[111] O ProfMAT de 1997, na Figueira da Foz

Memórias

Este Encontro Nacional oscilou, para mim, entre o muito cooperativo e o muito conflituoso.

A componente cooperativa dominou em o Laboratório de Matemática no ProfMAT – um espaço a visitar e a usar, tal como ele veio designado no programa do encontro. Tratou-se de um conjunto de propostas de actividade destinadas ao Ensino Básico, numa sala, e ao Secundário, numa outra sala, ao lado da anterior.

Tanto na 4ª feira, como na 5ª feira, como na 6ª feira do Encontro, estes dois espaços estiveram activos, como se mostra nesta versão colorida do calendário a preto-e-branco feito para a ocasião:


A primeira das «sessões especiais» foi dinamizada pelo Pedro Esteves e pela Rita Vieira. A segunda pela Adelina Precatado e pela Paula Teixeira. A terceira pela Manuela (não consegui descobrir, nos meus arquivos, o seu nome de família). E a quarta pela Josefa Costa e pelo Pedro Esteves.
Lembro-me de, na sala do Básico, onde sempre estive, se terem experimentado as Magias com Matemática; e de haver vários arquivadores com ideias propostas, muito bem acondicionadas em «micas», muito consultados e até anotadas pelos visitantes.

A componente conflituosa começou num painel dedicado a apresentar e a debater o relatório «Diagnóstico e Propostas sobre a Matemática Escolar», encomendado pelo Ministério da Educação com os objectivos de proceder a “um levantamento dos principais problemas” que afectavam o ensino da Matemática e de apresentar “um conjunto de propostas de intervenção tanto a curto como a médio prazo”. Apesar de apenas visar o caso da Matemática, a encomenda deste relatório dava uma ideia sobre a filosofia reformista do Ministério da Educação de Marçal Grilo: dar um papel de relevo aos «especialistas».
Para responder à encomenda foi constituído um grupo de oito professores, de diversos graus de ensino, todos, ou quase todos, sócios da APM. E os organizadores deste ProfMAT decidiram apresentar e debater as conclusões do relatório que o grupo elaborou através de um painel. A Leonor Cunha Leal e ela convidou algumas pessoas para nele participar, desejavelmente com diversos pontos de vista. Como eu também lá iria estar, li cuidadosamente o relatório, e não gostei do que li.
Partia-se, nele, de um facto indesmentível: os programas de Matemática então em vigor não estavam a ser “aplicados em muitos dos seus aspectos essenciais.” Depois, admitindo que estávamos numa época de transição entre “um currículo nacional normativo e extremamente pormenorizado” e “um currículo flexível, gerido localmente e adaptado às condições locais”, o relatório propunha que fosse adoptado, como medida central, um vasto programa de formação dos docentes através do qual se responderia “às dificuldades nas concepções, práticas e cultura profissional de muitos professores e à sua falta de actualização científica e didáctica tendo em conta a aplicação dos currículos em vigor, procurando-se igualmente colmatar as sérias lacunas existentes em termos de formadores habilitados e de apoios à investigação-acção”.
Esta medida deveria ser complementada, segundo o relatório, com o desenvolvimento da investigação curricular, com a constituição de estruturas e de equipas de especialistas para apoio às escolas e com a melhoria das condições de ensino e aprendizagem nestas, tendo como rectaguarda um Instituto de Desenvolvimento Curricular e uma Comissão Nacional de Matemática.
Este relatório, sob o ponto de vista do «diagnóstico», não se queixava dos «programas», queixava-se si dos «professores». E, quanto às «propostas», avançava com uma extensíssima lista de medidas centralistas, destinadas, sobretudo, a reforçar o papel dos «especialistas». Fui o único, entre os convidados para o painel, que procedeu a estas críticas.

O segundo momento conflituoso aconteceu durante a Assembleia Geral de Sócios da APM, que normalmente decorria num dos dias do ProfMAT. Ela realizou-se no dia 13 de Novembro e eu decidi questionar uma prática da Direcção da APM que se estava a tornar muito frequente e que, na minha opinião, era incorrecta: elaborar pareceres, para o Ministério da Educação, assinando-os como sendo «Pareceres da APM». Apresentei uma proposta que o contestava, cuja peça central era a seguinte: “Os pareceres a assumir futuramente pela A.P.M. deverão reflectir inequivocamente o nível a que foram tomados, isto é, deverão ser assinados ou pelos seus autores, ou pela Direcção da Associação, só devendo ser tomados como parecer da Associação de Professores de Matemática se este resultou de uma discussão alargada entre todos os sócios.” Por muito estranho que pareça, em cerca de cento e vinte sócios presentes na Assembleia, apenas eu votei a favor da minha proposta (mas fi-lo colocando-me de pé), tendo apenas havido cerca de meia dúzia de abstenções …


Comentários

Um dos argumentos com que me preparei para o painel tinha a ver com a «teoria da mudança» pressuposta no «relatório». Para isso, perguntei-me, nas notas que tomei: “Como imaginam os autores, neste documento, o modo como a mudança deve ser feita?” E anotei como elas eram vistas, ou criticadas, em textos que os membros do grupo de trabalho já deveriam ter lido: a Ana Benavente criticara as mudanças que estavam em curso entre nós por serem feitas de cima para baixo; o Rui Canário, mais indirectamente, criticara as mudanças que não partiam de contributos já existentes, defendendo as mudanças que adoptavam um «modelo conflitual» contra as que adoptavam um «modelo industrial»; o António Nóvoa chamara a atenção para os perigos de a profissionalidade docente vir a ser determinada por outros actores e argumentara com a necessidade de aproveitar as redes profissionais que já existentes; o José Alberto Correia argumentara de modo semelhante, ao propor a densificação das redes já implantadas entre os educadores; o Alberto Melo propusera mudanças sustentadas pela difusão em rede das inovações; o Michael Fullan defendera que os diversos actores educativos deveriam ter responsabilidades iguais; e na revista “Mathematics Teacher” defendera-se que as mudanças seguissem um modelo sistémico.

No final de Novembro escrevi ao João Pedro Ponte e ao Paulo Abrantes, dois dos autores do relatório que eu criticara no painel, insistindo nos erros que eles haviam cometido. Entre muitos outros comentários incluí este: “A A.P.M., penso, tem sido um foco importante que conduziu aos primeiros sinais de constituição de saberes profissionais próprios dos professores de Matemática em Portugal, e esse papel pode ser posto em causa se se desenvolverem internamente condições favoráveis [à primeira das três seguintes vias para] a evolução do professorado: a via da polarização profissional por especialistas […], a via da proletarização e a via da profissionalização).
Nunca obtive resposta a esta carta.

Hoje é claro que o meu receio de uma evolução profissional dos docentes seguiu a via da «polarização por especialistas».



Fontes: Esteves, livro de 2023, para a história do painel, e ficheiros ficheiros informáticos da pasta «Assoc. Professores Matemática / Encontros ProfMat / 1997 – F. Foz», para todo o ProfMAT