Memórias
Tendo estado grande parte deste ano lectivo fora da escola,
poucas memórias deste tempo nela me ficaram. No entanto, com base nas notas
manuscritas que sempre fui tomando, recordo-me de uma reunião sobre o futuro
das nossas instalações, com a Adelaide, a Marília, o Sérgio, a Alice, o Vítor, o
Mário e eu próprio, preparatória de uma outra reunião já agendada com a DREL
(Direcção Regional da Educação de Lisboa), que, pouco depois, soubemos ter sido
adiada, vindo a ser concretizada no dia 28 de Outubro. Eis as notas que tomei sobre
esta outra reunião:
Lembro-me também, sem ter recorrido às notas manuscritas, de
uma «ausência»: a proposta de Projecto Educativo de Escola, que havia sido
aprovada pela comunidade escolar, foi discretamente metida uma gaveta ...
As notas que tomei recordaram-me ainda uma conversa acontecida num restaurante
próximo da escola. Foi daquelas conversas que, apesar de não ter tido qualquer
efeito prático, me ajudou a entender o que um ano inteiro de experiência podia
não ter sido suficiente para mo ensinar.
O tema foi o dos «projectos» que existiam na nossa escola, desde o Projecto
Educativo (PEE) até aos pequenos projectos de cada um e de cada grupo, passando
pela participação da comunidade escolar na remodelação das suas instalações
(também elas em fase de «projecto»).
Nessa conversa eu defendi ser possível termos projectos próprios e, ao mesmo
tempo, construirmos colectivamente grandes projectos comuns, como o PEE. Do
outro lado da conversa só se acreditava nos projectos, individuais ou de um grupo
coeso, encarando os grandes projectos, comuns a toda a escola, apenas para
através deles promover os seus próprios projectos; e, um tanto paradoxalmente,
admitia-se que esses projectos particulares pudessem ser encarados como um serviço
da escola, situado acima dos interesses e das disputas entre quem a ele recorria,
como se esse serviço fosse exercido tecnicamente, sem que as decisões nele
tomadas gerassem qualquer motivo de contestação por parte de quem deles se
servia.
Comentários
Nesta conversa que acabei de recordar, os dois modos de encarar a articulação
entre a «parte» e o «todo» de uma comunidade talvez fossem, ambos, imperfeitos,
cada um à sua maneira. Se na altura não me passou pela cabeça deixar de tentar
conciliar os pequenos e os grandes projectos, uns mais individuais, outros mais
colectivos, ficou-me pelo menos o aviso muito concreto sobre a necessidade de
levar a sério a diversidade dos docentes (tal como, em geral, a das pessoas). E
este aviso foi um passo para chegar ao questionamento que hoje assumo sobre se
a vontade de elaborar um Projecto Educativo de Escola teria sido razoável: se
hoje continuo a não aceitar, tal como na altura não aceitei, que o PEE pudesse
vir a ser «o do director», ou «o da sua equipa», penso que ele dificilmente
deixaria de se restringir uma «adição de
projectos». Ou seja, um PEE «de escola», assumido por todos como «de todos»,
dependeria de um enorme trabalho interno, talvez exigindo décadas de graduais avanços
nessa direcção e, certamente, dependendo de circunstâncias externas favoráveis
ou que fossemos capazes de exigir.
Talvez não haja uma solução padrão para este enorme desafio, nem no modo, nem
na duração. E aquilo a que muitas das nossas forças se dedicaram pode ter sido
pura e simplesmente a aceitação não suficientemente crítica de uma forma de
padronização, sugerida pelas correntes pedagógicas mais firmes na altura, que o
Ministério da Educação adoptou e que, encarada a partir de hoje, pode ser vista como um passo para a domesticação das escolas.
Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Sete (doc. 101)

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