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[111] O ProfMAT de 1997, na Figueira da Foz

Memórias

Este Encontro Nacional oscilou, para mim, entre o muito cooperativo e o muito conflituoso.

A componente cooperativa dominou em o Laboratório de Matemática no ProfMAT – um espaço a visitar e a usar, tal como ele veio designado no programa do encontro. Tratou-se de um conjunto de propostas de actividade destinadas ao Ensino Básico, numa sala, e ao Secundário, numa outra sala, ao lado da anterior.

Tanto na 4ª feira, como na 5ª feira, como na 6ª feira do Encontro, estes dois espaços estiveram activos, como se mostra nesta versão colorida do calendário a preto-e-branco feito para a ocasião:


A primeira das «sessões especiais» foi dinamizada pelo Pedro Esteves e pela Rita Vieira. A segunda pela Adelina Precatado e pela Paula Teixeira. A terceira pela Manuela (não consegui descobrir, nos meus arquivos, o seu nome de família). E a quarta pela Josefa Costa e pelo Pedro Esteves.
Lembro-me de, na sala do Básico, onde sempre estive, se terem experimentado as Magias com Matemática; e de haver vários arquivadores com ideias propostas, muito bem acondicionadas em «micas», muito consultados e até anotadas pelos visitantes.

A componente conflituosa começou num painel dedicado a apresentar e a debater o relatório «Diagnóstico e Propostas sobre a Matemática Escolar», encomendado pelo Ministério da Educação com os objectivos de proceder a “um levantamento dos principais problemas” que afectavam o ensino da Matemática e de apresentar “um conjunto de propostas de intervenção tanto a curto como a médio prazo”. Apesar de apenas visar o caso da Matemática, a encomenda deste relatório dava uma ideia sobre a filosofia reformista do Ministério da Educação de Marçal Grilo: atribuir um papel de relevo aos «especialistas».
Para responder à encomenda foi constituído um grupo de oito professores, de diversos graus de ensino, todos, ou quase todos, sócios da APM. E os organizadores deste ProfMAT decidiram apresentar e debater as conclusões do relatório que o grupo elaborou através de um painel. A Leonor Cunha Leal e ela convidou algumas pessoas para nele participar, desejavelmente com diversos pontos de vista. Como eu também lá iria estar, li cuidadosamente o relatório, e não gostei do que li.
Partia-se, nele, de um facto indesmentível: os programas de Matemática então em vigor não estavam a ser “aplicados em muitos dos seus aspectos essenciais.” Depois, admitindo que estávamos numa época de transição entre “um currículo nacional normativo e extremamente pormenorizado” e “um currículo flexível, gerido localmente e adaptado às condições locais”, o relatório propunha que fosse adoptado, como medida central, um vasto programa de formação dos docentes através do qual se responderia “às dificuldades nas concepções, práticas e cultura profissional de muitos professores e à sua falta de actualização científica e didáctica tendo em conta a aplicação dos currículos em vigor, procurando-se igualmente colmatar as sérias lacunas existentes em termos de formadores habilitados e de apoios à investigação-acção”.
Esta medida deveria ser complementada, segundo o relatório, com o desenvolvimento da investigação curricular, com a constituição de estruturas e de equipas de especialistas para apoio às escolas e com a melhoria das condições de ensino e aprendizagem nestas, tendo como rectaguarda um Instituto de Desenvolvimento Curricular e uma Comissão Nacional de Matemática.
Este relatório, sob o ponto de vista do «diagnóstico», não se queixava dos «programas», queixava-se sim dos «professores». E, quanto às «propostas», avançava com uma extensíssima lista de medidas centralistas, destinadas, sobretudo, a reforçar o papel dos «especialistas». Fui o único, entre os convidados para o painel, que procedeu a estas críticas.

O segundo momento conflituoso aconteceu durante a Assembleia Geral de Sócios da APM, que normalmente decorria num dos dias do ProfMAT. Ela realizou-se no dia 13 de Novembro e eu decidi questionar uma prática da Direcção da APM que se estava a tornar muito frequente e que, na minha opinião, era incorrecta: elaborar pareceres, para o Ministério da Educação, assinando-os como sendo «Pareceres da APM». Apresentei uma proposta que o contestava, cuja peça central era a seguinte: “Os pareceres a assumir futuramente pela A.P.M. deverão reflectir inequivocamente o nível a que foram tomados, isto é, deverão ser assinados ou pelos seus autores, ou pela Direcção da Associação, só devendo ser tomados como parecer da Associação de Professores de Matemática se este resultou de uma discussão alargada entre todos os sócios.” Por muito estranho que pareça, em cerca de cento e vinte sócios presentes na Assembleia, apenas eu votei a favor da minha proposta (mas fi-lo colocando-me de pé), tendo apenas havido cerca de meia dúzia de abstenções …


Comentários

Um dos argumentos com que me preparei para o painel tinha a ver com a «teoria da mudança» pressuposta no «relatório». Para isso, perguntei-me, nas notas que tomei: “Como imaginam os autores, neste documento, o modo como a mudança deve ser feita?” E anotei como elas eram vistas, ou criticadas, em textos que os membros do grupo de trabalho já deveriam ter lido: a Ana Benavente criticara as mudanças que estavam em curso entre nós por serem feitas de cima para baixo; o Rui Canário, mais indirectamente, criticara as mudanças que não partiam de contributos já existentes, defendendo as mudanças que adoptavam um «modelo conflitual» contra as que adoptavam um «modelo industrial»; o António Nóvoa chamara a atenção para os perigos de a profissionalidade docente vir a ser determinada por outros actores e argumentara com a necessidade de aproveitar as redes profissionais já existentes; o José Alberto Correia argumentara de modo semelhante, ao propor a densificação das redes já implantadas entre os educadores; o Alberto Melo propusera mudanças sustentadas pela difusão em rede das inovações; o Michael Fullan defendera que os diversos actores educativos deveriam ter responsabilidades iguais; e na revista “Mathematics Teacher” defendera-se que as mudanças seguissem um modelo sistémico.

No final de Novembro escrevi ao João Pedro Ponte e ao Paulo Abrantes, dois dos autores do relatório que eu criticara no painel, insistindo nos erros que eles haviam cometido. Entre muitos outros comentários incluí este: “A A.P.M., penso, tem sido um foco importante que conduziu aos primeiros sinais de constituição de saberes profissionais próprios dos professores de Matemática em Portugal, e esse papel pode ser posto em causa se se desenvolverem internamente condições favoráveis [à primeira das três seguintes vias para] a evolução do professorado: a via da polarização profissional por especialistas […], a via da proletarização e a via da profissionalização).”
Nunca obtive resposta a esta carta.

Hoje é claro que o meu receio de uma evolução profissional dos docentes seguiu a via da «polarização por especialistas».



Fontes: Esteves, livro de 2023, para a história do painel, e ficheiros ficheiros informáticos da pasta «Assoc. Professores Matemática / Encontros ProfMat / 1997 – F. Foz», para todo o ProfMAT

[100] Um breve balanço do Projecto MATlab (1991-96): entre os desafios da inovação e os problemas da organização

Memórias

Vários dos professores de Matemática que, em 1989-90, fundaram o Núcleo da APM em Almada e Seixal, já tinham a experiência educativa, com os seus alunos, da realização de concursos de problemas e da utilização de materiais manipuláveis, de jogos de reflexão e de quebra-cabeças.
Em 1991-92 uma parte desses professores juntou-se no projecto MATlab - LABORATÓRIOS DE MATEMÀTICA: actividades / desafios / recursos. Na candidatura em que solicitaram o financiamento do Instituto de Inovação Educativa (IIE), afirmaram-se convictos de que a criação nas escolas de “espaços exteriores às aulas” poderia contribuir para que os alunos desenvolvessem “capacidades como a cooperação, o sentido de risco, a elaboração de projectos e estratégias e a definição de valores”, além de melhorar a sua aprendizagem da Matemática. Para tal, propuseram-se como objectivos: “Criar e institucionalizar em cada Escola […] um espaço, a ser utilizado livremente pelos alunos, com condições para a realização de actividades e para a exploração de desafios de carácter matemático (em sentido amplo)”, que permitisse “a interacção com as actividades curriculares” e “a dinamização e integração de iniciativas a nível das comunidades” em que essas escolas se inseriam [ver, sobre os dois primeiros anos deste projecto, os testemunhos «055 e «065»].
Este projecto esteve activo até ao final de 1995-96, ou seja, durante cinco anos, tendo obtido um segundo apoio financeiro do IIE através do InterMAT, um projecto federador de projectos que também esteve associado ao Núcleo da APM [ver o testemunho «079»], além de ter mobilizado, em cada uma das escolas envolvidas, outros apoios logísticos e financeiros.

A organização do MATlab seguiu uma via mais informal que a do projecto AlterMATivas, implementado em 1991-93, que foi um seu projecto gémeo mas centrado no espaço curricular [ver os testemunhos «069» a «073»]: os professores que estavam envolvidos em «clubes de matemática» e em «ludotecas» nas suas escolas, mesmo que não tivessem sido autores deste projecto [ver cronograma incluído no testemunho «097»], reuniam-se numa das escolas envolvidas (de início mensalmente; depois, pouco a pouco, mais espaçadamente), tendo-o cerca de uma dezena feito regularmente ao longo dos cinco anos; a coordenação dos trabalhos começou por ser centralizada, passando a ser tendencialmente rotativa nos últimos anos; e as reuniões centraram-se na formação mútua (sem qualquer preocupação com a “formação creditada”, como por diversas vezes foi assumido), que por vezes incluía a fabricação de jogos, de quebra-cabeças e de materiais manipuláveis, ou a decisão da sua aquisição, além de servirem de apoio logístico entre escolas e, sobretudo durante o 2º período de cada ano lectivo, para a organização dos Interescolas de Jogos de Reflexão [ver os testemunhos «067», «080», «089» e «099»].
A formação mútua destinava-se a explorar as potencialidades educativas dos jogos reflexivos (como o Hex e o Ouri), dos quebra-cabeças (como os Labirintos, o Soma-cubo e o Tangram) e dos materiais típicos de um Laboratório de Matemática (como o Polydron e o Tabuleiro de Galton), sendo para tal procurados diversos apoios bibliográficos (como nos livros de Brian Bolt e nos artigos e livros de Miguel de Guzmán). Alguns dos tópicos repetidamente retomados nestas explorações foram as Dobragens, a Fita de Möbius, o Jogo do Ouri, as Magias, o Numero Pi, as Pavimentações (incluindo as de Escher e as de Penrose), as construções com Polydrons, o Teorema de Pitágoras, o Teorema das Quatro Cores, a Teoria dos Jogos e a Torre de Hanói.

Um objectivo que nunca foi perdido de vista no MATlab foi o da interacção entre as actividades extracurriculares e as curriculares.
Um material inédito concebido no âmbito do AlterMATivas foi o Bilátero Articulado. Sendo um material que podia ser facilmente utilizado em circunstâncias lectivas, o seu estilo de uso era laboratorial, pois permitia a experimentação e, através dos resultados desta, apoiava a correspondente demonstração. A imagem seguinte mostra quatro exemplares deste «material manipulável» (assim são chamados os materiais cuja configuração pode ser alterada manualmente), cada um deles com uma combinação de lados diferente das combinações dos outros:


No livrinho que publiquei em 2003, descrevi assim como a invenção deste material aconteceu “quando quisemos resolver um problema de didáctica para o qual não conhecíamos qualquer sugestão, vinda da experiência de outros professores ou de investigadores: que actividade podem os alunos realizar de modo a concluírem que cada lado de um triângulo não pode ser igual ou superior à soma dos outros dois lados, nem menor ou igual à diferença entre eles?
Depois de discutirmos e rejeitarmos várias ideias que nos surgiram, acabámos por optar por aquilo a que a certa altura chamámos «bilátero articulado». Era formado por dois rectângulos de cartolina, cada qual com um traço ao comprido (simulando o respectivo lado de um triângulo), que estavam articulados de modo a poderem rodar e a formar qualquer ângulo entre os lados que representavam. Após terem sido desenhados, foram cortados e plastificados (para poderem durar mais tempo) e um dos extremos dos lados foi furado para colocar uma peça que os mantinha unidos, mas móveis.

Nas aulas, os alunos formavam grupos, cada grupo em volta de uma mesa (ou de duas encostadas), e todos eram desafiados a dar exemplos das dimensões que o terceiro lado do triângulo podia assumir e a tirar conclusões gerais. Esta estratégia implicava debate dentro de cada grupo e, no fim, debate entre os diversos grupos, cabendo ao professor apoiar os grupos, quando tivessem dificuldades, e moderar activamente o debate final, até que as conclusões fossem claras, assumidas por todos e, claro, correctas.”

Durante os cinco anos lectivos em que o MATlab esteve activo apenas dois corresponderam a uma responsabilidade formalmente assumida, em função do financiamento prestado pelo IIE. Nos outros três anos (e de certo modo em todos) o projecto existiu informalmente, dada a convicção dos seus animadores nas suas potencialidades.
Ao longo destes anos o MATlab interveio publicamente com o objectivo de divulgar a metodologia laboratorial no âmbito da Educação Matemática, intervenções que também foram um modo de ir explicitando as preocupações e visões dos seus autores. Várias dessas intervenções foram feitas nos Encontros Regionais de Professores de Matemática (de Almada e Seixal). E as outras (fora destes concelhos) foram: no ProfMAT de 1992 (em Viseu); no ProfMAT de 1993 (Açores); no ESEMAT 94 (encontro organizado pela ESE de Lisboa, em 1994); no ProfMAT de 1994 (Leiria); e no ViseuMat4 (encontro organizado pelo Núcleo da APM em Viseu, em 1996) [ver no testemunho «097» os títulos destas intervenções].

Um dos temas de reflexão no MATlab disse respeito aos Clubes de Matemática e às Ludotecas.
* O que seria preferível, estruturar a organização de cada escola segundo um “sistema aberto” (modelo Ludoteca), ou “fechado” (modelo Clube)?
* Como criar “desafios” que levassem “mais longe as actividades de iniciação”, como, por exemplo, nos jogos (começar pelo “jogo livre”, passar para o “campeonato”, terminar no “inter-escolas”)?
* Que iniciativas comuns a todas as escolas poderiam servir de regularizador das suas diferentes opções (encontros de trabalho, publicações, torneio inter-escolas, ...)?
* No relatório final do primeiro ano do projecto escreveu-se: “É fácil pôr os jovens a jogar, torna-se mais difícil criar situações em que não é só «o jogo pelo jogo» (onde se percebe como se joga e porquê, etc...); mas, mais difícil é aprender fazendo e experimentando, formular hipóteses, testá-las e depois tirar conclusões.”

Outro dos temas de reflexão disse respeito ao conceito de Laboratório de Matemática.
* Na intervenção feita no ViseuMat4 foi associada ao Laboratório de Matemática a necessidade de “Recursos, Espaço, Memória, Desafios” e afirmado que os alunos, os professores e os funcionários seriam os seus actores.
* E a distinção que aí foi feita entre Ludoteca, Clube de Matemática e Laboratório de Matemática foi esta:
“numa LUDOTECA (com especiais ligações à Matemática): as actividades são principalmente «jogar» e «resolver puzzles»; a participação dos alunos é livre; e não há forçosamente uma relação directa professor-aluno;
num CLUBE DE MATEMÁTICA: as actividades são essencialmente «explorar» e «resolver desafios», entre o lúdico e o estritamente matemático; a participação dos alunos é organizada e fechada; e há uma relação directa professor-aluno;
num LABORATÓRIO DE MATEMÁTICA: as actividades são fundamentalmente «experimentar», e de uma forma sistemática; para o que deverá haver necessariamente uma ligação aos Recursos pedagógicos da Matemática na Escola (Centro de Recursos), sendo naturais as ligações de trabalho quer à Ludoteca, quer ao Clube de Matemática, se estes existirem, bem como às actividades curriculares e outras não-curriculares da Escola, no âmbito da Educação Matemática; o que constitui tanto um desafio novo para os Professores desta disciplina, como um estímulo à institucionalização de novos espaços pedagógicos nas Escolas; e forçosamente estabelece uma relação directa professor-aluno.
”
* A propósito desta intervenção, foram ainda registados dois argumentos interessantes: “A constante criação de Matemática é feita experimentalmente numa boa parte dos casos; só a formulação final desses casos assume uma feição hipotético-dedutiva […]; para os jovens que aprendem Matemática, esta começa por ser apenas experiência”; e o “jogo de reflexão” pode “ser descrito como um combate entre sucessivas conjecturas, até que algo é demonstrado.”


Comentários

Os três projectos interescolas que estiveram associados ao Núcleo da APM foram axiais para o desenvolvimento de uma rede de cooperações entre os professores de Matemática de Almada e Seixal. Entre si, eles apoiaram inovações curriculares e extracurriculares.
O MATlab dispôs da vantagem da maior flexibilidade de objectivos e de meios, à qual se associou um trabalho bastante informal mas convicto.
No entanto, tal como o AlterMATivas [ver o testemunho «073»], não foi capaz de explorar as interacções com as comunidades de pertença dos alunos das escolas envolvidas, apesar dessa intenção ter sido prevista entre os seus objectivos.

A produção e a aquisição de jogos, quebra-cabeças e materiais manipuláveis apetrechou razoavelmente a maior parte das escolas, tendo a elaboração das correspondentes fichas de apoio à sua exploração sido feita por poucos professores, com uma sua parte não negligenciável originária do trabalho um tanto disperso de vários outros; faltou a estas fichas o que foi regularmente feito no AlterMATivas, serem experimentadas e depois analisadas em comum, e essa falta enfraqueceu os esforços de divulgação do conceito de Laboratório de Matemática (melhor do que a «teoria», os exemplos práticos são eloquentes).

Faltou também uma perspectivação a longo prazo dos temas e materiais a explorar no futuro, o que pode ter gerado uma sensação de ausência de desafios que ajudou, no final de 1996, entre outras razões de ordem externa (como as dificuldades colocadas às escolas e pelas escolas), a não prosseguir o trabalho em comum no MATlab.

As reflexões que foram feitas foram sobretudo adequadas para «pôr as coisas a funcionar», mas não foram suficientes para evidenciar uma ligação entre os Laboratórios de Matemática e uma visão pedagógica que lhe servisse de suporte.


Fontes:
Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Seis (doc.s 65, 72 e 109) / Ficheiros da Tese de Mestrado (4RXPR16, 4RXPR 21 e 4RXPR 25)
Livros e revistas analógicos: Actas de ProfMAT (1992, pp. 191-194; 1993, pp. 159-162); livro de Esteves (2023)

[097] Rede de projectos ligados à Matemática nas escolas de Almada e Seixal (balanço no final de 1995-96)

Mini estudo de caso

Nos testemunhos «058», «079», «095» e «096» fiz o balanço dos projectos de escola e interescolas de que registei a existência no âmbito da minha tese de mestrado, por terem estado ou ainda estarem, no final de 1995-96, ligados ao ensino e aprendizagem da Matemática nos concelhos de Almada e Seixal.
Esses projectos interescolas articularam vários projectos de escola já pré-existentes e inspiraram novos projectos. Todos eles, mais alguns outros projectos que se desenvolveram independentemente, foram divulgados, pelos professores que os animaram, através dos encontros organizados anualmente pelo Núcleo Regional da APM. Nenhum destes projectos esteve, portanto, isolado, formando aquilo a que se pode chamar uma «rede».

A rede de projectos

Os projectos interescolas foram três, tendo sido descritos em anteriores testemunhos publicados neste blogue: o AlterMATivas (curricular), o MATlab (extracurricuar) e o InterMAT (curricular e extracurricular). No cronograma seguinte estão assinalados os anos lectivos em que as escolas que nele são referidas tiveram pelo menos um professor envolvido num dos projectos interescolas (com a cor vermelha no caso de ele ser curricular e com a cor verde no caso de ele ser extracurricular; se esse envolvimento correspondeu à participação na autoria formal do projecto, essa cor inclui um «A»). Nos casos em que uma escola teve, simultaneamente, outros projectos ligados à Matemática, esse outro facto não é assinalado. Estão ainda assinalados os anos em que uma escola, não tendo professores envolvidos em projectos interescolas, teve projectos ligados à Matemática (as suas cores mantém-se mas são mais claras).


 

É visível neste cronograma o grande aumento das iniciativas conhecidas que surgiram após 1989-90, ano em que foi fundado o Núcleo da A. P. M. em Almada e Seixal; é portanto plausível que o associativismo tenha estado associado a esta expansão dos projectos relacionados com a Matemática, nomeadamente através dos interescolas. No entanto, é preciso admitir que possam ter ficado por conhecer outros projectos, sobretudo os realizados na década de 1980 (há diversos indícios deles noutros testemunhos já publicados neste blogue).

É ainda visível neste cronograma que a maior parte das iniciativas recenseadas se situou no campo extracurricular, abrangendo alunos do 2º e do 3º Ciclos e do Secundário, com a maioria das escolas ligadas através dos projectos interescolas; e que as iniciativas curriculares, de escola ou interescolas, se verificaram quase exclusivamente nas escolas com 3º Ciclo e Secundário.

A divulgação e a formação

As intervenções públicas dos professores que leccionavam Matemática nos concelhos de Almada e Seixal iniciaram-se, tal como as recenseei, na década de 1980. Mas só a partir de 1990-91, com a realização do primeiro Encontro Regional, elas começaram a ser dirigidas para os professores locais, mantendo-se as que visavam os professores de outras paragens. Assim, procedo a duas distinções: entre intervenções de «divulgação» (D) dos projectos em curso nos concelhos de Almada e Seixal e de «formação» (F), ou seja, de todas as outras; e entre intervenções «internas» (I), se dirigidas a professores de Almada e Seixal, e intervenções «externas» (E), se dirigidas a colegas de várias regiões (nomeadamente nos ProfMat, os encontros nacionais de professores de Matemática).
A lista que se segue inclui todas as intervenções recenseadas, até ao final do ano de 1995-96, tenham elas estado ou não associadas a projectos concebidos e implementados regionalmente.

Por ordem tanto quanto possível cronológica:

ProfMat, Bragança (1987)

Comunicação (FE): ATITUDES DOS ALUNOS FACE À RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS: INFLUÊNCIA DO TIPO E DA FORMA DO PROBLEMA, por Dora Almeida (aluna na FCL)

ProfMat, Porto (1988)

Comunicação (FE): QUE FORMAÇÃO DE PROFESSORES?, por Diamantina Carmona e Margarida Junqueira (Projecto Minerva, FCT da UNL)

ProfMat, Viana do Castelo (1989)

Sessão Prática (FE): TRABALHO DE PROJECTO E O LOGO, por Sérgio Valente (ES Anselmo de Andrade) e Margarida Junqueira (Projecto Minerva, FCT da UNL)

ProfMat, Caldas da Rainha (1990)

Comunicação (FE): A MÁQUINA DE CALCULAR NA EDUCAÇÃO MATEMÁTICA NO 1º CICLO, por Manuel Figueiredo (Escola Preparatória Nº 1 de Miratejo)

Comunicação (FE): EDUCAÇÃO MATEMÁTICA E TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO: UM SEMINÁRIO PARA FORMAÇÃO DE PROFESSORES, por Margarida Junqueira (Projecto Minerva, FCT da UNL)

Contributo para (FE) a FEIRA DE IDEIAS E MATERIAIS, por Ana Paula (ES Anselmo de Andrade), Mirita Sousa e Fernanda M. Paula (em escolas não identificadas)

1º Encontro Regional (Julho 1991)

Relato e debate (DI): O PROJECTO ALTERMATIVAS, por Ana Cristina Fonseca (ES Cacilhas), Filomena Teles (ES Anselmo de Andrade), José Tomás (ES Francisco Simões), Palmira Barroso (ES Ruy Luís Gomes), Pedro Esteves (ES José Afonso) e Rita Vieira (ES Emídio Navarro)

Relato e debate (DI): A VIAGEM NUM MUNDO EM TRANSFORMAÇÃO (DE ERATÓSTENES A PEDRO NUNES), por Cristina Neto, Joana Guerreiro e Patrícia Cascais (ES Anselmo de Andrade)

Relato e debate (DI): UM VERDADEIRO MOVIMENTO, por Cremilde Ribeiro e Margarida Junqueira (Projecto Minerva, FCT da UNL)

Relato e debate (DI): NOVAS TECNOLOGIAS NO ENSINO DA MATEMÁTICA (11º ANO), por Sérgio Valente (ES Anselmo de Andrade)

Sessão prática (FI): O VALOR EDUCATIVO DO PROBLEMA EM MATEMÁTICA, por Ana Boavida e José Manuel Matos (FCT da UNL)

Relato e debate (DI): MAIS UMA PROPOSTA PARA O SUCESSO, por Ana Paula Aguilar, Francisca Angelino, Maria Gardete, Maria do Rosário Figueiredo, Palmira Barroso e Regina Caeiro (EBS Ruy Luís Gomes)

Relato e debate (DI): O CLUBE DE MATEMÁTICA, por Ana Paula Natal e Lídia Lourenço (ES Anselmo de Andrade)

Relato e debate (DI): O PROJECTO DA MATEMÁTICA DA ESCOLA SECUNDÁRIA Nº 1 DE CORROIOS, por Doroteia Costa e Mirita Sousa (ES Nº 1 de Corroios)

ProfMat, Porto (1991)

Sessão Plenária (FE): APÓS O OBJECTIVISMO: QUE MUDANÇAS NA EDUCAÇÃO MATEMÁTICA?, por José Manuel Matos (FCT da UNL)

Comunicação (FE): FORMAÇÃO DE PROFESSORES NA ESCOLA E/OU PARA A ESCOLA?, por Diamantina Carmona (FCT da UNL) e Evangelina Nobre (ES Alfredo da Silva)

A Matemática à Conversa, série de debates na A.P.M. (Maio 1992)

Debate (FE): 20 HIPÓTESES PARA 3 ESPAÇOS, por Pedro Esteves (ES José Afonso), Rita Vieira (ES Emídio Navarro) e Teresa Nascimento (EB Comandante Conceição e Silva)

Novas Perspectivas de Ensino-Aprendizagem da Matemática, seminário da U. Minho em Vila Nova de Famalicão (Junho 1992)

Relato (DE): APRESENTAÇÃO DO PROJECTO ALTERMATIVAS, por Pedro Esteves (ES José Afonso) e Rita Vieira (ES Emídio Navarro)

Encontro CAL de Almada (Julho 1992)

Comunicação (DE): MATEMÁTICA – DESCOBRIR A GEOMETRIA COM “LE GÉOMETRE”, por Ana Teresa Alves e Palmira Barroso (EBS Ruy Luís Gomes)

Comunicação (DE): GRÁFICOS DE ALGUNS FENÓMENOS, por Rita Vieira (ES Emídio Navarro)

2º Encontro Regional (Julho 1992)

Relato (DI): PROJECTO DE MATEMÁTICA DA ESC. SEC. Nº 1 DE CORROIOS, por Doroteia Costa e Mirita Sousa (ES João de Barros)

Relato (DI): PROJECTO MATLAB, por Pedro Esteves (ES José Afonso)

Relato (DI): CLUBE DE JOGOS MATEMÁTICOS / ESC. PREP. CORROIOS, por Fernanda Coelho (EB Corroios)

Sessão prática (FI): AULA INTERDISCIPLINAR, por Luísa Lopes e Sérgio Valente (ES Anselmo de Andrade)

Sessão prática (FI): DESCOBRIR A GEOMETRIA COM O CABRI-GEOMÈTRE, por Ana Teresa Mateus e Palmira Barroso (EBS Ruy Luís Gomes) e Margarida Junqueira (Projecto Minerva, FCT da UNL)

Sessão prática (FI): JOGOS, GEOPLANOS, PUZZLES, ETC., por Fernanda Coelho, Gastão Cristelo e Isabel Gameiro (EB Corroios) e Teresa Nascimento (EB Comandante Conceição e Silva)

Sessão prática (FI): GRÁFICOS, por Pedro Esteves (ES José Afonso)

ProfMat, Viseu (Novembro 1992)

Sessão Temática (FE): GEOMETRIA E VISUALIZAÇÃO, por José Manuel Matos (FCT da UNL) e Maria de Fátima Gordo (ESE de Setúbal)

Sessão prática (FE): LABORATÓRIO DE MATEMÁTICA: DAS EXPLORAÇÕES ÀS ELABORAÇÕES, por José Tomás (EBS Ruy Luís Gomes), Pedro Esteves (ES José Afonso), Rita Vieira (ES Emídio Navarro) e Teresa Nascimento (EB Comandante Conceição e Silva)

Grupo de Trabalho (FE): GEOMETRIA NO 3º CICLO, por Diamantina Carmona (FCT da UNL), Fátima Gordo (ESE de Setúbal) e Margarida Junqueira (Projecto Minerva da FCT da UNL)

Sessão prática (FE): A MATEMÁTICA E OS DESCOBRIMENTOS, por Patrícia Cascais (ES Francisco Simões)

Sessão prática (FE): THALES – UMA FERRAMENTA EXPLORATÓRIA PAR A APRENDIZAGEM DA TRIGONOMETRIA, por Margarida Junqueira (projecto Minerva da FCT da UNL) e Sérgio Valente (ES Anselmo de Andrade)

Comunicação Oral (FE): CONTRIBUTO PARA A GESTÃO DO PARADOXO EM EDUCAÇÃO MATEMÁTICA: O CASO Ö2, por Ana Luísa Paiva (ES Padre António Vieira) e António Jorge Andrade (FCT da UNL)

1º Encontro Regional do Núcleo A.P.M. de Coimbra (Abril 1993)

Sessão prática (FE): (título não encontrado), por Pedro Esteves (ES José Afonso)

Grupo de Trabalho 5º / 7º anos, Núcleo Almada-Seixal (ao longo de 1992-93)

Sessões práticas (FI): MATERIAIS / CALCULADORAS / AVALIAÇÃO / PROPORCIONALIDADE DIRECTA / SEMELHANÇAS / Z & Q / ESTATÍSTICA, por Ana Baltazar (ES Manuel Cargaleiro), Ana Mota (ES Emídio Navarro), Arminda Chambre e José Tomás (EBS Ruy Luís Gomes), Fernanda Albuquerque (escola não identificada), Patrícia Cascais (ES Francisco Simões) e Pedro Esteves (ES José Afonso)

Projecto AlterMATivas (algures em 1992-93)

Debate (FI): FUNÇÕES, por Pedro Esteves (ES José Afonso)

3º Encontro Regional (Julho 1993)

Painel (FI): AS FORMAS DA REFORMA, com Ana Paula Natal (ES Anselmo de Andrade), Dora Almeida (ES Monte da Caparica) e Pedro Esteves (ES José Afonso)

Sessão prática (FI): O JOGO: QUE MOTIVAÇÕES?, por José Tomás (EBS Ruy Luís Gomes), Pedro Esteves (ES José Afonso) e Rita Vieira (ES Emídio Navarro)

Sessão prática (FI): FUNÇÕES COM CALCULADORAS GRÁFICAS, por Helder Martins e Maria da Luz Duarte (escola não identificada)

Sessão prática (FI): MODELAÇÃO EM MATEMÁTICA, por António Domingos e José Manuel Matos (FCT da UNL)

Sessão prática (FI): PROPOR DESAFIOS, ESTIMULAR PESQUISAS, por José Tomás (EBS Ruy Luís Gomes), Pedro Esteves (ES José Afonso) e Rita Vieira (ES Emídio Navarro)

Relato (DI): PROJECTO INTERMAT, por Filomena Teles (ES Anselmo de Andrade)

Sessão prática (FI): O SENTIDO PESSOAL E SOCIAL DA MATEMÁTICA, por Ana Maria Boavida e José Manuel Matos (FCT da UNL)

Debate (FI): A A.P.M. E A FORMAÇÃO DE PROFESSORES, com Filomena Teles (ES Anselmo de Andrade) e José Tomás (EBS Ruy Luís Gomes)

ProfMat, Ponta Delgada (Outubro 1993)

Comunicação oral (DE): A MATEMÁTICA, NAS MARGENS DO CURRÍCULO, por Pedro Esteves (ES José Afonso), Rita Vieira (ES Emídio Navarro) e Teresa Nascimento (EB Comandante Conceição e Silva)

Painel (FE): A PLURALIDADE EDUCATIVA: NA SALA DE AULA, NOS PROGRAMAS, NOS PERCURSOS INDIVIDUAIS, com José Manuel Duarte (ES Parede), Julio Mosquera (U Central da Venezuela), Lina Vicente (ES Pedro de Santarém), Paulo Abrantes e Pedro Esteves (ES José Afonso)

Grupo de Discussão (FE): REFLEXÕES SOBRE O NOVO PROGRAMA DE MATEMÁTICA DO 10º ANO, por Ana Vieira Lopes (ES Restelo) e Maria João Lagarto (ES do Monte da Caparica)

Grupo extracurricular do Projecto InterMAT (ao longo de 1993-94)

Sessões práticas (FI): JOGOS & PUZZLES / OFICINA DE MATERIAIS / ORGANIZAÇÃO DE COMPETIÇÕES / ACTIVIDADES DE APROFUNDAMENTO NUMA LUDOTECA / COMPLEMENTOS CURRICULARES / LABORATÓRIO DE MATEMÁTICA / DOBRAGENS COM PAPEL, por Ana Mota e Rita Vieira (ES Emídio Navarro), Ana Paula Filipe e Celeste Ganço (EB Amora), Filomena Teles (ES Anselmo de Andrade), Gastão Cristelo (EB Corroios), Fernando Camejo (ES António Gedeão), José Tomás (EBS Ruy Luís Gomes), Lídia Matias (EB Vale de Milhaços), Patrícia Cascais (ES Francisco Simões), Pedro Esteves (ES José Afonso) e Teresa Nascimento (EB Comandante Conceição e Silva)

ESEMAT, ESE de Lisboa (Abril 1994)

Comunicação oral (FE): A MATEMÁTICA, NAS MARGENS DO CURRÍCULO, por Pedro Esteves (ES José Afonso) e Teresa Nascimento (EB Comandante Conceição e Silva)

Projectos e Formação: Acção, Reflexão e Matemática, seminário do Centro de Formação da APM (ao longo de 1993-94)

Relato (DE): INTERMAT, por Filomena Teles (ES Anselmo de Andrade)

4º Encontro Regional (Julho 1994)

Sessão prática (FI): PROBABILIDADES NO ENSINO SECUNDÁRIO, por Margarida Junqueira (Projecto Minerva da FCT da UNL) e Sérgio Valente (ES Anselmo de Andrade)

Sessão prática (FI): LABORATÓRIO DE MATEMÁTICA, por Ana Mota (ES Emídio Navarro), Patrícia Cascais (ES Francisco Simões) e Pedro Esteves (ES José Afonso)

Sessão prática (FI): INTERDISCIPLINARIDADE FÍSICA / MATEMÁTICA, por Ângela Queiroz, Isabel Barrau, Manuela Cruz e Vera Figueiredo (ES Anselmo de Andrade)

Sessão prática (FI): ACTIVIDADES EM GEOMETRIA, por Conceição Tomás e Filomena Teles (ES Anselmo de Andrade)

Conferência (FI): MATEMÁTICA, CULTURA E EDUCAÇÃO, por Ana Maria Boavida e José Manuel Matos (FCT da UNL)

ProfMat, Leiria (Novembro 1994)

Curso (FE): MATERIAIS MANIPULÁVEIS NO 3º CICLO, por Patrícia Cascais (ES Francisco Simões), Pedro Esteves (ES José Afonso), Rita Vieira (ES Emídio Navarro) e Teresa Nascimento (EB Comandante Conceição e Silva)

Conferência (FE): APRENDIZAGENS DE MATEMÁTICA, OU DE QUE SÃO FEITOS OS CONCEITOS MATEMÁTICOS?, por José Manuel Matos (FCT da UNL)

Relato (DE): LUDOTECAS, CLUBES E LABORATÓRIOS DE MATEMÁTICA, por Pedro Esteves (ES José Afonso)

Conferência (FE): PROJECTOS E FORMAÇÃO, por Albano Silva (ESE de Portalegre), Cristina Loureiro (ESE de Lisboa) e Pedro Esteves (ES José Afonso)

Comunicação Oral (DE): CONSTRUÇÕES GEOMÉTRICAS EM AMBIENTES COMPUTACIONAIS DINÂMICOS: UMA EXPERIÊNCIA NO 9º ANO, por Margarida Junqueira (ES S. João do Estoril)

Projecto MATlab (ao longo de 1994-95)

Sessões práticas (FI): TEOREMA DAS 4 CORES / TEOREMA DE PITÁGORAS / MAGIAS COM MATEMÁTICA / TORRE DE HANÓI / TEORIA DOS JOGOS, por Ana Mota e Rita Vieira (ES Emídio Navarro) e Pedro Esteves (ES José Afonso)

5º Encontro Regional (Julho 1995)

Conferência (FI): DE QUE É FEITA A APRENDIZAGEM DA MATEMÁTICA?, por José Manuel Matos (FCT da UNL)

Sessão prática (FI): EXPLORAÇÕES MATEMÁTICAS: TEOREMA DE PITÁGORAS & TEOREMA DAS QUATRO CORES, por Ana Mota e Rita Vieira (ES Emídio Navarro) e Pedro Esteves (ES José Afonso)

Conferência (FI): OS FRACTAIS E A NATUREZA, por Manuel Esquível (FCT da UNL)

Sessão prática (FI): A APRENDIZAGEM DO CONCEITO DE FUNÇÃO COM RECURSO A FERRAMENTAS COMPUTACIONAIS, por António Domingos (FCT da UNL) e Maria Violante Mestre (ES Bocage)

Sessão prática (FI): GEOMETRIA NO ENSINO SECUNDÁRIO, por Margarida Junqueira (ES S. João do Estoril) e Sérgio Valente (ES Anselmo de Andrade)

Mesa redonda (FI): ENSINO DA MATEMÁTICA: REFLEXÕES SOBRE O FIM DE UM CICLO, com Fernando Camejo (ES António Gedeão), Gastão Cristelo (EB Corroios), Patrícia Cascais (ES Francisco Simões) e Pedro Esteves (ES José Afonso)

ProfMat, Évora (Novembro 1995)

Grupo Temático (FE): A REFORMA, A MATEMÁTICA E O 3º CICLO, por Ana Mota e Rita Vieira (ES Emídio Navarro), Pedro Esteves (ES José Afonso) e Teresa Nascimento (EB Comandante Conceição e Silva)

Conferência (FE): CONJECTURA, PROVA, GEOMETRIA E COMPUTADORES: COMO INTERLIGAR?, por Margarida Junqueira (Projecto Minerva, FCT da UNL)

4º Encontro Regional de Viseu (Março 1996)

Sessão Prática (FE): CLUBES, LUDOTECAS E LABORATÓRIOS DE MATEMÁTICA, por Ana Mota e Rita Vieira (ES Emídio Navarro), Pedro Esteves (ES José Afonso) e Teresa Nascimento (EB Comandante Conceição e Silva)

6º Encontro Regional (Julho 1996)

Grupo de Trabalho (FI): SITUAÇÕES PROBLEMÁTICAS EM GEOMETRIA – BREVE INTRODUÇÃO AO CABRI-GÉOMÈTRE, por Ana Baltazar (ES Manuel Cargaleiro) e Sérgio Valente (ES Anselmo de Andrade)

Sessão Prática (FI): A HISTÓRIA DA MATEMÁTICA NA SALA DE AULA, Isabel Cristina Dias (escola não identificada) e Maria João Lagarto (ES do Monte da Caparica)

Sessão Prática (FI): O COMPUTADOR E OS JOGOS EDUCATIVOS EM MATEMÁTICA O 1º CICLO, por Conceição Patrício e Sara Cacela (escolas não identificadas)

Esta lista inclui 89 intervenções, realizadas ao longo de nove anos lectivos, ou seja, uma média de quase 10 intervenções por ano.

Destas intervenções, 37 foram realizadas em 5 Encontros Regionais (média superior a 7 por encontro), 24 em 9 ProfMats (média entre 2 e 3 por ProfMat) e 28 em outros tipos de encontro, tendo a sua disribuição por ano lectivo sido esta:


Conforme o seu tipo, essas intervenções distribuiram-se assim:


A maioria destas intervenções teve carácter «interno» (DI + FI).
A «divulgação» começou por ser «interna» (DI), passando gradualmente a ser «externa» (DE).
E a grande maioria foi «formação» (FI + FE), embora em boa parte baseada na experiência dos projectos regionais.
Foram quatro os anos lectivos em que o número destas intervenções mais se destacou: 1991-95, com um ponto alto em 1992-93.

A escrita

As intervenções dos professores que leccionaram Matemática nos concelhos de Almada e Seixal não se limitaram a ser «ao vivo», tenham elas, depois, sido ou não registadas numa «acta». Alguns destes professores também escreveram para revistas, nomeadamente para a «Educação e Matemática» da APM. Mas esses escritos nunca visaram divulgar projectos por eles implementados (embora, também nestes casos, alguns se tenham neles inspirado): a decisão de os escrever terá sobretudo resultado de aprendizagens pessoais não limitadas pelas preocupações com as aplicações profissionais. No entanto, para compreender a relação entre as dinâmicas individuais e as colectivas nesta região, também é importante considerar estas intervenções.

Os artigos que recenseei foram os seguintes:

Ensino da Matemática nos Anos 80 (1982)

ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE O ENSINO DA GEOMETRIA, por José Manuel Leonardo de Matos (ES Nº 2 de Beja), Maria Clara Duarte Leite de Almeida e Maria Luísa Sequeira Carvalho Teixeira (ES Linda-a-Velha)

PROFMAT

Nº 1 (1985): MATERIAIS MANIPULATIVOS NO ENSINO DA MATEMÁTICA, por Domingos Fernandes (ESE de Viana do Castelo), Cecília Monteiro (ESE de Lisboa), Henrique Guimarães (FC da UL) e José Manuel Matos (ESE de Santarém)

Nº 1 (1985): A EXPANSÃO DOS COMPUTADORES NO ENSINO E A FORMAÇÃO, por Gertrudes Amaro (ESE de Beja) e José Manuel Matos (ESE de Santarém)

Nº 1 (1985): OS CONCEITOS DE GEOMETRIA DOS FUTUROS PROFESSORES PRIMÁRIOS E EDUCADORES DE INFÂNCIA, por José Manuel Matos (ESE de Santarém)

Educação e Matemática

Nº 5 (1988): A TRAVESSIA DO DESERTO E AS SUCESSÕES, por Ana Baltazar (ES Maria Amália Vaz de Carvalho)

Nº 6 (1988): UM EXEMPLO DE DIDÁCTICA DA GEOMETRIA, por José Manuel Matos (FCT da UNL)

Nº 7 (1988): A DANÇA DAS CIRCUNFERÊNCIAS, por Ana Paula Natal (na ES Maria Amália Vaz de Carvalho)

Nº 7 (1988): contributo para PROBLEMAS / IDEIAS / SUGESTÕES, por Ana Paula Natal e Maria de Jesus Bicho (ES Maria Amália Vaz de Carvalho)

Nº 11 (1989): TRIGONOMETRIA ... COM UM POUCO DE SORTE!, por Ana Baltazar (na EBS Ruy Luís Gomes) e Fátima Delgado (na ES Anselmo de Andrade)

Nº 11 (1989): LOGO.MAT, por Margarida Junqueira (Projecto Minerva, FCT da UNL) e Sérgio Valente (ES Anselmo de Andrade)

Nº 11 (1989): VAMOS JOGAR, por José Paulo Viana (ES Marquês de Pombal), Paula Teixeira (escola não identificada) e Rita Vieira (ES Emídio Navarro)

Nº 12 (1989): VAMOS JOGAR, por José Paulo Viana (ES Marquês de Pombal), Paula Teixeira (escola não identificada) e Rita Vieira (ES Emídio Navarro)

Nº 13 (1990): QUE PAPEL PARA OS MANUAIS ESCOLARES? UMA SONDAGEM JUNTO DOS AUTORES, por Henrique Guimarães (FC da UL) e Pedro Esteves (ES José Afonso)

Nº 13 (1990): MATERIAIS PARA A AULA DE MATEMÁTICA, por Ana Paula Natal (ES Anselmo de Andrade)

Nº 13 (1990): CONSTRUA VOCÊ MESMO, por José Paulo Viana (ES Marquês de Pombal), Paula Teixeira (escola não identificada) e Rita Vieira (ES Emídio Navarro)

Nº 13 (1990): VAMOS JOGAR, por José Paulo Viana (ES Marquês de Pombal), Paula Teixeira (escola não identificada) e Rita Vieira (ES Emídio Navarro)

Nº 14 (1990): LOGO.MAT, por Margarida Junqueira (Projecto Minerva, FCT da UNL) e Sérgio Valente (ES Anselmo de Andrade)

Nº 14 (1990): VAMOS JOGAR, por José Paulo Viana (ES Marquês de Pombal), Paula Teixeira (escola não identificada) e Rita Vieira (ES Emídio Navarro)

Nº 15 (1990): O PROBLEMA DO PROFMAT 90, por Pedro Esteves (ES José Afonso)

Nº 15 (1990): VAMOS JOGAR, por José Paulo Viana (ES Marquês de Pombal), Paula Teixeira (escola não identificada) e Rita Vieira (ES Emídio Navarro)

Nº17 (1991): MVT-CO: OUTRA FORMA DE, A BRINCAR, DESCOBRIR A MATEMÁTICA, por Margarida Junqueira (Projecto Minerva da FCT da UNL) e Maria de Lourdes Fernandes (ES Parede)

Nº 19-20 (1991): A PRETEXTO DA REFORMA, por Henrique Guimarães (FA da UL) e José Manuel Matos (FCT da UNL)

Nº 19-20 (1991): OPINIÕES SOBRE OS NOVOS PROGRAMAS. UMA SONDAGEM AOS PARTICIPANTES NO PROFMAT 91, por Henrique Guimarães (FA da UL) e José Manuel Matos (FCT da UNL)

Nº 21 (1992): HEX DA MULTIPLICAÇÃO, pelo projecto AlterMATivas, com um contributo da NCTM

Nº 23 (1992): PERSPECTIVAS INTERDISCIPLINARES EM FÍSICA E MATEMÁTICA, por Cremilde Ribeiro e Margarida Junqueira (Projecto Minerva, FCT da UNL)

Nº 24 (1992): IMPRESSÕES DE UM PROFMAT, por Pedro Esteves (ES José Afonso)

Nº 26 (1993): VISUALIZAÇÃO ESPACIAL: ALGUMAS ACTIVIDADES, por Fátima Gordo (ESE de Setúbal) e José Manuel Matos (FCT da UNL)

Nº 27 (1993): ESTUDANDO JUROS EM DIVERSOS MOMENTOS DA HISTÓRIA, por José Manuel Matos (FCT da UNL)

Nº 27 (1993): HISTÓRIA EM EDUCAÇÃO MATEMÁTICA: MODA OU NECESSIDADE?, por Ana Vieira (escola não identificada), Eduardo Veloso (instituição não identificada) e José Manuel Matos (FCT da UNL)

Nº 31 (1994): PROFISSÃO: PROFESSOR DE MATEMÁTICA, por José Manuel Matos (FCT da UNL)

Nº 33 (1995): DIRK STRUIK FEZ 100 ANOS!, por Maria João Lagarto (ES do Monte da Caparica)

Nº 39 (1996): DESCOBRIR SEGREDOS NA EDUCAÇÃO MATEMÁTICA, UM MODO AGRADÁVEL DE PASSAR A TARDE!, por Margarida Junqueira (ES S. João do Estoril)

Estes 33 escritos distribuiram-se assim ao longo dos anos lectivos em que foram publicados (excepto os 4 primeiros, todos os outros foram-no na revista «Educação e Matemática»):


Os anos em que estes escritos ocorreram em maior número foram seis: 1988-93, ou seja, começaram mais cedo que as intervenções «ao vivo» e abrandaram, sensivelmente, pela mesma altura (os números da revista «Educação e Matemática», nestes anos, eram publicados com alguma atraso).

Comentários

Na primeira metade da década de 1990 muitos professores descreveram as suas intervenções escolares como «projecto», designando também desta forma outras iniciativas que haviam tomado na década anterior. Isso é perceptível no modo como o José Tomás, a Filomena Teles e a Rita Vieira, na transição para a segunda metade dos anos 90, se referiram ao que haviam feito e visto fazer nas suas escolas (reler, respectivamente, os testemunhos «050», «060» e «068»).

Na base dos «projectos» estão os seus «autores» (os que o conceberam) e os seus «actores» (os que os implementaram), papéis que sempre coincidiram nos casos a que me referi acima (tratando-se dos projectos colectivos, verificaram-se diferentes graus de participação).
Mas os «projectos» também podem ter «vozes», ou seja, quem os divulgue, ou quem divulgue aquilo para que eles foram inspiração; e há, ainda, «vozes» que se fazem ouvir sem que tenham como origem um «projecto». Acima, as primeiras «vozes» estão sobretudo agrupadas na segunda parte deste testemunho (a «divulgação e a formação») e as segundas na terceira parte (a «escrita»).

As «vozes» que divulgaram os projectos, ao expressarem o que se fez, ou o que mais se aprendeu com o que se fez, ensaiaram a «compreensão» daquilo sobre que falaram; e, potencialmente, ajudaram a que outros professores se tornassem «autores e actores» de futuros projectos. Assim, estas «vozes» parecem-me terem sido o aspecto decisivo dos «projectos», sendo a sua expressão um primeiro passo para uma visão mais profunda sobre a profissão docente.
Já a «escrita» destinada a ser publicada em revistas, e que agrupei na terceira parte deste testemunho, se configura como tendo sido, mais frequentemente, a expressão de percursos mais individuais, mais afastados do núcleo central da profissão docente, embora também a enriquecendo.

Foram estas 54 as «vozes», referidas acima, que intervieram em encontros do associativismo dos professores de Matemática (na condição de terem leccionado Matemática, ou outra disciplina, nos concelhos de Almada e Seixal):

Ana Baltazar, Ana Boavida, Ana Cristina Fonseca, Ana Mota, Ana Paula, Ana Paula Aguilar, Ana Paula Filipe, Ana Paula Natal, Ana Teresa Alves, Ana Teresa Mateus, Ângela Queiroz, Arminda Chambre, António Domingos, António Jorge Andrade, Celeste Ganço, Conceição Patrício, Cremilde Ribeiro, Cristina Neto, Diamantina Carmona, Dora Almeida, Doroteia Costa, Fernanda Albuquerque, Fernanda Coelho, Fernando Camejo, Filomena Teles, Francisca Angelino, Gastão Cristelo, Helder Martins, Joana Guerreiro, José Manuel Matos, José Tomás, Isabel Barrau, Isabel Gameiro, Lídia Lourenço, Lídia Matias, Luisa Lopes, Manuel Esquível, Manuel Figueiredo, Manuela Cruz, Margarida Junqueira, Maria Gardete, Maria João Lagarto, Maria da Luz Duarte, Maria do Rosário Figueiredo, Mirita Sousa, Palmira Barroso, Patrícia Cascais, Pedro Esteves, Regina Caeiro, Rita Vieira, Sara Cacela, Sérgio Valente, Teresa Nascimento e Vera Figueiredo.

E foram estas as 11 «vozes» que se expressaram publicamente através de revistas ligadas ao ensino da Matemática (apenas 2 não figuram na anterior lista):

Ana Baltazar, Ana Paula Natal, Cremilde Ribeiro, Fátima Delgado, José Manuel Matos, Margarida Junqueira, Maria João Lagarto, Maria Luísa Teixeira, Pedro Esteves, Rita Vieira e Sérgio Valente.

Para entender a dinâmica (interna e externa) desta rede de projectos, é necessário continuar observação do que lhe sucedeu nos anos lectivos seguintes.
No entanto, três problemas longitudinais se podem colocar desde já aos «projectos» (não à sua «rede»):

(1º) Nalgumas ocasiões do projecto AlterMATivas (interescolas) sentiu-se que a existência de um planeamento introduziu uma «rigidez» na actuação dos professores envolvidos. Então, como flexibilizar os objectivos e os processos dos «projectos» para que tal não aconteça?

(2º) O contexto de alguns dos projectos de escola foi-lhes fortemente desfavorável; o José Tomás (no testemunho «093») chegou a afirmar que as escolas são “instituições anti-projecto”; mas, nos anos 90, investigadores como Rui Canário esperavam que as escolas se organizassem em torno dos «projectos» (outros, como José Alberto Correia e Stephen Stoer, eram mais comedidos sobre isso). Então, como reforçar as defesas dos «projectos de escola», sem lhes fazer perder as suas potencialidades de aí inspirarem iniciativas semelhantes?

(3º) A subtil hierarquização introduzida pelos concursos que apoiam financeiramente os projectos é uma das origens (ou até a única) para a rigidez da sua implementação. Haverá alternativa a esses apoios?


Notas sobre as fontes usadas e sobre o modo como as usei:

* As escolas referidas foram-no através do seu nome actual (tanto quanto os consegui identificar);
* Há intervenções que não referi por não figurarem nas actas dos encontros em que foram feitas, não dispondo eu de outras informações sobre elas; o caso mais extremos é o do 6º Encontro Regional, pois as suas actas não foram feitas

* A publicação de diversas intervenções não refere as escolas de quem interveio (por exemplo, desconheço quem seria a «Isabel Amorim» que foi responsável pela Sessão Plenário O CAOS NO ENSINO SECUNDÁRIO);
* Apesar de figurarem no programa do 4º Encontro Regional, não encontrei registo (nem nos arquivadores do Núcleo Regional) sobre quem participou na Mesa Redonda PENSAR A REFORMA e no Debate A FORMAÇÃO CONTÍNUA DE PROFESSORES (apenas encontrei o registo das presenças no segundo, mas não o registo das presenças na primeira);
* Apesar de ter referências noutros documentos à preparação do Painel A AULA DE MATEMÁTICA, pelo menos com José Manuel Matos (FCT da UNL) e Filomena Teles (ES Anselmo de Andrade), e do Painel DIFERENTES FORMAS DE ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO NA AULA DE MATEMÁTICA, pelo menos com Patrícia Cascais (ES Francisco Simões), as Actas do ProfMAT de 1995 não as publicam (as intervenções terão sido concretizadas?);
* As fontes discordam em alguns pormenores, pelo que a decisão sobre a versão a apresentar foi tomada por mim, de acordo com a memória e com a crítica à plausibilidade de cada uma das versões)


Fontes:

Actas dos Encontros Regionais (1991; 1992; 1993; 1994; e 1995);
Actas dos ProfMAT (1987, 1988, 1989, 1990, 1991, 1992 1993, 1994 e 1995);
Actas de «Ensino da Matemática nos anos 80»
Pedro Esteves / Documentos digitais / tese de mestrado (ficheiros «4EXPR2», «4EXPR3», «4EXPR6», «4EXPR8» e «4EXPR9»);
Revistas «Educação e Matemática» (1 a 39);
Testemunhos neste blogue: «058», «079», «095» e «096»

[088] Outro exemplo de mudança na José Afonso: o caso da elaboração do Projecto Educativo

Memórias

No texto que escrevi, algures no início de 1992-93, propondo à Escola Secundária do Seixal e ao seu Conselho Directivo que elaborássemos um Projecto Educativo [ver o testemunho «077»], incluí uma citação de Berta Macedo em que ela, após estudar empiricamente o que algumas escolas já haviam feito, o classificou, de acordo com a mobilização de actores, em três tipos:
* o projecto do «chefe» ou da «equipa», correspondente ao paradigma racional-burocrático de “organização eficaz”, no qual os factores como a negociação, a tomada de decisão e a participação não são considerados elementos fundamentais para a sua riqueza e realização;
* o projecto «adição de projectos dos grupos», correspondente a uma organização escolar descriptível como “sistema debilmente acoplado” ou como “anarquia organizada”;
* e o projecto da «organização escola», correspondente ao reconhecimento de que “é na riqueza dos actores e na sua interacção que se joga uma parte fundamental da coerência, pertinência e qualidade dos projectos”, sendo neste sentido que “elaborar um projecto de escola pode ser entendido como algo que ultrapassa a questão do domínio de um conjunto de técnicas e dispositivos sobre metodologias de projecto, para se transformar num processo de compromisso colectivo sobre a lógica ou lógicas de funcionamento da escola”.

Só em 1993-94 esta tentativa de elaborar um Projecto Educativo foi iniciada, tendo sido realizadas pelo menos três reuniões (as que tenho documentadas). As duas primeiras destinaram-se ao grupo que iniciaria o processo e a terceira foi aberta a toda a escola.
A abertura à escola pretendia mobilizar os professores mais dinâmicos, a partir dos quais outros poderiam ser depois mobilizados. Por isso ficou acordado que, ao longo do ano, esses professores iriam contactar os grupos que pensávamos vir a ter um papel na definição do projecto: a Associação de Estudantes, a Associação de Pais, os Funcionários, os grupos disciplinares, os projectos da escola, a Secção de Formação do Conselho Pedagógico, as turmas e os respectivos Directores de Turma).

Para ter uma primeira ideia sobre o resultado desta estratégia «bola de neve» é possível recorrer a uma lista de quem se envolveu (sempre voluntariamente) nestas reuniões:


O grupo inicial era constituído por três membros de um antigo Conselho Directivo (o Louro, a Teresa e eu), por um membro do Conselho Directivo em funções (o Luís Carlos) e pela coordenadora da Biblioteca Escolar (a Alice).
Quanto aos participantes na reunião aberta, com a excepção de dois, ou haviam sido membros de Conselhos Directivos, ou eram-no, ou viriam a sê-lo nos próximos anos. As excepções eram a Alice e a Carla.

Em 1994-95 o número de reuniões de que tenho notícia não foi muito maior (quatro) mas o número de participantes alargou-se bastante:



Comparando-os com o ano anterior, deixaram de participar nestas reuniões a Alice Santos, a Anabela Esteves, a Carla Ferreira, a Manuela Vieira e, por terem saído da escola (para a Câmara Municipal do Seixal), o Luís Carlos Carvalho e a Teresa Ré (penso que foi durante este ano que ela saiu).

No total dos dois primeiros anos, houve 35 professores que participaram em pelo menos uma das sete reuniões realizadas, tendo eu sido o único totalista, seguido pelo João Louro e pela Madalena Ferreira, que participaram em cinco (a Madalena apenas se iniciou no final de 1993-94).
Estes 35 participantes representariam perto de 20 % do total dos professores da escola, o que não seria mau, desde que eles se envolvessem com entusiasmo. Mas a média de reuniões em que cada um deles participou foi muito baixa (ligeiramente inferior a 2 reuniões). Pelo que, apesar de a média de participantes em cada uma das reuniões ter sido mais aceitável (cerca de 10), nem era de esperar um trabalho continuado por parte de muitos deles, nem uma grande interacção entre os diversos sectores da escola.
É possível ilustrar este receio com o caso dos professores que animavam os projectos extracurriculares: dos 20 que foram referenciados na reunião de 11 de Janeiro de 1995 [ver testemunho «086»], somente 10 participaram nos encontros destinados à elaboração do Projecto Educativo em 1993-94 e 1994-95 (e representavam apenas seis dos dez projectos animados por esses 20 professores).

Contrariando o desconforto que este receio justificava, houve progressos no trabalho efectuado durante 1994-95:
* as áreas a figurar no futuro Projecto Educativo começaram a estabilizar (a curricular; a extracurricular; a social; a administrativa; e a das instalações);
* foram constituídos grupos de trabalho para entre o fim das aulas e o início das férias dos professores: a Ana Chorincas, a Ana Fiel e a Rosário Leocádio elaborariam o «inquérito» a aplicar depois das férias; a Antónia Fradinho, a Aurora Garcia e eu pegávamos na «área escola»; a Adelaide Pereira, a Clorinda Agostinho, o João Louro e a Naia Tricamegy analisavam as «questões pedagógicas»; e a Alexandra Pratas, a Ana Crespo, a Madalena Ferreira, a Adelaide Duarte e a Luísa Gracioso dedicavam-se à «escola cultural».
* e foi elaborado um calendário para o que se previa ser necessário fazer no ano seguinte, 1995-96, que começaria por um plenário dos anteriores grupos de trabalho, a concretizar logo no início de Setembro, antes de as aulas recomeçarem.

E com estes progressos chegavam também os sinais da diversidade de pontos de vista que, oportunamente, teriam de ser conciliados:
* uns pensavam que o Projecto Educativo deveria «valorizar a cultura própria» da escola, sendo portanto necessário respondermos a perguntas como «em quê, como escola, somos bons?»;
* outros pensavam que, se o Projecto Educativo (por exemplo) optasse pelas «pedagogias activas», deveríamos, consequentemente, definir o «perfil do aluno» a sair da escola, bem como o «perfil do professor» necessário ao êxito desse trabalho;
* e havia quem pensasse ao contrário dos anteriores, defendendo que só através da concretização do Projecto Educativo se poderia conhecer a «cultura da escola», e até «criar uma nova cultura», pelo que o «perfil da escola dependia dos alunos e dos professores que nela estivessem».


Comentários

A classificação dos Projectos Educativos que a Berta Macedo elaborou era, como qualquer outra classificação, uma forma de estabelecer diferenças que ajudassem a perceber as forças e as fraquezas dos casos concretos.

Com base nessa classificação, que se pode então dizer do nosso primeiro Projecto Educativo, elaborado em função da candidatura à «Escola Cultural» e exclusivamente constituído com os contributos dos membros do Conselho Pedagógico [ver o testemunho «030»]?
Ele nem resultou de «um chefe», nem de «uma equipa», nem de «uma aproximação entre actores», sendo mais parecido com «uma adição de projectos». Mas essa «adição» não tinha qualquer «alma»: mal se soube que não havíamos sido seleccionados para a Escola Cultural, o projecto foi automaticamente esquecido. Elaborar este Projecto Educativo foi uma tentativa para aproveitar uma oportunidade, seguida por uma resposta oportunista.

A intenção subjacente à segunda tentativa para elaborar um Projecto Educativo, esta que estou a descrever, apontava, claramente, para o terceiro dos tipos descritos pela Berta Macedo, ou seja, pretendia que fosse um projecto resultante da aproximação e da interacção entre os diversos actores escolares e da sua consequente adopção por todos. Por isso estes foram desde cedo identificados e o processo de elaboração mantido aberto à participação de todos, procurando assim evitar quer a sua apropriação por grupos particulares, quer a mera adição dos contributos dos diversos membros da comunidade.
Esta segunda tentativa também viria a falhar. Distante da anterior em cerca de meia década, ela é uma boa fonte para perceber o que a escola evoluiu ao longo deste espaço de tempo e, também, por ter sido uma tentativa lenta, para perceber o que ainda lhe faltava evoluir para se poder reivindicar como «autónoma».


Fontes:
Pedro Esteves / Arquivador de documentos analógicos ESJA Seis (Doc.s 65, 71, 87, 103, 106 e 107)
Artigo de Macedo (1994)

[073] Uma apreciação do Projecto AlterMATivas, três décadas depois (V)

Estudo de caso


As reflexões depois do projecto: sobre o sistema

Como se viu, a equipa do AlterMATivas tanto encontrou no contexto reformista e associativo um estímulo para o seu projecto como, com outros professores da sua região, o ampliou (fundando e animando o Núcleo da APM) e reforçou (afirmando uma das suas características centrais, a iniciativa profissional).
Esta interacção permitiu que fossem estabelecidos os primeiros «nós» de um «rede» de possíveis cooperações e criadas condições para que o «sistema» em que todos trabalhávamos fosse pensado. No entanto, no final de 1992-93, coincidindo com a conclusão do AlterMATivas, essa interacção estava a ser profundamente modificada, como consequência das alterações provocadas pela reforma curricular em vias de se generalizar.
Como foram estas mudanças sentidas (ou não) pelos membros da equipa do projecto?

O problema da «rede»

No Relatório Final do AlterMATivas, o impacto dos materiais científicos, pedagógicos e escolares que estavam a começar a ser divulgados como forma de apoio à reforma curricular levou a que tivéssemos comentado o futuro de projectos semelhantes ao nosso como já não possuindo tanto o objectivo de “criar ideias «desde o início»” mas sim o de “incluir mais fortemente uma componente de recolha e de adaptação de ideias publicadas, em função de metodologias que respondam a problemas contextualizados”.
Poucos anos depois, através da minha tese de mestrado, descrevi as consequências que a reforma curricular tivera nos professores que haviam estado envolvidos no AlterMATivas e no Núcleo Regional a partir de um outro ponto de vista, o do associativismo:

·      “o trabalho associativo local não mobilizara amplas faixas de professores para a Reforma Curricular (estava limitado a um determinado perfil de professores); e

·      iria ser reforçado o papel de uma multiplicidade de actores externos às escolas (especialistas de desenvolvimento curricular, de produção de materiais educativos, de formação, etc.).” Nota 38

O contexto do nosso trabalho modificara-se, lembrando-nos que, além das interacções cooperativas, também teríamos de contar com concorrências, se não mesmo com conflitos. E a parte do contexto que era favorável à cooperação encurtara-se, pois agora só podíamos contar com os docentes mobilizáveis associativamente.
A este encurtamento deveriam ser acrescidos dois outros limites da nossa rede de acção, a que nunca havíamos prestado grande atenção, apesar de eles nos caracterizarem desde a fundação do Núcleo: por um lado, a maioria dos professores que faziam parte dessa rede leccionava o 2º e o 3º Ciclos (assim foi no AlterMATivas, no Grupo de Trabalho do 5º e do 7º ano e no MATlab), não contando com aqueles que leccionavam o 1º Ciclo e, menos radicalmente, o Secundário; por outro lado, não foi explorada a via do associativismo multidisciplinar (as poucas e breves excepções conhecidas verificaram-se nalgumas escolas, tendo sido divulgadas pelo Núcleo da APM).

Em Almada e Seixal, os contactos com os professores que leccionavam as «didácticas» no Ensino Superior foram bem sucedidos até meados da década de 1990 (eles participaram em todos os Encontros Regionais). Mas esta era uma área em que as ideias estavam a fervilhar, devido à teoria que tinha sido escolhida para orientar a reforma curricular.
Para José Augusto Pacheco (baseando-se em Stephen Kemmis), as «teorias curriculares» então disponíveis eram três Nota 39. A teoria técnica, que predominara até meados da década de 1970, atribuía a condução das reformas curriculares a um Estado normativo, com o apoio técnico de especialistas, sendo dela ainda exemplo a que acabara de ser implementada entre nós. A teoria prática atribuía aos especialistas a autoria do currículo, pretendendo que este fosse uma ferramenta para os professores, que o deveriam adaptar às necessidades de aprendizagem dos alunos, tendo o Estado como papel coordenar a participação. E a teoria crítica encarava o currículo como um instrumento nas mãos de todos os intervenientes, em pé de igualdade, sendo o Estado responsável pelos processos de negociação.
Não admira que os nossos especialistas curriculares tenham criticado a escolha feita pelo Estado e que este, sob pressão, tenha acedido, em meados da década de 1990, a introduzir mudanças na reforma em curso, que viriam a equivaler a uma efectiva nova reforma, primeiro da organização das escolas e depois dos currículos (implementadas na transição das décadas de 1990 e de 2000). E a teoria curricular escolhida para orientar esta mudança foi a «teoria prática».
No AlterMATivas não eram conhecidas «teorias curriculares». Mas, se o fossem, tenho a certeza que os membros da equipa iriam preferir ou a teoria prática ou a teoria crítica; e se conversassem sobre isso depois de as personalidades com maior influência na própria Associação de Professores de Matemática se terem começado a alinha pela escolha que o Ministério da Educação havia feito, estou convicto que a equipa do AlterMATivas não se iria entender Nota 40.
O contexto associativo também se estava a complexificar. E tornava-se claro que os professores precisavam de desenvolver uma teoria curricular própria, o que pressupunha discutirem as teorias que existiam e, como consequência, o papel que associativismo devia ter em relação às reformas.

A decisão de frequentar um mestrado foi, para muitos professores, apenas uma oportunidade para progredir mais rapidamente na sua carreira; não pretendiam aprender para o reinvestir na escola.
Mas alguns levaram para o mestrado motivações com origem na sua acção profissional, deparando-se, no entanto, com o problema de estar fora do contexto que as gerou: uma das grandes limitações de um mestrado é o facto de os temas abordados na parte curricular e na dissertação terem de encaixar em «linhas de investigação» definidas pela instituição formadora, ou seja, adequadas ao que lá se faz e se pensa vir a fazer.
Eu e a Filomena, depois de terminado o projecto InterMAT, decidimos concorrer ao mestrado em Ciências da Educação na Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT), no Monte da Caparica, tendo nele entrado em 1994-95.
A minha decisão teve a ver com as insuficiências que sabia ter no campo da «investigação». Não as quis resolver através do mestrado da Faculdade de Ciências de Lisboa, para não ficar fechado na «didáctica» (um tema facilmente tecnocratizável), e agradara-me a amplitude do tema proposto na FCT, a «educação e desenvolvimento», bem como a forma de a parte curricular ser abordada, por grandes áreas em contacto umas com as outras (o que, em vez de levar « a educação para o mundo», traria « o mundo para a educação»).
Só tomei uma decisão sobre o que iria estudar para escrever a dissertação quando a parte curricular terminou, talvez por me ter apercebido, ao longo desta, das incompletudes do trabalho que andávamos a fazer no Núcleo Regional Nota 41. A Filomena, pelo contrário, já levava uma ideia muito definida sobre o que queria aprofundar: na entrevista que lhe fiz (destinada à minha dissertação) ela explicou-me que durante o AlterMATivas se apercebera da dificuldade que muitos alunos tinham para “expressar minimamente as suas ideias”, tendo por isso colocado a hipótese de “uma boa parte do insucesso” poder ser devida aos professores de Matemática não lhe darem a “devida importância”; portanto, ela queria perceber o que se passava entre as nossas cabeças e os meios de que dispúnhamos para comunicar uns com os outros (orais, escritos, visuais).

Conhecer o que os especialistas em educação tinham produzido e enriquecê-lo com novos conhecimentos (através de uma tese) chamava-nos a atenção para a ausência de um contexto favorável a que isso (também) acontecesse no seio da própria profissão docente, de modo a que aí pudéssemos melhor formular as nossas ideias, e até teorias, articulando, sempre que o achássemos justificado, «conhecimentos internos» e «conhecimentos externos». Mas não me recordo de ter havido qualquer manifestação de desejo nessa direcção.

O problema da «mudança»

O projecto AlterMATivas nasceu da consciência de que havia muito a mudar no nosso sistema educativo e da vontade de contribuir para essa mudança.
Mas «mudar» é a condição inelutável das pessoas, das instituições e das sociedades.

Em Portugal, os ventos de mudanças na educação tinham começado a soprar mais fortemente na década de 1960, acelerando notavelmente após 1974. Assim, as questões que se podiam colocar quase vinte anos depois, na primeira metade da década de 1990, não eram sobre haver ou não mais «mudanças», mas sim sobre a «direcção» em que elas iriam (a mesma, outra diferente?) e sobre «como» elas aconteceriam (quem as implementaria?). Pelo que, anunciar a necessidade de mudar apenas indiciava a vontade de desempenhar um papel maior no prosseguimento das inevitáveis mudanças, influenciando mais profundamente a sua «direcção» e o seu «como».

Ao concluir este olhar retrospectivo sobre o AlterMATivas e sobre os seus contextos, tenho pena de não ter sido realizado, por aqueles anos, um debate público entre todos quantos estavam envolvidos na educação. Talvez não conduzisse a nada, por diversas razões, sendo uma delas as grandes incompletudes que todos então tínhamos.
Mas, hoje, posso imaginar um tal debate, usando para ele os argumentos já disponíveis (ou em gestação) por volta dos anos em que o AlterMATivas foi implementado. Penso que esse debate virtual ajuda a clarificar o «passado» e, espero, também o «futuro».
Eis a sua transcrição:

 

Moderador (Ministério da Educação): Bom dia a todos! Obrigado pela vossa preença. Começarei por dar a palavra à Doutora Ana Benavente. Peço que se vão inscrevendo para intervir a seguir. E que, na altura de o fazerem, se identifiquem, através do nome e da situação profissional.

Ana Benavente (investigadora): Para reformular um “sistema” (transformando-o no seu conjunto; alterando-lhe a lógica subjacente; obtendo dele melhores resultados) é necessário que lhe sejam introduzidos “novos elementos”, aptos a produzir uma “descentração” em relação ao sistema existente. Penso, portanto, que “a mudança da escola exige uma descentração em relação à escola, assim como mudar as práticas na sala de aula exige um alargamento do espaço educativo”. Dou um exemplo: a “construção escolar do sucesso / insucesso” deve deixar de ser a «construção do insucesso», uma perspectiva fatalista, como até agora tem sido; ela deve passar a ser a «construção do sucesso”, e esta mudança exige “abandonar o conceito formal de «igualdade de oportunidades»”, no qual está suposta uma “«indiferença às diferenças»” Nota 42.

Desconhecido A (historiador): A sua teoria é interessante. Mas, penso, deveríamos lembrar-nos de uma observação feita pelo Raymond Boudon: “não pode haver reflexão, teoria ou investigação sobre a mudança social que se distinga seriamente da actividade intelectual designada habitualmente pelo termo «história».” Nota 43 Se ele estiver certo, então deveremos ter em conta que apenas nos está aberta a compreensão do «passado», mas não o modo de chegar a um determinado «futuro».

Desconhecido B (estudante numa ESE): Será sempre necessário estar atento às «diferenças» entre os alunos? Li há pouco tempo o «Diário» do Sebastião da Gama, que já tem uns quarenta anos, e ele um dia escreveu: “Entrei na aula e disse que o mais interessante e consolador seria que cada exercício trouxesse um cunho «pessoal e intransmissível». Que o facto de aparecerem trinta respostas diferentes a uma pergunta de modo nenhum significava que alguma delas estivesse menos certa.” Nota 44 Se entendo bem o que ele fez, em vez de estar atento às «diferenças», foi deixar que estas se manifestassem, tendo o cuidado de evitar uma das muitas situações que «produzem as diferenças», como a definição prévia de um padrão de chegada e a competição por esse padrão. Terei compreendido bem?!

Desconhecido C (membro do AlterMATivas): O meu futuro colega talvez tenha razão. No nosso projecto tínhamos como objectivo estar atentos às «diferenças», mas acabámos por, não mexendo nos «conteúdos» do programa e apenas mexendo nas «metodologias», cair numa das situações favoráveis à «manutenção das diferenças», que é a necessidade de «cumprir o programa».

José Augusto Pacheco (investigador): Se queremos mudar não nos podemos esquecer do peso exercido pelas “práticas centralizantes” do Estado sobre o nosso sistema educativo Nota 45.

José Alberto Correia (investigador): Sim, receio bem que essa centralização venha a apoiar o desenvolvimento de um “modelo tecnicista”, que permita ao Estado a ocultar as suas “opções políticas” e o seu “controlo sobre os professores” e que conduza as “chamadas ciência da educação” a se transformarem em “Tecnologias de Acção ou da Reforma Educativa” Nota 46. Ou seja, receio que venha transformar qualquer tentativa de descentração em novas formas de centralização. Como dizia o Lampedusa, há o risco de começarmos a “mudar tudo” para que “tudo continue como está” Nota 47.

Desconhecido C: No nosso projecto, o AlterMATivas, e nas iniciativas do associativismo regional onde ele se integrou, envolvemos professores de várias escolas, não respeitando as fronteiras que o costumam impedir. E através desta cooperação ganhámos coragem para criar novos espaços educativos em cada escola (clubes, laboratórios, ludotecas). Penso que estes dois aspectos são exemplos de «descentração».

Alberto Melo (investigador): “Os projectos experimentais que deram bons resultados foram, via de regra, realizados por «bons» investigadores-actores e encontraram um contexto favorável, parece-me, pois, demasiado optimista a perspectiva de generalização, pois, com outras pessoas e noutros ambientes, o projecto nunca será o mesmo.” É importante evitar a “«oficialização» - que significará a adopção dos projectos como programa a lançar de cima para baixo”, sendo preferíveis os processos de “disseminação” Nota 48.

Desconhecido C: Na nossa região apenas divulgamos as ideias e os projectos, e procuramos criar redes; talvez isso contribua para que haja «disseminação». Mas sempre que alguém se inspira no que foi divulgado introduz novas perpectivas, resultantes das suas preferências. É preciso contar com as «diversidades» e também com as «divergências» no trabalho cooperativo. Mas também é preciso contar com o enorme desgaste da manutenção destas inovações. Nota 49

José Alberto Correia: Gostaria de vos lembrar o Francis Imbert, que vem das correntes clínicas em pedagogia. Para ele, “a acção pensada como práxis não se pode confinar ao quadro de uma relação entre a teoria e a sua aplicação, isomorfa da relação «autor e paciente [pois ela] é interacção entre autores que se afirmam como seres actuantes uns em relação aos outros de tal forma que cada um nunca é apenas agente, mas sempre e ao mesmo tempo paciente»” Nota .50. Penso que é deste modo que temos de encarar qualquer relação estabelecida no interior do sistema educativo, pois são as relações que fundamentam qualquer mudança.

Rui Canário (investigador): Voltando aos «projectos». A escola tem estado “subordinada a uma lógica de compartimentação”. É necessário que o seu “projecto educativo” se torne o instrumento da “constituição da autonomia” da escola, capaz de “articular e fundir” num só processo as “vertentes da inovação, da formação e da investigação”. Teremos, então, a “escola das equipas e dos projectos.” Nota 51.

José Alberto Correia: Sim, mas diferentemente do “actor”, que se define “exclusivamente no domínio da poíesis em torno das noções ambíguas de estratégia e de intencionalidade”, o “autor encontra o seu sentido na práxis, na confluência da acção com o discurso”. Assim, se definirmos a escola “como processo”, ela “interpela o próprio discurso que a interpela”; os “projectos educativos de escola” correm riscos, se produzidos “em contextos de trabalho taylorizados” ou se permeáveis à “lógica de mercado” Nota 52.

Moderador: Obrigado pelos vossos contributos. O Ministério da Educação tem a intenção de lançar uma larga consulta pública, aberta à participação de todos, onde também contamos com a vossa!

 

Comentários finais (sem qualquer proposta)

Usei a ferramenta da auto-e-ecoprodução para, ao apreciar o projecto AlterMATivas, compreender melhor aquilo em que a profissão docente se pode tornar (sob o ponto de vista do que desejo).
Deliberadamente, mantive a ferramenta quase no mesmo estado em que a encontrei, ou seja, como se fosse um pedaço de madeira com que, de improviso, se procura estudar o funcionamento de um formigueiro.
O que encontrei parece poder ser resumido em poucas frases:
* Não foi possível compreender o AlterMATivas sem ter em conta cada um dos seus membros e dos seus contextos; era intenção do projecto contribuir para a «mudança da educação», mas o próprio conceito de «mudança» se torna intratável se se pretender dirigir esta para um resultado concreto.
* São as interações entre tudo e todos os envolvidos num dado processo que produzem a respectiva mudança; portanto, em vez de imaginarmos os resultados desta, é preferível entrarmos em contacto com «quem» (e observar «o que») nos acompanhará nesse processo.
* Seja para mudar a docência, uma escola, ou o sistema educativo, o esquema metodológico é o mesmo, como exemplifico a seguir com o caso mais geral:


* Há mais de cinquenta anos, a configuração dos envolvidos no nosso sistema educativo era dominada pelo Estado; e parece que continua a sê-lo, embora com uma orla muito mais robusta de parceiros previlegiados; é assim porque todos os outros parceiros não se conseguiram impor; mas também porque os previlegiados o quiseram ser e continuar a ser.

* Se houve dois contributos chave nesta minha apreciação do AlterMATivas, eles foram os dois que recordo e comento a seguir: o de Karl Popper, ao afirmar que “a nossa pedagogia consiste em sobrecarregar as crianças com respostas, sem que elas tenham colocado questões, e às perguntas que fazem não se presta atenção” Nota 53; e o de Sebastião da Gama, ao tornar clara a razão pela qual não lhe apetecia “classificar os rapazes”: é que “não é para isso que eu dou aulas.” Nota 54. Acho fundamental o contributo de Popper, porque realça a atitude básica de qualquer convívio, o sermos capaz de ouvir para podermos conversar. E acho de outro modo fundamental o contributo de Gama, porque toca no que deve ser um direito básico de qualquer profissional: a liberdade de incluir a sua intenção naquilo que faz.
* Definitivamente, penso que qualquer mudança de facto interessante (da docência, da escola, do sistema) dependerá do modo como formos capazes de articular estes dois contributos.



Notas finais à Vª parte:

Nota 38: Esteves (1998; capítulo 7 ponto 1.2).

Nota 39: Pacheco (1996)

Nota 40: Hoje penso que nenhuma destas teorias era consistente. Abordei-as e dicuti-as em Esteves, (2023; ponto 17); e penso voltar a elas, para as ultrapassar

Nota 41: Uma pequena história: o meu orientador de mestrado, o José Manuel Matos, já depois de conhecer o tema que eu escolhera para a tese, disse-me que, se estivéssemos nos Estados Unidos da América e se aí soubesse que havia um grupo de professores a fazer o que estávamos a fazer em Almada e Seixal, já tinha aparecido uma equipa de investigadores para o estudar. É claro que há vários significados possíveis para esta história: nos Estados Unidos há dinheiro para fazer estudos destes; em Portugal os investigadores não ligam às iniciativas que não são tomadas por eles, talvez por não terem dinheiro para outros voos; mas estas duas interpretações podem ser tomadas em simultâneo

Nota 42: Benavente (1989)

Nota 43: Boudon (1990)

Nota 44: Gama (1970)

Nota 45: Pacheco (1996)

Nota 46: Correia (1998)

Nota 47: Lampedusa (1995)

Nota 48: Melo, citado por Nóvoa (1992 b)

Nota 49: Como exemplo, o modo como descrevi na minha tese a conversa (entre alguns membros do Núcleo) sobre as formas de trabalho interescolas (já referida acima) foi este: “Como consequência, foram particularmente elucidativas três interpretações retrospectivas dos professores sobre o tipo de actividades inter-escolas que, nestas circunstâncias, poderiam ter continuado o trabalho associativo local de apoio à intervenção profissional:
* seria a dinamização associativa a desencadear as intervenções dos professores (ênfase para o papel inicial de alguns - tendência verticalizante);
* seria necessário partir das intervenções dos professores para definir qual a dinamização associativa (ênfase para o papel inicial de todos - tendência horizontalizante); e
* seria necessário atribuir a condução associativa aos professores que se envolveram nos projectos inter-escolas, em nome da organização local (tendência exemplar).
” Esteves, 1998; capítulo 7 ponto 1.2)

Nota 50: Correia (1998)

Nota 51: Canário (1991; 1992)

Nota 52: Correia (1998)

Nota 53: Popper, em debate com Lorenz (1990)

Nota 54: Gama (1970)



Fontes

As fontes

Sobre o Projecto AlterMATivas foram delimitados dois conjuntos de fontes, sendo considerados todos os documentos de um e de outro: o que foi coligidos pelo autor deste estudo de caso; e o que foi coligido no âmbito das iniciativas do Núcleo da APM em Almada e Seixal.

Sobre o contexto do Projecto AlterMATivas (Ministério da Educação; associativismo docente; escolas) apenas foram considerados os documentos já mobilizados no âmbito da escrita da tese de Esteves (1998).

Fontes principais

Actas de Encontros de Professores de Matemática:

Regionais (Almada e Seixal): 1991; 1992; e 1993;
Nacionais (ProfMAT): 1992 (Viseu); e 1993 (Açores)

Livros analógicos: Abrantes (1994); Barbier (1993); Benavente (1989); Böer e Meyer-Lerch (1989); Boudon (1990); Canário (1991); Canário (1992); Gama (1970); Lampedusa (1995); Esteves (1998); Nóvoa (1992 a); Nóvoa (1992 b); Pacheco (1996); Popper e Lorenz (1990); Santos (2008)

Pedro Esteves / Arquivadores analógicos:

APM Um (Doc. 8, 27 e 28);
ESJA Três (Doc.s 1, 2, 5, 127 e 128);
ESJA Quatro (Doc. 1, 18, 57, 106a, 106b, 106c, 107 e 158);
ESJA Cinco (Doc.s 33 a 46);
ESJA Sete (Doc. 1);
AlterMATivas

Pedro Esteves / Arquivador digital: Tese de Mestrado (4EXPR: 11; 12; 13; 16; 27; 28; 29; 41; 43; e 81)

Pedro Esteves / Pasta analógica: SPM (Inflexão: Nº 1, Junho de 1981)

Pedro Esteves / testemunhos deste blogue: «045», «049», «054», «059», «062», «063», «067» e 069»