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[096] Projectos ligados à Matemática nas Escolas Secundárias de Almada e Seixal (balanço no final de 1995-96)

Memórias

Depois de ter resumido, no testemunho «058», o que soube sobre os projectos ligados à Matemática nas escolas de Almada e Seixal, até ao final de 1991-92, actualizei-o, no testemunho «095», até ao final de 1995-96, apenas para as Escolas Básicas, e actualizo-o agora para as Escolas Secundárias.
Incluo agora algumas informações não prestadas no testemunho «058».


Escola Secundária Anselmo de Andrade

1992-96

O «Clube da Matemática», que tinha sido criado no ano 1990-91 e foi transformado em Projecto MATlab no ano seguinte, teve como animadoras em 1992-93 as professoras Ana Cristina Fonseca, Ana Paula Natal e Filomena Teles. Paralelamente, elas contaram com o apoio do João Leonardo, técnico desportivo da Câmara Municipal de Almada, para o ensino do Xadrez.

Desde 1992-93 que um grupo informal de professores se reúne para implementar aquilo a que chamaram Interdiciplinaridade Física / Matemática; a inspiração para este trabalho veio do Sérgio Valente e a respectiva coordenação esteve a cargo da Ângela Queiroz.

Em 1993-94 a Conceição Tomás (acabada de entrar nesta Escola) e a Filomena Teles criaram o Grupo de Complementos ao Espaço-Aula, iniciando aí a recolha de actividades destinadas a ajudar a responder a situações em que os Alunos: ou “não contactaram com determinadas áreas de conhecimento em anos anteriores”, podendo superá-lo “com uma certa autonomia e alguma orientação”; ou têm “bastantes dificuldades necessitando de programas de recuperação”; ou possuem “capacidades especiais”. As actividades recolhidas, no primeiro ano centradas na Geometria, foram depois integradas no Centro de Recursos de Matemática da escola, juntando-se a outros materiais já aí existentes (manipuláveis e audiovisuais).

A Filomena queixou-se de, em 1995-96, a iniciativa dos professores se ter reduzido, como consequência da obrigatoriedade de frequência de «Cursos» para obter «créditos».


Escola Secundária Nº 1 de Corroios (actual Escola Secundária João de Barros)

1992-96

O LUDOMAT, herdeiro (por parte da Matemática) do «Clube de Ciência (que era multidisciplinar), associou-se a dada altura, através da Mirita Sousa, ao Projecto MATlab (interescolas), tendo mantido essa ligação quando este, em 1994-95, se prolongou como Projecto InterMAT (igualmente interescolas).

A Sala de Jogos, foi criada em 1992-93 e desde aí dinamizada pelos professores de Matemática; em 1995-96 foram atribuídas poucas horas equivalentes a serviço lectivo aos professores por ela responsáveis (em comparação com as do ano anterior), tendo vários desses professores decidido manter-lhe o seu apoio sem qualquer compensação no horário lectivo.

Numa pequena descrição feita em 1996 lia-se o seguinte: “Durante o 1º período a sala está aberta para o aluno jogar, no 2º período todos os anos se promove um torneio onde se seleccionam os alunos para participarem no Inter Escolas. Nos últimos dias de aulas, de cada período, organizam-se durante o dia inteiro actividades. A sala teve, o ano anterior, muita gente a participar, este ano um pouco menos porque a sala está menos horas aberta (os alunos lamentam que isto aconteça). Já se realizaram 2 feiras de jogos.” “A compra dos jogos para a sala tem tido o apoio do Projecto Viva a Escola.” “Este ano já se reproduziu o jogo do «ori» a partir dum jogo de um aluno.” “O «ori» vai ser promovido este ano, pelo LUDOMAT em colaboração c/ o trabalho da área escola de 2 turmas do 8º ano (os alunos estão a reproduzir + jogos e vão dá-los a conhecer e realizar um torneio na escola.”
No final do ano, para a realização de um campeonato interno, a E. S. J. Afonso emprestou ao LUDOMAT um exemplar do «ori» (era um procedimento que fazia parte da colaboração entre as escolas envolvidas no projectos interescolas MATlab e InterMAT e que garantia alguma segurança às que dispunham de menos material).


Escola Secundária da Cova da Piedade (actual Escola Secundária António Gedeão)

1992-95

A sala designada por Cantinho da Matemática foi inaugurada no 9 de Abril de 1992, tendo, em 1992-93, sido partilhada com o Clube de Filatelia, tendo também sido local para algumas aulas.
Os professores de Matemática realizaram aí actividades do tipo «clube», durante 15 horas por semana (a Luísa Teixeira dispõe de 2 horas de redução de serviço lectivo).
Nesta sala os alunos dispunham de jogos e de um dossier com material; algumas turmas utilizaram-na para comemorar a 100ª aula de Matemática; e no dia 25 de Maio foi aí realizada uma exposição e realizados jogos, integrado no Dia da Escola; de Janeiro a Junho frequentaram esta sala 534 alunos, segundo o dossier das requisições.
Foi também com o apoio desta sala que foi editada uma folha informativa.

No ano lectivo seguinte a Luísa Teixeira, a Paula e o Fernando Camejo apresentaram ao 5º Concurso do I.I.E. (promovido pelo Instituto de Inovação Educacional) um projecto que viria a financiar o Cantinho da Matemática com 151 contos.

Em 1994-95 este espaço associou-se ao Projecto InterMAT (interescolas), através do Fernando Camejo, da Luísa Teixeira e da Maria João Silva; os dois primeiros tinham, cada um, 2 horas de redução semanal de serviço lectivo (o que se manteve nos anos seguintes).
O Cantinho começou a ter ao seu lado a Sala de Estudo (o que se manteve no ano seguinte), sendo partilhada com outros núcleos; tinha uma funcionária responsável, que no entanto se desdobrava por outras tarefas, em simultâneo.
Com o financiamento obtido o Cantinho adquiriu diversos jogos e publicações e construiu novos materiais; em Maio editou o Nº 0 do jornal “O Pitágoras”, lançado no dia da Escola; durante o ano foram feitas 1 359 requisições, sobretudo de Abalone, Rummikub e Master Mind.
Uma nova candidatura ao Concurso do I.I.E., para continuação do apoio ao projecto, não resultou e a solicitação de 45 000$ à C. M. Almada também não.
Foi elaborado o Regulamento do “Cantinho”, que viria a ser incluído no Regulamento Interno da Escola, e foi produzido um logotipo próprio, com o apoio de uma professora de Educação Visual.
No Dia da Escola foi realizado o “Problema do Dia da Escola”, para alunos, professores e funcionários, tendo todos os participantes recebido prémios.

1995-96

O «Cantinho» passou a ter duas funcionárias; um aluno caboverdeano da Luisa Teixeira, que não incomodava nas aulas mas que também nada fazia, viu o “Ouri” em exibição no anterior Interescolas de Jogos de Reflexão e disse à professora que a avó lhe tinha trazido um de Cabo Verde; passou a fazer os trabalhos de casa, tendo ficado combinado ser a ele a apresentar este jogo aos seus colegas, durante a Semana da Matemática.
Durante o 1º período (a sala só abriu em Outubro) foram feitas 916 requisições, sendo as mais frequentes as dos alunos do 7º ano, bem como as do Abalone, do Rummikub e do Connections; em Janeiro foram feitas 296, ainda com preponderância do 7º ano, e do Rummikub, do Abalone e do Master Mind. O total das requisições até ao final de Abril envolveu 1373 alunos do 3º Ciclo e 327 de alunos do Secundário.
Todos os meses colocou-se um jogo novo no “núcleo” do Cantinho (que já inclui 31 exemplares de 15 jogos diferentes).
À medida que o final do ano se aproximou verificou-se uma descida notável do número de requisições.


Escola Secundária Emídio Navarro

1991-96

A Sala de Tempos Livres (ou Projecto MATlab) esteve associada ao Projecto MATlab (interescolas) desde o seu início (1991-92). Em 1992-93 e nos anos lectivos seguintes a coordenação deste espaço usufruiu de horas de redução do serviço lectivo (desde 1993-94 possui duas professoras coordenadoras).
A escola garantiu-lhe sempre um apoio financeiro.
Em Junho de 1995 esta sala participou na Exposição Interactiva sobre Ciência, organizada pelo Grupo de Estágio de Física-Química da escola e que depois esteve patente em Almada durante uma semana (as 1ªs Jornadas Interactivas de Divulgação da Ciência).
Como Ludoteca, está previsto que este espaço venha a ser integrada no futuro Centro de Recursos da escola.


Escola Secundária Fernão Mendes Pinto

1991-96

As Jornadas da Matemática começaram a ser realizadas em 1991-92 e foram-no, sem interrupção, até 1995-96 (cinco edições).
Cada ano teve um tema, tendo uma vez sido dedicado aos matemáticos portugueses e doutra vez a diversos outros matemáticos; em 1995-96 o tema escolhido foi o jogo (o «boletim informativo de quatro páginas dedicado a estas jornadas intitula-se “Vamos jogar com a Matemática”).
Em anos anteriores as jornadas duravam uma semana e chegaram a ser feitas conferências. Este ano elas duram só um dia, pois dá muito trabalho desalojar as aulas de todo um pavilhão, escalar 1-2 professores do grupo para cada sala envolvida, motivar a comunidade, etc.; foram escolhidas quatro salas, duas para «Jogos, puzzles, problemas», outra para «Exposição e venda de livros e de jogos» e uma última para «Projecção de filmes».

Todos os anos são realizadas na escola as Olimpíadas da Matemática.

Em 1993-94 o projecto GEOMAT fez parte do Projecto InterMAT (interescolas), através das professoras Isabel Amaro, Isabel Fernandes, Paula Marques e Rosário Almeida.

Em 1995-96 foi lançado na escola o concurso intitulado O Problema do Mês, mas não recebeu qualquer resposta; foi também lançado um Clube de Matemática, destinado sobretudo a alunos do 3º Ciclo, mas só apareceram alunos do Secundário (e muitos do 12º ano, com dúvidas do tipo daquelas que se põem na Sala de Estudo nas vésperas de um teste); as duas professoras que tinham, cada uma, uma hora para animar este Clube acharam que o objectivo não era aquele, perceberam que assim não havia continuidade de trabalho (havia dias em que não aparecia ninguém), pelo que decidiram encerrar o Clube, transformando as horas disponíveis em mais horas curriculares com o 12º ano.


A escola criou um Grupo para Apoio Específico, destinado à Matemática, ao Português e ao Inglês; a professora de Matemática que aí esteve envolvida tinha 6 horas por semana de redução lectiva, de modo a apoiar alunos do 10º ao 12º ano; também ela não gostou muito do trabalho que fez, queixando-se de os alunos só aparecerem nas vésperas dos testes; as três colegas que tinham 12º ano encontraram-se duas vezes por semana para preparar as aulas.
O material pedagógico de que a escola dispõe, nomeadamente o que foi herdado do GEOMAT, está guardado numa pequena salinha que pertence ao grupo de Matemática, e que é o seu centro de recursos; ele virá, naturalmente, a ser integrado no futuro Centro de Recursos da Escola (que está em fase de preparação).


Escola Secundária Francisco Simões

1991-96

O Clube de Matemática terá sido iniciado em 1991-92, quando os professores organizaram uma “Semana da Matemática” muito concorrida, e que tanto mobilizou os docentes como envolveu o próprio Conselho Directivo.

Dois anos depois, em 1993-94, o clube conseguiu dispor de uma sala, bastante grande, apetrechada com armários e partilhada por diversos clubes; foi necessário que cada um destes escrevesse algumas linhas para a Direcção Regional da Educação de Lisboa; o Conselho Pedagógico pediu um relatório por período; a escola apoiou financeiramente; nunca houve Funcionária que o apoiasse, nem nesse ano nem nos anos seguintes.
Nesse primeiro ano o Clube de Matemática esteve associado ao Projecto InterMAT (interescolas), através da Patrícia Cascais, havendo mais quatro professores (não de Matemática) envolvidos na sala, com um total de 10 horas semanais de redução de serviço lectivo, divididas por igual; o Xadrez era então dinamizado por outros professores, na Biblioteca.

Em 1994-95 foi atribuída uma sala só para o Clube de Matemática, com cerca de 1/3 do tamanho de uma sala de aula normal, com três armários, um para os recursos pedagógicos da Matemática, os outros dois para jogos e puzzles, tendo algum deste material chegado via Projecto InterMAT e o restante sido comprado pela escola; o material pedagógico para a Matemática encontrava-se ou junto à Sala de Professores, de modo a ser facilmente levado para as aulas, ou no clube; estes materiais são bastante utilizados, mas algum deles, como é o caso do Polydron, só o podem ser nas aulas de apoio, pois não há peças suficientes para uma turma inteira; é no clube que se realizam as reuniões do Grupo de Matemática, se disputam os campeonatos da escola de jogos de reflexão (às Quartas-feiras, depois das 16h30) e, entretanto, se faz a dinamização municipal do xadrez.

Em 1995-96, a escola atribuiu 9 horas equivalentes a serviço lectivo para a animação do clube, 3 para a coordenadora, e 2+2 +1+1 para outros quatro colegas do grupo de Matemática; elas estão marcadas no horário da sala e os alunos sabem que nessas alturas podem lá ir jogar; uma funcionária auxiliar, que tirou um curso de animação cultural, confessou, particularmente, que gostaria de se tornar responsável permanente pela sala do Clube de Matemática.


Escola Secundária José Afonso

1988-96

A Sala de Dinamização Cultural foi criada em 1988-89, tendo começado a ser designada por “Sala de Jogos” em 1992-93, altura em que aí começou a funcionar o Grupo de Investigação em Matemática (nesse ano passaram por ele 55 Alunos, sobretudo do 7º ano, mas também do 8º e do 9º anos).
Nessa sala os alunos dispunham de jogos e de quebra-cabeças para jogar e resolver durante os intervalos das aulas, ou quando os seus professores faltavam; e foi nela que se deu apoio a diversos Concursos de Problemas e se realizaram, anualmente ,os Campeonatos de Escola de jogos de reflexão.

Em 1993-94 este espaço foi financeiramente apoiado pelo Instituto de Inovação Educacional, através do 5º Concurso Nacional de Projectos Educar inovando / Inovar educando. E foi deste apoio que nele nasceu o Laboratório de Matemática da escola.

A Ludoteca e o Laboratório de Matemática estiveram associados aos projectos MATlab e a InterMAT (ambos interescolas).


Escola Secundária do Monte da Caparica

1995-96

O Centro de Recursos da escola começou por envolver os professores de Inglês e incluiu, neste ano, a colaboração de professores de Francês, de Matemática e de Português, cada um com 4 horas de redução equivalentes a serviço lectivo (duas delas para atender os alunos e as outras duas para, por exemplo, produzir materiais).
Foi com base neste espaço que foram realizados os Campeonatos da Escola que deram acesso ao Interescola de Jogos de Reflexão.


Escola Secundária Nº 1 do Laranjeiro (actual Escola Básica e Secundária Professor Ruy Luís Gomes)

1991-96

O projecto Descobrir a Geometria com o CABRI-Géomètre (já referido no testemunho «059») decorreu em 1991-92, tendo como origem um curso dado pela Margarida Junqueira na Escola Secundária Anselmo de Andrade e contando com a dinamização da Ana Teresa Mateus e da Palmira Barroso e com o apoio da Margarida; foi concretizado numa turma do 9º ano da Ana Teresa, com o suporte presencial da Palmira e, por vezes, da Margarida.
A turma foi dividida em duas metades, cada uma com 12 alunos, que alternaram na utilização do programa CABRI e na resolução de outros problemas, sobre o mesmo tema, usando materiais tradicionais; para tal, desde o fim do 2º período e durante o 3º período, a turma teve 3 aulas semanais no Centro Educativo Minerva da Escola, sendo a quarta aula na sala de sula, para síntese de aprendizagens.

O Clube de Jogos inaugurou a sua sala em 1991-92, estando nele envolvidos 4 professores (um deles com 2 horas de redução de serviço lectivo), tendo o arranjo do espaço e o arranque das actividades tido a ajuda de alguns alunos.

Dois dos professores fizeram a ligação ao Projecto MATlab (interescolas).
Em 1992-93 foram vários os professores que dispuseram de uma hora de redução do serviço lectivo para trabalhar neste clube.
Em 1993-94, através do José Tomás Gomes, o clube associou-se ao projecto ImterMAT (interescolas), mas viveu uma crise interna, que se expressou pela não participação no 2º Interescolas de Jogos de Reflexão.
Em 1994-95 o clube concorreu ao 6º Concurso de Projectos do I.I.E., sendo financiado.

Na opinião do José Tomás, quase todos os professores de Matemática se envolveram no “Clube de Jogos, com áreas de responsabilidade [...] e portanto eu achei que se calhar estavam dados passos fundamentais para depois a malta agarrar no Clube, portanto retirei-me”; mas eles “iam lá abrir o Clube, ver se chegavam miúdos, se não chegavam miúdos vinham-se embora ao fim de uma hora, fechavam, [...] não conseguiram dar o salto”. E isso voltou a suceder em 1994-95.
“E em 1995-96”, continuou o José Tomás, “apenas foram atribuídas 2 horas equivalentes a serviço lectivo para todos os clubes da escola, pelo que o grupo de Matemática, responsável pelo Clube, decidiu não trabalhar nele sob estas condições, razão pela qual também se recusaram a participar no Interescolas; a sala esteve por isso fechada” (tem cerca de 10 metros quadrados, com mais 3 do anexo onde se guardam materiais em diversos suportes).


Externato Frei Luís de Sousa

1993-94

Durante o mês de Fevereiro o Externato Frei Luís de Sousa (Almada) recebeu e animou a exposição Descobrimentos e Ensino da Matemática, constituída por instrumentos de navegação e cartazes que resultaram dos trabalhos de alunos em resposta a um concurso nacional lançado pela A.P.M. em 1991-92.



Comentários

Nem sempre estiveram explícitas nas descrições que me permitiram escrever o anterior resumo quais os problemas iniciais que levaram os professores a tomar estas iniciativas. Um deles terá sido a falta de materiais didácticos na respectiva escola; num ou noutro caso procurou-se garantir aprendizagens não feitas até aí; e, mais ou menos transversalmente, nota-se a consciência de haver falta de oportunidades para que a socialização dos alunos lhes trouxesse uma motivação que a escola tradicional raramente proporcionava.
Muito mais claras estão as hipóteses iniciais formuladas para responder a esses problemas: no caso da motivação dos alunos, a hipótese foi a de que o seu interesse pela Matemática iria crescer com a abordagem (ou até imersão) desta disciplina em contextos extracurriculares (concursos, jogos e quebra-cabeças reflexivos, etc.).
A forma prática das respostas dadas foi variada e esteve quase sempre explícita: o Clube, a Janela, a Ludoteca, o Núcleo, o Laboratório e, no caso de o «problema» ser dos professores, o Projecto e quer a organização local, quer a organização interescolas.
Já os balanços sucessivos das sucessivas soluções encontradas em cada escola estão pouco claros, o que pode ter sido uma das limitações para o seu sucesso a longo prazo (podendo no entanto o meu desconhecimento deles resultar das minhas enormes limitações documentais sobre as iniciativas que descrevi).

Houve, ainda, alguns novos problemas que pareceram surgir a estes professores: bem explícito num só caso, o das dinâmicas conflituais entre docentes; discretamente emergente noutros casos, o das pressões da organização escolar para o sucesso curricular sobre as actividades realizadas extracurricularmente (fazendo adivinhar as dificuldades que surgiriam no futuro).



Fontes:
Pedro Esteves / Documentos digitais (tese de mestrado, ficheiro «4EXPR16»);
Testemunhos «058» e «079» deste blogue.
 

[094] O 2º Encontro «Educação e Memórias: Almada e Seixal

Memórias

Realizado no passado dia 29 de Janeiro, de novo na Escola Básica de Vale de Milhaços, este encontro foi constituído por três intervenções.

O Pedro Esteves descreveu o projecto AlterMATivas, através do qual um grupo de professores das Escolas Secundárias Anselmo de Andrade, de Cacilhas, Emídio Navarro, Nº 1 e Nº 2 do Laranjeiro e Nº 1 do Seixal anteciparam, nos anos lectivos de 1990-91, 1991-92 e 1992-93, com os seus alunos, a reforma curricular no 3º Ciclo. E apelidou de «Matemática Experimental» a estratégia pedagógica genérica que esses professores escolheram, como a que está subjacente ao seguinte exemplo:


Por fim, comentou as duas «hipóteses de partida» que tinham sido formuladas, concluindo que a opção por um projecto próprio fora benéfica para o modo como os professores que o implementaram se envolveram nas mudanças que estavam em curso e que a Matemática Experimental, se fora benéfica para as aprendizagens de muitos alunos, mas não o fora para todos, colocando como nova hipótese a necessidade de uma sua mais profunda participação.

O Manuel Lima contou como a construção de canoas na Escola Secundária Moinho de Maré (entretanto desactivada) proporcionou, no início do Verão, descidas do rio Tejo a grupos de alunos e de professores. E contou como, mais tarde, já na Escola Secundária João de Barros, essas descidas se alargaram a outros rios, e como destas iniciativas resultou a fundação de Clubes de Canoagem nas Escolas de Corroios.


Ao descrever uma das descidas que foram melhor documentadas fotograficamente, o Manuel Lima contou ainda como ela proporcionou um contexto favorável a diversas aprendizagens, por alunos e por professores, nos campos das Ciências da Natureza e da Geografia Humana, e, sobretudo, ao desenvolvimento de amizades duradouras.

E a Ângela Mota, a Helena Peixinho e o Manuel João descreveram as múltiplas actividades artísticas iniciadas na Escola Básica António da Costa, que, ao se diversificarem, justificaram a criação da Associação Mundo do Espectáculo, hoje com uma larga história e um presente pleno de intervenções:

Comentários

Como participante (e interveniente) neste encontro gostaria de registar algumas questões que me fizeram pensar, acrescentando-as às que já registei a propósito do 1º Encontro (testemunho «091»):

(1) Estes três testemunhos (diferentemente dos relatados no 1º Encontro) evidenciaram fortes colaborações entre professores, e, em dois deles (os que descreveram projectos mais duradouros), a importância da diversidade dos seus contributos: de que modo o sucesso dos projectos depende deste factor?

(2) Estes três testemunhos referiram-se a projectos que foram pensados para serem interescolas (ou que não hesitaram em o ser quando isso lhes proporcionou um crescimento), e também neste aspecto foram diferentes dos relatados no 1º Encontro: não estarão hoje as iniciativas das escolas (e dos agrupamentos de escolas) limitadas pelo seu encerramento em si próprias?

(3) Não será o associativismo docente imprescindível para que sejam realizados e ampliados os projectos que surgem numa escola (assim o parecem sugerir um dos testemunhos do 1º Encontro e outro do 2º Encontro)?

(4) Que tipo de parcerias ajudam estes projectos a serem concretizados e, sobretudo, a serem ampliados?

(5) A participação dos alunos, desejada (mas diferentemente concretizada) pelos dinamizadores dos seis projectos testemunhados nestes dois encontros, não dependerá daquilo que for definido (mesmo se apenas implicitamente) como «sucesso escolar» (ou como «sucesso educativo»)? E se assim for, não deverá esta definição ser mais amplamente debatida por todos?


Informação: as actas deste Encontro, bem como outros documentos com elas relacionados, estarão em breve acessíveis através do link referido no final do testemunho «091» (onde fiz um breve comentário sobre o «1º Encontro»).


Fontes: Pedro Esteves / Arquivos digitais [pasta «Educação e Memórias: Almada e Seixal» / «2º Encontro (29 de Janeiro de 2025)»]

[091] O 1º Encontro «Educação e Memórias: Almada e Seixal

Memórias


Há cerca de dez anos um grupo de professores e outros educadores iniciaram o esboço de um projecto de recolha das memórias ligadas à educação nos concelhos de Almada e Seixal. Inicialmente chegaram a reunir-se duas dezenas de interessados, mas, pouco a pouco, o grupo foi-se reduzindo, destacando-se entre os resistentes o Antão Vinagre, o Carlos Abreu, o Joaquim Guerreiro e o Pedro Esteves.
Em 2016 o projecto foi interrompido, tendo sido retomado no final de 2024.

Em vez de um grande encontro» optou-se agora por organizar vários «pequenos encontros», cada qual com a duração máxima de um dia, de modo a que no espaço «entre-encontros» pudéssemos ir mobilizando mais testemunhantes e garantir-lhes tempo para preparar os respectivos testemunhos.

O 1º destes encontros foi realizado no passado dia 14 de Novembro, na Escola Básica de Vale de Milhaços, tendo sido constituído por três intervenções, seguidas de debate e acrescentadas com uma conversa final. As actas, bem como outros documentos relacionados com este encontro, estão acessíveis através do link referido no final desta mensagem.

O Manuel Lima contou como, ao longo de vários anos, na Escola Secundária João de Barros, com os seus alunos, foi «salvando pedras» que contavam partes da história do concelho do Seixal:


O Joaquim Guerreiro testemunhou o modo como experimentou, na Escola Básica António Augusto Louro, a metodologia do Movimento de Escola Moderna (MEM) com as suas turmas:


E a Lídia Matias descreveu o que fez para, ao longo de mais de trinta anos, ir mantendo e melhorando a Ludoteca da Escola Básica de Vale de Milhaços:


O 2º Encontro «Educação e Memórias: Almada e Seixal» será realizado no dia 29 de Janeiro, na mesma escola.


Comentários

Como participante neste encontro, gostaria de destacar cinco das questões em que ele me fez pensar:

(1) a dada altura o Manuel Lima lembrou que a preocupação em salvaguardar vestígios materiais do património local havia sido aprendida no Ecomuseu Municipal do Seixal, onde ele já trabalhara - não deveriam os professores envolver-se em muitas experiências exteriores às escolas de modo a terem uma compreensão mais vasta das potencialidades educativas que se lhes deparam?
(2) o Joaquim Guerreiro, quando decidiu inspirar-se na metodologia do MEM, alterou radicalmente a sua forma de ensinar – não terão os professores falta de contactos associativos frequentes, capazes de lhes trazerem inspirações transformadoras?
(3) a Lídia Matias iniciou a Ludoteca da sua escola com o apoio do associativismo, mas depois fez um longo percurso sem dispor de quaisquer apoios – não mereceriam as experiências de longa duração de uns professores ser aproveitadas por outros?
(4) estas três histórias tiveram, sem excepção, uma forte (ou até exclusiva) componente extracurricular, o que agradou bastante aos participantes nos respectivos debates – não andaremos a deixar-nos fechar demasiado nas prescrições curriculares?
(5) enquanto professor fui múltiplas vezes abordado para ajudar a encontrar colegas que respondessem a inquéritos destinados a teses de mestrado, mas nunca os resultados dessas teses chegaram à minha escola – não deverão ser os professores (ou outros profissionais) a recolher, a debater e a organizar as suas próprias memórias?


Fontes
: arquivos digitais de Pedro Esteves, pasta «Educação e Memórias: Almada e Seixal», ficheiro 1º Encontro (e) Actas


Link para download da documentação relacionada com o 1º encontro: https://www.dropbox.com/scl/fo/62a158ffpjbinmq5eu0yz/AOqzXqnvT3n8qkEyiRiRAk0?rlkey=fq90xev8duxtek4q28qikxo9n&st=h1d712nw&dl=0

[059] O 3º ano do Núcleo Regional da A. P. M.

Memórias

Nos comentários finais do testemunho anterior, afirmei que, no início da década de 1990, o associativismo terá sido o factor decisivo na enorme expansão dos projectos relacionados com a Matemática nas escolas dos concelhos de Almada e Seixal.
Que outros argumentos posso juntar ao que o quadro que apresentei no final desse testemunho representa?

Além das escolas, o grupo de professores que estudei através da minha tese de mestrado tinha como contexto de acção a vida da Associação de Professores de Matemática, e muito em particular a do seu Núcleo Regional em Almada e Seixal.
Este fora criado em 1989-90 (testemunho «040»), tendo um primeiro ano regular em 1990-91, com, entre outras iniciativas, o início do primeiro projecto interescolas, o AlterMATivas, para três anos (testemunho «045»), a eleição da primeira Comissão Coordenadora, para dois anos, e a realização do 1º Encontro Anual de Professores (testemunho «049»).
O ano de 1991-92 foi marcado pelo início de um segundo projecto interescolas, o MATlab (testemunho «055») e pelo lançamento de um «Boletim Informativo» e pela realização do 2º Encontro Anual de Professores.
Foi este ambiente de encontro, destinada a partilha livre e igualitária de ideias e de projectos, que eu penso ter sido decisivo para a criação de um movimento que visava mudar o modo como se aprendia e ensinava Matemática nesta região.

A edição de um Boletim Informativo fora decidida pela Assembleia Geral realizada no final do 1º Encontro Regional de Professores, tendo a Comissão Coordenadora posto em prática essa decisão (o seu primeiro número foi editado em Março de 1992 e a sua primeira página - onde figura a notícia sobre a «Janela da Matemática» na Escola Preparatória da Cova da Piedade – é a que mostro a seguir): 


Durante os primeiros anos, estes boletins, tal como as fichas produzidas pelos projectos interescolas, eram produzidos digitalmente, com o programa First Publisher, e guardados em disquetes. Se havia uma imagem a inserir, ou ela era desenhável com aquele programa (o que aconteceu sobretudo com as fichas), ou era impossível por essa via, e então as imagens originais eram fotocopiadas, recortadas e coladas numa versão impressa do boletim (os scanners ainda não eram acessíveis).
Com este original analógico do boletim, era então possível ir fotocopiá-lo de borla na sede da APM, em Lisboa; mas a preparação dos envelopes para serem enviados por correio para os sócios era feita pelos membros da Comissão Coordenadora, normalmente através de uma noitada.
Na sede da APM, pelo menos a partir de certa altura, também era possível imprimir uns autocolantes com as moradas dos sócios de Almada e Seixal, tornando mais fácil endereçar os envelopes, que, finalmente, podiam ser enviados por correio.
Também era enviado um exemplar dos boletins para cada uma das escolas do 1º Ciclo, e alguém sugeriu que, em relação às do concelho do Seixal, os enviássemos através de uma Escola Primária situada na Amora, onde funcionava uma sua administração concelhia (não me recordo como se fazia em relação às escolas de Almada).
E deste modo, com o empenho rotativo de alguns de nós, se foi estabelecendo uma rede de distribuição de informações, por sua vez alimentada pelas que eram enviadas à Coordenadora para serem divulgadas.

No dia 28 de Março de 1992 o Núcleo organizou na Emídio Navarro um encontro de professores destinado a “trocar ideias” (de manhã) e a jogar (à tarde), tendo alguns, pelo meio, mantido o convívio através de um almoço.

No dia 29 de Maio de 1992, através dos animadores dos seus dois projectos interescolas, o Núcleo participou numa das sessões de A Matemática à Conversa, uma série de sete encontros organizados na sede da APM durante o 3º período lectivo:


A imagem que figura neste cartaz foi desenhada por mim, com o First Publisher. É perceptível a dificuldade que tive para garantir as proporções adequadas (a chávena e o pires estão demasiado largos); mas já não é perceptível que o fumo e a sua sobreposição com o «M» (de «Matemática») foram desenhados ponto-a-ponto.

O misterioso título da intervenção escolhido pelas equipas dos projectos AlterMATivas e MATlab, “20 Hipóteses para 3 Espaços”, aludia aos espaços «curricular», «não-curricular» e «associativo», ou seja, pretendia chamar a atenção para a necessidade da convergência de todo o tipo de intervenções se pretendêssemos «mudar a educação».

No cartaz, a terceira linha a contar do fim dá uma indicação interessante a quem tiver sensibilidade para a evolução dos contextos históricos: em Lisboa, a APM tinha acabado de mudar de sede! Para quem já não se lembra: a sede era, antes, na Avenida 24 de Julho; agora mudava-se para o Colégio dos Maristas; e mais tarde iria para a Escola Superior de Educação e, por fim, para a actual sede, junta à Segunda Circular.

Disponho de uma fotocópia da folha de presenças nesta sessão. Participaram nela 15 professores, cujas escolas (ou lugar de trabalho) estão a seguir designadas tal como o eram na altura: Rosário Ribeiro (destacada na A.P.M.); Vítor Lourenço Casaca (C+S de Quinta do Conde); Paula Teixeira (ES da Amadora); Adelina Precatado (ES Camões); Maria José ???inho (ES da Damaia); Ana Mota, Maria da Conceição Tomás e Rita Vieira (ES Emídio Navarro); Ana Baltazar (ES do Fogueteiro); António Bernardes (ES Gil Vicente); José Paulo Viana (ES Marquês de Pombal); Pedro Esteves (ES Nº 1 do Seixal); Maria de Jesus Bicho (ES Rainha Dª Amélia); Eduardo Veloso (Faculdade de Ciências); e Maria Amélia Trigo (???).

No final do ano (1, 2 e 3 de Julho) o Núcleo organizou o 2º Encontro Regional de Professores.
Desta vez foram escolhidas as escolas Secundária Emídio Navarro, Preparatória de Corroios e Secundária Nº 1 de Corroios, tal como então eram designadas.
Comparando as intervenções deste ano com as do 1º Encontro, manteve-se a predominância da «apresentação de projectos» locais em relação à «formação de professores» (6 / 2), surgindo como novidade a «promoção da Reforma Curricular» (4), dado esta estar em vias de se generalizar a todas as escolas.

Na Assembleia Geral de sócios que encerrou o encontro foi decidido criar grupos de trabalho sobre dois dos anos curriculares (5º e 7º) em que a Reforma seria generalizada em 1992-93 e ainda sobre o Secundário. E, para o reforçar, foi também decidido publicar um novo «Boletim Informativo», o Nº 3, ainda antes do início das férias, para “incentivo de todos os colegas ao trabalho em equipa”, e, através dele, convocar, para Setembro, reuniões destinadas aos professores interessados em coordenar esforços na implementação dos novos currículos e nas iniciativas de carácter extracurricular.

A Assembleia permitiu ainda que fosse eleita a segunda Comissão Coordenadora, para o biénio 1992-94, constituída por: Ana Baltazar e Ana Fialho (ES do Fogueteiro, actual ES Manuel Cargaleiro), Fernanda Coelho (Escola Preparatória de Corroios, actual EB de Corroios), Filomena Teles (ES Anselmo de Andrade), José Tomás (ES Nº 1 do Laranjeiro, actual ES Rui Luís Gomes), Margarida Junqueira (Pólo Minerva da Faculdade de Ciências e Tecnologia), Mirita Sousa (ES Nº 1 de Corroios, actual ES João de Barros) e Patrícia Cascais (ES Nº 2 do Laranjeiro, actual ES Francisco Simões).

Comentários

A conversa a que foi dado o misterioso nome «20 Hipóteses para 3 Espaços» foi organizada assim: os participantes organizaram-se por grupos; cada grupo sentou-se numa mesa própria; cada mesa dispunha de três folhas subdivididas em três colunas; só as colunas da esquerda, sob a designação «OBSERVAÇÕES», estavam preenchidas com rectângulozinhos, dentro dos quais estava escrita uma frase; sobre cada mesa havia também uns chocolatinhos, estando escondidos debaixo deles outros rectângulozinhos, recortados, cada um deles com uma frase escrita; quando os participantes descobriam os rectângulozinhos que estavam debaixo dos chocolates, os organizadores explicavam que as frases eram «POLÉMICAS» e que deveriam ser colocadas nas colunas do meio, de modo a fazerem sentido com as frases vizinhas chamadas «OBSERVAÇÕES»; e assim podiam conversar uns com os outros e construir as suas próprias frases, chamadas «HIPÓTESES», e escrevê-las nas colunas da direita …

Os organizadores levavam «16» HIPÓTESES preparadas (não me lembro por que razão se anunciavam «20»), pelo que o importante era o debate, a partir de «factos» (as «OBSERVAÇÕES») e de «questões» (as «POLÉMICAS») …

Os participantes construíram quatro HIPÓTESES (talvez os grupos tenham sido quatro), transcritas a seguir (não me recordo de «quem escreveu o quê»):

“Projectos significativos devem partir da área da Matemática e atrair a si outras áreas. Um tal projecto pode ter origem na sala de aula, espalhar-se para outros espaços – clubes, Centros de Recursos -, aulas de outras disciplinas, etc.. Será uma antevisão de uma escola do futuro.
Ex.: Descobrimentos e Matemática.
”

“Os espaços extra-curriculares existentes – Centros de Recursos, clubes – podem e devem também ter um papel importante quer de resposta e viabilização dos Projectos que tiveram origem na sala de aula, quer provocando eles próprios «desafios» que poderão ou não chegar até à sala de aula.”

“Deveremos sonhar com a Escola do Futuro; e quando precisarmos de tomar decisões sobre coisas concretas, hoje, perguntarmo-nos de que modo estaremos a caminhar para ela.”

“A atitude do corpo docente deve ser a de simultaneamente tomar a iniciativa nas Escolas e exigir condições.”

Gosto particularmente da terceira destas hipóteses, porque estabelece uma ligação entre o «futuro» e o «presente» e porque acho que nos 50 anos que nos separam do 25 de Abril os professores falharam em estabelecer essa ligação (irei retomar esta tese em vários dos próximos testemunhos).


Eis o modo como os organizadores tinham imaginado ligar as três colunas:




Penso que esta incursão das gentes da margem Sul na nova sede da Associação de Professores de Matemática foi a sua primeira intervenção pública com um carácter proto-teorizador, não se limitando ao que era estritamente profissional, antes associando, numa única intervenção, todos os aspectos que importava a um professor de Matemática pensar naqueles anos.


O 2 Encontro Regional de Professores foi particularmente duro para mim (mal me recordo do que se passou nele): o meu pai estava terminalmente doente, eu acompanhava-o e ele faleceu no dia 13 de Julho.
Ninguém é profissionalmente imune à sua vida pessoal.


Fontes: Pedro Esteves / Arquivadores analógicos Núcleo Um (Doc.s 14, 15 e 17) e APM Três (Doc.s ……, ……, ……, …… e ……) / Actas do 2º Encontro Regional de Professores

[058] Projectos ligados à Matemática nas escolas de Almada e Seixal (balanço em 1991-92)

Memórias

O grupo de professores estudado na minha tese de mestrado tinha como um dos seus contextos de acção as escolas dos concelhos de Almada e Seixal. Por isso procedi, entre outras recolhas, ao levantamento dos projectos ligados ao ensino e aprendizagem da Matemática (a disciplina em causa) que aí estavam em curso.
As iniciativas que identifiquei estão a seguir ordenadas alfabeticamente por escolas (e, dentro destas, por ano lectivo).


Escola Preparatória da Amora (actual Escola Básica Pedro Eanes Lobato)

1991-92

A Celeste Ganço e a Maria José Marques criam, na Biblioteca da escola, um espaço tipo Ludoteca, onde os alunos dispõem de jogos e de desafios.


Escola Preparatória de Corroios
(actual Escola Básica de Corroios)

1991-92

É criado um Clube de Jogos Matemáticos, “numa perspectiva do complemento curricular e a título experimental”. Funciona com o apoio de sete professores, que garantem uma hora semanal para cada um dos 5 grupos de alunos do 6º ano inscritos; os alunos preferem utilizar os “materiais manuseáveis” (quebra-cabeças com fósforos, Tangram) aos passatempos com “o lápis e o papel”. Foram organizados campeonatos de jogos de reflexão. E o Clube editou, com o apoio da Associação de Pais, uma colecção de cartas com «Quebra-cabeças com Fósforos», que pensam vender como forma de auto-financiamento.

As regras, o primeiro e o último quebra-cabeças desta colecção

Segundo uma das professoras, a Fernanda Coelho, “Acreditamos que os passatempos, problemas e quebra-cabeças seleccionados são motivantes para os alunos e lhes permitem desenvolver capacidades contempladas nos currículos de Matemática, embora por caminhos diferentes”; para a Escola, “esta experiência poderá vir a ter reflexos na própria área curricular, não só pela relação criada com os alunos como pelo aproveitamento de estratégias e materiais utilizados no clube”; “A natureza e a classificação dos jogos, a sua relação com a Matemática, o interesse da sua integração nas aulas, a comunicação de estratégias e de soluções, são algumas questões que se levantaram ao longo deste trabalho”, sendo também de destacar o “interesse que os jogos podem suscitar em professores de outras disciplinas ...”


Escola Preparatória da Cova da Piedade
(actual Escola Básica Comandante Conceição e Silva)

1991-92

Por decisão dos professores de Matemática é criada uma Janela da Matemática, com os objectivos de motivar os alunos para a Matemática, sob aspectos diferentes do habitual, e de a mostrar à Escola. O recurso a um expositor resultou de não haver na escola “condições físicas e humanas” para “assegurar o funcionamento de uma sala” para actividades extracurriculares; o conteúdo afixado no expositor é renovado de mês a mês e inclui “Matemáticos portugueses célebres, História do mês, Curiosidades e Problemas”; os alunos também participam, “inclusivamente recolhendo e levando para a Escola problemas”, bem como os professores de Educação Visual e de Trabalhos Manuais.

No Nº 1 do «Boletim Informativo» do Núcleo Regional da APM
esta «Janela» aparece desenhada assim (já que não havia uma fotografia)


A Teresa Nascimento, uma das promotoras desta «Janela», foi uma das autoras do MATlab interescolas.


Escola Preparatória Elias Garcia (actual Escola Básica Elias Garcia)

1991-92

É criado um expositor e organizado um armário com materiais dedicados à Matemática.


Escola Primária Nº 2 do Laranjeiro (actual Escola Básica Nº 2 do Laranjeiro)

1988-92

Integrada numa larga rede de Escolas Primárias, cada uma com um ou dois Professores, a Nº 2 do Laranjeiro está envolvida no projecto Ensinar a Investigar.
Os seus principais dinamizadores utilizam o método global / natural (oposto ao mais comum analítico / sintético) e têm apoio do Ministério da Educação (os novos currículos do 1º Ciclo, acabados de ser generalizados ao 1º ano de escolaridade, inspiraram-se nesta experiência).


Escola Secundária Anselmo de Andrade

1990-91

A professora Ana Paula Natal faz uma experiência de produção de materiais para o ensino e aprendizagem da Geometria do 7º ano, e de utilização nas suas aulas, designando-a por Materiais na Geometria do 7º ano.

O projecto Novas Tecnologias no Ensino da Matemática, da responsabilidade do Sérgio Valente, foi implementado a “dois níveis: a) com os alunos (utilização do computador na sala de aula e em propostas de trabalho de grupo); b) concepção, em colaboração com o Pólo do Projecto Minerva da Faculdade de Ciências e Tecnologia, de software específico para esta disciplina”.
São usados os programas Microcalc e Logo, em turmas normais do 11º ano, com 30 Alunos e metodologia de trabalho de grupo. No debate que se seguiu à apresentação deste trabalho no 1º Encontro de Professores de Matemática, organizado pelo Núcleo A. P. M. de Almada e Seixal, o Sérgio disse que “depois do trabalho no computador fazia sempre o feed-back e que este ano houve pessoas que pegaram nas fichas deles e as reformularam o que acha positivo”; depois, lançou a questão sobre se é preferível utilizar apenas um computador na sala de aula, com o Professor centrando em si a discussão, mais ou menos aberta, ou se seria melhor, havendo mais do que um computador na Sala, deixar os Alunos experimentarem os programas.

O projecto A viagem num mundo em transformação (de Eratóstenes a Pedro Nunes), das estagiárias Cristina Neto, Joana Guerreiro e Patrícia Cascais, apoiadas pela sua orientadora, a Filomena Teles, desenvolveu-se com os alunos do 8º ano, fora do espaço aula, não tendo havido preocupação com os conteúdos programáticos, apenas com as “noções” necessárias para a realização do trabalho (“ângulos, triângulos, polígonos, quadriláteros, proporções, semelhança de triângulos, Teorema de Thales”). No debate que se seguiu à apresentação deste trabalho no 1º Encontro de Professores de Matemática organizado pelo Núcleo A. P. M. de Almada e Seixal, a Patrícia reconheceu que “foi complicado e levou muito tempo, fins de semana, noites, etc.”, apesar de, como estagiárias, terem trabalhado “em condições especiais”, “em grupo, com menos turmas”.

É criado o Clube da Matemática, no qual colaboram a Ana Paula Natal e a Lídia Lourenço, tendo cada uma 2 horas semanais extra correspondente a horário lectivo. “Nesse espaço são construídos materiais de suporte a jogos e puzzles.” Um das horas da Lídia “é dedicada à resolução de problemas.” Uma das suas alunas, que frequentava este Clube, a Joana, ganhou as Olimpíadas de Matemática, por “mérito da aluna”, mas tendo o Clube “uma importância enorme na motivação e desenvolvimento do raciocínio matemático na resolução de problemas.”

1991-92

É realizada, com “resultados animadores”, Uma experiência interdisciplinar (Física-Matemática), “com alunos” de uma turma do 12º ano comum à Luísa Lopes e ao Sérgio Valente.
No 2º Encontro de Professores de Matemática organizado pelo Núcleo da A. P. M. de Almada e Seixal os autores afirmaram: “Pensamos que se deve dar aos alunos pelo menos uma oportunidade de contactarem com uma situação deste género. Para além do carácter interdisciplinar da experiência, é uma visão da matemática e da ciência em geral que está em jogo.”

É aberta uma Sala, designada Projecto MATlab, a utilizar “livremente pelos alunos”, para “a realização de actividades e para a exploração de desafios de carácter matemático (em sentido amplo)”. Começou a ser apetrechada com materiais, com o apoio financeiro do MATlab inter-escolas, de que a sua coordenadora, a Filomena Teles, é uma das autoras.
É aí realizada uma final interna das Olimpíadas da Matemática.


Escola Secundária da Cova da Piedade (actual Escola Secundária António Gedeão)

Antes de 1991-92

O grupo de Matemática organiza Concursos Inter-turmas, com questões de cultura geral e, também, de Matemática.

1991-92

Ao comemorar o “Dia da Matemática” no dia 9 de Abril, o Cantinho da Matemática foi inaugurado numa sala que, no ano seguinte, viria a ser reservada para este projecto. Nela se disponbilizavam jogos (alguém afirmou que esta Sala «até parece um casino») e materiais ligados à Matemática.
Os autores deste projecto começam a participar nas reuniões do MATlab interescolas (oficiosamente, pois não tinham sido dele autores).


Escola Secundária Emídio Navarro

Desde 1983 (ou 1985) até 1991-92

A Rita Vieira criou a Sala de Tempos Livres. Esta sala teve o apoio de uma funcionária e ajudou a completar o horário a professores de outras disciplinas, ao abrigo do artigo 20.
A Rita não se lembra de ter aberto esta Sala com intenção de a ligar às aulas, pretendendo, possivelmente e apenas, ocupar os miúdos, dar-lhes algo interessante para fazer; essencialmente, tratava-se de uma Ludoteca, que apoiou “O Problema da Semana”, o “Dia da Matemática”, a intervenção da Matemática na “Semana da Escola”; e que, durante alguns anos, albergou os TIMEX´s para uso dos alunos, e também uma mini-Biblioteca e o Clube de Filatelia, mantendo ligações transversais, através da sua coordenadora, ao Projecto Minerva, ao concurso “Problemas Via Telemática” e ao Laboratório de Meteorologia da Escola; foi ainda base de apoio para intervenções de divulgação noutras Escolas.
A Rita Vieira foi uma das autoras do MATlab interescolas.

1988-89

O Projecto GEODA foi uma experiência de ensino da Geometria em turmas do 7º ano, que envolveu o Ludgero Leote e a Rita Vieira, que utilizou o programa “Autosketch” e que esteve ligada ao Projecto Minerva, sendo inspiração para os projectos posteriores ligados ao Núcleo A. P. M. em Almada e Seixal.


Escola Secundária Nº 1 de Corroios (actual Escola Secundária João de Barros)

1991-92

Em 1990-91, numa reunião dos professores de Matemática destinada a analisar o insucesso escolar na sua disciplina, foi considerado que as “causas” deste se encontravam no «mito» associado à Matemática, nas reprovações consecutivas, no excessivo número de alunos por turma, na heterogeneidade de conhecimentos presente na mesma turma, na falta de hábitos de trabalho, na inadaptação dos programas, no não cumprimento destes nos anos anteriores, na falta de tempo para os professores trabalharem em conjunto e na indisciplina dos alunos.
Como consequência, no fim desse ano lectivo a Doroteia Costa e a Mirita Sousa redigem o Projecto da Matemática da Escola Secundária Nº1 de Corroios, pensado para três anos, ao longo do 3º Ciclo de escolaridade, para que os alunos desmotivados em relação à Matemática (nomeadamente por terem repetências sucessivas nesta disciplina) desenvolvam as suas capacidades e atitudes (construindo o “seu próprio saber”, com o seu “ritmo pessoal” e ganhando “maior confiança em si próprios”). Propõem que se utilize o trabalho de pesquisa, de grupo e de projecto, as visitas de estudo e a exposições, a comunicação oral, os jogos educativos, os materiais manipuláveis, as máquinas de calcular e os computadores.
E propõem a separação dos “alunos com sucesso em Matemática” dos “alunos desde sempre desmotivados na Matemática (com repetências sucessivas na disciplina)”, para se concentrarem nestes últimos, de acordo com “um programa no sentido do desenvolvimento das suas capacidades e atitudes”, de modo a eles construam o “seu próprio saber”, ao seu “ritmo pessoal” e ganhando “maior confiança em si próprios”.
No balanço feito no fim do primeiro deste projecto, durante o 2º Encontro de Professores de Matemática organizado pelo Núcleo da A. P. M. de Almada e Seixal, as autoras referem que os alunos com menor dificuldade nesta disciplina trabalharam com o “currículo normal” e “um pouco ao nível da investigação, circunscrita aos temas História da Matemática, Geometria e Pavimentações, enquanto que os alunos com mais dificuldades puderam, frequentemente, “escolher o tema e o material para trabalharem”, usaram, “exaustivamente […] os computadores e os materiais manipuláveis”, foram particularmente acompanhados no que respeita à “organização dos cadernos diários”, tendo sido todos classificados com o nível “3”, apenas com diferenças qualitativas expressas numa “grelha de observação”.

Já tinha havido nesta escola o Clube de Matemática, mais tarde transformado em Clube de Ciência, que a seguir se dividiu de tal modo que os Professores de Matemática ficaram sozinhos, com a “sala de jogos”. A dada altura de 1991-92 esses professores começaram a participar oficiosamente nas reuniões do MATlab interescolas.


Escola Secundária Nº 1 do Laranjeiro (actual Escola Secundária Rui Luís Gomes)

1989-90

O
José Tomás (quando estava na Nº 2 do Laranjeiro) e a Palmira Barroso implementam uma experiência pedagógica no 7º ano, que designam por Geoplano. Constroem geoplanos, com a colaboração dos alunos, e produzem uma planificação geral e 14 fichas de trabalho.

Este foi um dos projectos que inspirou o AlterMATivas interescolas.

1990-91

A partir de uma preocupação comum de professores de Matemática, Português e Francês, a “necessidade de em determinados momentos da aprendizagem agrupar os alunos e envolvê-los em actividades diversificadas de modo a possibilitar-lhes um acompanhamento mais individualizado, consoante as dificuldades e respeitando os seus ritmos de trabalho”, é implementado o Projecto «Mais uma Proposta para o Sucesso» em 3 turmas do 7º ano com horários coincidentes naquelas disciplinas, permitindo a “rotatividade dos alunos ao longo do ano”.
Na opinião de 6 dos Professores envolvidos, apresentada no 1º Encontro de Professores de Matemática organizado pelo Núcleo da A. P. M. de Almada e Seixal, “Foi uma aposta contra o cepticismo reinante”, pois “é necessário inventar, recriar sempre algo de diferente para os nossos alunos”.

1991-92

É realizado um “projecto” intitulado Descobrir a Geometria com o CABRI-Géomètre, tendo como “dinamizadoras” a Ana Teresa Mateus e a Palmira Barroso, com o apoio da Margarida Junqueira, sendo concretizado com uma turma do 9º ano, da Ana Teresa, dividida em duas metades de 12 alunos, que alternam na utilização do programa CABRI e na resolução de outros problemas sobre o mesmo tema, com materiais tradicionais.

É inaugurado o Clube de Jogos, um espaço destinado a funcionar como sala de jogos, estando envolvidos nele 4 professores, um deles com 2 horas de redução de serviço lectivo para a dinamizar; alguns alunos ajudam no arranjo da sala e no arranque das actividades.
O José Tomás, coordenador deste espaço, e a Palmira Barroso foram dois dos autores do MATlab interescolas.


Escola Secundária Nº 2 do Laranjeiro (actual Escola Secundária Francisco Simões)

1991-92

Os professores de Matemática organizaram, durante a Semana da Escola (1 a 5 de Junho), uma sala onde os alunos puderam “«jogar», «pensar» e divertir-se com jogos, problemas, puzzles e labirintos”.


Escola Secundária Nº 1 do Seixal (actual Escola Secundária José Afonso)

1988-92

Em 1991-92 a Sala de Dinamização Cultural foi equipada pelo Pedro Esteves com jogos de reflexão, puzzles e desafios matemáticos; a primeira actividade pública, durante a recepção aos novos alunos da Escola, é uma exposição intitulada “A Outra Face da Matemática”; é comemorado o Dia Mundial do Xadrez, em 19 de Novembro (o que se repetirá nos anos seguintes), e realizado o 1º Campeonato de Xadrez da Escola; neste ano o Xadrez está associado ao Núcleo do Desporto Escolar e a escola é a principal organizadora e sede de realização do 1º Torneio de Xadrez Interescolas do Concelho do Seixal. Com uma funcionária própria, esta sala também teve, durante o 2º e o 3º períodos, a colaboração de mais dois professores de Matemática e, para a fabricação de vários jogos e quebra-cabeças, a de diversos alunos.
Em 1990-91 esta sala, além de ser uma Ludoteca, começa a integrar actividades de Laboratório de Matemática; é nela iniciada a produção sistemática de materiais de apoio (jogos, puzzles, problemas, labirintos, desafios matemáticos, ...) e a edição de um boletim informativo; e estabelece-se uma ligação ao Projecto Viva a Escola, e, em 1991-92, ao MATlab interescolas (de que o Pedro Esteves foi um dos autores) e ao Clube Recreativo e Desportivo das Cavaquinhas.

1989-90

Realizada uma experiência pedagógica, pelo Pedro Esteves, intitulada Projecto AlterMATivas (outro dos projectos que inspirou o AlterMATivas interescolas). Prevista inicialmente para 4 anos (primeiro ano, turmas do 7º ano deste professor; segundo ano, turmas do 8º e 10º; terceiro ano, turmas do 9º e 11º; quarto ano, turmas do 12º), o plano foi alterado com a integração no projecto comum com as outras escolas.
Tinha como “objectivos: inovação de metodologias, produção de materiais, animação do colectivo de professores de Matemática da Escola, divulgação para o exterior, reflexão, eventualmente investigação“; foram produzidas algumas fichas de trabalho para utilização pelos alunos das turmas do 7º ano.


Comentários

Todos os projectos destinados a fomentar actividades extracurriculares que foram acima descritos envolveram-se no Projecto MATlab (interescolas), ou oficialmente (através dos autores deste), ou oficiosamente (participando, a partir de dada altura, nas reuniões, que para o permitirem se tornaram abertas). O mesmo já não sucedeu com o Projecto AlterMATivas, que se manteve em exclusivo nas mãos dos seus autores, embora tenha sido pródigo em deixar pistas para que outros professores o pudessem diversificar.

No quadro seguinte, que agrupa esses projectos, se são patentes pequenas iniciativas pioneiras, é sobretudo evidente a explosão de iniciativas que se verificou após 1989-90, ano em que foi fundado o Núcleo da A. P. M. em Almada e Seixal. Terá pois sido o associativismo o factor decisivo na enorme expansão dos projectos relacionados com a Matemática nas escolas desta região:



Fontes: Pedro Esteves / Arquivador digital Tese de Mestrado (Doc. T005) / Caixa com materiais do Núcleo (QUEBRA-CABEÇAS COM FÓSFOROS)

[049] Julho de 1991: o 1º Encontro Regional de Professores de Matemática

Memórias

Em 1990-91, a primeira actividade do Núcleo da APM em Almada e Seixal cuja data identifiquei foi a Assembleia Geral, ocorrida no dia 15 de Janeiro, na Escola Secundária Anselmo de Andrade.
Os sócios apreciaram o que foi feito em 1989-90; definiram o Plano de Actividades para 1990-91 e elegeram a primeira Comissão Coordenadora (para o biénio de 1990-92): a Ângela Queiroz, a Cristina Fonseca, o Manuel Ribeiro, o Pedro Esteves, a Rita Vieira e a Teresa Nascimento (um grupo com professores do 1º, 2º e 3º Ciclos e do Secundário)

É possível que duas ou três reuniões destinadas a fundamentar propostas de revisão dos Estatutos da APM tenham sido realizadas antes desta Assembleia, durante o 1º período lectivo.

Depois, no dia 17 de Abril, foi concretizada a IIª Final Regional das Pré-Olimpídas de Matemática, na Escola Secundária Emídio Navarro, tendo nela estado envolvidos 57 alunos de 7 Escolas Preparatórias e Secundárias dos dois concelhos.
Eis os problemas que lhes foram propostos:


Ainda em Abril, a equipa que candidatou o projecto AlterMATivas ao 3º Concurso Nacional de Projectos Educar Inovando / Inovar Educando, promovido pelo Instituto de Inovação Educacional [ver testemunho «045»], ampliada com a Teresa Nascimento (da Escola Básica da Cova da Piedade, actual Escola Básica Comandante Conceição e Silva), apresentou ao mesmo concurso um outro projecto, o MATlab – Laboratórios de Matemática: actividades / desafios / recursos.
Partindo da experiência que já tinham, consideraram que o “processo de ensino-aprendizagem da Matemática sofre diversos bloqueamentos”, atribuíveis, entre outras origens, “ao seu encerramento na escola, à rigidez do espaço-tempo a ele dedicado (a aula), e à dificuldade de aproveitamento das explorações espontâneas realizadas pelos alunos.” E era sua convicção a possibilidade de “criar espaços exteriores às aulas, dentro da Escola, capazes de gerar interesse e iniciativa dos jovens em relação à Matemática”, os quais poderiam “favorecer o desenvolvimento de capacidades como a cooperação, o sentido de risco, a elaboração de projectos e estratégias e a definição de valores”, além de contribuir “para o melhoramento da Matemática feita na Escola”.
Com estas intenções, propuseram-se criar e institucionalizar em cada escola “um espaço, a ser utilizado livremente pelos alunos, com condições para a realização de actividades e para a exploração de desafios de carácter matemático (em sentido amplo)”, e que permitisse “a interacção com as actividades curriculares” e “a dinamização e integração de iniciativas a nível das comunidades” em que essas escolas se inseriam.
E, para “dar sentido mais profundo a cada uma das iniciativas tomada isoladamente”, propuseram o conceito de “Laboratório de Matemática, que deve ser aberto (as actividades), aprofundante (os desafios) e estruturante (os recursos).”
Metodologicamente, defenderam a “iteratividade processual”, com “mobilização gradual das comunidades escolares e não escolares” e com “obtenção do apoio dos órgãos de gestão das Escolas”, considerando-o um caso de “investigação-acção.”
Esperavam os autores, “sobretudo: o enraizamento das práticas de pesquisa matemática em cada Escola; o aligeiramento das fronteiras entre o curricular e o não-curricular; a dinamização das permutas da Escola com o meio circundante; e, finalmente, a institucionalização dos espaços físicos suporte das iniciativas realizadas e dos recursos (humanos e financeiros) nelas investido, de modo a que, globalmente, se desencadeie um processo irreversível.”

O Iº Encontro Regional de Professores de Matemática dos concelhos de Almada e Seixal, realizado nos dias 15, 16 e 17 de Julho, em três Escolas Secundárias, respectivamente Nº 1 do Seixal, Anselmo de Andrade e Nº 1 do Laranjeiro, foi organizado pela Filomena Teles e pelo Sérgio Valente, com o apoio dos membros da Comissão Coordenadora.
E foi constituído por cinco Sessões Práticas (quatro relacionadas com projectos que tinham sido implementados durante o ano lectivo e uma sobre o “valor educativo do problema em Matemática”) e ainda permitiu a apresentação do Projecto AlterMATivas. Nenhuma destas sessões se sobrepôs a qualquer outra, pelo que todos puderam participar em todas.
Dois dos projectos apresentados tinham carácter interdisciplinar, um ligando a Física e a Matemática, a propósito dos «movimentos dos corpos» (foi animado pela Cremilde Ribeiro e pela Margarida Junqueira) e o outro ligando a Geografia e a Matemática, dado se referir aos contributos de Eratóstenes e de Pedro Nunes (foi animado por três estagiárias de Matemática, orientadas pela Filomena Teles, a Ana Cristina Neto, a Joana Guerreiro e a Patrícia Cascais).
Um terceiro projecto (a cargo do Sérgio Valente), explorou as novas tecnologias no ensino da Matemática,
E o quarto projecto apresentou os resultados de uma experiência feita com três turmas do 7º ano, de modo a permitir a rotatividade dos alunos entre elas (foram responsáveis por esta apresentação, sendo só uma delas professora de Matemática, a Ana Paula Aguilar, a Palmira Barros e a Rosário Figueiredo).
A Sessão Prática esteve a cargo de dois professores na Faculdade de Ciências e Tecnologia, a Ana Boavida e o José Manuel Matos.
Todas estas sessões dispuseram de tempo para debate, mas as actas não registaram um resumo de todos os debates havidos.
Foram ainda divulgados um espaço extracurricular da Escola Secundária Anselmo de Andrade e um projecto curricular da Escola Secundária Nº 1 de Corroios.
Do «Debate Final» destaco a ideia de nem se poder «exigir militância reformista» a nenhum professor, nem se dever «impedir a militância reformista» dos que a desejarem ter.

Eis uma fotografia que ilustra a apresentação (na Escola Secundária Nº 1 do Seixal) do primeiro dos referidos projectos interdisciplinares:


Da esquerda para a direita, a Cremilde, a Margarida, o Sérgio, o Pampulim e a Filomena


E eis a capa que reuniu os contributos digitalizados deste Iº Encontro Regional (penso que as cópias impressas foram feitas e oferecidas pela Câmara Municipal de Almada):


Alguns tópicos sobre três dos projectos apresentados neste Encontro (retirados destas Actas):

O Sérgio Valente, com o objectivo de produzir software (programas Microcalc e Logo), tinha implementado nas suas turmas do 11º ano (Escola Secundária Anselmo de Andrade) o projecto Novas Tecnologias no Ensino da Matemática, a dois níveis: a) com os alunos, nas aulas; b) com o Pólo do Projecto Minerva da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT). As turmas tinham sido constituídas normalmente e tinham cerca de 30 alunos. A metodologia baseou-se no trabalho de grupo.
No debate que se seguiu à apresentação deste projecto, o Sérgio disse que depois do trabalho no computador fazia sempre um feed-back e que houve professores que pegaram nas suas fichas e as reformularam, o que achou positivo. Lançou ainda a questão sobre se é preferível utilizar apenas um computador na aula, com o professor centrando em si a discussão, mais ou menos aberta, ou se será melhor, havendo mais do que um computador na Sala, deixar mais margem para a experimentação pelos alunos.

A Cristina Neto, a Joana Guerreiro e a Patrícia Cascais (Escola Secundária Anselmo de Andrade) desenvolveram ao longo de 1990-91 um projecto, fora do espaço aula, com os alunos do 8º ano, intitulado A Viagem num Mundo em Transformação (de Eratóstenes a Pedro Nunes).
Não se preocuparam com os conteúdos programáticos, apenas com as “noções” necessárias para a realização do trabalho (“ângulos, triângulos, polígonos, quadriláteros, proporções, semelhança de triângulos, Teorema de Thales”).
No debate que se seguiu à apresentação deste projecto, a Patrícia reconheceu que “foi complicado e levou muito tempo, fins-de-semana, noites, etc.”, apesar de o seu trabalho como professoras ter decorrido “em condições especiais”, “em grupo, com menos turmas”.

Um grupo de 6 professores de Matemática, Português e Francês” (Ana Aguilar, Francisca Angelino, Maria Gardete, Rosário Figueiredo, Palmira Barroso e Regina Caeiro), tendo como “preocupação comum (…) agrupar os alunos e envolvê-los em actividades diversificadas de modo a possibilitar-lhes um acompanhamento mais individualizado, consoante as dificuldades e respeitando os seus ritmos de trabalho” promoveu o projecto Mais uma Proposta para o Sucesso em 3 turmas do 7º ano da Escola Secundária Nº 1 do Laranjeiro (actual Rui Luís Gomes), tendo para tal horários coincidentes naquelas disciplinas, o que lhes permitiu a “rotatividade dos alunos ao longo do ano”.
No debate que se seguiu à apresentação deste projecto, as autoras consideraram que ele “Foi uma aposta contra o cepticismo reinante”, pois pensam que “é necessário inventar, recriar sempre algo de diferente para os nossos alunos.”

E ainda mais algumas notas sobre outros projectos desenvolvidos ao longo deste ano lectivo, também divulgados no Encontro (mas não nas suas Actas):

A Ana Paula Natal (Escola Secundária Anselmo de Andrade) realizou com as suas 2 turmas do 7º ano uma experiência de produção de materiais para o ensino e aprendizagem da Geometria.

A Ana Paula Natal e a Lídia Lourenço criaram o Clube da Matemática na Escola Secundária Anselmo de Andrade, “tendo cada uma 2 horas semanais extra horário lectivo”. Nele foram “construídos materiais de suporte a jogos e puzzles.” Um das horas da Lídia foi “dedicada à resolução de problemas.” E uma das suas alunas, frequentadora do Clube, a Joana, ganhou as Olimpíadas de Matemática, por “mérito da aluna”, mas tendo o Clube “uma importância enorme” na sua “motivação e desenvolvimento do raciocínio matemático”.

Numa reunião dos professores do 1º grupo da Escola Secundária Nº 1 de Corroios (actual Básica de Corroios) foram analisadas as “causas” do “insucesso escolar” em Matemática.
Apontou-se para estarem entre essas causas: o «mito» associado a esta disciplina; as reprovações consecutivas; o excessivo número de alunos por turma; a heterogeneidade de conhecimentos presente na mesma turma; a falta de hábitos de trabalho; a inadaptação dos programas; o não cumprimento destes nos anos anteriores; a falta de tempo para os professores trabalharem em conjunto; e a indisciplina dos alunos.
Foi sugerido, como “estratégias”, o trabalho de motivação, o trabalho de grupo, as aulas de compensação, as verbas para materiais, as turmas mais pequenas e as turmas com alunos com o mesmo nível de conhecimento.
Como consequência, duas professoras redigigiram, no final do ano lectivo, o Projecto da Matemática da Escola Secundária Nº 1 de Corroios, que procura responder àquela análise. Propuzeram-se, nos três anos seguintes, utilizar trabalho de projecto, de pesquisa e de grupo, visitas de estudo, comunicações orais e exposições, jogos educativos, materiais manipuláveis, máquinas de calcular e computadores com alunos, acompanhando-os ao longo do 3º Ciclo de escolaridade, separando para tal os “alunos com sucesso em Matemática” dos “alunos desde sempre desmotivados na Matemática (com repetências sucessivas na disciplina)”, para se poderem concentrar nestes últimos. Visavam desenvolver as suas “capacidades e atitudes”, de modo a que sejam eles a construir o “seu próprio saber”, ao seu “ritmo pessoal” e com “maior confiança em si próprios”.

Foram produzidos diversos tipos de certificados de participação para os 56 participantes neste Encontro (4 eram provenientes dos concelhos da Amadora, Cascais, Oeiras e Sintra; e cerca de um terço animaram sessões de trabalho). Eis um desses certificados, produzido pelo Sérgio Valente:

De notar que a cercadura é constituída pelos primeiros N algarismos do Π

Comentários

A distribuição, por escola, dos professores participantes neste Encontro foi a seguinte: 5 professores de 3 Escolas Preparatórias (actualmente Básicas), 46 professores de 15 Escolas Secundárias (com 3º Ciclo e Secundário) e 4 professores da Faculdade de Ciências e Tecnologia. Dezanove escolas no total!

Fontes:
Pedro Esteves / Álbum de fotografias analógicas 1º Encontro do Núcleo da APM (F102: 13) / Arquivador analógico Núcleo APM Um (Doc.s 4 e 11) / Arquivador digital Tese de mestrado (4EXPR1, 4EXPR7 e 4EXPR16)
Documentos analógicos (1º Encontro Regional da APM)