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[110] O 3º encontro «Educação e Memórias (Almada e Seixal)»

Memórias

Este 3º Encontro foi realizado no dia 1 de Abril de 2026 na Escola Básica e Secundária Professor Ruy Luís Gomes, tendo nele participado 18 professores e educadores e sido apresentados três testemunhos.

Aprender, Viver e Trabalhar na Península de Setúbal, um Vídeo produzido por Eduarda Dionísio, João Carlos Louçã e Vítor Ribeiro, em 1997, por encomenda do Instituto das Comunidades Educativas, e agora comentado por Ângela Luzia.
Organizado em 4 partes, nele se aborda: na primeira, o «Tocar, cantar, conviver, representar»; na segunda, o «Ler, escrever, falar, divulgar»; na terceira, o «Reunir, conservar, instruir, fazer»; e na quarta o «Herdar, trocar, descobrir».
Pretendeu-se, com este Vídeo, “produzir mais um recurso de formação, de desafio à reflexão sobre os diferentes contextos e experiências, em que os participantes, diferentes protagonistas sociais, crianças, jovens, músicos, atores, professores, educadores, técnicos, famílias, vizinhos,…, são simultaneamente atores e destinatários, numa perspetiva intergeracional, intercultural e de educação inclusiva, formalizando enquanto formação os tempos de reflexão e questionamento sobre práticas e metodologias, articulando a produção de inovações educativas com a produção de saberes, numa perspetiva de criação de Comunidades de Aprendizagem.”
Eis um momento em que os participantes no encontro observam o Vídeo:



1as Jornadas Interativas de Divulgação de Ciência, por Luísa Beato, orientadora do estágio de Anabela Viseu, Cristina Azevedo e Eduardo Gomes em 1994-95.

Estas Jornadas Interactivas, que decorreram durante uma semana (de 19 a 26 de Maio) em Almada, não se limitaram a envolver estes professores, pois mobilizaram os grupos disciplinares da Biologia, da Física-Químia, da Informática, da Matemática, da Mecânica e da Robótica da Escola Secundária Emídio Navarro e muitos apoios e patrocínios no concelho de Almada e para além dele.

Como razões para esta iniciativa foram na altura explicitadas estas duas:
* “a escola continua a ser hoje, apesar dos discursos de reforma, uma realidade virada demasiado para si própria, muito pouco conhecida quer dos pais, quer dos restantes agentes educativos.”
* “a ciência ainda hoje [é] vista como um produto meramente de laboratório, acessível apenas a alguns, com uma linguagem fechada, o que gera falta de sensibilidade e atitude crítica para a informação científica e para os problemas éticos e sociopoliticos que envolve.”

A dimensão que este projecto atingiu pode ser compreendida através das iniciativas que o integraram:

1as Jornadas Interativas de Divulgação de Ciência, por Luísa Beato, orientadora do estágio de Anabela Viseu, Cristina Azevedo e Eduardo Gomes em 1994-95.
Estas Jornadas Interactivas, que decorreram durante uma semana (de 19 a 26 de Maio) em Almada, não se limitaram a envolver estes professores, pois mobilizaram os grupos disciplinares da Biologia, da Física-Químia, da Informática, da Matemática, da Mecânica e da Robótica da Escola Secundária Emídio Navarro e muitos apoios e patrocínios no concelho de Almada e para além dele.

Como razões para esta iniciativa foram na altura explicitadas estas duas:
* “a escola continua a ser hoje, apesar dos discursos de reforma, uma realidade virada demasiado para si própria, muito pouco conhecida quer dos pais, quer dos restantes agentes educativos.”
* “a ciência ainda hoje [é] vista como um produto meramente de laboratório, acessível apenas a alguns, com uma linguagem fechada, o que gera falta de sensibilidade e atitude crítica para a informação científica e para os problemas éticos e sociopoliticos que envolve.”

A dimensão que este projecto atingiu pode ser compreendida através das iniciativas que o integraram:


Se se pudesse fazer uma síntese do que foi feito, ela poderia ser: a escola saíu para a rua.



Almada um lugar para todos / Projecto colaborativo interturmas na Escola Básica Marco Cabaço (Iª parte), por Angélica Curto.

Este projecto concretizou-se em 2013.
Neste encontro apenas se apresentou a história que foi produzida pelos alunos, e depois animada num Vídeo por uma empresa especializada. Ficaram por contar no próximo Encontro as razões e o processo da sua produção.
Uma imagem da projecção deste Vídeo (que, além do normal som áudio inclui uma tradução para quem não o pode ouvir):




Comentários

Os testemunhos apresentados nestes Encontros resultam da compreensão, por parte dos seus autores, da importância do registo das suas memórias, não as abandonando nem ao esquecimento, nem à expropriação por terceiros.
E os debates incluídos em cada um destes Encontros proporcionam um primeiro olhar crítico sobre o passado, quer analisando os seus contextos, quer procurando um novo entendimento das estratégias que foram resultando, quer das que, a dado momento, deixaram de resultar.



Imagens: fotografias de Lídia Matias durante o Encontro e imagem do Power Point das «1as Jornadas» que nele foi mostrado

[103] O SIAP e as ambiguidades iniciais do associativismo docente

Memórias


Tanto pelo que senti na altura, como pelo que reflecti recentemente, a transição entre a primeira e a segunda metade da década de 90 constituiu uma charneira na história do nosso sistema educativo.

Lembro a seguir três episódios ocorridos no âmbito do associativismo docente que ilustram as discretas mas profundas mudanças que estavam a ocorrer.

O Secretariado Inter-Associações de Professores (SIAP), criado em 20 de Julho de 1992, organizou, perto do final de 1994-95, o seu segundo encontro anual. O tema escolhido foi a Reforma Educativa cuja generalização estava a ser concluída.



Este tema não nos deve admirar: nas três reuniões prévias à criação do SIAP, todas realizadas em 1992, fora essa a preocupação central dos representantes das associações que nelas participaram, talvez mesmo a sua única preocupação. E isso reflectiu-se no modo como o SIAP, depois de fundado, se apresentou publicamente: seria o resultado do “diálogo entre as associações a propósito da sua representação no Conselho Nacional de Educação”, o que o levou a constituir-se como uma “plataforma de entendimento das várias Associações de Professores e parceiro social junto do Ministério da Educação e seus departamentos e institutos” de modo a actuar “no estrito âmbito das questões pedagógicas comuns aos vários saberes e áreas disciplinares e, também, de todos os assuntos relacionados com a organização curricular geral, não se imiscuindo no campo laboral e estritamente científico que reconhecem competir respectivamente aos sindicatos e associações / sociedades científicas”.
Sendo constituído por representantes das diversas associações, o SIAP optou por tomar decisões baseadas no “consenso” ou, na ausência deste, numa “maioria absoluta”, tendo por objectivos:
- “Instituir um forum de discussão pedagógica entre professores”;
- “Contribuir para uma maior intervenção dos professores e das suas Associações Pedagógicas na definição da política educativa nacional”;
- “Assumir a condição de parceiro social junto do Ministério da Educação em assuntos que, pela natureza pedagógica, não se incluem na esfera sindical”;
- “Intervir activamente na definição, implementação, avaliação e reformulação da Reforma Educativa”;
- “Participar na definição dos planos de formação contínua de professores”;
- “Organizar, conjuntamente, acções de formação contínua de professores no âmbito interdisciplinar”.


Tendo sido iniciado por apenas nove associações de professores, em pouco mais de três anos duplicou o número de associações que estiveram regularmente envolvidas no SIAP (a seguir assinaladas com um *) ou que com ele tiveram contactos esporádicos:
Associação Nacional de Professores de Educação Visual e Tecnológica (APEVT *);
Associação Portuguesa de Geógrafos (APG);
Associação Portuguesa de Orientadores Escolares e Profissionais (APOEP);
Associação Portuguesa de Professores de Alemão (APPA *);
Associação Portuguesa de Professores de Biologia e Geologia (APPBG);
Associação Portuguesa de Professores de Francês (APPF *);
Associação Portuguesa de Professores de Inglês (APPI *);
Associação de Professores de Ciências Económico-Sociais (APROCES *);
Associação de Professores de Expressão e Comunicação Visual (APECV *);
Associação de Professores de Filosofia (APF);
Associação de Professores de Geografia (APG *);
Associação de Professores de História (APH *);
Associação de Professores de Matemática (APM *);
Associação de Professores de Português (APP *);
Associação dos Profissionais de Educação de Infância (APEI);
Conselho Nacional das Associações de Professores de Educação Física (CNAPEF);
Sociedade Portuguesa de Educação Física (SPEF).

Não esclareci (através das respectivas webpages) as datas de criação de todas estas associações, mas fi-lo em relação às que coordenaram o SIAP nos seus três primeiros anos de existência: a de Português em 1977; a de História em 1981; a de Inglês em 1985; a de Matemática em 1986; e a de Ciências Económico-Sociais em 1988.
É portanto evidente que este surto associativo ocorreu como consequência do «25 de Abril de 1974», o que também aconteceu com a criação de outras associações ligadas ao fenómeno educativo: por exemplo, a Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP) foi fundada em 1985 e a Sociedade Portuguesa de Ciências da Educação (SPCE) em 1990.

Dos que intervieram no encontro anual organizado pelo SIAP no final de 1994-95 apenas conheço o Fernando Nunes, então professor do 2º Ciclo. Na sua intervenção ele apresentou os resultados de um inquérito que a APM dirigira, cerca de um ano antes, a professores de Matemática do ensino não superior de todo o país. Para tal, ele organizou as respostas recebidas (talvez o inquérito já estivesse estruturado desse modo) de modo a destacar, em relação à Reforma Curricular que estava a ser generalizada, o «sentimento» que os inquiridos sobre ela tinham, mais os «aspectos positivos» e os «aspectos negativos» que nela apontavam, realçando, nomeadamente, a «extensão dos programas» e a «avaliação dos alunos».
No final da apresentação desses resultados o Fernando concluiu que os professores estavam interessados na Reforma Curricular e que tanto a consideravam como «positiva» como, dadas as condições de implementação de que dispunham, a sentiam com algum «desconforto». E, tal como acontece sempre que são realizados este tipo de «inquéritos», o Fernando ainda acrescentou um comentário diagonal às tendências que as respostas revelavam: existia entre os inquiridos uma óbvia «diversidade de opiniões».

Quase um ano depois, portanto em 1995-96, soube que o Ministério da Educação tinha desafiado alguns sócios da Associação de Professores de Matemática a elaborar um documento de conteúdo, para mim, bastante inesperado. Escrevi à direcção da associação, ao boletim que publicara a informação e a um dos que fora convidados pelo Ministério da Educação (o Paulo Abrantes, talvez por ter sido ele a assinar a informação no boletim).
Comecei assim:
“Fiquei negativamente surpreendido com os termos em que no «A.P.M. informação» de Março (nº 27) foi apresentada a criação de um «grupo de trabalho» para a elaboração de «um documento» que
«1º faça um diagnóstico da situação no que se refere
[ao ensino da] Matemática;
2º defina orientações e práticas do ensino da Matemática nas nossas escolas;
3º caracterize e defina as necessidades de formação dos professores de Matemática;
4º defina as condições de apoio ao ensino e aprendizagem da Matemática.”
[p. 3]
Gostaria em primeiro lugar de sublinhar que, como professor, não aceito o carácter normativo subjacente à ideia de definição de «orientações e práticas do ensino da Matemática». Uma tal pretensão, nem através da mais cuidada consulta seguida do mais amplo referendo pode ser alcançada - pura e simplesmente não tem sentido. Será, pelo contrário, muito bem vinda para mim uma reflexão fundamentada nos saberes profissionais docentes e nas investigações sobre educação; por sua natureza, esta assumirá ou o carácter de uma recomendação (feita por um grupo que trabalhou segundo uma determinada metodologia) ou, ainda melhor, o carácter de uma proposta (o que é típico dos processos sociais abertos).
”
E
um pouco adiante acrescentei esta interrogação (que aponta para uma alternativa):
“(…) mesmo no caso de o resultado do esforço a dispender pelo «grupo de trabalho» assumir a forma de «recomendações» ou de «propostas», e apesar do papel inequivocamente importante que tal terá, será bom não nos iludirmos acerca dos limites dos efeitos deste tipo de intervenção, quer no âmbito quer no prazo; mudar a forma como mudamos não se faz apenas pela «palavra», faz-se também com «actos», e com confronto entre «palavras» e «actos»; não será por conseguinte necessário preocuparmo-nos também com o reforço das iniciativas inovadoras e com as ligações entre elas? não precisaremos de intervir e de reflectir em tanta outra coisa, imediata e mediata, enquanto decorre o tempo, necessariamente muito longo, que o proposto estudo do «grupo de trabalho» vai exigir?”
Não obtive qualquer resposta para esta minha carta.

O terceiro episódio ocorreu no início de 1996-97, durante o ProfMAT realizado, em Almada, na Escola Básica António da Costa e na Escola Secundária Emídio Navarro.
O meu estado de espírito não era nada favorável a este ProfMAT, pois tinha considerado que a escolha deste local havia sido imposta ao Núcleo de Almada-Seixal pela Direcção da APM, e que o Núcleo não reagira, como deveria ter reagido [ver testemunho «099»]. E ainda hoje me incomoda pensar no que então aconteceu, e no que isso significou. Se o episódio que agora recordo é outro, ele é mais uma peça para compreender como o meu incómodo foi aumentando.
Como em 1996 a APM completava 10 anos de vida (e de ProfMATs), dois dos seus sócios decidiram escrever um livrinho intitulado «Dez anos de Encontro»:



O livrinho teve direito a grande destaque no ProfMAT, sendo sobretudo constituído por uma narrativa ao estilo «epopeia associativa», destinada a consolidar, entre os sócios da APM, um espírito favorável às orientações dos «pais fundadores», que não eram «professores como o eram a maioria»: os autores do livrinho, o Eduardo Veloso e o Henrique Guimarães, pertenciam a esse grupo de «guias associativos», e o primeiro não leccionava, sendo apenas um divulgador da Matemática, e o segundo era, no Ensino Superior, professor na área da Educação Matemática. Isso queria dizer que, a haver uma «epopeia», ela não tinha sido intelectualmente construída por sócios que, como eu, leccionavam em escolas Básicas e Secundárias.


Comentários

Penso que a APM, tal como (muito provavelmente) todas as outras associações de professores envolvidas no SIAP, não se terão apercebido de três ambiguidades que se foram instalando no associativismo docente:

(1) Sobre o papel do associativismo: o foco da acção das associações de professores deve estar no «desenvolvimento profissional» dos docentes e não na «intervenção», enquanto «parceiros sociais» do Ministério da Educação, nas Reformas da Educação; o 2º Encontro do SIAP mostrou como os professores que aí intervieram pareceram sobretudo preocupados com as propostas a fazer sobre a Reforma Educativa e não com o papel que os professores poderiam desempenhar com ou sem ela; o inquérito cujos resultados o Fernando Nunes analisou estava estruturado nessa direcção, não equacionando (apesar de ter alguns dados para o fazer) o problema decisivo de qualquer «reforma», que é a diversidade de práticas e de opiniões dos professores.

(2) Sobre a organização do associativismo: as diversas associações que começaram a dialogar através do SIAP incluíram entre os seus objectivos comuns a constituição de um «forum de discussão pedagógica», mas é óbvio que não seria através de um «encontro anual» que o conseguiriam, a não ser que o «diálogo» fosse restringido ao reduzidíssimo número de professores que representavam no SIAP as diversas associações; havia outras soluções organizativas, como, por exemplo, a da SPCE, que juntou no seu seio todos os investigadores em Ciências da Educação, independentemente da sua área científica de trabalho e das disciplinas curriculares a que estivessem particularmente ligados.

(3) Sobre a autonomia do associativismo: não cabe aos professores do ensino superior orientar o desenvolvimento profissional dos professores do ensino não superior, embora possam apresentar-lhes estudos inspiradores; o livrinho tão incensado no ProfMAT de Almada evidenciou que os professores do ensino não superior não tinham sido capazes de se afirmar autonomamente na APM, deixando que a «voz do colectivo» lhes fosse alheia; e se essa voz ainda não reflectia com clareza a aliança, em gestação, entre o Ministério da Educação e alguns investigadores em Educação Matemática (representados por aqueles que, no ano anterior, aceitaram a encomenda da elaboração de um «diagnóstico», de «orientações» e de «condições» para futuras reformulações curriculares), estava a caminho de o fazer; tratava-se de uma aliança que não dizia respeito aos professores do ensino não superior - terá esta usurpação também ocorrido nas outras associações?

Vejo duas origens explicativas para a força com que estas ambiguidades se impuseram no associativismo docente:

(a) Em 1974 a grande maioria dos professores do ensino não superior não dispunha de experiência associativa, nem de perspectivas sólidas sobre o que poderia ser a sua profissão nem sobre o que seria uma mudança no sistema educativo; e, nos anos seguintes, a entrada de muitos novos professores nas escolas veio agravar esta lacuna; quem a dada altura começou a chamar a atenção para alguns dos aspectos essenciais que estavam em jogo foram, pelo acesso que tinham a fontes estrangeiras e pelo papel de recolectores e de divulgadores que se esperava que tivessem, alguns dos investigadores em Ciências da Educação, nomeadamente António Nóvoa, José Alberto Correia, Rui Canário e Stephen Stoer; eles abordaram o associativismo docente, a identidade profissional, o papel das escolas, os desafios da mudança e os caminhos de formação contínua (são estes os temas com que tomei contacto); e também lembraram o recurso à «investigação» pelos docentes, mas esse terá sido o primeiro tema a ser esquecido, como consequência do monopólio que os investigadores do ensino superior dele fizeram; quanto às «mudanças na prática» que muitos professores do ensino não superior estavam a implementar, a sua sorte foi serem ignoradas e substituídas pela «ideologia das reformas» (ou seja, a das «mudanças a partir de cima»).

(b) Uma outra origem explicativa para as ambiguidades do associativismo docente poder-se-á ter infiltrado nas decisões de uma boa parte dos professores (de qualquer grau de ensino) que se destacaram após 1974: tratou-se da tentação de «gerir o sistema», o que, no campo da educação, se manifestou no associativismo, nas escolas, nos currículos e na formação, mas também nos papeis atribuído às tutelas nacionais e locais e às instituições do ensino superior; isso gerou novas hierarquias e novos controlos, bem como novas ilusões e novos problemas.

Estes anos foram para mim a «charneira na história do nosso sistema educativo» porque o espírito que se instalou depois deles foi completamente diferente do que existia desde o «2 de Abril de 1974».



Fontes:
Associação de Professores de História (1990-93): Boletim da Associação de Professores de História, números 12 a 15 IIª série
Associação de Professores de Matemática (1996): Dez anos de Encontro
Secretariado Inter-Associações de Professores (1995): SIAP 95 - Actas
Pedro Esteves: ficheiro digital ANTINORM (em: Associação de Professores de Matemática / Anos lectivos / 1995-96)

[096] Projectos ligados à Matemática nas Escolas Secundárias de Almada e Seixal (balanço no final de 1995-96)

Memórias

Depois de ter resumido, no testemunho «058», o que soube sobre os projectos ligados à Matemática nas escolas de Almada e Seixal, até ao final de 1991-92, actualizei-o, no testemunho «095», até ao final de 1995-96, apenas para as Escolas Básicas, e actualizo-o agora para as Escolas Secundárias.
Incluo agora algumas informações não prestadas no testemunho «058».


Escola Secundária Anselmo de Andrade

1992-96

O «Clube da Matemática», que tinha sido criado no ano 1990-91 e foi transformado em Projecto MATlab no ano seguinte, teve como animadoras em 1992-93 as professoras Ana Cristina Fonseca, Ana Paula Natal e Filomena Teles. Paralelamente, elas contaram com o apoio do João Leonardo, técnico desportivo da Câmara Municipal de Almada, para o ensino do Xadrez.

Desde 1992-93 que um grupo informal de professores se reúne para implementar aquilo a que chamaram Interdiciplinaridade Física / Matemática; a inspiração para este trabalho veio do Sérgio Valente e a respectiva coordenação esteve a cargo da Ângela Queiroz.

Em 1993-94 a Conceição Tomás (acabada de entrar nesta Escola) e a Filomena Teles criaram o Grupo de Complementos ao Espaço-Aula, iniciando aí a recolha de actividades destinadas a ajudar a responder a situações em que os Alunos: ou “não contactaram com determinadas áreas de conhecimento em anos anteriores”, podendo superá-lo “com uma certa autonomia e alguma orientação”; ou têm “bastantes dificuldades necessitando de programas de recuperação”; ou possuem “capacidades especiais”. As actividades recolhidas, no primeiro ano centradas na Geometria, foram depois integradas no Centro de Recursos de Matemática da escola, juntando-se a outros materiais já aí existentes (manipuláveis e audiovisuais).

A Filomena queixou-se de, em 1995-96, a iniciativa dos professores se ter reduzido, como consequência da obrigatoriedade de frequência de «Cursos» para obter «créditos».


Escola Secundária Nº 1 de Corroios (actual Escola Secundária João de Barros)

1992-96

O LUDOMAT, herdeiro (por parte da Matemática) do «Clube de Ciência (que era multidisciplinar), associou-se a dada altura, através da Mirita Sousa, ao Projecto MATlab (interescolas), tendo mantido essa ligação quando este, em 1994-95, se prolongou como Projecto InterMAT (igualmente interescolas).

A Sala de Jogos, foi criada em 1992-93 e desde aí dinamizada pelos professores de Matemática; em 1995-96 foram atribuídas poucas horas equivalentes a serviço lectivo aos professores por ela responsáveis (em comparação com as do ano anterior), tendo vários desses professores decidido manter-lhe o seu apoio sem qualquer compensação no horário lectivo.

Numa pequena descrição feita em 1996 lia-se o seguinte: “Durante o 1º período a sala está aberta para o aluno jogar, no 2º período todos os anos se promove um torneio onde se seleccionam os alunos para participarem no Inter Escolas. Nos últimos dias de aulas, de cada período, organizam-se durante o dia inteiro actividades. A sala teve, o ano anterior, muita gente a participar, este ano um pouco menos porque a sala está menos horas aberta (os alunos lamentam que isto aconteça). Já se realizaram 2 feiras de jogos.” “A compra dos jogos para a sala tem tido o apoio do Projecto Viva a Escola.” “Este ano já se reproduziu o jogo do «ori» a partir dum jogo de um aluno.” “O «ori» vai ser promovido este ano, pelo LUDOMAT em colaboração c/ o trabalho da área escola de 2 turmas do 8º ano (os alunos estão a reproduzir + jogos e vão dá-los a conhecer e realizar um torneio na escola.”
No final do ano, para a realização de um campeonato interno, a E. S. J. Afonso emprestou ao LUDOMAT um exemplar do «ori» (era um procedimento que fazia parte da colaboração entre as escolas envolvidas no projectos interescolas MATlab e InterMAT e que garantia alguma segurança às que dispunham de menos material).


Escola Secundária da Cova da Piedade (actual Escola Secundária António Gedeão)

1992-95

A sala designada por Cantinho da Matemática foi inaugurada no 9 de Abril de 1992, tendo, em 1992-93, sido partilhada com o Clube de Filatelia, tendo também sido local para algumas aulas.
Os professores de Matemática realizaram aí actividades do tipo «clube», durante 15 horas por semana (a Luísa Teixeira dispõe de 2 horas de redução de serviço lectivo).
Nesta sala os alunos dispunham de jogos e de um dossier com material; algumas turmas utilizaram-na para comemorar a 100ª aula de Matemática; e no dia 25 de Maio foi aí realizada uma exposição e realizados jogos, integrado no Dia da Escola; de Janeiro a Junho frequentaram esta sala 534 alunos, segundo o dossier das requisições.
Foi também com o apoio desta sala que foi editada uma folha informativa.

No ano lectivo seguinte a Luísa Teixeira, a Paula e o Fernando Camejo apresentaram ao 5º Concurso do I.I.E. (promovido pelo Instituto de Inovação Educacional) um projecto que viria a financiar o Cantinho da Matemática com 151 contos.

Em 1994-95 este espaço associou-se ao Projecto InterMAT (interescolas), através do Fernando Camejo, da Luísa Teixeira e da Maria João Silva; os dois primeiros tinham, cada um, 2 horas de redução semanal de serviço lectivo (o que se manteve nos anos seguintes).
O Cantinho começou a ter ao seu lado a Sala de Estudo (o que se manteve no ano seguinte), sendo partilhada com outros núcleos; tinha uma funcionária responsável, que no entanto se desdobrava por outras tarefas, em simultâneo.
Com o financiamento obtido o Cantinho adquiriu diversos jogos e publicações e construiu novos materiais; em Maio editou o Nº 0 do jornal “O Pitágoras”, lançado no dia da Escola; durante o ano foram feitas 1 359 requisições, sobretudo de Abalone, Rummikub e Master Mind.
Uma nova candidatura ao Concurso do I.I.E., para continuação do apoio ao projecto, não resultou e a solicitação de 45 000$ à C. M. Almada também não.
Foi elaborado o Regulamento do “Cantinho”, que viria a ser incluído no Regulamento Interno da Escola, e foi produzido um logotipo próprio, com o apoio de uma professora de Educação Visual.
No Dia da Escola foi realizado o “Problema do Dia da Escola”, para alunos, professores e funcionários, tendo todos os participantes recebido prémios.

1995-96

O «Cantinho» passou a ter duas funcionárias; um aluno caboverdeano da Luisa Teixeira, que não incomodava nas aulas mas que também nada fazia, viu o “Ouri” em exibição no anterior Interescolas de Jogos de Reflexão e disse à professora que a avó lhe tinha trazido um de Cabo Verde; passou a fazer os trabalhos de casa, tendo ficado combinado ser a ele a apresentar este jogo aos seus colegas, durante a Semana da Matemática.
Durante o 1º período (a sala só abriu em Outubro) foram feitas 916 requisições, sendo as mais frequentes as dos alunos do 7º ano, bem como as do Abalone, do Rummikub e do Connections; em Janeiro foram feitas 296, ainda com preponderância do 7º ano, e do Rummikub, do Abalone e do Master Mind. O total das requisições até ao final de Abril envolveu 1373 alunos do 3º Ciclo e 327 de alunos do Secundário.
Todos os meses colocou-se um jogo novo no “núcleo” do Cantinho (que já inclui 31 exemplares de 15 jogos diferentes).
À medida que o final do ano se aproximou verificou-se uma descida notável do número de requisições.


Escola Secundária Emídio Navarro

1991-96

A Sala de Tempos Livres (ou Projecto MATlab) esteve associada ao Projecto MATlab (interescolas) desde o seu início (1991-92). Em 1992-93 e nos anos lectivos seguintes a coordenação deste espaço usufruiu de horas de redução do serviço lectivo (desde 1993-94 possui duas professoras coordenadoras).
A escola garantiu-lhe sempre um apoio financeiro.
Em Junho de 1995 esta sala participou na Exposição Interactiva sobre Ciência, organizada pelo Grupo de Estágio de Física-Química da escola e que depois esteve patente em Almada durante uma semana (as 1ªs Jornadas Interactivas de Divulgação da Ciência).
Como Ludoteca, está previsto que este espaço venha a ser integrada no futuro Centro de Recursos da escola.


Escola Secundária Fernão Mendes Pinto

1991-96

As Jornadas da Matemática começaram a ser realizadas em 1991-92 e foram-no, sem interrupção, até 1995-96 (cinco edições).
Cada ano teve um tema, tendo uma vez sido dedicado aos matemáticos portugueses e doutra vez a diversos outros matemáticos; em 1995-96 o tema escolhido foi o jogo (o «boletim informativo de quatro páginas dedicado a estas jornadas intitula-se “Vamos jogar com a Matemática”).
Em anos anteriores as jornadas duravam uma semana e chegaram a ser feitas conferências. Este ano elas duram só um dia, pois dá muito trabalho desalojar as aulas de todo um pavilhão, escalar 1-2 professores do grupo para cada sala envolvida, motivar a comunidade, etc.; foram escolhidas quatro salas, duas para «Jogos, puzzles, problemas», outra para «Exposição e venda de livros e de jogos» e uma última para «Projecção de filmes».

Todos os anos são realizadas na escola as Olimpíadas da Matemática.

Em 1993-94 o projecto GEOMAT fez parte do Projecto InterMAT (interescolas), através das professoras Isabel Amaro, Isabel Fernandes, Paula Marques e Rosário Almeida.

Em 1995-96 foi lançado na escola o concurso intitulado O Problema do Mês, mas não recebeu qualquer resposta; foi também lançado um Clube de Matemática, destinado sobretudo a alunos do 3º Ciclo, mas só apareceram alunos do Secundário (e muitos do 12º ano, com dúvidas do tipo daquelas que se põem na Sala de Estudo nas vésperas de um teste); as duas professoras que tinham, cada uma, uma hora para animar este Clube acharam que o objectivo não era aquele, perceberam que assim não havia continuidade de trabalho (havia dias em que não aparecia ninguém), pelo que decidiram encerrar o Clube, transformando as horas disponíveis em mais horas curriculares com o 12º ano.


A escola criou um Grupo para Apoio Específico, destinado à Matemática, ao Português e ao Inglês; a professora de Matemática que aí esteve envolvida tinha 6 horas por semana de redução lectiva, de modo a apoiar alunos do 10º ao 12º ano; também ela não gostou muito do trabalho que fez, queixando-se de os alunos só aparecerem nas vésperas dos testes; as três colegas que tinham 12º ano encontraram-se duas vezes por semana para preparar as aulas.
O material pedagógico de que a escola dispõe, nomeadamente o que foi herdado do GEOMAT, está guardado numa pequena salinha que pertence ao grupo de Matemática, e que é o seu centro de recursos; ele virá, naturalmente, a ser integrado no futuro Centro de Recursos da Escola (que está em fase de preparação).


Escola Secundária Francisco Simões

1991-96

O Clube de Matemática terá sido iniciado em 1991-92, quando os professores organizaram uma “Semana da Matemática” muito concorrida, e que tanto mobilizou os docentes como envolveu o próprio Conselho Directivo.

Dois anos depois, em 1993-94, o clube conseguiu dispor de uma sala, bastante grande, apetrechada com armários e partilhada por diversos clubes; foi necessário que cada um destes escrevesse algumas linhas para a Direcção Regional da Educação de Lisboa; o Conselho Pedagógico pediu um relatório por período; a escola apoiou financeiramente; nunca houve Funcionária que o apoiasse, nem nesse ano nem nos anos seguintes.
Nesse primeiro ano o Clube de Matemática esteve associado ao Projecto InterMAT (interescolas), através da Patrícia Cascais, havendo mais quatro professores (não de Matemática) envolvidos na sala, com um total de 10 horas semanais de redução de serviço lectivo, divididas por igual; o Xadrez era então dinamizado por outros professores, na Biblioteca.

Em 1994-95 foi atribuída uma sala só para o Clube de Matemática, com cerca de 1/3 do tamanho de uma sala de aula normal, com três armários, um para os recursos pedagógicos da Matemática, os outros dois para jogos e puzzles, tendo algum deste material chegado via Projecto InterMAT e o restante sido comprado pela escola; o material pedagógico para a Matemática encontrava-se ou junto à Sala de Professores, de modo a ser facilmente levado para as aulas, ou no clube; estes materiais são bastante utilizados, mas algum deles, como é o caso do Polydron, só o podem ser nas aulas de apoio, pois não há peças suficientes para uma turma inteira; é no clube que se realizam as reuniões do Grupo de Matemática, se disputam os campeonatos da escola de jogos de reflexão (às Quartas-feiras, depois das 16h30) e, entretanto, se faz a dinamização municipal do xadrez.

Em 1995-96, a escola atribuiu 9 horas equivalentes a serviço lectivo para a animação do clube, 3 para a coordenadora, e 2+2 +1+1 para outros quatro colegas do grupo de Matemática; elas estão marcadas no horário da sala e os alunos sabem que nessas alturas podem lá ir jogar; uma funcionária auxiliar, que tirou um curso de animação cultural, confessou, particularmente, que gostaria de se tornar responsável permanente pela sala do Clube de Matemática.


Escola Secundária José Afonso

1988-96

A Sala de Dinamização Cultural foi criada em 1988-89, tendo começado a ser designada por “Sala de Jogos” em 1992-93, altura em que aí começou a funcionar o Grupo de Investigação em Matemática (nesse ano passaram por ele 55 Alunos, sobretudo do 7º ano, mas também do 8º e do 9º anos).
Nessa sala os alunos dispunham de jogos e de quebra-cabeças para jogar e resolver durante os intervalos das aulas, ou quando os seus professores faltavam; e foi nela que se deu apoio a diversos Concursos de Problemas e se realizaram, anualmente ,os Campeonatos de Escola de jogos de reflexão.

Em 1993-94 este espaço foi financeiramente apoiado pelo Instituto de Inovação Educacional, através do 5º Concurso Nacional de Projectos Educar inovando / Inovar educando. E foi deste apoio que nele nasceu o Laboratório de Matemática da escola.

A Ludoteca e o Laboratório de Matemática estiveram associados aos projectos MATlab e a InterMAT (ambos interescolas).


Escola Secundária do Monte da Caparica

1995-96

O Centro de Recursos da escola começou por envolver os professores de Inglês e incluiu, neste ano, a colaboração de professores de Francês, de Matemática e de Português, cada um com 4 horas de redução equivalentes a serviço lectivo (duas delas para atender os alunos e as outras duas para, por exemplo, produzir materiais).
Foi com base neste espaço que foram realizados os Campeonatos da Escola que deram acesso ao Interescola de Jogos de Reflexão.


Escola Secundária Nº 1 do Laranjeiro (actual Escola Básica e Secundária Professor Ruy Luís Gomes)

1991-96

O projecto Descobrir a Geometria com o CABRI-Géomètre (já referido no testemunho «059») decorreu em 1991-92, tendo como origem um curso dado pela Margarida Junqueira na Escola Secundária Anselmo de Andrade e contando com a dinamização da Ana Teresa Mateus e da Palmira Barroso e com o apoio da Margarida; foi concretizado numa turma do 9º ano da Ana Teresa, com o suporte presencial da Palmira e, por vezes, da Margarida.
A turma foi dividida em duas metades, cada uma com 12 alunos, que alternaram na utilização do programa CABRI e na resolução de outros problemas, sobre o mesmo tema, usando materiais tradicionais; para tal, desde o fim do 2º período e durante o 3º período, a turma teve 3 aulas semanais no Centro Educativo Minerva da Escola, sendo a quarta aula na sala de sula, para síntese de aprendizagens.

O Clube de Jogos inaugurou a sua sala em 1991-92, estando nele envolvidos 4 professores (um deles com 2 horas de redução de serviço lectivo), tendo o arranjo do espaço e o arranque das actividades tido a ajuda de alguns alunos.

Dois dos professores fizeram a ligação ao Projecto MATlab (interescolas).
Em 1992-93 foram vários os professores que dispuseram de uma hora de redução do serviço lectivo para trabalhar neste clube.
Em 1993-94, através do José Tomás Gomes, o clube associou-se ao projecto ImterMAT (interescolas), mas viveu uma crise interna, que se expressou pela não participação no 2º Interescolas de Jogos de Reflexão.
Em 1994-95 o clube concorreu ao 6º Concurso de Projectos do I.I.E., sendo financiado.

Na opinião do José Tomás, quase todos os professores de Matemática se envolveram no “Clube de Jogos, com áreas de responsabilidade [...] e portanto eu achei que se calhar estavam dados passos fundamentais para depois a malta agarrar no Clube, portanto retirei-me”; mas eles “iam lá abrir o Clube, ver se chegavam miúdos, se não chegavam miúdos vinham-se embora ao fim de uma hora, fechavam, [...] não conseguiram dar o salto”. E isso voltou a suceder em 1994-95.
“E em 1995-96”, continuou o José Tomás, “apenas foram atribuídas 2 horas equivalentes a serviço lectivo para todos os clubes da escola, pelo que o grupo de Matemática, responsável pelo Clube, decidiu não trabalhar nele sob estas condições, razão pela qual também se recusaram a participar no Interescolas; a sala esteve por isso fechada” (tem cerca de 10 metros quadrados, com mais 3 do anexo onde se guardam materiais em diversos suportes).


Externato Frei Luís de Sousa

1993-94

Durante o mês de Fevereiro o Externato Frei Luís de Sousa (Almada) recebeu e animou a exposição Descobrimentos e Ensino da Matemática, constituída por instrumentos de navegação e cartazes que resultaram dos trabalhos de alunos em resposta a um concurso nacional lançado pela A.P.M. em 1991-92.



Comentários

Nem sempre estiveram explícitas nas descrições que me permitiram escrever o anterior resumo quais os problemas iniciais que levaram os professores a tomar estas iniciativas. Um deles terá sido a falta de materiais didácticos na respectiva escola; num ou noutro caso procurou-se garantir aprendizagens não feitas até aí; e, mais ou menos transversalmente, nota-se a consciência de haver falta de oportunidades para que a socialização dos alunos lhes trouxesse uma motivação que a escola tradicional raramente proporcionava.
Muito mais claras estão as hipóteses iniciais formuladas para responder a esses problemas: no caso da motivação dos alunos, a hipótese foi a de que o seu interesse pela Matemática iria crescer com a abordagem (ou até imersão) desta disciplina em contextos extracurriculares (concursos, jogos e quebra-cabeças reflexivos, etc.).
A forma prática das respostas dadas foi variada e esteve quase sempre explícita: o Clube, a Janela, a Ludoteca, o Núcleo, o Laboratório e, no caso de o «problema» ser dos professores, o Projecto e quer a organização local, quer a organização interescolas.
Já os balanços sucessivos das sucessivas soluções encontradas em cada escola estão pouco claros, o que pode ter sido uma das limitações para o seu sucesso a longo prazo (podendo no entanto o meu desconhecimento deles resultar das minhas enormes limitações documentais sobre as iniciativas que descrevi).

Houve, ainda, alguns novos problemas que pareceram surgir a estes professores: bem explícito num só caso, o das dinâmicas conflituais entre docentes; discretamente emergente noutros casos, o das pressões da organização escolar para o sucesso curricular sobre as actividades realizadas extracurricularmente (fazendo adivinhar as dificuldades que surgiriam no futuro).



Fontes:
Pedro Esteves / Documentos digitais (tese de mestrado, ficheiro «4EXPR16»);
Testemunhos «058» e «079» deste blogue.
 

[094] O 2º Encontro «Educação e Memórias: Almada e Seixal

Memórias

Realizado no passado dia 29 de Janeiro, de novo na Escola Básica de Vale de Milhaços, este encontro foi constituído por três intervenções.

O Pedro Esteves descreveu o projecto AlterMATivas, através do qual um grupo de professores das Escolas Secundárias Anselmo de Andrade, de Cacilhas, Emídio Navarro, Nº 1 e Nº 2 do Laranjeiro e Nº 1 do Seixal anteciparam, nos anos lectivos de 1990-91, 1991-92 e 1992-93, com os seus alunos, a reforma curricular no 3º Ciclo. E apelidou de «Matemática Experimental» a estratégia pedagógica genérica que esses professores escolheram, como a que está subjacente ao seguinte exemplo:


Por fim, comentou as duas «hipóteses de partida» que tinham sido formuladas, concluindo que a opção por um projecto próprio fora benéfica para o modo como os professores que o implementaram se envolveram nas mudanças que estavam em curso e que a Matemática Experimental, se fora benéfica para as aprendizagens de muitos alunos, mas não o fora para todos, colocando como nova hipótese a necessidade de uma sua mais profunda participação.

O Manuel Lima contou como a construção de canoas na Escola Secundária Moinho de Maré (entretanto desactivada) proporcionou, no início do Verão, descidas do rio Tejo a grupos de alunos e de professores. E contou como, mais tarde, já na Escola Secundária João de Barros, essas descidas se alargaram a outros rios, e como destas iniciativas resultou a fundação de Clubes de Canoagem nas Escolas de Corroios.


Ao descrever uma das descidas que foram melhor documentadas fotograficamente, o Manuel Lima contou ainda como ela proporcionou um contexto favorável a diversas aprendizagens, por alunos e por professores, nos campos das Ciências da Natureza e da Geografia Humana, e, sobretudo, ao desenvolvimento de amizades duradouras.

E a Ângela Mota, a Helena Peixinho e o Manuel João descreveram as múltiplas actividades artísticas iniciadas na Escola Básica António da Costa, que, ao se diversificarem, justificaram a criação da Associação Mundo do Espectáculo, hoje com uma larga história e um presente pleno de intervenções:

Comentários

Como participante (e interveniente) neste encontro gostaria de registar algumas questões que me fizeram pensar, acrescentando-as às que já registei a propósito do 1º Encontro (testemunho «091»):

(1) Estes três testemunhos (diferentemente dos relatados no 1º Encontro) evidenciaram fortes colaborações entre professores, e, em dois deles (os que descreveram projectos mais duradouros), a importância da diversidade dos seus contributos: de que modo o sucesso dos projectos depende deste factor?

(2) Estes três testemunhos referiram-se a projectos que foram pensados para serem interescolas (ou que não hesitaram em o ser quando isso lhes proporcionou um crescimento), e também neste aspecto foram diferentes dos relatados no 1º Encontro: não estarão hoje as iniciativas das escolas (e dos agrupamentos de escolas) limitadas pelo seu encerramento em si próprias?

(3) Não será o associativismo docente imprescindível para que sejam realizados e ampliados os projectos que surgem numa escola (assim o parecem sugerir um dos testemunhos do 1º Encontro e outro do 2º Encontro)?

(4) Que tipo de parcerias ajudam estes projectos a serem concretizados e, sobretudo, a serem ampliados?

(5) A participação dos alunos, desejada (mas diferentemente concretizada) pelos dinamizadores dos seis projectos testemunhados nestes dois encontros, não dependerá daquilo que for definido (mesmo se apenas implicitamente) como «sucesso escolar» (ou como «sucesso educativo»)? E se assim for, não deverá esta definição ser mais amplamente debatida por todos?


Informação: as actas deste Encontro, bem como outros documentos com elas relacionados, estarão em breve acessíveis através do link referido no final do testemunho «091» (onde fiz um breve comentário sobre o «1º Encontro»).


Fontes: Pedro Esteves / Arquivos digitais [pasta «Educação e Memórias: Almada e Seixal» / «2º Encontro (29 de Janeiro de 2025)»]

[060] Os primeiros anos da Raquel como professora

Memórias

Das três entrevistas que realizei, perto do final de 1995, para a minha tese de mestrado, a feita à Raquel foi a primeira (seguiram-se as entrevistas ao José Tomás [testemunho «050»] e à Filomena Teles).

A escolha da Matemática, a Faculdade e o Instituto Geográfico Cadastral

Quando a Raquel concluiu o antigo 5º ano de escolaridade (correspondente ao actual 9º ano) escolheu seguir Ciências. Depois, ao concluir o 7º ano (actual 11º ano), não tendo manifestado antes qualquer preferência por esta ou por aquela disciplina, mas por gostar de resolver equações disse para si mesma: “Bom! Então é Matemática!” E foi esta a escolha que fez para entrar no Ensino Superior.

Os primeiros anos não lhe correram muito bem, pelo que precisou de ir trabalhar, tendo entrado no Instituto Geográfico Cadastral como desenhadora cartográfica. “E então não tinha possibilidade de ir às aulas, não havia nessa altura - como há agora - ensino pós-laboral, [...] as aulas a que eu conseguia ir era pedindo ao chefe, mas [...] ele achava que os outros também podiam pedir para ir fazer não sei o quê e portanto aquilo era sempre uma grande confusão.” Mas, apesar destas limitações, ainda foi “fazendo umas cadeiras”, sem saber “muito bem como”.
Um dia, no início de 1972-73, uma sua conterrânea veio ter com ela e diz-lhe: “«Eh! pá, estou muito triste, o Manel quer que eu vá com ele para a guerra, para a África, mas eu tenho que deixar um substituto. Não me queres ir substituir?» [...] E portanto isto foi uma 6ª feira, nunca mais me esqueço, e na 2ª feira estava na Escola, porque ela foi lá e disse «tenho aqui uma pessoa» [para me substituir].”

A entrada naquela que seria a sua escola de sempre

A Escola era uma Secção Preparatória Industrial de uma outra, de Lisboa. A Raquel foi recebida pelo Director, que lhe pôs um “horário nas mãos”, para ensinar à noite, e lhe disse que tinha de “andar de bata”.

“Comecei a dar aulas um bocado loucamente, jovem e inconsciente, toda aquela gente era tudo mais velho do que eu, [...] naquela altura em que o ensino noturno era de facto para homens, para pessoas adultas, e não como é agora. Portanto a experiência foi muito engraçada porque acho que os alunos adoptam os professores, [...] nessa altura tinha quê? [...] vinte e poucos anos [...]. Portanto, eu comecei a dar aulas assim, sem saber nada, [...] sem haver reuniões de grupo, [...] sem conhecer livros, sem saber os programas, sem saber como funcionava a Escola, sem saber nada, à noite ...”

Como a Raquel preferiu não deixar o Instituto, “das nove às cinco trabalhava na Estrela, depois apanhava o eléctrico e vinha para Almada, de barco, até às onze da noite, às vezes mais!” Mas este esforço era compensado pela grande “cumplicidade” que havia entre os que trabalhavam como ela.

No ano seguinte, 1973-74, a Raquel, que gostara do seu primeiro ano com professora, deixou o Instituto. Estrando a leccionar à noite, ficou com tempo para, de dia, regressar às aulas na Faculdade.
Logo após o 25 de Abril uma Assembleia Geral de Escola, para substituir o Reitor, elege, “de braço no ar,” uma Comissão de Gestão, de que a Raquel fez parte. Era necessário fazer “tudo, desde arrumar cadeiras, varrer o chão, pintar paredes ... bom! apanha-se aquela [...] euforia de que é tudo nosso e que portanto temos que fazer tudo”. Assim, a Raquel teve de escolher, “e as aulas foram as preteridas de facto, porque aquilo não dava tempo de fazer tudo”.
Esta Comissão manteve-se até à eleição do primeiro Conselho Directivo, em 1976, altura em que a Raquel voltou a estudar, de dia, e a dar aulas, à noite.

E, ao concluir o bacharelato em Matemática, a Raquel optou pelo ramo educacional: ela sempre tinha gostado de vir a ensinar, “já tinha essa na cabeça, mas [...] depois de experimentar achei que [...] era aquilo!”

O estágio em Lisboa e as aulas em Almada

O ano em que a Raquel fez estágio foi o último em que este não era pago. E por não ser pago, a Raquel foi obrigada a continua a dar aulas em Almada, à noite, depois de estagiar, de dia, no Liceu D. Diniz, nos Olivais. E foi durante este ano que se travaram as lutas que levaram a que mudasse a situação dos estagiários nas escolas: “No ano a seguir as pessoas já foram pagas e já tiveram direito a estar num sítio só”.

“O estágio foi muito engraçado”, contou-me a Raquel. Havia, por um lado, o grupo das estagiárias, que ela já conhecia, e, por outro, um orientador de estágio “retrógrado ao máximo”.
O orientador não dava aulas, eram as estagiárias que, rotativamente, uma semana de cada vez, davam as aulas na turma do orientador: “Fizemos coisas engraçadas, [...] sobretudo com muita alegria e [...] o orientador nunca percebeu o que é que a gente estava a fazer”, ficando “um bocadinho perplexo”, pois era-lhe “impensável” fazer-se qualquer mudança, como os alunos trabalharem em grupo, ou uma aula ser dada simultaneamente por duas ou três professoras.
O que este grupo de estágio fez, comentou a Raquel, só foi possível por se estar “numa situação daquelas, numa situação de grupo”. E foi a partir desta experiência como grupo de estágio que ela se começou a interessar pelos jogos, pelos quebra-cabeças e pelos materiais manipuláveis no ensino da Matemática.

Eis um dos quebra-cabeças que a Raquel divulgou através do projecto MATlab:


Como o grupo de estágio da Raquel quis ajudar a acabar com os estágios feitos daquele modo, as estagiárias tiveram a ideia de gravar testemunhos sobre o que os alunos acharam de diferente “na maneira de dar as aulas e na maneira de abordar as coisas, na postura como as pessoas estavam na aula - porque aquilo já era depois do 25 de Abril”, e, apesar disso, o orientador “continuava de bata branca e impávido e sereno de gravata [...], de óculos, hirto, a dar aulas”.

Definitivamente em Almada

Terminado o estágio, a Raquel foi colocada como professora efectiva na sua escola de sempre, em Almada. Como um dos membros do Conselho Directivo saíu para se efectivar no Seixal, a Raquel reentrou na gestão, dando aulas de dia a uma única turma do 7º ano.

A nova experiência na gestão foi “má”, pois o Conselho Directivo era “muito conflituoso”, já havia “posições políticas” muito “demarcadas”, mas a experiência com a única turma foi muito forte, pela “afectividade” que foi possível desenvolver entre ela e os seus alunos.

Ao deixar este Conselho Directivo a Raquel começou “com aquela mania da Sala de Jogos." E ela não tinha “dúvida nenhuma”, na altura em que a entrevistei, acerca da importância que os espaços extracurriculares têm para os alunos. Para ela, “o espaço fora da aula é um espaço privilegiado para tudo”:

é impressionante “a relação diferente que há numa aula e num espaço fora da aula, com os mesmos alunos”. “Eu gostava de perceber o que é que se passa dentro de uma aula que faz com que duas pessoas, as mesmas, mudem de espaço e tenham uma atitude completamente diferente, não só em relação um ao outro mas em relação ao próprio trabalho.”
Até a postura física rígida da sala de aula se quebra, “não há problemas de comportamento”.

 Comentários

A propósito da entrevista que realizei ao José Tomás lembrei-me das duas primeiras conclusões da minha tese de mestrado. Também me poderia ter lembrado delas a propósito da entrevista com a Raquel:

Os professores envolveram-se enquanto pessoas na profissão
.

O envolvimento profissional dos professores apoiou o seu desenvolvimento pessoal.

No caso da Raquel lembro-me ainda de duas outras conclusões, uma relacionada com a sua «sala de jogos», a outra com os «jogos e quebra-cabeças» que ela divulgou.
Transcrevo-as por completo:

Os espaços incorporaram a acção profissional dos professores.

Toda a acção dos professores decorreu num espaço (a criação de um novo tipo de acção implicou a criação de um novo tipo de espaço) e interagiu com esse espaço (as mudanças no agir produziram mudanças na organização e por vezes na designação ou até na localização do espaço). Ao invés, cada espaço facilitou um tipo específico de acção profissional (a sala de aula pareceu induzir o método expositivo) e, ao extremo, aceitou apenas aqueles que promoveram esse tipo de acção (o associativismo local não foi favorável ao individualismo). A primeira característica revela como os espaços são sensíveis à acção (e portanto aos seus autores) e a segunda como eles influenciam a acção (embora não possam ser seus autores). Os espaços, por conseguinte, tanto são limitadamente moldáveis como passivamente conservadores.

As ferramentas inscreveram a acção profissional dos professores.

A construção de ferramentas educacionais foi a acção a que os professores atribuíram a principal prioridade. Sempre que se verificou, em paralelo, a construção de ferramentas organizacionais, as potencialidades das ferramentas educacionais (nomeadamente para mobilizar e articular saberes internos e externos) foram multiplicadas. Uma tendência notável desta associação foi a sua produção de efeitos sobre os espaços profissionais: nas escolas, através da constituição de um ambiente favorável à interligação de iniciativas dispersas e, no associativismo local, através do desenvolvimento de uma rede de apoios profissionais. Em ambos os casos, recuou a tradição de estabelecer externamente os objectivos de mudança e cresceu a categorização interna dos espaços, que passaram assim a constituir marcos para a identificação profissional (os projectos, a ludoteca, o laboratório, as realizações inter-escolas, o Núcleo associativo local, etc.). Contrariamente aos espaços, que operam através do implícito, as ferramentas favorecem a explicitação dos processos e a exploração das potencialidades.

Fontes: Pedro Esteves /Arquivador digital Tese de mestrado (4EXPR11) / Livro (Esteves, 1998; ponto VII.1.2.9) / (fotografia pessoal de um quebra-cabeças)

[059] O 3º ano do Núcleo Regional da A. P. M.

Memórias

Nos comentários finais do testemunho anterior, afirmei que, no início da década de 1990, o associativismo terá sido o factor decisivo na enorme expansão dos projectos relacionados com a Matemática nas escolas dos concelhos de Almada e Seixal.
Que outros argumentos posso juntar ao que o quadro que apresentei no final desse testemunho representa?

Além das escolas, o grupo de professores que estudei através da minha tese de mestrado tinha como contexto de acção a vida da Associação de Professores de Matemática, e muito em particular a do seu Núcleo Regional em Almada e Seixal.
Este fora criado em 1989-90 (testemunho «040»), tendo um primeiro ano regular em 1990-91, com, entre outras iniciativas, o início do primeiro projecto interescolas, o AlterMATivas, para três anos (testemunho «045»), a eleição da primeira Comissão Coordenadora, para dois anos, e a realização do 1º Encontro Anual de Professores (testemunho «049»).
O ano de 1991-92 foi marcado pelo início de um segundo projecto interescolas, o MATlab (testemunho «055») e pelo lançamento de um «Boletim Informativo» e pela realização do 2º Encontro Anual de Professores.
Foi este ambiente de encontro, destinada a partilha livre e igualitária de ideias e de projectos, que eu penso ter sido decisivo para a criação de um movimento que visava mudar o modo como se aprendia e ensinava Matemática nesta região.

A edição de um Boletim Informativo fora decidida pela Assembleia Geral realizada no final do 1º Encontro Regional de Professores, tendo a Comissão Coordenadora posto em prática essa decisão (o seu primeiro número foi editado em Março de 1992 e a sua primeira página - onde figura a notícia sobre a «Janela da Matemática» na Escola Preparatória da Cova da Piedade – é a que mostro a seguir): 


Durante os primeiros anos, estes boletins, tal como as fichas produzidas pelos projectos interescolas, eram produzidos digitalmente, com o programa First Publisher, e guardados em disquetes. Se havia uma imagem a inserir, ou ela era desenhável com aquele programa (o que aconteceu sobretudo com as fichas), ou era impossível por essa via, e então as imagens originais eram fotocopiadas, recortadas e coladas numa versão impressa do boletim (os scanners ainda não eram acessíveis).
Com este original analógico do boletim, era então possível ir fotocopiá-lo de borla na sede da APM, em Lisboa; mas a preparação dos envelopes para serem enviados por correio para os sócios era feita pelos membros da Comissão Coordenadora, normalmente através de uma noitada.
Na sede da APM, pelo menos a partir de certa altura, também era possível imprimir uns autocolantes com as moradas dos sócios de Almada e Seixal, tornando mais fácil endereçar os envelopes, que, finalmente, podiam ser enviados por correio.
Também era enviado um exemplar dos boletins para cada uma das escolas do 1º Ciclo, e alguém sugeriu que, em relação às do concelho do Seixal, os enviássemos através de uma Escola Primária situada na Amora, onde funcionava uma sua administração concelhia (não me recordo como se fazia em relação às escolas de Almada).
E deste modo, com o empenho rotativo de alguns de nós, se foi estabelecendo uma rede de distribuição de informações, por sua vez alimentada pelas que eram enviadas à Coordenadora para serem divulgadas.

No dia 28 de Março de 1992 o Núcleo organizou na Emídio Navarro um encontro de professores destinado a “trocar ideias” (de manhã) e a jogar (à tarde), tendo alguns, pelo meio, mantido o convívio através de um almoço.

No dia 29 de Maio de 1992, através dos animadores dos seus dois projectos interescolas, o Núcleo participou numa das sessões de A Matemática à Conversa, uma série de sete encontros organizados na sede da APM durante o 3º período lectivo:


A imagem que figura neste cartaz foi desenhada por mim, com o First Publisher. É perceptível a dificuldade que tive para garantir as proporções adequadas (a chávena e o pires estão demasiado largos); mas já não é perceptível que o fumo e a sua sobreposição com o «M» (de «Matemática») foram desenhados ponto-a-ponto.

O misterioso título da intervenção escolhido pelas equipas dos projectos AlterMATivas e MATlab, “20 Hipóteses para 3 Espaços”, aludia aos espaços «curricular», «não-curricular» e «associativo», ou seja, pretendia chamar a atenção para a necessidade da convergência de todo o tipo de intervenções se pretendêssemos «mudar a educação».

No cartaz, a terceira linha a contar do fim dá uma indicação interessante a quem tiver sensibilidade para a evolução dos contextos históricos: em Lisboa, a APM tinha acabado de mudar de sede! Para quem já não se lembra: a sede era, antes, na Avenida 24 de Julho; agora mudava-se para o Colégio dos Maristas; e mais tarde iria para a Escola Superior de Educação e, por fim, para a actual sede, junta à Segunda Circular.

Disponho de uma fotocópia da folha de presenças nesta sessão. Participaram nela 15 professores, cujas escolas (ou lugar de trabalho) estão a seguir designadas tal como o eram na altura: Rosário Ribeiro (destacada na A.P.M.); Vítor Lourenço Casaca (C+S de Quinta do Conde); Paula Teixeira (ES da Amadora); Adelina Precatado (ES Camões); Maria José ???inho (ES da Damaia); Ana Mota, Maria da Conceição Tomás e Rita Vieira (ES Emídio Navarro); Ana Baltazar (ES do Fogueteiro); António Bernardes (ES Gil Vicente); José Paulo Viana (ES Marquês de Pombal); Pedro Esteves (ES Nº 1 do Seixal); Maria de Jesus Bicho (ES Rainha Dª Amélia); Eduardo Veloso (Faculdade de Ciências); e Maria Amélia Trigo (???).

No final do ano (1, 2 e 3 de Julho) o Núcleo organizou o 2º Encontro Regional de Professores.
Desta vez foram escolhidas as escolas Secundária Emídio Navarro, Preparatória de Corroios e Secundária Nº 1 de Corroios, tal como então eram designadas.
Comparando as intervenções deste ano com as do 1º Encontro, manteve-se a predominância da «apresentação de projectos» locais em relação à «formação de professores» (6 / 2), surgindo como novidade a «promoção da Reforma Curricular» (4), dado esta estar em vias de se generalizar a todas as escolas.

Na Assembleia Geral de sócios que encerrou o encontro foi decidido criar grupos de trabalho sobre dois dos anos curriculares (5º e 7º) em que a Reforma seria generalizada em 1992-93 e ainda sobre o Secundário. E, para o reforçar, foi também decidido publicar um novo «Boletim Informativo», o Nº 3, ainda antes do início das férias, para “incentivo de todos os colegas ao trabalho em equipa”, e, através dele, convocar, para Setembro, reuniões destinadas aos professores interessados em coordenar esforços na implementação dos novos currículos e nas iniciativas de carácter extracurricular.

A Assembleia permitiu ainda que fosse eleita a segunda Comissão Coordenadora, para o biénio 1992-94, constituída por: Ana Baltazar e Ana Fialho (ES do Fogueteiro, actual ES Manuel Cargaleiro), Fernanda Coelho (Escola Preparatória de Corroios, actual EB de Corroios), Filomena Teles (ES Anselmo de Andrade), José Tomás (ES Nº 1 do Laranjeiro, actual ES Rui Luís Gomes), Margarida Junqueira (Pólo Minerva da Faculdade de Ciências e Tecnologia), Mirita Sousa (ES Nº 1 de Corroios, actual ES João de Barros) e Patrícia Cascais (ES Nº 2 do Laranjeiro, actual ES Francisco Simões).

Comentários

A conversa a que foi dado o misterioso nome «20 Hipóteses para 3 Espaços» foi organizada assim: os participantes organizaram-se por grupos; cada grupo sentou-se numa mesa própria; cada mesa dispunha de três folhas subdivididas em três colunas; só as colunas da esquerda, sob a designação «OBSERVAÇÕES», estavam preenchidas com rectângulozinhos, dentro dos quais estava escrita uma frase; sobre cada mesa havia também uns chocolatinhos, estando escondidos debaixo deles outros rectângulozinhos, recortados, cada um deles com uma frase escrita; quando os participantes descobriam os rectângulozinhos que estavam debaixo dos chocolates, os organizadores explicavam que as frases eram «POLÉMICAS» e que deveriam ser colocadas nas colunas do meio, de modo a fazerem sentido com as frases vizinhas chamadas «OBSERVAÇÕES»; e assim podiam conversar uns com os outros e construir as suas próprias frases, chamadas «HIPÓTESES», e escrevê-las nas colunas da direita …

Os organizadores levavam «16» HIPÓTESES preparadas (não me lembro por que razão se anunciavam «20»), pelo que o importante era o debate, a partir de «factos» (as «OBSERVAÇÕES») e de «questões» (as «POLÉMICAS») …

Os participantes construíram quatro HIPÓTESES (talvez os grupos tenham sido quatro), transcritas a seguir (não me recordo de «quem escreveu o quê»):

“Projectos significativos devem partir da área da Matemática e atrair a si outras áreas. Um tal projecto pode ter origem na sala de aula, espalhar-se para outros espaços – clubes, Centros de Recursos -, aulas de outras disciplinas, etc.. Será uma antevisão de uma escola do futuro.
Ex.: Descobrimentos e Matemática.
”

“Os espaços extra-curriculares existentes – Centros de Recursos, clubes – podem e devem também ter um papel importante quer de resposta e viabilização dos Projectos que tiveram origem na sala de aula, quer provocando eles próprios «desafios» que poderão ou não chegar até à sala de aula.”

“Deveremos sonhar com a Escola do Futuro; e quando precisarmos de tomar decisões sobre coisas concretas, hoje, perguntarmo-nos de que modo estaremos a caminhar para ela.”

“A atitude do corpo docente deve ser a de simultaneamente tomar a iniciativa nas Escolas e exigir condições.”

Gosto particularmente da terceira destas hipóteses, porque estabelece uma ligação entre o «futuro» e o «presente» e porque acho que nos 50 anos que nos separam do 25 de Abril os professores falharam em estabelecer essa ligação (irei retomar esta tese em vários dos próximos testemunhos).


Eis o modo como os organizadores tinham imaginado ligar as três colunas:




Penso que esta incursão das gentes da margem Sul na nova sede da Associação de Professores de Matemática foi a sua primeira intervenção pública com um carácter proto-teorizador, não se limitando ao que era estritamente profissional, antes associando, numa única intervenção, todos os aspectos que importava a um professor de Matemática pensar naqueles anos.


O 2 Encontro Regional de Professores foi particularmente duro para mim (mal me recordo do que se passou nele): o meu pai estava terminalmente doente, eu acompanhava-o e ele faleceu no dia 13 de Julho.
Ninguém é profissionalmente imune à sua vida pessoal.


Fontes: Pedro Esteves / Arquivadores analógicos Núcleo Um (Doc.s 14, 15 e 17) e APM Três (Doc.s ……, ……, ……, …… e ……) / Actas do 2º Encontro Regional de Professores

[058] Projectos ligados à Matemática nas escolas de Almada e Seixal (balanço em 1991-92)

Memórias

O grupo de professores estudado na minha tese de mestrado tinha como um dos seus contextos de acção as escolas dos concelhos de Almada e Seixal. Por isso procedi, entre outras recolhas, ao levantamento dos projectos ligados ao ensino e aprendizagem da Matemática (a disciplina em causa) que aí estavam em curso.
As iniciativas que identifiquei estão a seguir ordenadas alfabeticamente por escolas (e, dentro destas, por ano lectivo).


Escola Preparatória da Amora (actual Escola Básica Pedro Eanes Lobato)

1991-92

A Celeste Ganço e a Maria José Marques criam, na Biblioteca da escola, um espaço tipo Ludoteca, onde os alunos dispõem de jogos e de desafios.


Escola Preparatória de Corroios
(actual Escola Básica de Corroios)

1991-92

É criado um Clube de Jogos Matemáticos, “numa perspectiva do complemento curricular e a título experimental”. Funciona com o apoio de sete professores, que garantem uma hora semanal para cada um dos 5 grupos de alunos do 6º ano inscritos; os alunos preferem utilizar os “materiais manuseáveis” (quebra-cabeças com fósforos, Tangram) aos passatempos com “o lápis e o papel”. Foram organizados campeonatos de jogos de reflexão. E o Clube editou, com o apoio da Associação de Pais, uma colecção de cartas com «Quebra-cabeças com Fósforos», que pensam vender como forma de auto-financiamento.

As regras, o primeiro e o último quebra-cabeças desta colecção

Segundo uma das professoras, a Fernanda Coelho, “Acreditamos que os passatempos, problemas e quebra-cabeças seleccionados são motivantes para os alunos e lhes permitem desenvolver capacidades contempladas nos currículos de Matemática, embora por caminhos diferentes”; para a Escola, “esta experiência poderá vir a ter reflexos na própria área curricular, não só pela relação criada com os alunos como pelo aproveitamento de estratégias e materiais utilizados no clube”; “A natureza e a classificação dos jogos, a sua relação com a Matemática, o interesse da sua integração nas aulas, a comunicação de estratégias e de soluções, são algumas questões que se levantaram ao longo deste trabalho”, sendo também de destacar o “interesse que os jogos podem suscitar em professores de outras disciplinas ...”


Escola Preparatória da Cova da Piedade
(actual Escola Básica Comandante Conceição e Silva)

1991-92

Por decisão dos professores de Matemática é criada uma Janela da Matemática, com os objectivos de motivar os alunos para a Matemática, sob aspectos diferentes do habitual, e de a mostrar à Escola. O recurso a um expositor resultou de não haver na escola “condições físicas e humanas” para “assegurar o funcionamento de uma sala” para actividades extracurriculares; o conteúdo afixado no expositor é renovado de mês a mês e inclui “Matemáticos portugueses célebres, História do mês, Curiosidades e Problemas”; os alunos também participam, “inclusivamente recolhendo e levando para a Escola problemas”, bem como os professores de Educação Visual e de Trabalhos Manuais.

No Nº 1 do «Boletim Informativo» do Núcleo Regional da APM
esta «Janela» aparece desenhada assim (já que não havia uma fotografia)


A Teresa Nascimento, uma das promotoras desta «Janela», foi uma das autoras do MATlab interescolas.


Escola Preparatória Elias Garcia (actual Escola Básica Elias Garcia)

1991-92

É criado um expositor e organizado um armário com materiais dedicados à Matemática.


Escola Primária Nº 2 do Laranjeiro (actual Escola Básica Nº 2 do Laranjeiro)

1988-92

Integrada numa larga rede de Escolas Primárias, cada uma com um ou dois Professores, a Nº 2 do Laranjeiro está envolvida no projecto Ensinar a Investigar.
Os seus principais dinamizadores utilizam o método global / natural (oposto ao mais comum analítico / sintético) e têm apoio do Ministério da Educação (os novos currículos do 1º Ciclo, acabados de ser generalizados ao 1º ano de escolaridade, inspiraram-se nesta experiência).


Escola Secundária Anselmo de Andrade

1990-91

A professora Ana Paula Natal faz uma experiência de produção de materiais para o ensino e aprendizagem da Geometria do 7º ano, e de utilização nas suas aulas, designando-a por Materiais na Geometria do 7º ano.

O projecto Novas Tecnologias no Ensino da Matemática, da responsabilidade do Sérgio Valente, foi implementado a “dois níveis: a) com os alunos (utilização do computador na sala de aula e em propostas de trabalho de grupo); b) concepção, em colaboração com o Pólo do Projecto Minerva da Faculdade de Ciências e Tecnologia, de software específico para esta disciplina”.
São usados os programas Microcalc e Logo, em turmas normais do 11º ano, com 30 Alunos e metodologia de trabalho de grupo. No debate que se seguiu à apresentação deste trabalho no 1º Encontro de Professores de Matemática, organizado pelo Núcleo A. P. M. de Almada e Seixal, o Sérgio disse que “depois do trabalho no computador fazia sempre o feed-back e que este ano houve pessoas que pegaram nas fichas deles e as reformularam o que acha positivo”; depois, lançou a questão sobre se é preferível utilizar apenas um computador na sala de aula, com o Professor centrando em si a discussão, mais ou menos aberta, ou se seria melhor, havendo mais do que um computador na Sala, deixar os Alunos experimentarem os programas.

O projecto A viagem num mundo em transformação (de Eratóstenes a Pedro Nunes), das estagiárias Cristina Neto, Joana Guerreiro e Patrícia Cascais, apoiadas pela sua orientadora, a Filomena Teles, desenvolveu-se com os alunos do 8º ano, fora do espaço aula, não tendo havido preocupação com os conteúdos programáticos, apenas com as “noções” necessárias para a realização do trabalho (“ângulos, triângulos, polígonos, quadriláteros, proporções, semelhança de triângulos, Teorema de Thales”). No debate que se seguiu à apresentação deste trabalho no 1º Encontro de Professores de Matemática organizado pelo Núcleo A. P. M. de Almada e Seixal, a Patrícia reconheceu que “foi complicado e levou muito tempo, fins de semana, noites, etc.”, apesar de, como estagiárias, terem trabalhado “em condições especiais”, “em grupo, com menos turmas”.

É criado o Clube da Matemática, no qual colaboram a Ana Paula Natal e a Lídia Lourenço, tendo cada uma 2 horas semanais extra correspondente a horário lectivo. “Nesse espaço são construídos materiais de suporte a jogos e puzzles.” Um das horas da Lídia “é dedicada à resolução de problemas.” Uma das suas alunas, que frequentava este Clube, a Joana, ganhou as Olimpíadas de Matemática, por “mérito da aluna”, mas tendo o Clube “uma importância enorme na motivação e desenvolvimento do raciocínio matemático na resolução de problemas.”

1991-92

É realizada, com “resultados animadores”, Uma experiência interdisciplinar (Física-Matemática), “com alunos” de uma turma do 12º ano comum à Luísa Lopes e ao Sérgio Valente.
No 2º Encontro de Professores de Matemática organizado pelo Núcleo da A. P. M. de Almada e Seixal os autores afirmaram: “Pensamos que se deve dar aos alunos pelo menos uma oportunidade de contactarem com uma situação deste género. Para além do carácter interdisciplinar da experiência, é uma visão da matemática e da ciência em geral que está em jogo.”

É aberta uma Sala, designada Projecto MATlab, a utilizar “livremente pelos alunos”, para “a realização de actividades e para a exploração de desafios de carácter matemático (em sentido amplo)”. Começou a ser apetrechada com materiais, com o apoio financeiro do MATlab inter-escolas, de que a sua coordenadora, a Filomena Teles, é uma das autoras.
É aí realizada uma final interna das Olimpíadas da Matemática.


Escola Secundária da Cova da Piedade (actual Escola Secundária António Gedeão)

Antes de 1991-92

O grupo de Matemática organiza Concursos Inter-turmas, com questões de cultura geral e, também, de Matemática.

1991-92

Ao comemorar o “Dia da Matemática” no dia 9 de Abril, o Cantinho da Matemática foi inaugurado numa sala que, no ano seguinte, viria a ser reservada para este projecto. Nela se disponbilizavam jogos (alguém afirmou que esta Sala «até parece um casino») e materiais ligados à Matemática.
Os autores deste projecto começam a participar nas reuniões do MATlab interescolas (oficiosamente, pois não tinham sido dele autores).


Escola Secundária Emídio Navarro

Desde 1983 (ou 1985) até 1991-92

A Rita Vieira criou a Sala de Tempos Livres. Esta sala teve o apoio de uma funcionária e ajudou a completar o horário a professores de outras disciplinas, ao abrigo do artigo 20.
A Rita não se lembra de ter aberto esta Sala com intenção de a ligar às aulas, pretendendo, possivelmente e apenas, ocupar os miúdos, dar-lhes algo interessante para fazer; essencialmente, tratava-se de uma Ludoteca, que apoiou “O Problema da Semana”, o “Dia da Matemática”, a intervenção da Matemática na “Semana da Escola”; e que, durante alguns anos, albergou os TIMEX´s para uso dos alunos, e também uma mini-Biblioteca e o Clube de Filatelia, mantendo ligações transversais, através da sua coordenadora, ao Projecto Minerva, ao concurso “Problemas Via Telemática” e ao Laboratório de Meteorologia da Escola; foi ainda base de apoio para intervenções de divulgação noutras Escolas.
A Rita Vieira foi uma das autoras do MATlab interescolas.

1988-89

O Projecto GEODA foi uma experiência de ensino da Geometria em turmas do 7º ano, que envolveu o Ludgero Leote e a Rita Vieira, que utilizou o programa “Autosketch” e que esteve ligada ao Projecto Minerva, sendo inspiração para os projectos posteriores ligados ao Núcleo A. P. M. em Almada e Seixal.


Escola Secundária Nº 1 de Corroios (actual Escola Secundária João de Barros)

1991-92

Em 1990-91, numa reunião dos professores de Matemática destinada a analisar o insucesso escolar na sua disciplina, foi considerado que as “causas” deste se encontravam no «mito» associado à Matemática, nas reprovações consecutivas, no excessivo número de alunos por turma, na heterogeneidade de conhecimentos presente na mesma turma, na falta de hábitos de trabalho, na inadaptação dos programas, no não cumprimento destes nos anos anteriores, na falta de tempo para os professores trabalharem em conjunto e na indisciplina dos alunos.
Como consequência, no fim desse ano lectivo a Doroteia Costa e a Mirita Sousa redigem o Projecto da Matemática da Escola Secundária Nº1 de Corroios, pensado para três anos, ao longo do 3º Ciclo de escolaridade, para que os alunos desmotivados em relação à Matemática (nomeadamente por terem repetências sucessivas nesta disciplina) desenvolvam as suas capacidades e atitudes (construindo o “seu próprio saber”, com o seu “ritmo pessoal” e ganhando “maior confiança em si próprios”). Propõem que se utilize o trabalho de pesquisa, de grupo e de projecto, as visitas de estudo e a exposições, a comunicação oral, os jogos educativos, os materiais manipuláveis, as máquinas de calcular e os computadores.
E propõem a separação dos “alunos com sucesso em Matemática” dos “alunos desde sempre desmotivados na Matemática (com repetências sucessivas na disciplina)”, para se concentrarem nestes últimos, de acordo com “um programa no sentido do desenvolvimento das suas capacidades e atitudes”, de modo a eles construam o “seu próprio saber”, ao seu “ritmo pessoal” e ganhando “maior confiança em si próprios”.
No balanço feito no fim do primeiro deste projecto, durante o 2º Encontro de Professores de Matemática organizado pelo Núcleo da A. P. M. de Almada e Seixal, as autoras referem que os alunos com menor dificuldade nesta disciplina trabalharam com o “currículo normal” e “um pouco ao nível da investigação, circunscrita aos temas História da Matemática, Geometria e Pavimentações, enquanto que os alunos com mais dificuldades puderam, frequentemente, “escolher o tema e o material para trabalharem”, usaram, “exaustivamente […] os computadores e os materiais manipuláveis”, foram particularmente acompanhados no que respeita à “organização dos cadernos diários”, tendo sido todos classificados com o nível “3”, apenas com diferenças qualitativas expressas numa “grelha de observação”.

Já tinha havido nesta escola o Clube de Matemática, mais tarde transformado em Clube de Ciência, que a seguir se dividiu de tal modo que os Professores de Matemática ficaram sozinhos, com a “sala de jogos”. A dada altura de 1991-92 esses professores começaram a participar oficiosamente nas reuniões do MATlab interescolas.


Escola Secundária Nº 1 do Laranjeiro (actual Escola Secundária Rui Luís Gomes)

1989-90

O
José Tomás (quando estava na Nº 2 do Laranjeiro) e a Palmira Barroso implementam uma experiência pedagógica no 7º ano, que designam por Geoplano. Constroem geoplanos, com a colaboração dos alunos, e produzem uma planificação geral e 14 fichas de trabalho.

Este foi um dos projectos que inspirou o AlterMATivas interescolas.

1990-91

A partir de uma preocupação comum de professores de Matemática, Português e Francês, a “necessidade de em determinados momentos da aprendizagem agrupar os alunos e envolvê-los em actividades diversificadas de modo a possibilitar-lhes um acompanhamento mais individualizado, consoante as dificuldades e respeitando os seus ritmos de trabalho”, é implementado o Projecto «Mais uma Proposta para o Sucesso» em 3 turmas do 7º ano com horários coincidentes naquelas disciplinas, permitindo a “rotatividade dos alunos ao longo do ano”.
Na opinião de 6 dos Professores envolvidos, apresentada no 1º Encontro de Professores de Matemática organizado pelo Núcleo da A. P. M. de Almada e Seixal, “Foi uma aposta contra o cepticismo reinante”, pois “é necessário inventar, recriar sempre algo de diferente para os nossos alunos”.

1991-92

É realizado um “projecto” intitulado Descobrir a Geometria com o CABRI-Géomètre, tendo como “dinamizadoras” a Ana Teresa Mateus e a Palmira Barroso, com o apoio da Margarida Junqueira, sendo concretizado com uma turma do 9º ano, da Ana Teresa, dividida em duas metades de 12 alunos, que alternam na utilização do programa CABRI e na resolução de outros problemas sobre o mesmo tema, com materiais tradicionais.

É inaugurado o Clube de Jogos, um espaço destinado a funcionar como sala de jogos, estando envolvidos nele 4 professores, um deles com 2 horas de redução de serviço lectivo para a dinamizar; alguns alunos ajudam no arranjo da sala e no arranque das actividades.
O José Tomás, coordenador deste espaço, e a Palmira Barroso foram dois dos autores do MATlab interescolas.


Escola Secundária Nº 2 do Laranjeiro (actual Escola Secundária Francisco Simões)

1991-92

Os professores de Matemática organizaram, durante a Semana da Escola (1 a 5 de Junho), uma sala onde os alunos puderam “«jogar», «pensar» e divertir-se com jogos, problemas, puzzles e labirintos”.


Escola Secundária Nº 1 do Seixal (actual Escola Secundária José Afonso)

1988-92

Em 1991-92 a Sala de Dinamização Cultural foi equipada pelo Pedro Esteves com jogos de reflexão, puzzles e desafios matemáticos; a primeira actividade pública, durante a recepção aos novos alunos da Escola, é uma exposição intitulada “A Outra Face da Matemática”; é comemorado o Dia Mundial do Xadrez, em 19 de Novembro (o que se repetirá nos anos seguintes), e realizado o 1º Campeonato de Xadrez da Escola; neste ano o Xadrez está associado ao Núcleo do Desporto Escolar e a escola é a principal organizadora e sede de realização do 1º Torneio de Xadrez Interescolas do Concelho do Seixal. Com uma funcionária própria, esta sala também teve, durante o 2º e o 3º períodos, a colaboração de mais dois professores de Matemática e, para a fabricação de vários jogos e quebra-cabeças, a de diversos alunos.
Em 1990-91 esta sala, além de ser uma Ludoteca, começa a integrar actividades de Laboratório de Matemática; é nela iniciada a produção sistemática de materiais de apoio (jogos, puzzles, problemas, labirintos, desafios matemáticos, ...) e a edição de um boletim informativo; e estabelece-se uma ligação ao Projecto Viva a Escola, e, em 1991-92, ao MATlab interescolas (de que o Pedro Esteves foi um dos autores) e ao Clube Recreativo e Desportivo das Cavaquinhas.

1989-90

Realizada uma experiência pedagógica, pelo Pedro Esteves, intitulada Projecto AlterMATivas (outro dos projectos que inspirou o AlterMATivas interescolas). Prevista inicialmente para 4 anos (primeiro ano, turmas do 7º ano deste professor; segundo ano, turmas do 8º e 10º; terceiro ano, turmas do 9º e 11º; quarto ano, turmas do 12º), o plano foi alterado com a integração no projecto comum com as outras escolas.
Tinha como “objectivos: inovação de metodologias, produção de materiais, animação do colectivo de professores de Matemática da Escola, divulgação para o exterior, reflexão, eventualmente investigação“; foram produzidas algumas fichas de trabalho para utilização pelos alunos das turmas do 7º ano.


Comentários

Todos os projectos destinados a fomentar actividades extracurriculares que foram acima descritos envolveram-se no Projecto MATlab (interescolas), ou oficialmente (através dos autores deste), ou oficiosamente (participando, a partir de dada altura, nas reuniões, que para o permitirem se tornaram abertas). O mesmo já não sucedeu com o Projecto AlterMATivas, que se manteve em exclusivo nas mãos dos seus autores, embora tenha sido pródigo em deixar pistas para que outros professores o pudessem diversificar.

No quadro seguinte, que agrupa esses projectos, se são patentes pequenas iniciativas pioneiras, é sobretudo evidente a explosão de iniciativas que se verificou após 1989-90, ano em que foi fundado o Núcleo da A. P. M. em Almada e Seixal. Terá pois sido o associativismo o factor decisivo na enorme expansão dos projectos relacionados com a Matemática nas escolas desta região:



Fontes: Pedro Esteves / Arquivador digital Tese de Mestrado (Doc. T005) / Caixa com materiais do Núcleo (QUEBRA-CABEÇAS COM FÓSFOROS)