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[080] Como eram organizados os Interescolas de Jogos de Reflexão: o exemplo de 1993-94

Memórias


O IIº Torneio Interescolas de Almada e Seixal foi realizado nos dias 7 e 8 de Maio de 1994, na Escola Preparatória de Corroios.

A organização foi assumida pelos professores envolvidos no Grupo Extracurricular do projecto InterMAT (ver testemunho «079») e a preparação começou no final do 1º período lectivo: definiram-se, provisoriamente, as datas (para as inscrições e para o evento), o local de realização, as modalidades e o tipo de equipas, a divulgação às escolas, as entidades a quem iríamos solicitar apoios (transportes, material de jogo, prémios, vendas) e as actividades que estariam disponíveis para quem não estivesse a jogar; e atribui-se a coordenação ao Fernando Camejo, ao Gastão Cristelo, à Mirita Sousa e ao Pedro Esteves (pertencíamos a quatro escolas diferentes, uma Básica e três Secundárias). Ficou combinado retomarmos este assunto na reunião do Grupo prevista para Janeiro.

As datas definitivas escolhidas foram os dias 7 e 8 de Maio, um Sábado (de manhã) e um Domingo (de tarde), pois nos pareceu que o 3º período lectivo seria mais adequado para os alunos (já um bocado cansados de estarem fechados nas suas escolas). E o local escolhido foi a Escola Preparatória de Corroios (tal como então se designava), que tinha gente no Grupo Extracurricular: teríamos o Refeitório, a Sala dos Alunos e o espaço que  ligava o primeiro à segunda.

Com o aproximar do evento surgiram os desafios de pormenor, o que implicou envolver mais gente: a coordenação geral ficaria a cargo do Cristelo (estaríamos na sua escola), que também assumiria as responsabilidades de contactar a imprensa local e de, com dois colegas da escola, organizar as duas simultâneas que prevíramos; a Mirita prepararia os diplomas e as lembranças e, com a Doroteia Costa, trataria dos lanches para os participantes (estes eram muito jovens e precisavam de se reabastecer a meio da manhã e da tarde); eu trataria de obter o material de jogo e de produzir as tabelas para cada competição; e a Rita Vieira e a Teresa Nascimento cuidariam dos aspectos interculturais envolvidos na actividades paralelas ao Interescolas.
A cargo dos responsáveis de cada escola participante ficaria o envio da lista dos alunos que constituíam as equipas, para o respectivo Conselho Directivo, de modo a que fosse accionado o Seguro Escolar.
Conforme o número de equipas inscritas nas cinco modalidades escolhidas (Abalone, Damas, Quatro em Linha, Othelo e Xadrez), separando (se possível) o 2º Ciclo, o 3º Ciclo e o Secundário, preparar-se-ia a competição, ou pelo sistema de «todos contra todos», ou pelo sistema «suíço» (no qual cada um vai jogando com quem tem mais ou menos o mesmo número de pontos).
Os materiais de jogo seriam emprestados pelas Escolas Preparatórias de Corroios e da Cova da Piedade, pelas Escolas Secundárias Emídio Navarro e José Afonso e pelo Núcleo da Associação de Professores de Matemática em Almada e Seixal.
E o transporte das equipas seria assegurado pelas respectivas Câmaras Municipais.

Dois princípios que sempre se mantiveram nos Interescolas foram o de a competição ser «por equipas» (de modo a evitar os excessos de individualismo) e o de as lembranças serem iguais para todos os participantes (sem distinção da classificação obtida pelas suas equipas).

Decidimos ainda que seriam convidados para conduzirem simultâneas os professores Jorge Fernandes (em Damas) e Fernando Costa (em Xadrez), sendo oferecido a cada um, pela sua gentileza, um jogo de Abalone (tínhamos algum dinheiro para isso, proveniente do InterMAT).
E à disposição de quem os quisesse usar estariam, vindos da Secundária José Afonso, um Maxi Xadrez, um  Mini Xadrez, um tabuleiro de Damas internacionais (tem 10 x 10 casas), e vários jogos tradicionais: o Kono (Coreia), o Vacas e Leopardos (Sri Lanka) e o Dara (Nigéria).

Antes de se iniciarem as actividades do primeiro dia, o Cristelo apresentou os espaços aos participantes, apelou ao silêncio durante o curso dos jogos e das simultâneas e explicou as regras da utilização do Bar e da entrega dos lanches, dos diplomas e das lembranças.
E eu expliquei que, durante os jogos, a comunicação do resultado de um jogo, bem como qualquer problema que surgisse, deveria ser assinalados ao respectivo árbitro por um braço no ar; que no fim de cada jogo as peças deveriam ser arrumadas na posição inicial; e que quem terminasse um jogo deveria aguardar que o árbitro chama-se todos os participantes para a próxima partida.


Um jogo de Mini Xadrez a ser experimentado

Foram 37 as equipas que participaram nos cinco torneios.
No primeiro dia disputaram-se as modalidades de Abalone, de Othelo e de Xadrez, com a simultânea de Damas a decorrer em paralelo. Eis um pequeno resumo do que aconteceu:

ABALONE:
A arbitragem esteve a cargo do Fernando Camejo. E as equipas foram divididas em dois grupos (adoptando em ambos o sistema «todos contra todos»), um com as quatro equipas do 2º Ciclo e o outro com as cinco equipas do 3º Ciclo. No primeiro venceu a equipa da Preparatória da Cova da Piedade. No segundo venceu a Secundária da Cidadela, tendo a equipa da José Afonso, constituída por Ricardo Costa (7º F), Nelson Santos (9º A), Zenildo David (8º G) e Nuno Costa (7º H), ficado em segundo lugar.

OTHELO:
Arbitrado pela Mirita Sousa, foi disputado num só grupo, «todos contra todos», por três equipas, uma do 2º Ciclo e duas do 3º Ciclo, vencendo a da José Afonso, com Peter Sousa (8º C), João Álvaro (8º G), Emanuel Pedrosa (8º C) e Amândio Felício (9º A).

XADREZ:
Juntando num único grupo uma equipa do Secundário, cinco do 3º Ciclo e três do 2º Ciclo (mas uma das equipas inscritas não compareceu), este foi o único caso em que o sistema adoptado foi o «suíço», disputado em quatro jornadas. Nas duas primeiras posições ficaram as equipas da Emídio Navarro (a única do Secundário e a melhor do 3º Ciclo), tendo a primeira equipa do 2º Ciclo (Preparatória de Corroios) ficado em quarto lugar. A da José Afonso quedou-se pelo quinto, com Júlio Costa (1º G nocturno), Nuno Sobreiro (9º A), Ivan Michel (9º A) e José Tavares (9º A).



A equipa do Secundário da Emídio defrontando uma equipa do 3º Ciclo

A ficha de registo de resultados deste torneio, já preenchida, foi esta:

Os números dentro de uma circunferência designam a equipa defrontada

No segundo dia disputaram-se as Damas, o Quatro em Linha e a simultânea de Xadrez.

DAMAS:
Voltei a  ser o árbitro, agora com um sistema «todos contra todos», disputado por sete equipas (três do 3º Ciclo e quatro do 2º Ciclo). Foram vencedores: a Secundária Nº 1 de Corroios e, como melhor equipa do 2º Ciclo, a Preparatória da Amora, em terceiro lugar na classificação geral. A José Afonso ficou em segundo lugar, com José Silvestre (7º G), João Álvaro (8º G), Peter Sousa (8º C) e Júlio Costa (1º G nocturno).

QUATRO EM LINHA:
Com arbitragem da Mirita Sousa, foram formados dois grupos, um com quatro equipas do 2º Ciclo e outro com com cinco do 3º Ciclo (tendo uma delas um aluno do Secundário). Venceram, respectivamente, a Preparatória da Amora e a Secundária António Gedeão. A José Afonso, com Amândio Felício (9º A), Nelson Santos (9º A), Ricardo Costa (7º F) e Ivan Michel (9º A), ficou em quinto lugar no seu grupo.

Dois periódicos regionais publicaram informação sobre este Interescolas, um anunciando o evento, outro divulgando os resultados:

Os resultados Intrescolas também foram divulgados no «Nova Maré», Nº 33

Comentários

Sob o ponto de vista dos professores envolvidos no Grupo Extracurricular, pode dizer-se que, ao ajudarem a organizar e a concretizar o Interescolas, também aprenderam aspectos dos jogos e da organização de competições que ainda não dominavam. E, para alguns, foi uma forma de colocarem em comum aprendizagens que já tinham feito e da as ampliar das as circunstâncias novas em que as usavam e partilhavam.
Chama-se a isto eco-e-co-formação do InterMAT.

Fontes: Pedro Esteves / Arquivador de documentos analógicos ESJA Seis (Doc.s 28, 45, 50, 52 e 53) / Álbum fotografias analógicas ESJA Seis (duas fotografias da Rita [Vieira])

[065] O segundo ano do projecto MATlab

Memórias

Era ideia inicial do MATlab “criar espaços exteriores às aulas, dentro da Escola, capazes de gerar interesse e iniciativa dos jovens em relação à Matemática”, de modo a “favorecer o desenvolvimento de capacidades como a cooperação, o sentido de risco, a elaboração de projectos e estratégias e a definição de valores” e, claro, a contribuir “para o melhoramento da Matemática feita na Escola”. Esse espaço deveria “ser utilizado livremente pelos alunos”, permitir “a interacção com as actividades curriculares” bem como a “dinamização e integração de iniciativas a nível das comunidades” em que cada escola se inseria [testemunho «049»]
No final do primeiro ano do MATlab, 1991-92, o relatório que procedeu ao balanço do trabalho feito comentou assim aquela que pode ter sido a sua principal dificuldade: “É fácil pôr os jovens a jogar, torna-se mais difícil criar situações em que não é só «o jogo pelo jogo» (onde se percebe como se joga e porquê, etc...); mas, mais difícil é aprender fazendo e experimentando, formular hipóteses, testá-las e depois tirar conclusões.” [testemunho «055»]

O segundo ano deste projecto, 1992-93, veio mostrar que esta ambição teria de ser concretizada articulando a descentralização com a centralização:
(a) cada escola decidia as suas próprias iniciativas; e, a produzir materiais ou ideias que pudessem ser partilhados com as outras escolas, isso era feito durante as reuniões do projecto;
(b) nalguns casos, o produto que iria ser elaborado por uma das escolas era previamente debatido pelos professores de todas as escolas, por estarem estarem nele interessadas (foi o caso das «16 Semanas de Problemas» e de alguns dos «Desafios Matemáticos» trabalhados com o GIM [testemunho «064»] na Secundária Nº 1 do Seixal);
(c) noutros casos, em que todas as escolas precisavam de um mesmo serviço, alguns dos professores envolvidos no projecto encarregavam-se de o garantir (assim aconteceu com grande parte da elaboração das regras dos jogos e quebra-cabeças, manuscritas por mim e depois digitalizadas, na Emídio Navarro, pela Rita Vieira; e também assim foi com a aplicação do dinheiro do projecto na compra de matéria-prima, como as placas de vinil na Polux, em Lisboa, e de cubos de madeira, na Cova da Piedade, e, sobretudo, na compra de jogos e de quebra-cabeças para as ludotecas e de vários outros instrumentos destinados aos laboratórios.

Especialmente em relação à ideia de Laboratório de Matemática (concretizada na maior parte das escolas através de um clube), existiu uma larga cooperação entre o MATlab e o AlterMATivas: a exploração de um tema matemático era iniciada num destes projectos, sendo depois prosseguida no outro, como foi o caso dos «Desafios Matemáticos» já referidos [testemunho «064»]; todos os seus textos de apoio foram sujeitos a várias versões, cada uma reflectindo as novas explorações feitas; um exemplo bastante elucidativo, cuja primeira versão foi feita em 1991-92, a segunda (apresentada a seguir) em 1992-93 e de que ainda houve versões posteriores, foi este:

Qualquer pessoa pode fazer estes cálculos em casa (podendo,
eventualmente, precisar de apoio para usar adequadamente a calculadora)


A primeira reunião do projecto MATlab neste ano lectivo foi realizada logo em Setembro. O panorama das escolas que o integravam (umas autoras, outras meramente participantes) era o seguinte:



Noutra reunião, realizada em Janeiro, já estavam clarificados mais alguns dos professores participantes: Jorge e Helena (EC+S da Costa da Caparica), Fernanda (EP de Corroios), Fernando Camejo e Luísa Teixeira (ES da Cova da Piedade); Mirita Sousa (ES Nº 1 de Corroios), Palmira Barroso (ES Nº 1 do Laranjeiro) e Patrícia Cascais (ES Nº 2 do Laranjeiro).

Apesar desta aparente consolidação dos responsáveis, constatou-se, algum tempo depois, haver uma «crise de participação», que, aliás, tanto abrangia o MATlab como o AlterMATivas: uns professores estavam em formação inicial, ou coordenavam-na; e outros tinham-se concentrado nas actividades do grupo de Matemática da respectiva escola. Na altura, isso levou-me a escrever que era fundamental o MATlab ter “grandes metas”, de modo a criar uma perspectiva mais longínqua que polarizasse o trabalho de todos, mesmo que para tal fosse necessária haver “discussão”.

Ao longo deste ano, além de equipar materialmente as escolas envolvidas, o MATlab foi um contexto para a auto-formação dos professores; partilhou entre as escolas interessadas um Concurso de Problemas; realizou o 1º Interescolas de Jogos de Reflexão de Almada e Seixal; e participou no 4º Encontro Regional de Professores de Matemática.

A possibilidade de realizar o 1º Interescolas de Jogos de Reflexão de Almada e Seixal foi sendo apreciada desde o início do ano. E acabou por ser concretizada, na tarde de 22 de Maio, na Escola Secundária António Gedeão (o novo nome da Escola Secundária da Cova da Piedade).
Tal como os seguintes, este interescolas foi disputado por equipas, tendo sido escolhidos três jogos (curiosamente, qualquer deles teve seis equipas inscritas, uma do 2º Ciclo e cinco do 3º Ciclo) e um concurso de problemas (só com três equipas).
As três escolas classificadas em primeiro lugar nas diferentes modalidade foram:
Abalone: 1ª ES Nº 1 do Laranjeiro; 2ª ES Nº 1 do Seixal; 3ª EP de Corroios;
Damas: 1ª ES Nº 1 Corroios; 2ª ES Nº 1 Laranjeiro; 3ª ES Nº 2 Laranjeiro;
Quatro em Linha: 1ª ES Nº 1 Laranjeiro; 2ª EP de Corroios; 3ª ES Nº 1 do Seixal;
Desafios Matemáticos: 1ª ES Nº 1 Laranjeiro; 2ª ES Nº 1 Corroios; 3ª ES Nº 1 do Seixal.
Participaram ainda equipas da ES Anselmo de Andrade e da ES António Gedeão.
Os organizadores decidiram divulgar o acontecimento, tendo este sido noticiado pelo menos no «Jornal de Almada», na «Tribuna do Povo» e no «Nova Maré» (Nº 31).


Comentários

Os «Desafios Matemáticos» foram constituídos por três problemas (um pouco diferentes para o 2º Ciclo e o 3º Ciclo): (a) determinar a solução para três posições do «Solitário»; (b) compor três figuras com as peças do «Tangram»; (c) resolver um problema de Matemática.
Eis o que foi proposto no Solitário e no Tangram (desenho publicado no «Nova Maré»):




Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Cinco (Doc.s 110, 125, 129, 131, 132 e 152) / Pasta analógica do «Nova Maré» (Nº 31)

[052] Alguns desafios que se colocavam aos professores no ano lectivo de 1991-92

Memórias

Em 1991-92, a Reforma da Educação que estava em preparação desde que fora aprovada a Lei de Bases do Sistema Educativo [ver testemunho «006»] foi generalizada ao 1º ano de escolaridade.
Pouco depois do início deste ano lectivo, no dia 31 Outubro 1991, o Ministro da Educação que iniciara e coordenara este processo reformista, Roberto Carneiro, foi substituído por um outro, Diamantino Durão, que pouco tempo esteve no cargo: em 19 Março 1992 deu lugar a António Couto dos Santos, que se manteve no seu posto até à entrada do ano lectivo seguinte.

Para os professores, além do primeiro passo que anunciava a chegada da reforma da educação, estavam a surgir outros desafios.

Em 1990, fora fundada a Sociedade Portuguesa da Ciências de Educação, uma “associação científica, técnica e profissional”. Apesar de dizer respeito a outros profissionais da educação, ela mostrava aos professores que era possível um associativismo que não os dividisse por disciplinas. E talvez por essa razão, em 1991, diversas associações de docentes decidiram combater a sua dispersão criando o Secretariado Inter-Associações de Professores, uma “plataforma de entendimento de várias associações nacionais de professores de natureza científico-pedagógica”.

As próprias características da profissão docente estavam a ser interrogadas: no final de Maio de 1991, o Instituto Irene Lisboa, a Sociedade Portuguesa de Ciências da Educação e a FENPROF (a maior federação sindical dos docentes) organizaram, no Porto, um seminário sobre a Identidade Profissional dos Professores. Possuo duas notícias sobre este seminário, uma do jornal «Público», outra do «Jornal da FENPROF». Eis a da federação sindical (que, além da notícia, incluíu uma entrevista):


O que mais me admira nestas notícias é o facto de apenas citarem as opiniões de «cientistas da educação», incluindo a FENPROF, co-organizara do seminário. Não terão sido convidados professores para dar a sua opinião sobre a «identidade» da sua profissão?!

Comentários

O facto de serem «observadores externos» a falar sobre a «identidade profissional dos professores» não lhe retira o interesse: é sempre importante dispor da ajuda de alguém que faça o papel de «nosso espelho», mesmo sabendo que é preciso ter em conta a distorção que qualquer espelho provoca ao transformar uma «realidade» em «imagem».
Portanto, de entre os contributos destes «observadores externos» destaco duas questões que lhes subjazem:
† Deverão os professores ser «profissionais da globalidade» ou ser «especialistas» com «horizontes largos»?
† A construção de uma «identidade» deverá ser feita «a partir de dentro» (da profissão), ou «a partir de fora» (políticos, sindicatos), ou «a partir de dentro» mas também influenciando (politicamente) quem tem o «poder exterior»?

E ainda acrescento dois outros contributos, talvez consensuais: a «identidade dos professores» só se pode construir em torno de um «código deontológico»; e as condições de trabalho dos docentes não eram favoráveis a essa construção, pois remetiam os professores para uma «atitude defensiva».

Curiosamente, quando foram dados exemplos de «construção a partir de fora» apenas foram referidos os «políticos» e os «sindicatos», mas não os «cientistas» (grupo que se estava a pronunciar e, sabendo-o ou não, a tentar de servir de «espelho» aos professores). Este foi mais um sinal de que havia um potencial de ruptura entre «professores» e «cientistas».

Esta parece ter também sido a preocupação de António Nóvoa, ao escrever, igualmente em 1991, que as futuras características profissionais docentes iriam depender do modo como, por um lado, fossem estabelecidos os «saberes» de referência dos professores, existindo uma tensão entre a sua transmissão e a sua produção; e, por outro, iriam depender do modo como fossem definidas as «normas» e os «valores» da cultura profissional, tais como as condições de acesso, de progressão, de avaliação, etc.. Pelo que, advertiu, se “os próprios professores não se investirem neste projecto é evidente que outras instâncias (Estado, Universidades, etc.) ocuparão o território deixado livre”.

Fontes:
Wikipédia (para os ministros da Educação); Nóvoa (livro analógico, 1991; pp. 17-28)
Pedro Esteves / Arquivador Tese de Mestrado (Doc.s 2 e 3) / Livro analógico, 2023; ponto «03»)

[019] Ventos de mudança no sistema educativo

Memórias

No ano lectivo de 1987-88 surgiram vários anúncios de mudanças a efectuar no sistema educativo. Havia, desde 17 Agosto 1987, um novo Ministro da Educação, Roberto Carneiro, que permaneceria neste cargo até 31 Outubro 1991, na equipa do primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silva.

Entre o fim de 1987 e o início de 1988, tendo como suporte a recentemente aprovada Lei de Bases do Sistema Educativo, o novo ministro apresentou planos para a Reorganização dos Planos Curriculares dos Ensinos Básico e Secundário (fora em função destes planos que as escolas tinham organizado o «Dia D», tal como, em relação à Secundária do Seixal, referi no testemunho «016»).

Paralelamente, o professor Manuel Patrício, da Universidade de Évora, anunciou o Projecto Escola Cultural, a iniciar no ano lectivo seguinte, com o apoio do Ministério da Educação (na Secundária do Seixal o Conselho Directivo abordou em pelo menos duas das suas últimas reuniões - 26 de Abril e 17 de Maio - a preparação do lançamento desta iniciativa em 1988-89).

Muito interessante foi a reacção da generalidade da informação jornalística a estes ventos de mudança. Tal como hoje, ela veio embrulhada numa razoável dose de sensacionalismo, como alguns dos seguintes títulos bem ilustram:






Comentários

Já não me recordava que a palavra «reorganização» tinha sido usada neste contexto reformista, pois, uma década mais tarde, ela voltou a ser utilizada, em conjunto com uma outra, «revisão», para alterar de novo os currículos em vigor. Tanto numa como noutra destas reorganizações / revisões, a focagem terminológica estava nos «objectos» e não no modo como estavam a ser produzidos, encobrindo, assim, o facto de em ambos os casos (e nos que se seguiram, já neste século) se tratarem de mudanças «de cima para baixo».

Também já não me recordava da agitação jornalística que surgiu em volta deste início de mudanças, nem do facto de parte dela ser um tanto sensacionalista. Decorridas quase quatro décadas, esta forma de intervir intensificou-se e, hoje, não espera pelos momentos em que se anunciam «mudanças» - está sempre a pressionar quem se encontra na base do sistema educativo!

Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Dois (Doc. 06, Doc. 30, Doc. 31, Doc. 33, Doc. 35, Doc. 36 e Doc. 37)

[014] O difícil início de 1987-88 na Escola Secundária do Seixal (e no Distrito de Setúbal)

Memórias

Em 1987-88, o espaço da Escola Secundária do Seixal foi ampliado com aquele que se passou a chamar Pavilhão D e com o espaço circundante que lhe estava associado. Na planta seguinte este acrescento está situado à direita (comparar com a planta inserida no testemunho «001»):


A partir desta altura o espaço escolar passou a ser constituído por dois níveis topográficos, um mais baixo, onde se encontravam os pavilhões que a escola já possuía, e outro mais alto, onde se situava o Pavilhão D e, hoje, se encontra o Gimnodesportivo. A separar estes dois níveis continuava a estar a barreira à qual se encostavam o antigo Pavilhão B e, sob ele, o Ginásio e o Refeitório.

Esta foi a origem da principal dificuldade em iniciar normalmente o ano lectivo, pois teve consequências transversais nos equipamentos, nos serviços (caso do segundo bar), nos funcionários e nos professores. O Conselho Directivo elaborou um relatório sobre o que estava a acontecer, o «Diário de Lisboa» fez uma reportagem eloquente sobre o assunto e a inspectora Fragoso acompanhou, com alguma calma, o modo como o CD estava a resolver os problemas.
Como o Pavilhão D tinha sido destinado ao 7º e ao 8º ano, não admira que os problemas destas turmas tenham sido persistentemente abordados nas reuniões do «directivo» (em 7, 21 e 29 de Setembro; em 6, 8, 13 e 27 de Outubro; em 3 de Novembro; em 7 e 15 de Dezembro; e em 2 de Fevereiro).
Quanto aos docentes, o CD decidiu proporcionar-lhes uma mudança que iria durar até à construção do actual pavilhão principal: a Sala de Professores foi transferida para a sala A1, muito próxima da entrada na escola (decisão que foi abordada nas reuniões de 29 de Setembro e de 6 de Outubro). Seria inevitável, pois o acréscimo do número de professores tornara inviável a sala que funcionara até então.

Não foi só a Escola Secundária do Seixal a ter um início de ano difícil: como a rede escolar estava a sofrer uma pressão para a qual não tinham sido atempadamente procuradas respostas, havia, em todo o Distrito de Setúbal, na altura em que a referida reportagem do «Diário de Lisboa» foi publicada, cerca de cinco mil alunos sem aulas:




Comentários

Para uma leitura da reportagem do «Diário de Lisboa» (e também para o seu down load), aceder a http://casacomum.org/cc/diario_de_lisboa, escolher o ano (1987), o mês (Outubro), o dia (8) e as páginas (4 e 5).

Na fotografia desta reportagem vê-se, em baixo, a entrada para o Ginásio (porta à direita) e para o Refeitório (porta no topo da rampa); e, em cima, as janelas do Pavilhão B (as tais que estavam viradas para Poente e que, por não terem protecção contra o Sol, tornavam impossíveis as aulas da tarde).

Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Dois (Doc. 6; Doc. 22); Arquivador digital da Casa Comum (Diário de Lisboa: http://casacomum.org/cc/diario_de_lisboa)