O meu regresso às aulas trouxe-me um desafio novo: uma turma dos Cursos de Educação e Formação, conhecidos no dia-a-dia das escolas por CEFs.
E aquela em que me envolveram era uma turma de «Nível II», com a componente profissional de Electricista de Instalações.
Assim, depois da experiência na Siderurgia Nacional (em 1983-85), voltava a ter uma turma vocacionada para a aprendizagem de uma profissão, embora as características destas duas vias fossem diferentes: nos CEFs, os jovens aprendiam as bases de uma profissão numa escola, e não numa empresa, pelo que perdiam em autenticidade profissional; mas ganhavam em socialização com os da sua idade, uma das faltas sentidas pela malta da Siderurgia.
Eis o pessoal que compunha esta minha nova turma:
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Tal como na Siderurgia, os jovens que entravam nas turmas CEF andavam a matutar no seu futuro, hesitando entre diversas vias possíveis. Foram claros os sinais disso nesta turma: ao fim de algumas semanas um deles acabou por desistir do curso, por não conseguir conciliar os estudos com o trabalho à noite, a que acrescia o trabalho em Lisboa nos fins-de-semana (alguns anos mais tarde encontrei-o a trabalhar na TransTejo, tendo-me então desafiado a ver a travessia do rio na cabina de pilotagem, o que fiz) e dois outros viram-se excluídos da sua frequência devido ao excesso de faltas. Dos que permaneceram, dois já tinham concluído o 9º ano, procurando neste curso apenas a sua componente profissionalizante; e um dos que não tinha o 9º ano queria obtê-lo para depois seguir a via artística no Secundário. Portanto, até perto do fim do ano lectivo, apenas oito alunos permaneceram nesta turma.
Tive como colegas nesta turma: o José Calado; a Emília Dionísio; a Carla Ferreira; o Fernandes; o Luís Farinha; e a Luísa Gracioso. O Calado e o Fernandes garantiam a parte profissional, ficando a parte escolar a cargo dos outros.
Penso que ainda não havia um programa «vindo de cima» para este curso pois, numa das primeiras reuniões do Conselho de Turma, foi afirmado que o Ministério da Educação pretendia que cada escola desenvolvesse os métodos que achasse correctos para o seu sucesso. Caberia a cada professor construir o seu programa, ouvidas as eventuais sugestões do Conselho de Turma. Por exemplo, o Calado pediu-me para trabalhar as «percentagens» (como em: se algo custa N escudos e tem 17% de IVA …) e o Fernandes afirmou-me que as «equações» eram muito importantes, mais do que os «sistemas de equações» com que se resolviam as Leis de Kirchoff. E, pela minha parte, sugeri que, a haver «interdisciplinaridade», a organizássemos em torna das disciplinas técnicas e não das outras disciplinas.
O que me pareceu então razoável foi escolher os seguintes temas:
Unidades;
Percentagens;
Equações;
Trigonometria;
Geometria.
Eram temas que tinham relevância para um Eletricista de Instalações (e que ajudavam à peparação básica de qualquer cidadão).
Trabalhámos sempre na sala E28, com as mesas colocadas em «U», sendo uma delas, a mais próxima do quadro, a do professor (todos os professores usaram a mesma disposição, mas com o tempo surgiram queixas sobre a maior facilidade com que os alunos conversavam uns com os outros estando as mesas nesta disposição).
Tal como já fizera na Siderurgia, procurei partir do que os alunos já sabiam. Por exemplo, na primeira aula perguntei-lhes que unidades ligadas à electricidade conheciam: responderam-me com o W, o V, o kW e o A, além de, despropositadamente, incluirem os nomes de dois aparelhos de medida, o Amperímetro e o Voltímetro. Depois perguntei-lhes qual a unidade de resistência eléctrica, e ninguém se lembrou do W. Perguntei-lhes ainda se havia unidades ligadas entre si, e responderam-me que o eram o W e o kW, tendo um dos jovens explicado o significado do k; mas ninguém conhecia a expressão V = I R.
Com os diversos fundamentos que coligi (o meu conhecimento; as sugestões dos meus colegas; e os conhecimentos dos meus alunos; e ainda com a consulta de alguma bibliografia sobre Electricidade) lá fui construindo, pouco a pouco, o «programa» deste CEF.
Houve alunos que em anos anteriores tinham tido dificuldades na Matemática e que pouco a pouco começaram a «encontrar pontas por onde lhe pegar», inspirando até algum entusiasmo participativo em parte dos seus colegas. E uma das razões para isto foi a possibilidade de utilizar máquinas de calcular simples, que não entediavam os cálculos e permitiam explorar novas formas de proceder aos cálculos.
Mas também houve casos de alunos com bloqueamentos psicológicos prévios em relação à escola e que não os conseguiram superar, apesar do apoio prestado pelos professores.
E ainda houve um caso de conflito racial, em parte sediado na turma, que só dificilmente acalmou, tendo a socióloga da escola, a Augusta Cabral, contribuído para isso.
Tal como era usual fazer com estas turmas mais ou menos experimentais, esta foi inserida num projecto externo, tendo sido escolhido os «Castelos de Risco», integrado na «Arisco», do «Projecto Viva a Escola», sendo a Carla a responsável pela ligação. E também como era habitual, esta turma teve direito a uma visita, organizada pelos coordenadores do curso, desta vez ao «Visionário», que abrira recentemente, em Santa Maria da Feira - tive pena em não ter participado.
E se não fosse o documento seguinte (e algumas notas manuscritas que tirei sobre este curso), não me lembraria de que, um tanto à última hora, eu e três dos alunos deste CEF garantimos um pequeno espectáculo de «Magias com Matemática», realizado após a exibição de uma peça de Teatro, no «último 15 de Junho» do anterior Milénio:
As coisas com os alunos desta turma foram, de certo modo, sempre piorando: no 3º período houve mais «perdas de ano» por faltas, a que se adicionaram mais perdas por classificação no final do ano. Um dos alunos que se perdeu foi o meu melhor aluno a Matemática nesta turma.
Apenas três jovens concluíram favoravelmente este curso!Além desta turma, tive ainda três outras à noite, do Ensino Recorrente, a A, a B e a D, partilhadas com a Clorinda Agostinho e com o Rui Rodrigues (já não me lembro desta «partilha», penso que dividiríamos os alunos entre nós). Os meus vinte e oito alunos tinham (na altura em que se inscreveram) entre os 16 e os 43 anos: dez deles com menos de 20 anos, quinze na casa dos 20 anos, nenhum na dos 30 e três na dos 40.
Dezoito destes alunos já dispunham de «equivalências» ou de capitalizações» de «unidades (respectivamente: o que tinha sido considerado aprendido antes de entrarem neste sistema; o que tinham concluído dentro deste sistema).
Dos vinte e oito, nove não capitalizaram nenhuma unidade, cabendo aos dezanove restantes 70 capitalizações de unidades (uma média de quase 3,7 unidades por cada um das capitalizadores). E quatro deles capitalizaram 7 unidades (num total de 13 correspondentes ao 3º Ciclo)!
Comentários
Mais uma vez não me posso queixar do horário que a escola me proporcionou: um fim de tarde seguido de noite na escola, à 3ª feira; uma manhã e uma tarde, à 4ª feira; e duas noites à 5ª e à 6ª feira. Além da 2ª feira livre, ainda o estavam imensas horas ao longo da semana:
Eu precisava deste tempo para continuar a explicitar a minha tese. Já não me recordo em que parte se encontrava o meu trabalho nela, durante este ano lectivo, mas presumo que, depois da recolha de dados e do seu tratamento, estaria a juntar o que já tinha num único texto, de modo a poder trabalhá-lo como um longo e convincente argumento.
Noto hoje que os meus anos com menor criatividade lectiva e extralectiva estavam
por esta altura a começar. Utilizava o que já experimentara antes, adaptando-o
ao que era necessário em cada turma, acrescentando-lhe pormenores, eventualmente
interessantes, mas sem produzir ideias qualitativamente novas. O «envolvimento
total» que tinha tido, como acontecera com as turmas da Siderurgia, ou o «mergulho
total» num projecto, como acontecera nos que haviam sido realizados entre diversas
escolas de Almada e Seixal, já não aconteciam agora.
Estava a entrar no que foram os meus últimos doze anos como professor, durante
os quais me desdobrei em vários aspectos da profissão docente, como a investigação
e a escrita, a formação continua, a organização e a avaliação da escola e, nos primeiros destes anos, o
associativismo docente …
Pensando em termos profissionais, que tempo e que condições precisarão os
professores de reclamar para que estes diferentes envolvimentos lhes sejam
possíveis, sabendo que nem todos se envolverão em tudo, nem o farão com a mesma
intensidade?
As turmas CEF concentram problemas pessoais e sociais que afectam muitos alunos
nas turmas normais. Apesar da dedicação que os professores lhes prestam, em
particular os seus coordenadores, esses problemas muito dificilmente se
resolvem. Depois, as turmas de Ensino Recorrente concentram os adultos, ou os jovens
a caminho de o serem, que tentaram resolver por eles mesmos aqueles problemas e
que regressam à escola para prosseguirem o que dantes não foram capazes nas turmas
normais, ou nas turmas especiais. E as escolas são o local onde este vai-e-vem permanentemente
acontece, e onde há muito pouca consciência do que se passa «lá fora» e ainda
menos capacidade de aí intervir ...
Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico
ESJA Oito (Doc.s 2, 6, 7, 12 e 15)
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