as instalações da empresa A. Silva & Silva), primeiro só a turma …


… depois com o seu professor de Matemática (estamos de frente para a entrada da escola):


Comentários

Os finais de ano lectivo são sempre uma libertação para os alunos (cansaço das aulas; necessidade de férias) e uma saudade para os professores (irão perder de vista muitos daqueles alunos).

Comprei a máquina fotográfica analógica que tirou estas fotografias, uma Canonet, em 1977. Foi com ela que fui documentando algumas das actividades que organizei ou em que participei como professor.

Fontes: Pedro Esteves / Álbum de fotografias analógicas ESJA Um 
(F12, F13, F15 e F18)

[026] Mais actividades extracurriculares, no Seixal, em 1988-89

Memórias

Lembro-me bem da Gincana de Carnaval que se disputou no início de 1989. Foi preparada por um pequeno grupo de professores (além de mim, recordo-me da Alice Santos) e concretizada no dia 2 de Fevereiro. O desenho explicativo (deve ter sido afixado e, claro, entregue às equipas concorrentes) saiu-me assim:

As equipas eram compostas por 5 membros, como se nota no desenho, e tinham de mostrar as suas destrezas rodeadas por um público em delírio. E o local onde tinham de mostrar as suas habilidades situava-se entre o Pavilhão da Mecânica (à esquerda na fotografia seguinte) e o Pavilhão B (à direita), mais ou menos onde tinha estado o pavilhão de madeira desactivado um ou dois anos antes (rectângulo visível no chão):


Segundo as notas que conservei, além desta iniciativa pontual houve quatro centros de actividades extracurriculares com expressão ao longo deste ano: as da Sala de Dinamização Cultural [ver testemunho «025»], as do Centro Escolar de Informática (CEI), as do Clube de Ciências Sociais e as da Videoteca. Entre os coordenadores do CEI, no ano anterior e neste ano, estiveram o Alfredo Massapina, o Alfredo Monteiro, o Arlindo Carvalho, a Madalena Ferreira e o Olímpio Pereira.

Comentários

Soube-se, através do Conselho Pedagógico, que o jornal Nova Maré obtivera o 3º prémio no Concurso Nacional de Jornais Escolares.

Devido às lutas sindicais dos professores, os Jogos Sem Carteiras e a Escola Aberta deste ano foram cancelados, bem como a Semana de Interrupção de Aulas prevista para o 3º período.

Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Dois (Doc.s 62, 91 e 104) / Álbum de fotografias analógicas ESJA Um (F17)

[025] O início das actividades na Sala de Dinamização Cultural da Escola Secundária do Seixal

Memórias

A entrada do já desaparecido Pavilhão D da Escola Secundária do Seixal dava para um corredor ladeado por salas de aula. Este chegava a um segundo corredor, que lhe era perpendicular e que também dava acesso a salas de aula. Quer seguíssemos para a esquerda quer para a direita deste novo corredor, as primeiras portas davam para salas enormes. A da direita tinha escrito à entrada: Sala de Dinamização Cultural.
Foi esta a sala que solicitei ao Conselho Directivo, no início de 1988-89, quando decidi realizar uma pequena exposição, intitulada A Outra Face da Matemática, destinada à recepção dos novos alunos.

Quase nada recordo dessa exposição. Mas sei que a partir dela a Sala de Dinamização Cultural ficou à minha responsabilidade. Ao longo do ano, ela foi frequentada por alunos interessados em jogos, puzzles e problemas, para o que lá coloquei o material adequado.
No dia 19 de Novembro, um Sábado (havia aulas aos Sábados) foi aí comemorado, pela 1ª vez nesta escola, o Dia Mundial do Xadrez, que incluiu uma simultânea e uma exposição. Desenhei assim o respectivo cartaz:

Foi também nela que se realizou um Torneio de Xadrez e a fase local das Olimpíadas Nacionais de Matemática (nenhum aluno desta escola passou à 2ª fase). Penso que foram as primeiras vezes que estas iniciativas ocorreram nesta escola.

No final do ano, precisamente em 10 de Junho de 1989, uma equipa da escola (não estou certo de ter sido só uma equipa) participou no Iº Torneio de Xadrez Jovem (dos concelhos de Almada e do Seixal), disputado no Monte da Caparica Atlético Clube (entre os seus dinamizadores estavam o Henrique Cardoso e o Fernando Pena, além de mim, todos animadores do Xadrez distrital).
Na primeira das seguintes fotografias vêem-se três membros da equipa da escola (o moço louro e as duas moças) a jogar uma das partidas (o tabuleiro vazio sugere que: ou terá faltado um dos membros de uma das equipas; ou essa partida já teria acabado no momentos em que a fotografia foi tirada):


E na segunda das fotografias vê-se, de pé, um dos organizadores do torneio (pai de uma das actuais professoras na Escola Secundária José Afonso):


Comentários

É-me hoje difícil imaginar como me foi possível, no mesmo ano lectivo, coordenar o grupo de Matemática, participar no Conselho Pedagógico e, ainda, iniciar as actividades na Sala de Dinamização Cultural. Foi há 35 anos …

Não me recordo se foi a minha iniciativa que levou o Conselho Directivo a atribuir-me a responsabilidade pela Sala de Dinamização Cultural, ou se fui eu a propô-lo.

O nome dado a esta sala vinha do tempo em que ela fazia parte da Escola Preparatória do Vale da Romeira. Em 1988-89, em diversos documentos da escola, enquadrei, as actividades que se realizavam nesta sala no Clube Galileu de Ciência e no Grupo de Xadrez, sem com isso pôr em causa o significado da placa identificadora herdada (e que permaneceu na porta até ao último dia do Pavilhão D).
Só alguns anos depois, quando o meu grupo de professores criou um Laboratório de Matemática, a sala de Dinamização Cultural passou a ser designada por Ludoteca.

No Dia Mundial do Xadrez eu assegurei a simultânea e a exposição deveria ser a mesma que eu já apresentara na Siderurgia.

O Dia Mundial do Xadrez foi alterado, alguns anos mais tarde, sob o patrocínio das Nações Unidas, para 20 de Julho.

Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Dois (Doc.s 62, 63, 64 e 104) / 
Álbum de fotografias analógicas ESJA Um (F3 e F6) / Arquivador digital Tese de Mestrado (4EXPR64)

[024] O Grupo de Matemática da Escola Secundária do Seixal em 1988-89

Memórias

Pode ter sido em 1988-89 que eu fiz este desenho:


Nele, o professor, impassível, de costas para a turma, diz, enquanto vai trabalhando no quadro: «O professor deve estar sempre atento a tudo quanto se passa no mundo. Até porque o que vos é ensinado é para ser útil no momento em que entrarem em contacto com a realidade. Todos os modelos teóricos que desenvolvemos nas aulas são simulações de situações que encontrarão no futuro. Estas são, pois, ocasiões únicas, irrepetíveis, que vocês não podem desaproveitar, a não ser que […]»

Não sei se afixei este desenho na escola, tal como fiz com outros desenhos, antes e depois deste. Ou se o guardei apenas para mim. Mas é muito possível que ele tenha a ver com a minha principal preocupação em 1988-90, o ensino da Matemática, dado ter sido eleito responsável pela coordenação do respectivo grupo de docentes.
Ao iniciar a minha preparação para estes dois anos escrevi o seguinte:
“Assim como a aceitação da candidatura para o C. D. de 1986-88 se subordinou ao objectivo «ver como se consegue dinamizar pedagogicamente a Escola a partir da sua gestão global», também o trabalho como delegado do grupo de Matemática e o paralelo trabalho de representante deste no Conselho Pedagógico se subordinam ao objectivo «ver como são as potencialidades renovadoras dos professores da Escola, nos níveis pedagógico e cultural».

A resposta a esta nova questão (objectivo) é tanto mais importante quanto a relativa à anterior questão ficou em suspenso; de facto a experiência de trabalho no C. D. não foi concludente, parecendo que o êxito dependerá de uma melhor equipa, da capacidade de iniciativa da Escola e da empatia entre a equipa de gestão e a Escola.»”
A esta luz, estes quatro anos, 1986-90, foram anos de aprendizagem por meio da experimentação.

Eis os membros do grupo de Matemática, em 1988.89, que consegui identificar através das minhas notas: Alípio Garcez; Ana Chorincas (tinha sido a anterior delegada do grupo); Ana Pontes; Carlos Lourenço; Clorinda Agostinho; Isabel Pereira; Ismael; J. Vilão; Ludgero; M. Valdevino; Olímpio Pereira; e Pedro Esteves.

O grupo de Matemática tinha uma Sala de Trabalho, pelo menos desde o ano anterior, onde reunia e guardava algumas das suas ferramentas. Situava-se no piso inferior do pavilhão C, onde dois ou três anos depois os Funcionários da escola passaram a ter a sua própria sala. Em mais do que uma reunião levantámos a questão de, a termos esse espaço, os outros grupos também deveriam ter o seu, pois isso apenas acontecia com alguns.
Foi nessa sala que reunimos por 15 vezes neste ano, sendo a primeira em 12 de Setembro e a última em 6 de Julho.
Com base num «plano de trabalho» inicial, que incluía algumas chamadas de atenção para a conveniência da sua «perspectivação plurianual», fomos abordando ao longo do ano os «horários» (como tinham surgido muitas reclamações, propusemos algumas regras a serem tidas em conta no ano seguinte), o «planeamento lectivo» (onde por diversas vezes tentámos encaixar preocupações com a «inovação pedagógica»), as «condições lectivas» (como as salas de aula e os materiais de que necessitávamos para leccionar), a «avaliação dos alunos» e, talvez muito em particular, a «formação contínua» (deveria ser «obrigatória» ou voluntária»; como poderíamos obter «computadores»; que interessados havia num encontro sobre «História da Matemática» e numa série de conversas intituladas «A reforma curricular em acção»; etc.).
Uma iniciativa de que me lembro bem não ter tido continuidade foi a de lançarmos, entre nós, mensalmente, de um problema de Matemática; recordo-me de um desses problemas, talvez o primeiro, ter abordado o funcionamento do «Círculo Trigonométrico».

Tínhamos, na nossa Sala de Trabalho, um expositor para nosso uso. O modo como os seus espaços foram organizados, com títulos manuscritos em papel ou cartolina, dá uma ideia dos temas para os quais tínhamos expectativas de ele vir a ser útil:



De modo a preparar os temas «pedagógicos» que pretendíamos «debater e decidir» na reunião de 8 de Março foram antecipadamente divulgadas as seguintes questões: “que relação pode ter a Matemática com as outras disciplinas baseadas na experiência? será melhor os alunos «sentirem» certos conceitos matemáticos primeiro noutras disciplinas e só depois na nossa, ou o contrário? será possível na Matemática utilizarmos situações concretas doutras disciplinas que depois abstratizamos? porque é que os nossos alunos sabem certas coisas em Matemática e quando lhas pedem em situações doutras disciplinas ficam incapazes de responder? que conversas e trabalhos podemos / devemos ter com os colegas das outras disciplinas que se servem da Matemática? é de lançar uma campanha do tipo «ao menos saiba fazer contas»? e quanto ao 3º período, vamos tentar resolver o essencial até ao fim de Maio, deixando Junho para a recuperação dos alunos mais fracos? se isso for possível, que farão nessa altura os que já garantiram a «passagem de ano» a Matemática? entretanto, que tipo de análise fazer aos mapas com as percentagens de negativas por turmas dos unificados?”
Em 8 de Março apenas conseguimos abordar as questões mais imediatas: a Ordem de Trabalhos era demasiado grande …

Comentários

O desenho retrata uma sala do Pavilhão D: lembro-me bem das mesas dos alunos e da sua disposição na sala; do estrado e da mesa do professor; do quadro e do suporte para o giz e o apagador; da lâmpada que iluminava o trabalho do professor; dos estores, alguns bem desarranjados; e do Sol que, a dada hora, aparecia a Poente (eu tinha aulas à tarde).
Acho que, inconscientemente, me representei como o aluno que acaba de lançar pelos ares um avião de papel: estaria a convencer-me a mim próprio de que os professores nunca devem deixar de procurar perceber o que se passa na cabeça dos seus alunos?

Nunca foi resolvido o problema da atribuição de um espaço de trabalho próprio a cada grupo disciplinar, embora alguns sempre tenham usufruído de um. E no entanto, para se constituírem comunidades (em função do trabalho cooperativo), esses espaços são decisivos.

O encontro sobre «História da Matemática» decorreu de 8 a 11 de Novembro, organizado pela Sociedade Portuguesa de Matemática. E as conversas sobre «A reforma curricular em acção» decorreram já em 1989, organizadas por um grupo de sócios da recentemente criada Associação de Professores de Matemática.

Antes do fim de Julho, o Plano de Trabalho para 1989-90 já estava pronto para ser debatido em Setembro. Nele já não refiro a Escola Secundária do Seixal, mas sim a Escola Secundária do Seixal, nº 1.

Tal como nos anos anteriores, em relação ao Conselho Directivo, este primeiro ano como delegado do grupo de Matemática não foi «concludente» …

Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Dois (Doc.s 94 e 104)

[023] O Conselho Pedagógico da Escola Secundária do Seixal em 1988-89

Memórias

A minha passagem pelo Conselho Directivo tinha-me deixado com vontade de intervir na vida global da escola, pelo que me candidatei a Delegado do Grupo de Matemática para 1988-90 e, por esta via, a membro do Conselho Pedagógico (CP). O Grupo aceitou-me como Delegado.
Iria ser a única vez em que fiz parte de um Conselho Pedagógico, tal como, nos dois anos anteriores, 1986-88, tinha sido a única vez em que fiz parte de um Conselho Directivo (ou de um dos seus equivalentes posteriores).

No primeiro destes dois anos o Conselho Pedagógico reuniu por 19 vezes, a primeira em 8 de Setembro e a última em 11 de Julho. Quem presidiu a essas reuniões foi o Alfredo Monteiro, pois, segundo a lei, tal função incumbia ao presidente do Conselho Directivo.
Na primeira reunião, a Ana Chorincas, um outro membro do Grupo de Matemática, foi eleita para coordenar os Directores de Turma. E foram constituídas três secções do CP, a da «Formação», a «Cultural» e a «Pedagógica».

Entre as incumbências da Secção de Formação incluía-se o acompanhamento da formação inicial, na qual estavam envolvidos, nesse ano, dois professores do 5º grupo, um do 8º B e um do 12º D. Tratava-se da chamada Formação em Exercício, que durava dois anos. A minha formação inicial também decorrera nesta modalidade, meia década atrás (1983-85), sempre numa escola, onde acumulava o «ensinar» com o «aprender»; mas, agora, mudadas as regras, o primeiro ano decorria numa ESE, para que os formandos «aprendessem» Ciências da Educação, e só o segundo ano decorria numa escola, para que o formando «ensinasse», com o apoio de um professor local (que, para esse efeito, tinha reservadas duas horas no seu horário semanal).

Estes formandos faziam parte de uma enorme mudança que estava a ocorrer no corpo docente da escola: no grupo 4º A tínhamos dez novos professores (em 12); no 10º A tínhamos nove (também em 12), “todos decepcionados por não entrarem em estágio”, escrevi eu nas minhas notas às reuniões do CP; no 10º B toda a gente estava pela primeira vez na escola; e no 11º A só tinham permanecido na escola dois dos professores do ano anterior.
Além de se tratar de uma mudança profunda, também foi, parcialmente, tardia: em meados de Novembro alguns dos horários que correspondiam aos novos professores ainda não tinham sido atribuídos.

No que respeita às outras condições para o normal funcionamento das aulas e da escola o Conselho Directivo informou o CP de que:
Tinha reorganizado vários espaços de apoio (caso dos audiovisuais) e mandado executar pequenas obras, um pouco por toda a escola (caso do Bar da Sala de Professores);
O número de turmas que a escola tinha era excessivo (as salas estavam 97 % ocupadas, contra os 85 % de ocupação noutras escolas);
Continuava a haver falta de funcionários (no início do 2º período o Pavilhão D chegou a encerrar por um dia devido a esta dificuldade; pouco tempo depois foram colocados na escola vários funcionários, ao abrigo de diversos «programas», todos eles por tempo limitado).

Logo nas primeiras reuniões do CP foram ainda escolhidos os 3 dias de interrupção lectiva para debates na escola (justificados pela participação na reforma que estava a ser preparada), um em cada período lectivo, mais uma semana de interrupção de aulas no 3º período.

A capa do Plano de Actividades, concluído em meados do 1º período, foi esta:


Nas minhas notas às 19 reuniões do Conselho Pedagógico deste ano menciono diversos nomes, além dos já referidos acima (e do meu próprio). Por ordem alfabética: Alice Santos, António Gomes, Francisco Sacramento, Luís Rosado, Madalena Ferreira, Vítor Campos e Vítor Louro. Todos seriam membros deste CP.

Houve dois temas que foram mais intensamente discutidos ao longo do ano. Inicialmente, a distribuição do orçamento. Depois, as opções curriculares.

Havendo pouco dinheiro para distribuir (estávamos numa situação de “miséria orçamental”, escrevi eu), e existindo cursos com natureza profissionalizante (os quais exigem maiores apoios), surgiram dois tipos de tensões: por um lado, entre os grupos «técnicos» e os «não técnicos»; por outro, entre os próprios grupos «técnicos». Tentando resolver essas tensões, exigiu-se mais informação, discutiram-se critérios, propôs-se uma estratégia; mas, no fim do ano, subsistiam em muitas as dúvidas sobre se as coisas teriam sido bem feitas.

O outro tema, o das opções curriculares, tinha algumas ligações, a montante, com o do Orçamento. O melhor exemplo desta ligação foi o da Quimicotecnia, um curso que alguns professores da escola pretendiam iniciar, que o Conselho Directivo garantiu estar em primeiro lugar nas suas prioridades, mas que, no final do ano lectivo, se soube não ter sido contemplado pelo Ministério da Educação para o ano seguinte (não haveria dinheiro, assim foi explicado ao Conselho Pedagógico).
Além da azarada Quimicotecnia, foram sugeridos no CP diversas escolhas curriculares, umas para o 9º ano, outras para os «Complementares» (Secundário) do ano lectivo seguinte: Artes e Design; Artes dos Tecidos; Informática; Planeamento e Urbanismo; e Saúde.

Numa das últimas reuniões do ano lectivo o Conselho Pedagógico foi informado de que, contrariamente às expectativas que haviam surgido, as salas conhecidas por «Portugal dos Pequeninos» (parte do Pavilhão D) não iriam ser encerradas em 1989-90. Estava em perspectiva mais uma inundação de turmas.
O CP também foi informado de que não iria ser iniciado o curso de Informática nos Complementares, mas que prosseguiria a experiência começada em 1988-89 no 7º ano.

Comentários

No meu percurso como professor houve duas ocasiões em que desejei um «cargo»: em 1988-89, quando me candidatei a Delegado de Matemática; e cerca de dez anos mais tarde, quando quis fazer parte da primeira Assembleia de Escola (o que consegui, tendo-me nela mantido durante oito anos).

Até ao fim dos anos 90, os órgãos de administração e gestão das escolas do ensino não superior eram o Conselho Directivo, o Conselho Pedagógico e o Conselho Administrativo.

Por impedimento do Alfredo Monteiro, uma das últimas reuniões do Conselho Pedagógico em 1988-89 foi presidida pela Teresa Ré, um dos membros do Conselho Directivo.

Não é do meu agrado a alteração introduzida na Formação em Exercício, transformando «dois anos a ensinar e a aprender na escola» em «um ano a aprender mais um ano a ensinar», pois se baseia na filosofia «primeiro a teoria, depois a prática», desvalorizando a «interacção entre prática e teoria».

O curso de Quimicotecnia continuou a ser defendido em anos posteriores, sem nunca ter conseguido impor-se. Mas houve cursos que, aquando da remodelação das instalações escolares, no início deste século, obtiveram boas condições de trabalho e que de pouco lhes foram úteis, dado ter desaparecido a respectiva procura. Que teria acontecido à Quimicotecnia se tivesse conseguido vingar?!

No início de 1988-89 o curso de Técnico-Profissional de Manutenção Mecânica não tinha tido inscrições no 10º ano. Assim, durante este ano, apenas esteve a funcionar o curso iniciado em 1987-88, a que eu agora estava leccionar o 11º ano.

O Conselho Pedagógico mostrou-se pouco interessado em apreciar um conjunto de preocupações colocadas por mim a propósito do Plano Anual de Actividades, cujos contributos achei estarem pouco articulados. Defendi que no ano seguinte ele fosse elaborado através de uma estratégia participada, coerente e flexível, de modo a evidenciar a “dinâmica” e as “ideias próprias” da escola, e não as provenientes do Ministério da Educação, da Câmara Municipal e das instituições de formação inicial (a ESE, de Setúbal, e a FCT, do Monte da Caparica). Eram preocupações diametralmente opostas às que levaram um dos membros que viria a ser eleito para o Conselho Directivo de 1988-90 a propor, na reunião que descri no testemunho «020», que o papel do CD deveria ser o de «preparar a escola para a mudança».

Depois de terminadas as aulas, na altura em que o Conselho Pedagógico apreciou os «recursos» sobre as notas finais, anotei assim o que então se disse sobre os casos de insucesso que lhe tinham sido apresentados: “desinteresse profundo dos alunos ou dificuldades não acompanhadas; afastamento dos pais em relação à Escola; arrogância dos professores” (ninguém referiu a arrogância do próprio sistema educativo).

Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Dois (Doc.s 61 e 62); o desenho era meu