[066] Para além das escolas (um balanço pessoal - até 1992-93)

Memórias

Desde o meu primeiro ano como professor estive em contacto com o imenso mundo que se actua nos bastidores das escolas.

Em 1979-80, quando começara a leccionar no Liceu Nacional de Almada (actual Escola Secundária Fernão Mendes Pinto), participei, durante duas semanas, em São Pedro do Muel, num encontro de preparação do lançamento da Educação Recorrente em Portugal. Tinham-me proposto vir a ser um dos professores experimentadores, pelo que, ao longo dos três anos lectivos seguintes (1980-83), leccionei o 2º Ciclo a adultos na Empresa Pública das Águas de Lisboa (EPAL). E, paralelamente, estive fui mantendo o contacto com as estruturas que coordenavam esta experiência, tanto na Direcção-Geral da Educação de Adultos como na própria EPAL.

A posterior passagem pelos Cursos de Formação de Jovens na Siderurgia Nacional, em 1985-87, assemelhou-se, na forma de trabalhar, ao que se passara na EPAL [testemunhos «001» a «005», «007», «011» e «012»]; mas o contacto com a respectiva coordenação foi muito diferente, pois esteve a cargo de gente da empresa que vinha falar directamente com os professores e os alunos. Senti-me muito mais livre para trabalhar deste modo.

O meu gradual envolvimento na Associação de Professores de Matemática (APM) iniciou-se através da participação num ou dois encontros organizados pelo seu Núcleo de Lisboa, ainda antes de, em Almada e Seixal, se ter fundado o respectivo Núcleo [ver testemunho «040»].
Um dos resultados desse contacto surgiu pouco tempo depois (em 1989): o José Paulo Viana, a Odete Bernardes, a Paula Teixeira e eu publicámos, através da APM, um livrinho que intitulámos «mais JOGOS, mais ENIGMAS, mais PROBLEMAS».

Não me recordo das circunstâncias que levaram o José Paulo e eu a fazer parte da redacção da revista da APM, a Educação e Matemática. Era então coordenada pela Leonor Moreira, e dela também faziam parte o António Bernardes, o Eduardo Veloso, o Henrique Guimarães e o Paulo Abrantes.
Estive lá cerca de um ano, aproximadamente coincidente com o ano lectivo de 1989-90.
Foi durante esse tempo que o Henrique e eu escrevemos (para o Nº 24, publicado com a data de Março de 1990) um artigo intitulado: «Que papel para os manuais de Matemática? Uma sondagem junto dos autores.»

Em 1990-91 a minha escola, a Secundária do Seixal, achou que eu aí deveria vir a ser o coordenador do Projecto Vida, que estava a ser preparado, a nível nacional, pela Catalina Pestana. Tinha como finalidade a prevenção em relação as comportamentos de risco dos alunos, como o consumo de droga. O método usado para preparar os coordenadores escolares foi, mais uma vez, um «retiro», desta vez mais curto: três dias (19 a 21 de Março) no Vimeiro, para ouvir preleções sapientes.
Mas não gostei do que ouvi, pelo que, ao regressar, pedi à escola que me substituísse.

Em 1992-93, não me recordo novamente em que circunstâncias, fui desafiado a integrar um Grupo de Trabalho que tinha por objectivo criar o Centro de Formação da APM. Lembro-me de também lá estarem o Albano Silva, a Cristina Loureiro, a Graciosa Veloso e o Paulo Abrantes.
Depois de um processo que passou pela Direcção e pelo Conselho Nacional da associação, o Centro de Formação foi criado, no final do ano lectivo, tendo sido criada uma Comissão Pedagógica onde estavam os membros do Grupo de Trabalho mais a Helena Correia, a Margarida Goulão e a Maria José Oliveira.
Os sócios ficaram a saber da novidade através do boletim «APMinformação» (nº 16, Julho de 1993), onde, por um lado, se fazia uma queixa sobre a “relação estabelecida [na lei] entre formação contínua e progressão na carreira docente” e, por outro, se resumia a aposta feita pela APM como uma ”simbiose entre projectos e formação”.
E, de facto, o Plano de Formação anexo a este boletim reconhecia que “Praticamente toda a actividade da Associação, desde o seu nascimento, tem uma componente de formação (nalguns casos mais informal, noutros mais explícita e organizada)”, pelo que propunha que os seus objectivos fossem os da “formação centrada em projectos”, considerando que um “projecto” tanto seria o “contexto geral no qual se desenvolve uma grande variedade de processos e formas de trabalho” como “uma acção ou intervenção pedagógica, na sala de aula ou na escola, com objectivos definidos, que é planeada, desenvolvida e avaliada de modo cooperativo por um grupo de professores, e na qual eles se envolvem de uma forma interessada e empenhada”, ou seja, não se destina a formandos que sejam «consumidores passivos» nem «correias de transmissão».

A primeira página (de quatro) do Plano de Formação

Acabei por ficar dois anos (1993-95) na Comissão Pedagógica do Centro de Formação; mas, de novo, não gostei do rumo tomado, e decidi sair.

Talvez por estarmos envolvidos na criação do Centro de Formação, o Albano Silva e eu fomos desafiados a animar sessões práticas para os sócios do Núcleo de Coimbra da APM. Fizemo-lo no dia 29 de Março de 1993. Mas não apreciei muito o trabalho que preparei.

Um mês e meio mais tarde, em 15 e 16 de Maio de 1993, foi realizado o 4º Interescolas de Xadrez do Seixal, organizado pelos mesmos professores que já o haviam feito nas anteriores edições (o Emílio Quaresma, o Francisco Caetano e eu). Desta vez, por proposta da Câmara Municipal, a iniciativa foi integrada nas Xas Seixalíadas Escolares.
Individualmente, o vencedor foi o Ricardo Sousa (ES da Amora), tendo as melhores equipas sido, em sub 20, a ES da Amora; em sub 16, a ES Nº 1 do Seixal; e em sub 12, a EP de Corroios.
Esta iniciativa não voltaria a ser realizada, tendo sido substituída pelos Interescolas de Jogos de Reflexão de Almada e Seixal [testemunho «065»].
Breve balanço destes quatro interescolas:



Comentários

Há várias razões para as escolas precisarem de parceiros educativos a actuar nos seus bastidores: eles organizam, coordenam, apoiam, investigam, constroem, divulgam, etc., etc.. No entanto, também é nos bastidores da Educação que se concentra o poder de decidir, o que os torna espaços particularmente problemáticos.

As minhas passagens por estes espaços, tal como pelos órgãos de administração e gestão da Escola Nº 1 do Seixal (actual José Afonso) foram, por isso, sempre conflituosas. Aprendi aí o que só passando por lá se pode aprender. Mas também discordei, frequentemente, do modo como aí se actuava, em particular devido ao autoconvencimento e aos jogos de poder.


Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico APM Três (Doc. 123) / Arquivador analógico ESJA Cinco (Doc.s 122 e 132)

[065] O segundo ano do projecto MATlab

Memórias

Era ideia inicial do MATlab “criar espaços exteriores às aulas, dentro da Escola, capazes de gerar interesse e iniciativa dos jovens em relação à Matemática”, de modo a “favorecer o desenvolvimento de capacidades como a cooperação, o sentido de risco, a elaboração de projectos e estratégias e a definição de valores” e, claro, a contribuir “para o melhoramento da Matemática feita na Escola”. Esse espaço deveria “ser utilizado livremente pelos alunos”, permitir “a interacção com as actividades curriculares” bem como a “dinamização e integração de iniciativas a nível das comunidades” em que cada escola se inseria [testemunho «049»]
No final do primeiro ano do MATlab, 1991-92, o relatório que procedeu ao balanço do trabalho feito comentou assim aquela que pode ter sido a sua principal dificuldade: “É fácil pôr os jovens a jogar, torna-se mais difícil criar situações em que não é só «o jogo pelo jogo» (onde se percebe como se joga e porquê, etc...); mas, mais difícil é aprender fazendo e experimentando, formular hipóteses, testá-las e depois tirar conclusões.” [testemunho «055»]

O segundo ano deste projecto, 1992-93, veio mostrar que esta ambição teria de ser concretizada articulando a descentralização com a centralização:
(a) cada escola decidia as suas próprias iniciativas; e, a produzir materiais ou ideias que pudessem ser partilhados com as outras escolas, isso era feito durante as reuniões do projecto;
(b) nalguns casos, o produto que iria ser elaborado por uma das escolas era previamente debatido pelos professores de todas as escolas, por estarem estarem nele interessadas (foi o caso das «16 Semanas de Problemas» e de alguns dos «Desafios Matemáticos» trabalhados com o GIM [testemunho «064»] na Secundária Nº 1 do Seixal);
(c) noutros casos, em que todas as escolas precisavam de um mesmo serviço, alguns dos professores envolvidos no projecto encarregavam-se de o garantir (assim aconteceu com grande parte da elaboração das regras dos jogos e quebra-cabeças, manuscritas por mim e depois digitalizadas, na Emídio Navarro, pela Rita Vieira; e também assim foi com a aplicação do dinheiro do projecto na compra de matéria-prima, como as placas de vinil na Polux, em Lisboa, e de cubos de madeira, na Cova da Piedade, e, sobretudo, na compra de jogos e de quebra-cabeças para as ludotecas e de vários outros instrumentos destinados aos laboratórios.

Especialmente em relação à ideia de Laboratório de Matemática (concretizada na maior parte das escolas através de um clube), existiu uma larga cooperação entre o MATlab e o AlterMATivas: a exploração de um tema matemático era iniciada num destes projectos, sendo depois prosseguida no outro, como foi o caso dos «Desafios Matemáticos» já referidos [testemunho «064»]; todos os seus textos de apoio foram sujeitos a várias versões, cada uma reflectindo as novas explorações feitas; um exemplo bastante elucidativo, cuja primeira versão foi feita em 1991-92, a segunda (apresentada a seguir) em 1992-93 e de que ainda houve versões posteriores, foi este:

Qualquer pessoa pode fazer estes cálculos em casa (podendo,
eventualmente, precisar de apoio para usar adequadamente a calculadora)


A primeira reunião do projecto MATlab neste ano lectivo foi realizada logo em Setembro. O panorama das escolas que o integravam (umas autoras, outras meramente participantes) era o seguinte:



Noutra reunião, realizada em Janeiro, já estavam clarificados mais alguns dos professores participantes: Jorge e Helena (EC+S da Costa da Caparica), Fernanda (EP de Corroios), Fernando Camejo e Luísa Teixeira (ES da Cova da Piedade); Mirita Sousa (ES Nº 1 de Corroios), Palmira Barroso (ES Nº 1 do Laranjeiro) e Patrícia Cascais (ES Nº 2 do Laranjeiro).

Apesar desta aparente consolidação dos responsáveis, constatou-se, algum tempo depois, haver uma «crise de participação», que, aliás, tanto abrangia o MATlab como o AlterMATivas: uns professores estavam em formação inicial, ou coordenavam-na; e outros tinham-se concentrado nas actividades do grupo de Matemática da respectiva escola. Na altura, isso levou-me a escrever que era fundamental o MATlab ter “grandes metas”, de modo a criar uma perspectiva mais longínqua que polarizasse o trabalho de todos, mesmo que para tal fosse necessária haver “discussão”.

Ao longo deste ano, além de equipar materialmente as escolas envolvidas, o MATlab foi um contexto para a auto-formação dos professores; partilhou entre as escolas interessadas um Concurso de Problemas; realizou o 1º Interescolas de Jogos de Reflexão de Almada e Seixal; e participou no 4º Encontro Regional de Professores de Matemática.

A possibilidade de realizar o 1º Interescolas de Jogos de Reflexão de Almada e Seixal foi sendo apreciada desde o início do ano. E acabou por ser concretizada, na tarde de 22 de Maio, na Escola Secundária António Gedeão (o novo nome da Escola Secundária da Cova da Piedade).
Tal como os seguintes, este interescolas foi disputado por equipas, tendo sido escolhidos três jogos (curiosamente, qualquer deles teve seis equipas inscritas, uma do 2º Ciclo e cinco do 3º Ciclo) e um concurso de problemas (só com três equipas).
As três escolas classificadas em primeiro lugar nas diferentes modalidade foram:
Abalone: 1ª ES Nº 1 do Laranjeiro; 2ª ES Nº 1 do Seixal; 3ª EP de Corroios;
Damas: 1ª ES Nº 1 Corroios; 2ª ES Nº 1 Laranjeiro; 3ª ES Nº 2 Laranjeiro;
Quatro em Linha: 1ª ES Nº 1 Laranjeiro; 2ª EP de Corroios; 3ª ES Nº 1 do Seixal;
Desafios Matemáticos: 1ª ES Nº 1 Laranjeiro; 2ª ES Nº 1 Corroios; 3ª ES Nº 1 do Seixal.
Participaram ainda equipas da ES Anselmo de Andrade e da ES António Gedeão.
Os organizadores decidiram divulgar o acontecimento, tendo este sido noticiado pelo menos no «Jornal de Almada», na «Tribuna do Povo» e no «Nova Maré» (Nº 31).


Comentários

Os «Desafios Matemáticos» foram constituídos por três problemas (um pouco diferentes para o 2º Ciclo e o 3º Ciclo): (a) determinar a solução para três posições do «Solitário»; (b) compor três figuras com as peças do «Tangram»; (c) resolver um problema de Matemática.
Eis o que foi proposto no Solitário e no Tangram (desenho publicado no «Nova Maré»):




Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Cinco (Doc.s 110, 125, 129, 131, 132 e 152) / Pasta analógica do «Nova Maré» (Nº 31)

[064] A Ludoteca da Escola Secundária Nº1 do Seixal em 1992-93 e o Grupo de Investigações em Matemática

Memórias

Em 1992-93, nos documentos que se referiam à Sala de Dinamização Cultural da minha escola, a designação que se estava a começar a usar era Sala de Jogos. Mas ela continuou a albergar actividades que se distinguiam claramente do «jogo». E também deu apoio a actividades realizadas no exterior da escola.
Eis as notas que tenho sobre o que aí se passou durante este ano lectivo:

À semelhança do ano anterior, foi realizado o Concurso 16 Semanas de Problemas. A entrega dos problemas e a recepção das respostas eram feitas na Sala de Jogos.
Desta vez só foram concebidos 11 problemas, tendo sido distribuídos ao longo do 2º e do 3º períodos lectivo, um por semana. E a concepção e a digitalização decorreram no âmbito do Projecto MATlab, para também serem usados noutras escolas. Na Secundária Nº 1 do Seixal participaram 35 alunos, 34 das minhas 3 turmas do 7º e da turma do 9º, mais uma aluna de outra turma do 7º ano (perdi a ligação às turmas que não eram minhas – que terá sucedido aos meus colegas de Matemática?).
O Celestino Carmo (9º C) foi quem obteve a melhor pontuação neste concurso.

No 1º período foram disputados diversos Campeonato de Escola:
2º de Quatro em Linha (6 participantes; vencedor, o Amândio Felício, do 8º B);
1º de Cinco em Linha (6 participantes; vencedor, o Amândio Felício, do 8º B);
1º de Hex (6 x 6) (4 participantes; vencedor, o Ricardo Costa, do 7º E);
2º de Othelo, que só terminou no 2º período (5 participantes; vencedor, o José Júlio Costa, do 8º I).
E no 2º período foram disputados outros Campeonato de Escola: o 1º de Abalone, o 2º de Damas e o 5º de Xadrez (quando encontrar documentos que me lembrem como eles decorreram, divulgo-os).

No dia 19 de Novembro foi comemorado o Dia Mundial do Xadrez.
Ao longo da manhã, eu e o Jorge Fernandes (professor de Filosofia) enfrentámos cerca de 25 alunos (não todos ao mesmo tempo) numa simultânea (o José Carlos Lopes ganhou-me).

À disposição de quem quisesse estiveram ainda o «Maxixadrez», o «Minixadrez» e, como novidade, o «Hex», o «Cinco em Linha» e o «Abalone».
A TV3D da escola apareceu para filmar.

Ao longo de todo o ano funcionou, nas tardes das Quartas-feiras (por vezes também noutra tarde da mesma semana), um Grupo de Investigação em Matemática (GIM), por onde passaram cinquenta e sete Alunos, sobretudo do 7º ano (cinquenta e dois), sendo os outros do 8º ano (um) e do 9º ano (quatro). De todos eles, quarenta e nove eram alunos das minhas quatro turmas. A primeira sessão ocorreu no dia 30 de Novembro; e a última no dia 1 de Junho.
No dia 5 de Março, o dia em que houve maior participação, dezoito alunos do 7º C discutiram e acordaram comigo organizar as actividades do GIM como um ciclo: um dia para Jogos, um dia para Computadores, e um dia para o Laboratório de Matemática;
oa Jogos e o Laboratório seriam na Sala; os Computadores seriam, ou às Segundas-feiras, ou às Sextas-feira, sempre à tarde, no Centro Escolar Minerva, situado no Pavilhão C (onde se encontrava, como ainda se encontra hoje, a Biblioteca),
As actividades decorreram em 18 dias diferentes, durando, no total, cerca de 31 horas.
Aos Jogos corresponderam aproximadamente 3 horas, tendo sido abordados o Abalone, as Damas Chinesas, o Jogo de Marienbad (uma variante do Nim), o Othelo, o Pyramis, o Quatro em Linha, o TriOminos e o Xadrez.

O Laboratório precisou de umas 10 horas, tendo sido feitas experiências relacionadas Com o Jogo de Marienbad (sessão em que participou o professor José Calado), o Cálculo de PI e a Fita de Möbius. Eis a folha que relata os resultados desta última sessão e que a abriu para novas pesquisas:


O restante do total de horas, mais de metade, foi dedicado aos Computadores, sobretudo ao First Publisher (FP1), primeiro para conhecimento do seu funcionamento, depois para execução de trabalhos, nomeadamente destinados à Área Escola. Foi também experimentado o programa PC Globe.
O Bruno Gonçalves (7º D), com grandes capacidades para a Matemática, desinteressou-se rapidamente dos desafios do GIM; anotei que ele “não tem paciência para coisas simples nem para coisas principalmente colocadas pelo professor”, pelo que “é  necessário trabalhar em profundidade com este tipo de alunos, e só com eles.

Em vários Conselhos de Turma do 7º ano da agora iniciada reforma curricular foi proposto, para alguns alunos, no respectivo plano de apoio, a frequência da Sala de Jogos, para os «desinibir», para os levar a «pensar mais rápido», etc..

Através de um ex-aluno meu, o Fernando Gomes (agora no 9º G), foi acordado que a Sala disponibilizasse espaço e apoio para a organização de torneios organizados pela Associação de Estudantes, que por sua vez os divulgaria na Escola.
Foi assim que, ao longo de manhã e de tarde de 2 de Abril (último dia de aulas do 2º período) se realizou um mini Festival de Jogos


Para os mirones, havia, na Sala, fotografias, boletins, cartazes e estatísticas. E também jogos e puzzles à venda.
Para quem quis jogar, foram disputados torneios de «Quatro em Linha», de «Damas», de «Abalone» e de «Xadrez» e ainda uma simultânea assegurada pelo professor Jorge Fernandes.

A simultânea de Damas: à esquerda, o José Carlos Lopes coça a cabeça;
em frente ao professor está o Amândio Felício; à direita, o Nuno Costa segura os óculos

Ao longo de mais de 5 horas estiveram na Sala, em média, cerca de 20 alunos.

O Nuno Costa (7º C) e a Cecíla Cumar (7º D) estiveram entre os vários alunos que me ajudaram.

Tal como já fizera em anos anteriores, decidi fazer uma observação ao funcionamento da Sala, desta vez durante o intervalo das 11h25 às 11h35 do dia 24 de Maio.
Escrevi: “[sobre 7 mesas] estão colocados jogos de Xadrez, Damas, Abalone e 4 em Linha; há um Solitário na bancada; todo o tempo 14 alunos jogam nas 7 mesas, com cerca de 10 a 15 sentados a observar; quase não há mudanças neste número de 24 a 29 alunos; um conjunto de aproximadamente outros tantos alunos entrou na Sala, observou de passagem algum jogo, estacionou conversando, deu uma volta para ver se havia algo a fazer, mas só um pediu material novo para jogar, vários sairam embora alguns destes tivessem reentrado; no total de alunos, 6 são meus, todos jogando, e mais 3 participaram em campeonatos da Escola, todos jogando ou observando”.

O Bruno Pinheiro (do 7º H), cujo pai era mecânico, pediu à Dª Francisca fotocópias dos enunciados dos jogos e quebra-cabeças, para os fabricar em casa.

E a
Dª Francisca, que assegurou o apoio à Sala de Jogos durante alguns anos,  levou alguns «Quatro em Linha» para casa, para substituir os seus suportes (quebrados) por apoios em madeira (que, depois, funcionaram bem durante anos!). No entanto comunicou-me, no dia 2 de Maio, que, por falta de “segurança de trabalho”, iria deixar a escola. O seu último dia de trabalho foi em 28 de Maio.

Foi criada uma nova folha informativa da «sala de jogos», intitulada Jogos e Laboratório Matemático, cujo primeiro número teve 70 cópias.

No dia 2 de Junho o João Álvaro, do 7º G, participou, com outros colegas da Escola, num programa da Rádio Renascença dedicado às nossas actividades extra-curriculares.
A sua escolha resultou da sua participação nos Campeonatos de Escola, nas «16 Semanas de problemas», na Seixalíada e no GIM, além de ser frequentador assíduo da Sala e de se expressar muito bem.

Comentários

Por muitos documentos que guardemos, e da boa memória que possamos ter, há sempre algo que falta quando queremos contar uma história em que fomos participantes.
Desta vez queixo-me de não ter encontrado (até agora) o Nº 2 do boletim «Jogos e Laboratório Matemático», onde devem figurar os resultados de três dos Campeonatos de Escola (Othelo, Damas e Xadrez). Este é um exemplo das vicissitudes que pode afectar a consulta de qualquer arquivo!

As «16 Semanas de Problemas» tem os respectivos PDFs acessíveis através da página «Documentos» deste blogue.

Ao longo do ano fui abastecendo o José Carlos Lopes com fotocópias dos «Cahiers Techniques» das revista «Europe Échecs» (não admira que tivesse perdido com ele na simultânea de Xadrez).

A papelada de há trinta anos lembra-nos aspectos interessantes sobre o modo como era produzida. Tanto no Nº 6 dos «Desafios Matemáticos», como no cartaz que anuncia o mini Festival de Jogos, é possível observar que o velho programa de processamento de texto, First Publisher, já me permitia desenhar (sim, aquelas figuras foram desenhadas!) e associar, no mesmo ficheiro, texto e imagem.

Quando os horários começaram a ser informatizados, em vez de estarem manuscritos numa folha de papel A5, passaram a ser impressos numa folha de papel A4, isto é, gastando mais papel.
Eis o horário que me calhou para 2002-03:


Não compreendo porque razão a matriz digital dos horários ainda incluía o «Sábado».
Nem percebo porque se complicou, em cada rectângulo, o registo turma / disciplina / sala, por comparação com as bastante mais simples emendas que depois foram feitas à mão.
Com jeito, a matriz digital necessitaria apenas do tamanho de uma folha A5 ...

Mas este era um bom horário para mim, apesar de as quatro manhãs de intenso trabalho com as minhas turmas serem adicionadas com as tardes das Quarta-feiras passadas na «Sala de Jogos»), pois os três dias e meio livres me deram uma enorme ajuda para preparar as muitas actividades em que estava envolvido. Os «horários» também contam!


Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Cinco (Doc.s 59, 110, 114, 116, 120, 151 e 205) / Pasta digital Tese de Mestrado (4EXPR64)

[063] O 3º ano do Projecto AlterMATivas (1992-93) e a minha turma que o acompanhou desde o início

Memórias

1992-93 foi o terceiro e último ano do projecto AlterMATivas.
A intenção dos autores havia sido dar continuidade às mesmas turmas, mas isso não sucedeu com nenhum de nós, apesar de solicitado às escolas envolvidas: devido ao número de alunos que não transitavam, era inevitável haver uma recomposição das turmas; mas a equipa que as constituía e a que depois elaborava os horários introduziam, sempre, outras decisões que alteravam o que delas se esperava.
Assim, chegei com uma única turma ao 9º ano, composta por alguns alunos que se mantiveram juntos ao longo de todo o 3º Ciclo (os primeiros a quem, comigo, isso acontecia), por uns tantos que só acompanhei nos dois últimos anos e ainda por mais alguns que apenas conheci no 9º ano.
Eis a turma em causa:


Em termos de inovação de materiais pedagógicos foi o pior ano do AlterMATivas: os autores tinham turmas dispersas pelos três anos de escolaridade, tendo decidido apoiar os colegas que agora se iniciavam com turmas da reforma curricular, no 5º e no 7º ano.

Comentários

Em termos de sucesso educativo, que esteve muito longe de depender apenas deste projecto, os resultados destes três anos nas minhas turmas ficaram bastante aquém do desejado.
Mostro a seguir os números que o traduzem (tendo em conta que só o 7º ano de 1992-93 estava abrangido pela escolaridade obrigatória, são apresentados, nos outros casos, dois valores para o sucesso: a azul corresponde a inclusão dos que abandonaram os estudos; e a vermelho não os inclui):

Impressionam os valores do «abandono» no 7º ano (incluindo no ano lectivo em que este nível de estudo se tornou obrigatório) e os cerca de «um em cada quatro» alunos que «não transitaram» no 7º e no 8º anos.

Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Cinco (Doc. 107)

[062] Novembro de 1992, em Viseu: o meu primeiro ProfMAT

Memórias

Desde 1987 que a Associação de Professores de Matemática (APM) organiza um Encontro Anual de Professores (ProfMAT). O primeiro foi em Portalegre; os seguintes foram mudando de cidade, tendo, em 1992, sido em Viseu, na Escola Secundária Alves Martins.
Antes do ProfMAT propriamente dito, e para quem quisesse e pudesse ir mais cedo, havia dois dias (2ª e 3ª feira), destinados ou à frequência de Cursos de Formação, ou à participação no Seminário de Investigação em Educação e Matemática (SIEM). Depois vinham os três dias e meio do Encontro, com Sessões Plenárias, Sessões Temáticas, Grupos de Trabalho, Painéis, Comunicações Orais, Comunicações em Cartaz, Sessões Práticas, uma Feira de Ideias e Materiais, a Assembleia de Sócios da APM e, até, um dia de Abertura à População - foi esta a oferta em Viseu. Era um nunca mais acabar de oportunidades para troca de ideias e para pensar.
Eu nunca tinha ido a um ProfMAT, mas desta vez fui. E o motivo pelo qual fui deve ter estado associada a duas razões (já não me recordo do que me passou pela cabeça), por um lado a vontade de partilhar o que se fazia no Núcleo da APM em Almada e Seixal, por outro perceber qual o ambiente gerado a nível nacional pela chamada Reforma de Roberto Carneiro, chegada ao 3º Ciclo no início deste ano lectivo [ver testemunho anterior].

O ProfMAT decorreu de 4 a 7 de Novembro (4ª, 5ª e 6ª feira por inteiro, mais a manhã de Sábado) e esta foi a imagem de Viseu com que os organizadores nos foram convencendo, ao longo dos meses anteriores, a nos inscrevermos:



Como o Ministro da Educação, o António Couto dos Santos (19 de Março de 1992 a 7 de Dezembro de 1993), tinha autorizado a “dispensa de serviço” aos participantes, não me foi dilemático faltar às aulas durante três dias (não me inscrevi num Curso de Formação e ainda não me interessava pelos SIEMs).
Havia cerca de 1000 (!) inscritos, pelo que a organização tinha de estar permanentemente em todo o lado. E uma das formas de o conseguir foi através de um «Boletim Informativo» (cada dia tinha o seu), no qual havia lembretes, comunicados de alterações, etc., etc..

Tanto neste como nos seguintes ProfMATs em que participei tive intervenções a fazer, o que me deixou sempre afastado das tentações turísticas. Mas recordo-me bem de duas escapadelas em Viseu, a participação num corta-mato destinado aos inscrito (cheguei à meta num honroso penúltimo lugar) e, sobretudo, o jantar das gentes do Núcleo de Almada e Seixal que por lá se encontravam.

As equipas dos projectos AlterMATivas e MAT lab tínham preparado uma Sessão Prática, intitulada Laboratório de Matemática: das explorações às elaborações.
Não me recordo exactamente do momento em que nos surgiu a noção de «Laboratório de Matemática» (sei que foi num reunião, talvez do MATlab, e que foi o José Tomás a dizer que aquilo de que estávamos a falar se poderia chamar assim). Mas esta foi a primeira vez em que, fora de Almada e Seixal, nos decidimos a usá-la [no ProfMAT seguinte, nos Açores, a decisão foi conceptualizá-la].
As duas equipas prepararam, para os que iriam participar nesta Sessão Prática, três áreas de exploração, uma ligada aos «jogos de reflexão» (que são importantes para o raciocínio lógico e a demonstração), outra aos «fenómenos quotidianos» (desde que pudessem ser representados graficamente) e a última aos «modelos físicos para conceitos matemáticos» (os quais permitem aos alunos realizar pesquisas concretas antes de lhes serem desafiados a abstrai-las).Para nós, foi uma boa oportunidade para amadurecer o trabalho já feito - e para o divulgar.

Comentários

Em 1992-93, a reforma curricular foi generalizada aos 2º, 5º e 7º anos de escolaridade. Mas fazia parte de uma reforma mais geral, conhecida como Reforma de Roberto Carneiro, que tinha outras componentes. Uma delas foi a experimentação de um novo modelo de administração e gestão das escolas, que (felismente) não vingou. E outra foi a formação contínua de professores.
E foi precisamente durante este ProfMAT, em 9 de Novembro, que o «Diário da República» publicou o Decreto-Lei nº 249/92, onde se estabelecia o Regime Jurídico da Formação Contínua de Professores.
Num seminário promovido pelo Instituto Irene Lisboa, o investigador José Alberto Correia comentou assim este documento:

Por um lado, ele reconhecia um direito dos professores;
Mas, por outro, veio revelar “interesses” na utilização dos “fundos comunitários” que o iriam ajudar a ser implementado, razão pela qual só foi discutido depois de aprovado;

Apesar de se saber que é na formação de professores que se situa “o espaço de maior concentração ideológica dos sistemas educativos”, o próprio documento infomava ter sido uma “emanação do mundo académico”;

Politicamente, ele assentava nas “leis da economia de mercado” (oferta e procura, embora sujeita a alguma regulação);
Teoricamente, levantava questões sobre a relação entre a «formação» e a «identidade profissional», sobre o papel do «local de trabalho» na formação e sobre as reais «necessidades» de formação;
E, na prática, iria privilegiar a «reprodução e não a «produção», ao favorecer a formação «individual», «cumulativa» e, em muitos casos, «a partir de cima» (quer centralmente, quer regionalmente);

No entanto, para os professores cujas “práticas” eram uma “crítica em actos a estas concepções”, esta lei poderia proporcionar algum “espaço de legitimação e de desenvolvimento”.

 

Como eu tinha sido um dos estreantes nos ProfMATs, pediram-me um testemunho sobre como eu o vira, que seria publicado no »educação e Matemática», a revista da APM.
Levei bastante tempo a escrevê-lo, talvez porque os meus focos de atenção voltaram a ser os exigentes mundos da escola e do Núcleo da APM. Só o entreguei mesmo no último dia do prazo que me deram. E, ainda talvez, porque quis referir nele um pouco de tudo o que vira e sentira. Quem quiser pode lê-lo na página 3 do Nº 24 da revista. Eu, ao relê-lo, quase que voltei a sentir-me de novo neste meu primeiro ProfMAT, apesar de já não me lembrar bem de vários acontecimentos  que descrevi e das justificações para diversos comentários que fiz. Transcrevo, no entanto, o último parágrafo, que hoje considero ter sido um aviso certeiro para os problemas associativos e profissionais que se iriam avolumar nos anos seguintes:

O desequilíbrio associativo interno à APM, na qual já existe um grupo de trabalho de «investigadores», outro está a nascer para a «formação contínua« - mas não existe para os «inovadores», isto é, para aqueles que constituem a base de todo o sistema educativo.

Esta fotografia não é, associativamente, feliz:
evoca «todos a ouvir um»


Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico APM Um (Doc.s 1, 10 a 14) e APM Três (Doc 7) / Arquivadores com as revistas «Educação e Matemática» (revista Nº 24)