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[107] A Escola Secundária José Afonso em 1996-97

Memórias

No âmbito dos muitos documentos que foram produzidos este ano, um deles mostra uma lista os Projectos que estavam a funcionar este ano na «José Afonso»:

- Actividades em Férias;
- Atelier de Fotografia;
- Centro de Recursos;
- Clube do Ambiente;
- Clube de Ciência;
- Clube Mãos Verdes;
- Coro;
- Desporto Escolas;

- Educar-se Comunicando (Nova Maré / TV3D; Rádio SOS);
- Expo Dança;
- Expressão Plástica;
- Karting;
- Laboratório de Matemática;
- Ludoteca;
- Mini Half Pipe;
- Núcleo de Teatro:
- Sala de Estudo;
- Viva a Escola.”

Além do que já referi sobre o Laboratório de Matemática e sobre a Ludoteca no testemunho «105», apenas possuo algumas notas sobre o Projecto «Viva a Escola» (que fazia parte do Projecto Vida, do Ministério da Educação): no dia 20 de Janeiro, o Luís (Cardoso?), a Luísa Gracioso, o José Calado, o José Calqueiro, a Maria do Céu e o Pedro Esteves reuniram-se para preparar o Dia «D» (de «Droga»), que viria a decorrer no dia 28 de Janeiro, misturando jogos físicos com jogos mentais (estes foram concretizados na Ludoteca, com relevância para jogos envolvendo mais de 2 jogadores).

Além desta, muitas outras reuniões foram realizadas este ano.

O Ministério da Educação (ME) quis que todos os grupos disciplinares apreciassem as suas propostas de Revisão Curricular: as reuniões decorreram no dia 20 de Novembro e delas foram feitos relatórios parciais, a partir dos quais se redigiu um relatório global, enviado para o ME.

Também prosseguiu a elaboração do Projecto Educativo de Escola (PEE), que envolveu várias reuniões e um considerável número de documentos auxiliares, que faziam a ligação entre o caminho já feito e o que faltava fazer.
As reuniões que registei ocorreram em 15 de Novembro, 16 de Dezembro, 29 de Janeiro e 30 de Abril e foram destinadas, contrariamente às reuniões dos anos anteriores (este processo começou em 1993!), a ir elaborando um documento final, pelo que a diversidade daqueles que nelas participaram diminuiu: anotei os nomes da Adelaide Duarte, do António Cardoso, da Célia, da Élia, da Dª Helena (da Biblioteca), do José Calqueiro, da Lucília Pita, da Paula Viegas, do Pedro Esteves e do Sílvio (da A. Estudantes); e anotei que a Lucília foi eleita coordenadora deste processo.
Pelo meio houve diversas outras reuniões, que se abriram à participação de toda a comunidade, visando recolher comentários críticos preparatórios do documento final.

Ao voltar a folhear os documentos que foram sendo produzidos gostei especialmente de três pequenos contributos:
Os princípios propostos para o PEE eram: “diversidade”, “convivialidade” e “solidariedade”;
A imagem de escola que se sugeria era: “Uma Escola que conta com Todos”;
E o comentário que se encontrava no topo de um dos documentos era: “Tratar do corpo da escola / mas também da sua alma”.

Perto do final do ano, em 13 de Junho, concretizou-se a 1ª fase da votação sobre a proposta de Projecto Educativo (a 2ª fase deveria concretizar-se em Setembro, envolvendo então as turmas). De 220 eleitores, votaram 140 (63,6 %); 114 aprovaram o PEE (81,4 %); 16 não o aprovaram (11,4 %); 8 votaram em branco (5,7 %); e 2 votaram nulo (1,4 %):



Penso que o comentário “Tratar do corpo da escola / mas também da sua alma” tinha a ver com o facto de, paralelamente ao processo de definição do Projecto Educativo decorrer, durante este ano lectivo, o processo de participação da comunidade educativa na definição das novas instalações da escola. Ou seja, tanto a alma como o corpo da escola estariam sob a atenção de todos nós.
Curiosamente, verifico ter registado mais reuniões respeitantes ao «corpo da escola» do que à «alma da escola», apesar de aquelas se terem realizado quase exclusivamente no 3º período lectivo:


Estas reuniões tiveram uma evolução de espírito e de conteúdo:
- Inicialmente, a preocupação dos participantes oscilou entre definir uma posição de escola e aguardar pelas propostas da DREL (Direcção Regional da Educação de Lisboa);
- Pouco depois colocou-se a questão da relação entre os que se reuniam espontaneamente e os que no Conselho Directivo (CD) e no Conselho Pedagógico (CP) podiam tomar uma posição institucional;
- A reunião de 27 de Maio foi na DREL: segundo nos disseram lá, a 1ª fase corresponderia à remodelação do r/c do Pavilhão C; a 2ª fase à construção do Novo Pavilhão (com uma planta de mais ou menos 50 x 20 metros e dois pisos); a 3ª fase à construção de novos Pavilhão Gimnosdesportivo, Pavilhão para a Mecanotecnia (planta de 20 x 20 metros) e Refeitório; para o Sérgio, foram os Fax`s que a escola enviou que conduziram a esta reunião; para mim foi a gradual emergência da nossa opinião;
- Em 30 de Maio desabafei o seguinte nas minhas notas: havia duas estratégias paralelas à do grupo que se reunia, a secretista (algumas reuniões de grupos particulares com técnicos da DREL, não publicitadas) e a do CP (que queria que tudo passasse por lá que mas nada fazia por isso);
- A partir da reunião de 27 de Maio as reuniões foram foram marcadas pela aceitação da posição da DREL e pela preocupação com a obtenção de esclarecimentos complementares por parte da DREL e de restar informações à escola (o CP não se mexeu, mais uma vez);
- A dado momento, segundo as minhas anotações, alguns dos envolvidos nas reuniões começaram a falar em “diálogo” e em “negociação”, depois de andarem a tentar duplicar o preço do que pretendiam para satisfazer os seus interesses;
- Foi ficando claro que, com a proposta da DREL, não sobrariam espaços para «clubes» dos alunos e para «salas de trabalho» dos professores; para alguns poucos, como eu, a luta estava centrada na recusa da “lectivização” das instalações;
- Por outro lado, as posições mais institucionais concentraram-se na resolução dos problemas dos espaços associados às Ciências da Natureza e da Fisica-Química (melhorias no r/c do Pavilhão C) e, sobretudo, da Mecanotecnia (pavilhão a substituir);
- As reuniões de Julho destinaram-se a preparar uma segunda reunião com a DREL (que esta adiou), sempre com a tónica na “pressa” (ou seja, a de reduzir as obras de 3 para 2 anos).

Sabemos hoje que as obras só iriam começar alguns anos mais tarde …

Como curiosidade, entre os que acreditaram que a escola poderia vir a ter um papel na definição das novas instalações, foram ensaiados cenários para a evolução das obras e para o seu perfil final. Eis as duas versões em que eles apostaram:





Houve ainda uma reunião que, como as anteriores, teria tudo para ser considerada fazendo parte do processo de elaboração de um PEE: destinou-se a perspectivar o lançamento dos Currículos Alternativos na escola, para o que precisaríamos que estes figurassem no Projecto Educativo. Ela decorreu no dia 23 de Abril e juntou a Ana Chorincas, a Anabela (qual?), a Augusta Cabral, a Madalena Ferreira e o Pedro Esteves.

Não sei como ainda tive tempo para organizar uma pequena exposição intitulada «10 ANOS à mão livre». Esteve patente de 10 a 23 de Dezembro no corredor do 1º andar do Pavilhão C e exibia alguns desenhos meus feitos na escola ou para a escola. Talvez começasse a estar consciente que o meu tempo disponível para desenhar estava a terminar, devido aos outros envolvimentos. O que hoje acho de mais marcante nos desenhos mostrados é a mudança dos feitos à mão para os feitos com o computador (e os mais recentes, penso, já com o Windows).

Eis um exemplo de desenho feito à mão (integrei-o na capa do folheto produzido para divulgar a exposição):



E eis alguns dos desenhos feitos com computador (que ilustravam fichas de trabalho):



Comentários

Sob o ponto de vista do contexto em que a escola trabalhava, senti ao longo deste ano que cada vez mais coisas se estavam a ser decididas fora da escola, o que contrastava com as reuniões que internamente fazíamos (alguns pensando que através delas tínhamos um papel importante na definição do nosso futuro). Desabafei sobre isso nos apontamentos que tomei no dia 29 de Maio: “cada vez se decide mais o que é a Escola a partir do exterior – a formação inicial vê-se duplicada pela contínua (obrigatória), há diversos projectos lançados pelo Ministério da Educação, muitas vezes em ligação com as Universidades (depois do P. Minerva, há agora o P. Galileu, o P. Viva a Escola, o P. Bibliotecas abertas, etc., etc., etc.; as Câmaras Municipais começam a exibir a sua existência com Feiras Pedagógicas; o mesmo já faz o Instituto de Inovação Educacional; cada vez mais a indústria do ensino pressiona para vender máquinas de calcular, livros escolares, etc., promovendo encontros de defesa dos seus produtos … fora da Escola (ou entrando nesta para o fazer …).”

O exemplo das futuras instalações mostrou bem a insignificância dos esforços feitos na escola para «influenciarmos» o que viria a ser a nossa futura «casa». E não foi só a DREL que se limitou a simular que nos ouvia. Também internamente a postura de muitos dos participantes nas reuniões se reduziu a estarem atentos aos seus estritos interesses.
Como consequência, as instalações escolares que viríamos a ter passados alguns anos foram planeadas para uma escola pura e simplesmente curricular – tal como o Ministério da Educação deveria pensar que deveriam ser todas as escolas.

Estávamos portanto na escola a pensar na conclusão do PEE, mas com as nossas cabeças preocupadas com as obras. Ou seja, estávamos a deslocar o nosso pensamento da «alma» da escola para o seu «corpo», e um número significativo de nós apenas pensava na sua parte do «corpo que nos era comum».
Era um muito mau sinal.

Pretendia-se, com a proposta de PEE, que Escola conta-se “com Todos”, admitindo assim a nossa “diversidade”, que prosseguissemos com a “convivialidade” que desde sempre nos caracterizara e que o reforçássemos através da criação de laços de “solidariedade”. Não queríamos ser «Uma Escola para Todos», pois o «para» indicaria uma atitude «paternalista».
Mas já não iríamos ser capazes deste golpe de asa.

Anotei também, já perto do fim do ano lectivo, as múltiplas capacidades que gerir as múltiplas reuniões nos tinham exigido, um sinal claro de que não estava a ser fácil seguir um caminho colectivo: “capacidade de iniciativa, de colocar problemas, de fantasiar, de ouvir, de racionalizar, de afrontar (a rotina, o egoismo), de organizar, de expressar o pensamento comum, de registar, de sugerir, de ser diplomata (e de o não ser), de elucidar (equívocos), etc..”



Fontes
: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Sete (doc.s 37, 38, 40, 78, 80, 81, 91 e 92) / Album fotos analógicas ESJA Nove (F130: 36A)

[077] Em 1993-94: novas ideias a abrir caminho na «José Afonso»

Memórias


A Área Escola foi uma das novidades introduzidas pela reforma curricular, pelo que, em 1992-93, todas as turmas do 7º ano da «José Afonso» estiveram nela envolvidas. O tema geral então escolhido foi «Seixal – Passado, Presente e Futuro».
Em 1993-94 a reforma chegou também ao 8º e ao 10º ano, alargando a mais de metade das turmas da escola o empenhamento nesta nova área curricular. Desta vez o tema geral adoptado foi «As Viagens».
As minhas turmas optaram pela «Viagem ao mundo da marginalidade» (8º C), pelos «Riscos e mistérios do desconhecido» (8º D) e pelo «Turismo» (8º G). Tal como nestas, entre as vinte e sete outras turmas envolvidas nesta aventura curricular não faltou diversidade temática:
* as viagens das oito turmas do 7º ano tiveram como destino o «desporto», o «espaço», a «Europa» (“com a Escola na mochila”), a «nossa terra», o «passado» (numa outra turma os «Descobrimentos»), a «terra dos nossos pais» e, numa última, fosse para onde fosse a viagem o transporte usado seria o «comboio»;
* as viagens das sete turmas do 8º ano (que não as minhas) visaram a «História» (noutra turma foi especificada a «História de Portugal»), o «mundo dos adolescentes», a «Serra da Arrábida» e, nas restantes, a viagem deveria ser «à descoberta», «marítima» ou sobre «turismo e excursões»;
* e as doze turmas do 10º ano escolheram viajar ao «mundo da adolescência», ao «mundo do álcool», ao «mundo da área escola», ao «mundo da arte», ao «mundo do crime», ao «mundo da droga», ao «mundo dos sentidos», ao «mundo da SIDA», ao «mundo do trabalho», ao «passado da escola», ao «Portugal nocturno» ou, numa delas, preferiram fazê-lo através de um «intercâmbio cultural com uma escola da Madeira».
Para quem estuda ou reflecte sobre a adolescência, todos estes temas têm imenso significado!

A síntese do conjunto dos trabalhos realizados, feita no final do ano lectivo, tanto elucidou potencialidades desta área curricular como dificuldades na sua implementação:



Os projectos da escola activos neste ano foram considerados como integrantes do Viva a Escola (ou Projecto Vida), uma iniciativa do Ministério da Educação: o Arisco (dinamizado pelo Carlos e pela Elvira), o Ateliê de Expressão Plástica (Armando Pina), o Ateliê Textil (Maria do Céu Machado), o Clube Escolar de Ciência (Barros), o Desporto Escolar, o projecto Dos Desafios ao Laboratório e a Sala de Jogos (Pedro Esteves), o Grupo Coral (Elsa Mendes), a Mediateca, o Nova Maré, a Rádio SOS e a TV3D (Alice Santos e Sérgio Contreras), o Meteor (Paula Viegas e Vítor Campos), as Notícias via Modem (Luísa Gracioso) e o Teatro (inicialmente só animado por alunos).

Depois de, uns anos antes, o Conselho Pedagógico ter esboçado um primeiro Projecto Educativo de Escola em função da nossa candidatura à «Escola Cultural» (ver testemunho «030»), e de não lhe ter dado qualquer continuidade após a candidatura ter fracassado, propus ao Conselho Directivo, algures no início de 1992-93, que iniciássemos um novo processo de elaboração do PEE, agora de uma forma mais participada e, portanto, mais aberta. O Luís Carlos Carvalho respondeu-me que já tinha tido pensado nisso mas que se esquecera de o apresentar ao Conselho Pedagógico; mas, acrescentou, achava bem que fosse constituído um grupo de trabalho com esse objectivo.
O grupo só começou a trabalhar no 1º período de 1993-94, constituído primeiro pela Alice Santos, o João Louro, o Luís Carlos, o Pedro Esteves e a Teresa Ré, tendo reunido nos dias 14 e 29 de Novembro e apresentado à escola um primeiro documento onde abriram o grupo a quem nele quisesse participar. A primeira das reuniões abertas ocorreu no dia 2 de Fevereiro de 1994 e foi participada por onze professores: Alice Santos, Ana Chorincas, Anabela Esteves, Carla Ferreira, João Louro, Luísa Gracioso, Madalena Ferreira, Manuela Vieira, Pedro Esteves, Rosário Leocádio e Teresa Ré.
O Louro afirmou que a ideia de um «projecto de escola» surgira por conveniência do Ministério da Educação, que não nos proporcionava «autonomia» no que respeitava à «organização interna da escola», às «relações de trabalho», ao «financiamento» e à «possibilidade de estabelecer protocolos»; mas considerou que, apesar destes contras, deveríamos aproveitar a «oportunidade». Eu referi diversos desequilíbrios existentes na escola, a ser por nós pensados. E acordámos ir estabelecendo, ao longo do ano, contactos, bem distribuídos entre nós, com os grupos que pensávamos vir a ter um papel na definição do projecto: a Associação de Estudantes, a Associação de Pais, os Funcionários, o0s grupos disciplinares, os projectos da escola, a Secção de Formação do Conselho Pedagógico, as turmas e os respectivos Directores de Turma).

Numa reunião sindical realizada na escola no dia 26 de Maio, com a presença do coordenador do Centro de Formação de Associação de Escolas Rui Grácio, o Joaquim Sarmento, propus que a estratégia de formação contínua de professores tivesse em conta que a formação “com base em cursos afasta os professores da Escola e não os estimula a criar controlos sobre a sua profissão (e assim fragiliza-os)”; que a formação “baseada em Projectos pode resolver os anteriores problemas”; e que a formação “não conduz sempre a creditação”, pois se assim fosse empobreceria as nossas “aprendizagens”; etc..

Perto do final do 3º período houve eleições para o Conselho Directivo. Eis o folheto com o programa da Lista A (a única a concorrer), constituída pela Madalena Ferreira, pelo Armando Pina, pela Anabela Esteves, pela Isabel Silva e pela Elsa Mendes (dado este folheto ser para dobrar a meio, as suas páginas são, da esquerda para a direita e de cima para baixo: 4 – 1 – 2 – 3):




Em 11 de Julho, já muito perto do final deste ano lectivo, um arquitecto do Ministério da Educação reuniu com professores da escola para uma troca de impressões sobre as futuras instalações. Escrevi nas minhas notas que, para quem trabalhava na escola, só deveria ficar de pé o Pavilão C, sendo todas as outras construções para deitar abaixo; e acrescentei que não tinha ficado esclarecido o modo como se iria prosseguir a troca de opiniões entre as duas partes.
Ao almoço, com a Manuela Vieira, a Teresa Ré, a Maria do Céu e o João Fernandes, talvez por estarmos frustrados com a reunião, combinámos uma estratégia divertida para o desenvolvimento de um modelo para as futuras instalações, cabendo a cada um de nós separar alguma coisa: o curricular do não-curricular (a meu cargo); o Centro de Recursos do resto da escola (Manuela); as humanidades e artes das ciências e tecnologias (Teresa); a utopia da realidade (Maria do Céu); o curso unificado dos cursos complementares (que ficou sem responsável lúdico).

Prosseguindo a ideia surgida e implementada nos anos anteriores, também este ano, durante Julho e parte de Agosto, realizou-se na escola ou a partir dela a Ocupação em Férias, animada por quatro professores e pelas técnicas do Serviço de Psicologia e Orientação. As seguintes áreas escolhidas foram: desporto; passeios; artesanato; jogos; e hortofloricultura.

Fizeram parte do desporto quatro sessões de canoagem.
Entre os destinos dos passeios, estiveram o Jardim Zoológico, um Museu em Lisboa e a Praia de Tróia.
E os jogos decorreram na Ludoteca da escola. Sobre estes, anotei que os alunos adoptaram espontaneamente princípios como a “liberdade” (ninguém foi pressionado a jogar o mesmo jogo que os outros jogavam), a “cooperação” (o mais importante era manter a boa disposição, sem a preocupação de ganhar) e a “persistência” (cada jogo podia ser prolongado para além do momento de vitória de um, para que os outros pudessem explorar os recursos de que dispunham).


Comentários

A Área Escola foi um prolongamento da Escola Cultural, mas, enquanto esta era voluntária, a Área Escola era obrigatória (para as turmas, não para todos os seus professores). Quase dez anos mais tarde, a Área de Projecto manteve a obrigatoriedade para as turmas e restringiu-a a um só professor.
Todas estas experiências permitiram que algumas das questões originadas nos alunos fossem formuladas, e portanto tidas em conta no desenvolvimento curricular.
De notar que os temas escolhidos em 1993-94 por algumas turmas foram prosseguidos no ano seguinte.
No balanço referido acima ficou explícita, no 10º ano, a pressão negativa exercida pela avaliação escolar (através das «provas globais»); parece também evidente que alguns dos temas estariam especialmente ligados a uma só disciplina; e, ainda, não se notaram nesses temas ligações às actividades extracurriculares promovidas pela escola.

O João Louro tinha toda a razão quanto ao PEE ser uma ideia cuja concretização interessava ao Ministério da Educação e que exigiria uma «autonomia» da escola que não nos tinha sido concedida. E também tinha razão em considerar que, apesar disso, deveríamos  aproveitar a «oportunidade»: é que a «autonomia» deve ser afirmada e reclamada por aqueles que desejam ser «autónomos», e não concedida por alguém com poder para o fazer.

A direcção em que o Centro de Formação Rui Grácio trabalhou nos anos seguintes correspondeu aos desejos formulados na reunião sindical, o que pode não ter acontecido noutros Centros de Formação de Associação de Escolas do país.

O Ministério da Educação foi experimentando várias tipologias de instalações nas escolas, e cada uma foi utilizada numa determinada época, facilitando-lhe o enorme esforço de construção necessário para responder à explosão de alunos inscritos no sistema escolar após o «25 de Abril» (sobretudo no 3º Ciclo e no Secundário). Os contactos dos arquitectos com as escolas não seriam mais do que uma acção de sensibilização da comunidade escolar para os problemas que iriam enfrentar (nomeadamente a redução do espaço de aulas e os condicionamentos à circulação durante o tempo das obras), e de modo nenhum resultavam de qualquer vontade de a «ouvir».
Mas a tipologia típica de cada época não se reduzia à forma dos edifícios, incluía também o conetúdo de cada um e a sua organização interna. Se fosse possível, nem seria fácil «negociar» alterações dessas tipologias com o Ministério da Educação, nem seria fácil estabelecer consensos dentro da comunidade educativa sobre as propostas a apresentar nas eventuais «negociações». Este foi um assunto a que se iria voltar mais tarde.


Fontes: Pedro Esteves / Arquivadores de documentos analógicos ESJA Cinco (Doc. 20) e Seis (DOC.s 13, 28, 42, 59 e 61)

[032] A Escola Secundária Nº 1 do Seixal em 1989-90: Novembro e Dezembro

Memórias


Quem participou na reunião do Conselho Pedagógico no dia 8 de Novembro soube que:
Uns dias antes se tinham reunido na Escola cerca de 150 a 200 Encarregados de Educação para apreciar os problemas das instalações;
No dia 22 de Novembro os Conselhos Directivos da AP12 (Área Pedagógica 12) se iriam reunir para tomar decisões sobre os problemas com os Funcionários das respectivas escolas (previa-se que no fim de Novembro sairiam 13 desta Escola e que no distrito de Setúbal sairiam cerca de 600 [mais tarde o ME autorizou a sua continuação por mais duas semanas]; entre as 28 escolas da AP12, só na Escola Secundária Anselmo de Andrade, na Escola Secundária da Amora e na Escola Secundária do Fogueteiro não se previa vir a ocorrer este problema);
No dia 15 de Dezembro se realizaria o Corta-Mato da Escola (estando previstas outras actividades em paralelo), havendo para tal interrupção total de aulas.

As reuniões intercalares realizaram-se nos dias 10 e 11 de Novembro.

Não me recordo se se concretizou a interrupção das aulas, por 2 dias, para discutir o Estatuto da Carreira Docente proposto pelo Ministério da Educação.

No dia 18 de Novembro, tal como no ano anterior, voltou a ser comemorado o Dia Mundial do Xadrez. Eis um dos cartazes que desenhei para este evento:


O 1º Torneio de Xadrez, disputado no ano anterior, tinha sido subdividido em dois níveis etários, «juvenis» (com 5 participantes, sendo vencedor o Alexandre Felício) e «juniores» (com 4 participantes, sendo vencedor o Mário Barros).
Este ano, nas tardes das Quartas-feiras do 1º período, de novo na Sala de Dinamização Cultural, disputou-se o 2º Torneio de Xadrez, com os mesmos dois níveis etários: era «juvenil» o aluno que tivesse menos de 16 anos no dia 1 de Setembro de 1989; e era «júnior» o que tivesse entre 16 e 20 anos nessa data.
Os resultados dos dois torneios foram registados no nº 1 do boletim «XADREZ notícias», afixado, em Março, na Sala de Dinamização Cultural:



No final do 1º período foi disputado o 1º Concurso de Quebra-cabeças, constituído por 5 provas (ver as diferenças; determinar a posição de números; resolver palavras cruzadas; encontrar a saída de um labirinto; colocar colunas na posição correcta). Participaram 5 alunos (que foram para a Sala de Dinamização Cultural com a intenção de jogar mas que, em alternativa, decidiram participar no concurso): um do 7º, dois do 8º, um do 9º e um do 10º. Os vencedores foram o Rui Pinela (9º ano) e o Luís Raimundo (8º ano), com 34 pontos em 35 possíveis, seguidos pelo Luís Leitão (10º ano), com 33 pontos.

Entretanto o Conselho Directivo aceitou para a Direcção de Instalações da Sala de Dinamização Cultural o José Fernando Santos e o Henrique Oliveira, ambos professores de Matemática.

O 1º período lectivo terminou no dia 15 de Dezembro.

Comentário

Não possuo qualquer informação sobre se foram disputados nesta Escola outros torneios de Xadrez antes destes dois, e se houve prática regular desta modalidade.

Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Dois (Doc.s 62, 65, 66, 80, 81 e 104)

[027] As fotografias das turmas do 9º ano no final de 1988-89

Memórias

Para «colorir» as fotografias das turmas divulgadas no testemunho «022», eis as da malta do 9º M no final do ano lectivo (16 de Junho de 1989), nas escadas da antiga entrada da escola (ao fundo vêem-se as janelas da Sala de Professores):

Eis a malta do 9º P, no mesmo dia, em pleno campo de futebol do Pavilhão D (lá ao fundo vê-se o Portugal dos Pequeninos):


E eis a malta do 9º Q, ainda no mesmo dia, de costas para a antiga entrada da escola (ao fundo vêem-se as instalações da empresa A. Silva & Silva), primeiro só a turma …


… depois com o seu professor de Matemática (estamos de frente para a entrada da escola):


Comentários

Os finais de ano lectivo são sempre uma libertação para os alunos (cansaço das aulas; necessidade de férias) e uma saudade para os professores (irão perder de vista muitos daqueles alunos).

Comprei a máquina fotográfica analógica que tirou estas fotografias, uma Canonet, em 1977. Foi com ela que fui documentando algumas das actividades que organizei ou em que participei como professor.

Fontes: Pedro Esteves / Álbum de fotografias analógicas ESJA Um 
(F12, F13, F15 e F18)

[026] Mais actividades extracurriculares, no Seixal, em 1988-89

Memórias

Lembro-me bem da Gincana de Carnaval que se disputou no início de 1989. Foi preparada por um pequeno grupo de professores (além de mim, recordo-me da Alice Santos) e concretizada no dia 2 de Fevereiro. O desenho explicativo (deve ter sido afixado e, claro, entregue às equipas concorrentes) saiu-me assim:

As equipas eram compostas por 5 membros, como se nota no desenho, e tinham de mostrar as suas destrezas rodeadas por um público em delírio. E o local onde tinham de mostrar as suas habilidades situava-se entre o Pavilhão da Mecânica (à esquerda na fotografia seguinte) e o Pavilhão B (à direita), mais ou menos onde tinha estado o pavilhão de madeira desactivado um ou dois anos antes (rectângulo visível no chão):


Segundo as notas que conservei, além desta iniciativa pontual houve quatro centros de actividades extracurriculares com expressão ao longo deste ano: as da Sala de Dinamização Cultural [ver testemunho «025»], as do Centro Escolar de Informática (CEI), as do Clube de Ciências Sociais e as da Videoteca. Entre os coordenadores do CEI, no ano anterior e neste ano, estiveram o Alfredo Massapina, o Alfredo Monteiro, o Arlindo Carvalho, a Madalena Ferreira e o Olímpio Pereira.

Comentários

Soube-se, através do Conselho Pedagógico, que o jornal Nova Maré obtivera o 3º prémio no Concurso Nacional de Jornais Escolares.

Devido às lutas sindicais dos professores, os Jogos Sem Carteiras e a Escola Aberta deste ano foram cancelados, bem como a Semana de Interrupção de Aulas prevista para o 3º período.

Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Dois (Doc.s 62, 91 e 104) / Álbum de fotografias analógicas ESJA Um (F17)

[025] O início das actividades na Sala de Dinamização Cultural da Escola Secundária do Seixal

Memórias

A entrada do já desaparecido Pavilhão D da Escola Secundária do Seixal dava para um corredor ladeado por salas de aula. Este chegava a um segundo corredor, que lhe era perpendicular e que também dava acesso a salas de aula. Quer seguíssemos para a esquerda quer para a direita deste novo corredor, as primeiras portas davam para salas enormes. A da direita tinha escrito à entrada: Sala de Dinamização Cultural.
Foi esta a sala que solicitei ao Conselho Directivo, no início de 1988-89, quando decidi realizar uma pequena exposição, intitulada A Outra Face da Matemática, destinada à recepção dos novos alunos.

Quase nada recordo dessa exposição. Mas sei que a partir dela a Sala de Dinamização Cultural ficou à minha responsabilidade. Ao longo do ano, ela foi frequentada por alunos interessados em jogos, puzzles e problemas, para o que lá coloquei o material adequado.
No dia 19 de Novembro, um Sábado (havia aulas aos Sábados) foi aí comemorado, pela 1ª vez nesta escola, o Dia Mundial do Xadrez, que incluiu uma simultânea e uma exposição. Desenhei assim o respectivo cartaz:

Foi também nela que se realizou um Torneio de Xadrez e a fase local das Olimpíadas Nacionais de Matemática (nenhum aluno desta escola passou à 2ª fase). Penso que foram as primeiras vezes que estas iniciativas ocorreram nesta escola.

No final do ano, precisamente em 10 de Junho de 1989, uma equipa da escola (não estou certo de ter sido só uma equipa) participou no Iº Torneio de Xadrez Jovem (dos concelhos de Almada e do Seixal), disputado no Monte da Caparica Atlético Clube (entre os seus dinamizadores estavam o Henrique Cardoso e o Fernando Pena, além de mim, todos animadores do Xadrez distrital).
Na primeira das seguintes fotografias vêem-se três membros da equipa da escola (o moço louro e as duas moças) a jogar uma das partidas (o tabuleiro vazio sugere que: ou terá faltado um dos membros de uma das equipas; ou essa partida já teria acabado no momentos em que a fotografia foi tirada):


E na segunda das fotografias vê-se, de pé, um dos organizadores do torneio (pai de uma das actuais professoras na Escola Secundária José Afonso):


Comentários

É-me hoje difícil imaginar como me foi possível, no mesmo ano lectivo, coordenar o grupo de Matemática, participar no Conselho Pedagógico e, ainda, iniciar as actividades na Sala de Dinamização Cultural. Foi há 35 anos …

Não me recordo se foi a minha iniciativa que levou o Conselho Directivo a atribuir-me a responsabilidade pela Sala de Dinamização Cultural, ou se fui eu a propô-lo.

O nome dado a esta sala vinha do tempo em que ela fazia parte da Escola Preparatória do Vale da Romeira. Em 1988-89, em diversos documentos da escola, enquadrei, as actividades que se realizavam nesta sala no Clube Galileu de Ciência e no Grupo de Xadrez, sem com isso pôr em causa o significado da placa identificadora herdada (e que permaneceu na porta até ao último dia do Pavilhão D).
Só alguns anos depois, quando o meu grupo de professores criou um Laboratório de Matemática, a sala de Dinamização Cultural passou a ser designada por Ludoteca.

No Dia Mundial do Xadrez eu assegurei a simultânea e a exposição deveria ser a mesma que eu já apresentara na Siderurgia.

O Dia Mundial do Xadrez foi alterado, alguns anos mais tarde, sob o patrocínio das Nações Unidas, para 20 de Julho.

Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Dois (Doc.s 62, 63, 64 e 104) / 
Álbum de fotografias analógicas ESJA Um (F3 e F6) / Arquivador digital Tese de Mestrado (4EXPR64)

[014] O difícil início de 1987-88 na Escola Secundária do Seixal (e no Distrito de Setúbal)

Memórias

Em 1987-88, o espaço da Escola Secundária do Seixal foi ampliado com aquele que se passou a chamar Pavilhão D e com o espaço circundante que lhe estava associado. Na planta seguinte este acrescento está situado à direita (comparar com a planta inserida no testemunho «001»):


A partir desta altura o espaço escolar passou a ser constituído por dois níveis topográficos, um mais baixo, onde se encontravam os pavilhões que a escola já possuía, e outro mais alto, onde se situava o Pavilhão D e, hoje, se encontra o Gimnodesportivo. A separar estes dois níveis continuava a estar a barreira à qual se encostavam o antigo Pavilhão B e, sob ele, o Ginásio e o Refeitório.

Esta foi a origem da principal dificuldade em iniciar normalmente o ano lectivo, pois teve consequências transversais nos equipamentos, nos serviços (caso do segundo bar), nos funcionários e nos professores. O Conselho Directivo elaborou um relatório sobre o que estava a acontecer, o «Diário de Lisboa» fez uma reportagem eloquente sobre o assunto e a inspectora Fragoso acompanhou, com alguma calma, o modo como o CD estava a resolver os problemas.
Como o Pavilhão D tinha sido destinado ao 7º e ao 8º ano, não admira que os problemas destas turmas tenham sido persistentemente abordados nas reuniões do «directivo» (em 7, 21 e 29 de Setembro; em 6, 8, 13 e 27 de Outubro; em 3 de Novembro; em 7 e 15 de Dezembro; e em 2 de Fevereiro).
Quanto aos docentes, o CD decidiu proporcionar-lhes uma mudança que iria durar até à construção do actual pavilhão principal: a Sala de Professores foi transferida para a sala A1, muito próxima da entrada na escola (decisão que foi abordada nas reuniões de 29 de Setembro e de 6 de Outubro). Seria inevitável, pois o acréscimo do número de professores tornara inviável a sala que funcionara até então.

Não foi só a Escola Secundária do Seixal a ter um início de ano difícil: como a rede escolar estava a sofrer uma pressão para a qual não tinham sido atempadamente procuradas respostas, havia, em todo o Distrito de Setúbal, na altura em que a referida reportagem do «Diário de Lisboa» foi publicada, cerca de cinco mil alunos sem aulas:




Comentários

Para uma leitura da reportagem do «Diário de Lisboa» (e também para o seu down load), aceder a http://casacomum.org/cc/diario_de_lisboa, escolher o ano (1987), o mês (Outubro), o dia (8) e as páginas (4 e 5).

Na fotografia desta reportagem vê-se, em baixo, a entrada para o Ginásio (porta à direita) e para o Refeitório (porta no topo da rampa); e, em cima, as janelas do Pavilhão B (as tais que estavam viradas para Poente e que, por não terem protecção contra o Sol, tornavam impossíveis as aulas da tarde).

Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Dois (Doc. 6; Doc. 22); Arquivador digital da Casa Comum (Diário de Lisboa: http://casacomum.org/cc/diario_de_lisboa)

[009] O primeiro ano no Conselho Directivo

Memórias


Para quem nunca tinha estado num «Conselho Directivo», como eu, era impossível imaginar a diversidade de assuntos que aí era necessário resolver. E para quem, a partir do final dos anos 90, teve a experiência de fazer parte de um «Conselho Executivo», ou, na última década, foi «Director» ou fez parte de uma «Direcção», é inimaginável a quantidade de aspectos básicos do funcionamento de uma escola que, no final dos anos 80, ainda estavam por resolver.

As primeiras reuniões do Conselho Directivo de 1986-88 destinaram-se a ouvir o que o Conselho Directivo anterior (representado pelo Alfredo Monteiro e pelo José Filipe) tinha a transmitir.
Ficámos a saber que entre os problemas que iríamos enfrentar estavam:
* A falta de Funcionários Auxiliares (assim eram designados na altura);
* A saída de diversos Funcionários Administrativos (entre eles a Dª Ernestina, chefe da Secretaria);
* As infiltrações na parede de fundo do Ginásio, bem como as irregularidades do seu piso e a falta de água quente nos balneários;
* A fuga de gás e a falta de funcionários no Refeitório, que por estas razões estava encerrado;

* A falta de protecção contra o Sol, durante a tarde, nas salas de aula do 1º andar do Pavilhão B que tinham janelas para Poente;
* A necessidade de reparações em diversos retroprojectores (era através deles que se projectavam os acetatos», equivalentes aos Power Point de hoje);
* A necessidade de estabelecer contratos de manutenção para o material da Reprografia.

Outra diferença em relação aos tempos actuais era a data do início das aulas, que naquela altura só acontecia muito mais tarde. Por isso, só no dia 1 de Outubro se fez uma visita dos novos professores da escola ao concelho do Seixal, terminada com um almoço nas instalações da Timbre Seixalense. Estas eram ainda as antigas, um edifício com uma forma prismática, encimado pelas duas águas de um telhado. Se a minha memória não se engana, o almoço foi uma caldeirada, o que era bem adequado para uma terra que, então, ainda sentia fortemente a sua tradição pesqueira.

Não cheguei a trabalhar nas antigas instalações do Conselho Directivo (a partir de agora poderei designá-lo por «CD»), salvo erro situadas no bloco (b) referido no testemunho «001». Como se tratava de um espaço muito acanhado, este CD decidiu transferir o seu local de trabalho para o canto Sudoeste do andar superior do Pavilhão C, onde permaneceu durante mais de uma década, até à conclusão das obras do actual pavilhão principal:


Os pelouros deste CD foram assim distribuídos: o Louro como presidente e a Teresa como vice-presidente; eu como secretário (ajudava no Conselho Administrativo e tratava da Papelaria, do Bar, do Refeitório e do N.A.S.E., o actual S.A.S.E.) e e a Manuela e o Vítor como vogais (cabendo ao Vítor ser delegado para o ensino nocturno).

A nova chefe da Secretaria (que ainda não se chamava Serviços Administrativos) passou a ser a Dª Isilda, que se manteve nesse posto até à sua reforma, salvo erro em 2010.
A Secretaria, além da Dª Isilda, passou a contar, entre quem já estava na escola e quem chegou neste ano, com a Ana, a Elisabete, a Maria do Céu, a Delmira, a Helena Lopes, Dª Helena Silveira, Dª Madalena e o Roberto. Lembro-me também de aí terem trabalhado durante algum tempo a jovem Anabela e o Ladislau (que mais tarde foi professor de Inglês), mas não estou certo de ter sido em 1986-87, ou em 1987-88, ou em ambos os anos.
Depois de várias experiências (para saber quem ficaria melhor a fazer o quê), o funcionamento da Secretaria (em particular o do N.A.S.E.) estabilizou.

Os problemas do Refeitório arrastaram-se durante quase todo o ano. Chegou a sair uma notícia sobre isso no «Correio da Manhã» e o Partido Comunista tomou uma posição sobre o assunto na Assembleia da República (não possuo cópia do conteúdo do que foi escrito e dito); e também foram dadas entrevistas à RDP e à Rádio Palmela. Por fim, depois de muitas reuniões e hesitações, o Refeitório lá abriu, algures em Maio (o que deve explicar o grande número das minhas faltas às aulas, nesse mês, na Siderurgia, justificadas como «Serviço Oficial»).
Quanto aos problemas do Ginásio, foram-se agravando, tendo, em Março, acabado por fechar (não me recordo se, até ao fim do ano lectivo, chegou a reabrir).

Em Setembro, durante a transição entre CDs, ainda as aulas não tinham começado, o novo Conselho Directivo foi informado pelo Ministério da Educação (ou «ME», como a partir de agora o poderei designar) de que se estava a preparar o acrescento das instalações da escola com as da antiga Escola Preparatória de Vale da Romeira Nº 1. O estado em que essas novas instalações estavam (ver o testemunho anterior) não era o único problema: se em 1986-87 tínhamos 41 turmas, sem contar com as do 12º ano e com as nocturnas, para 1987-88 o ME queria aumentá-las para 62 turmas (assim foi dito numa reunião em que o Vítor Solha esteve presente, perto do fim de 1986-87): 22 do 7º ano, 13 do 8º ano, 10 do 9º ano, 9 do 10º ano e 8 do 11º ano.
Apesar de se estarem a construir várias escolas no concelho (Escola Preparatória de Corroios, Escola Preparatória de Vale de Milhaços e Escola Secundária da Sobreda), de a recente Escola Secundária do Fogueteiro estar a ser ampliada e de se ir iniciar, no Cavadas, a construção da escola que substituiria a da Vale da Romeira Nº 1, a chegada de novos alunos aos diversos anos de escolaridades estava a ser mais rápida do que a criação de novas instalações para os acolher …
Este seria o grande desafio deste CD em 1987-88.

Comentários:

Tenho 78 páginas manuscritas com notas sobre 76 reuniões deste CD, realizadas ao longo dos 2 anos da sua vigência, uma média superior a 3 reuniões por mês (trata-se de um documento interessante para estudar o tipo de desafios que uma escola secundária tinha de enfrentar na segunda metade da década de 1980 e numa região que nunca foi prioritária para o poder central).
As primeiras 40 páginas dessas notas e as primeiras 40 reuniões deste Conselho Directivo (a que se juntam mais algumas com outras pessoas ou entidades) dizem respeito ao ano de 1986-87.

De vez em quando penso nesta minha passagem pelo CD. Terei feito bem em aceitar? E terei sido uma boa escolha?
Se se pensar sob o ponto de vista «tecnocrático», foi um erro de «casting» terem-me convidado para o CD com a ideia de me atribuir os pelouros que me atribuíram, pois a minha «vocação» era trabalhar com alunos.
Mas, se se pensar sob o ponto de vista de uma «democracia participada», por que não haveria de me ser proporcionado um trabalho um bocado chato (para o meu gosto), pois ele teria de ser feito por alguém, e quem o fizesse passaria a compreender melhor uma parte da vida da comunidade escolar?
Portanto, acho que fiz bem em aceitar o desafio; mas poderia ter evitado a crítica de que fui alvo em casa, por não ter partilhado o convite antes de o aceitar.
Esta experiência mostrou-me também que ficava bem aos professores serem capazes de gerir as suas escolas, sem necessidade de recorrer a gestores profissionais. E, pelo que fui observando nos anos seguintes, ajudou-me a perceber que é bom que essa gestão por professores seja rotativa, não se eternizando, como aconteceu nalgumas outras escolas.

Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Dois (Doc. 6)

[008] No final dos anos 80: o problema das instalações escolares nos concelhos de Almada e do Seixal

Memórias

No dia 22 de Novembro de 1986 realizou-se, na Escola Secundária Emídio Navarro, um Encontro-Debate
sobre a situação do ensino nos concelhos de Almada e Seixal, organizado pelo Secretariado das Associações de Pais da Almada e Seixal, pelas duas Câmaras Municipais, pelo Sindicato de Professores da Grande Lisboa e pelo Secretariado de Inter-Conselhos Directivos de Almada e Seixal.

A capa do documento final, que registou as diversas intervenções, foi esta:
 

As preocupações expressas nesse Encontro dizem-nos muito sobre as dificuldades daquela época, mas também nos dizem que as escolas estavam atentas e procuravam participar na solução dos problemas que as afligiam. A primeira frase da apresentação deste documento esclarecia que, desde os anos anteriores, as escolas dos Concelhos de Almada e Seixal se defrontavam “com graves dificuldades, nomeadamente carências de instalações e equipamentos.” O que implicava atrasos “no início de sucessivos anos lectivos, com repercussões nas condições de trabalho e aprendizagem, com elevadas taxas de insucesso escolar.” No momento daquele Encontro, bem próximo do final de Novembro, ainda havia 2 500 alunos sem aulas em três das escolas destes dois concelhos.
As escolas estavam conscientes de si, mas também estavam conscientes para além de si: sabiam (assim ficou registado) que o insucesso escolar era um problema grave no país - 24 % no 5º ano; 19 % no 6º ano; 36 % no 7º ano; 34 % no 8º ano; e 32 % no 9º ano – e sabiam que por detrás desse insucesso havia programas desarticulados uns em relação aos outros, desadequados face ao “interesse dos alunos” e à “realidade do mundo actual” e insuficientes, quer como resposta às necessidades de “formação do aluno como pessoa e cidadão interessado, crítico e participativo”, quer como espaço para a manifestação da “individualidade de cada um”.
Ninguém havia decretado que era necessário realizar este Encontro, mas as escolas acharam que era necessário fazê-lo.

Entre os anexos que este documento juntou figuravam várias fotografias que mostravam a degradação a que chegaram as instalações de algumas escolas, como as da Escola Preparatória Vale de Romeira nº 1 (actual Escola Básica 2+3 António Augusto Louro), que viriam a ser incluídas, em 1987-88, nas da Escola Secundária do Seixal (e onde eu iria dar muitas das minhas aulas).
Eis três dessas fotografias, com as legendas originais:




Comentários

Nestes anos havia contactos entre os Conselhos Directivos dos concelhos de Almada e do Seixal, para definição de objectivos comuns e coordenação de esforços. A certa altura o Ministério da Educação fez-se convidar para as reuniões dessa estrutura informal e acabou por criar, inspirado nela, as «Áreas Pedagógicas». As escolas de Almada e Seixal foram agrupadas na Área Pedagógica 12, conhecida por AP12.

Quer o Conselho Directivo, quer a Associação de Pais da Escola Secundária do Seixal estiveram representados no Encontro Debate. No entanto, foi apenas nos finais de Abril de 1987 que eu encontrei na escola, em cima de uma cadeira, como se aí tivessem ficado esquecidos, vários exemplares do «documento final»; achei-o importante e guardei um dos exemplares.

É bem possível que as fotografias das salas degradadas da Escola Preparatória sejam únicas. Existem outras fotografias posteriores do respectivo pavilhão, quando ele já fazia parte da Escola Secundária do Seixal: serão divulgadas mais tarde.

Fonte: Câmara Municipal de Almada, Câmara Municipal do Seixal, Secretariado das Associações de Pais de Almada e Seixal, Secretariado dos Inter-Conselhos Directivos de Almada e Seixal e Sindicato dos Professores da Grande Lisboa, 1987. Encontro Debate / Situação do ensino em Almada-Seixal / Documento final (citei acima as intervenções de Luísa Beato, Óscar Soares e Rosa Oliveira)

[003] As aulas na Siderurgia Nacional

Memórias


As aulas do Curso de Formação de Jovens eram leccionadas no Centro de Formação da Siderurgia Nacional. Este situava-se por detrás do Pavilhão da Siderurgia (primeira fotografia), mas já lá não pode ser visto, pois foi demolido, restando dele apenas as suas fundações (imagem aérea do Google) e o portão de entrada (segunda fotografia):




As disciplinas leccionadas eram as seguintes (os anos do Curso correspondiam, escolarmente, ao 7º, ao 8º e ao 9º):


Apenas me recordo de alguns dos professores que leccionavam as turmas do 2º ano e do 3º ano em 1985-86: o José Augusto (História), o Vítor Campos (Física-Química), o engenheiro Santos Jorge (que talvez tivesse a seu cargo a Tecnologia) e, claro, eu próprio (Matemática).
Todos contávamos, ainda, com o senhor Campos, funcionário da Siderurgia, que cuidava de tudo quanto houvesse a cuidar para que alunos e professores fizessem bem o seu trabalho.

O currículo da Matemática não era muito diferente do escolar. A principal alteração seria a da Trigonometria, antecipada para o 2º ano, devido às aplicações que dela eram feitas na Tecnologia, o que percebi quando, logo no início do ano, o professor desta disciplina me solicitou que a Trigonometria fosse abordada o mais cedo possível. Pelo que este foi o primeiro tema que abordei com as turmas do 2º ano.

Para este tema, tal como para os outros, elaborei uma ficha com informações e problemas, tentando mostrar como a Matemática estava ligada ao quotidiano e às profissões. Mas, para além desta recolha, os alunos, durante as aulas, foram trazendo mais ideias. Eis as notas que tomei sobre a Trigonometria:


Quando abordámos as Homotetias (2º ano), o Fernando Rosa trouxe para a aula um Pantógrafo, um aparelho destinado a fazer ampliações e reduções de figuras. Apesar de incompleto, foi possível utilizá-lo como uma ilustração manipulável do tema em estudo.
Alguns alunos do 3º ano, ao trabalharmos as Potências, exemplificaram-nas com o Número de Avogadro (aproximadamente igual a 6,023 x 1023), que haviam estudado na Física. E, a propósito da Circunferência, lembraram-se do torno, da roda dentada, da secção dos fios eléctricos, da geração de corrente eléctrica por um motor rotativo e do traçado da sinusóide com o apoio de um círculo trigonométrico.

Os testes que me ajudaram a avaliar a aprendizagem destes temas foram «com consulta» (isto é, os alunos podiam consultar as fichas de apoio e os apontamentos que tinham tirado durante as aulas). Parecia-me ser mais importante os alunos saberem «o que fazer» com as informações de que dispunham do que terem-nas na «memória».

Dei 80 aulas às turmas do 2º ano (6 faltas) e 76 às do 3º ano (7 faltas).
As faltas resultaram de uma reunião do Grupo de Matemática, da realização de eleições autárquicas, de uma «ponte» concedida pela Siderurgia, de uma greve da Transtejo, tendo as restantes tido origem na minha utilização do «artigo 4º» (por doença, ou algo semelhante).

Comentários

A localização do Centro de Formação contou com a memória e a fotografia do Jorge Sezinando. E a identificação dos professores contou com a memória do Vítor Campos.
Quem teria leccionado Português? E Inglês? Terá o José Augusto acumulado História e Português?

As fichas temáticas que produzi eram fotocopiadas pela Siderurgia e procuravam compensar a ausência de um livro escolar (para o meu planeamento usei, como apoio, o «M8» e o «M9», da Texto Editora).
Talvez tenha sido na Siderurgia que me comecei a habituar a «criar o meu próprio livro escolar». E também a «recolher e registar ideias», com a intenção de as desenvolver e usar nos anos seguintes.

Na página «Documentos» deste blogue (e, aí, na pasta: «Didáctica da Matemática») coloquei uma versão em PDF da ficha que produzi para o tema «Potências». Será interessante analisar, ao longo de vários anos, os recursos que cada professor mobiliza para implementar o seu estilo de ensino, sobretudo numa época em que esses recursos ainda eram muito escassos.

Na década de 80 e durante parte da década de 90 manuscrevi as minhas fichas e os meus testes, o que, comparativamente a tê-lo feito recorrendo a uma máquina de escrever, me facilitava muito a paginação, nomeadamente para a introdução de tabelas, figuras e desenhos.

Foi pena só ter conhecido alguns anos mais tarde alguns dos professores de Matemática que se tinham envolvido nestes cursos, noutras empresas. Se tivéssemos conversado enquanto estes cursos duraram, teríamos elaborado um currículo menos «escolarizado» do que aquele que o Ministério da Educação nos tinha colocado nas mãos.

A minha dificuldade inicial para localizar o Centro de Formação da Siderurgia, o apoio dado pela memória do Jorge Sezinando e pelas imagens do Google Maps e a descoberta de que, afinal, o Centro havia sido demolido, restando dele apenas as fundações, são uma interessante analogia para o que é «reconstituir o passado»: apesar da articulação de diferentes contributos, grande parte do que «as coisas eram» e do que «aconteceu» já não pode ser recordado.

Fontes: para as «memórias», Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Um (Doc. 4, Doc. 18, Doc. 21, Doc. 41, Doc. 51 e Doc. 68), sendo as duas fotografias de 2021; para os «documentos», Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Um (Doc. 111)