[013] O primeiro contacto com o associativismo docente

Memórias

Foi por estes anos que o associativismo começou a questionar o isolamento dos professores.
A Sociedade Portuguesa de Matemática (a partir daqui: SPM), tinha retomado as suas actividades, depois da longa interrupção provocada pela repressão a que muitos dos seus membros haviam sido sujeitos pelo regime deposto em 1974. No início de 1987 uma das suas delegações regionais organizou, em Évora, o MATSUL, um encontro destinado a matemáticos e a professores do ensino básico e secundário. E eu inscrevi-me, tendo esse sido o meu primeiro contacto com o associativismo docente.
O Ministério da Educação autorizou a dispensa de serviço docente a quem participasse e eu parti para Évora, onde, durante três dias, de 5 a 7 de Janeiro, participei numa estimulante variedade de sessões de trabalho: «Topologia das superfícies», por Eduardo Rego; «Resolução de problemas e trabalho de projecto em Geometria», por Paulo Abrantes; «Um modelo matemático simples para um problema de Bioeconomia», por José Luís Fachada; «Ler jornais é saber mais», por Luís A. Martins; «A revolução infinitesimal», por Augusto F. Oliveira; «A Matemática no Ciclo», por Paulo Almeida; «Ensino da Matemática em Portugal, que perspectivas?», por Fernando Sequeira; e «Alguns aspectos da História da Matemática em Portugal», por J. Santos Guerreiro.

Não me lembro de, na tarde do segundo dia, ter participado numa visita guiada à cidade de Évora, mas lembro-me vagamente do jantar que se lhe seguiu, e lembro-me muito bem de várias das sessões de trabalho, pois tirei notas a todas elas.

Gostei particularmente das sessões de trabalho com o Eduardo Rego (sobre a Topologia, assunto que nunca havia estudado) e com o Paulo Almeida (sobre a Geometria, abordada de forma prática, tal como me interessava desde o ano anterior), tendo as primeiras notas a esta última sido as seguintes:


Depois deste encontro não voltei a participar em outras actividades organizadas pela SPM. Só dois anos e meio depois voltaria a interessar-me pelo associativismo docente, quando alguns colegas de Matemática que leccionavam em Almada e Seixal me desafiaram a participar nas actividades organizadas por uma outra associação, fundada em 1986, a Associação de Professores de Matemática (APM).

Regressado de Évora à escola, lembro-me de a Ana Chorincas, numa reunião do grupo de Matemática, ter proposto que eu apresentasse a todos os colegas o essencial daquilo a que tinha assistido no MATSUL. Era uma boa proposta, pois contrariava o hábito de «cada um por si» instalado nas escolas. Mas essa proposta nunca chegou a ser concretizada – nunca ninguém me lembrou que a concretizasse; mas eu lembrei-me várias vezes de não a ter concretizado.
Só uma década depois este grupo de Matemática iria romper com esta aparente incapacidade de todos aprenderem com todos …

Comentário

Um dos assuntos que me incomodaram durante este ano na escola foi o modo como o Conselho Pedagógico decidiu organizar uma «acção de formação» sobre «avaliação»: ela deveria ser «obrigatória» e realizada num Sábado de manhã. Como o João Louro também presidia ao Conselho Pedagógico, aproveitei uma das reuniões do Conselho Directivo para aí apresentar os meus protestos (aliás, escrevi o que pensava, o que agora me deu jeito para relembrar exactamente o que me incomodava). Perguntei eu aos meus colegas do «directivo»: “os 6 dias [de dispensa lectiva para formação contínua] a que cada professor tem direito devem ser de decisão do próprio ou poderão ser «alienados voluntariamente»? é possível obrigar um professor a esta ou aquela formação contínua?” Não me foi dada resposta, e a «acção de formação» acabou por se realizar (no dia 27 de Novembro), tal e qual tinha sido prevista pelo Conselho Pedagógico. Lembro-me de ter sido realizada na Biblioteca mas não me lembro nem um bocadinho do que lá foi dito.
O meu protesto pode ter sido encarado, na altura, por alguns, como mais uma reacção do enfant terrible. Mas não me parece que eles a possam continuar a encarar assim hoje. Todos os professores que leccionaram nos últimos vinte anos sabem como a liberdade de escolha da formação contínua se foi tornando um problema. Nós, professores, fomos os primeiros a não clarificar este abuso.

Fontes: Pedro Esteves / Pasta analógica MATSUL 87 (Doc. 5) e Arquivador analógico ESJA Um (Doc. 12)

[012] Que dizer da «Acção Piloto» para jovens?

Memórias

Houve cinco anos lectivos em que foram abertos cursos da Acção Piloto de Formação de Jovens, tendo a Siderurgia Nacional participado em cada um desses anos. No quadro seguinte está resumido o que sucedeu aos alunos que passaram por esses cinco cursos (nalguns casos, à entrada para o 2º ano, ou para o 3º ano de um dos cursos, o número inicial de alunos foi aumentado ou reduzido devido a razões não escolares): 


Desconheço o balanço que o Ministério da Educação e o Ministério do Trabalho terão feito da generalidade desta Acção Piloto. Mas posso lembrar alguns factos.

Os jovens que se inscreveram nestes cursos, tanto na Siderurgia como nas outras empresas participantes, pertenciam ao largo grupo dos que, antes, se haviam sentido desconfortáveis no «ensino formal». Para podermos perceber o que aí se passava, a percentagem dos alunos que se haviam matriculado no 7º ano do Curso Unificado em 1977-78, em todo o país, e que três anos depois, portanto em 1980-81, tinham concluído o 9º ano, foi de 41,6 %. Portanto, quase 60 % destes alunos inscritos haviam sido retidos pelo menos uma vez ou haviam abandonado os estudos ao longo destes três anos.
É pois difícil aceitar que em centena e meia de jovens que passaram pelos cursos da Siderurgia, quase metade tenha voltado a não ter sucesso, desta vez duplamente: nem na componente «escolar», nem na «profissional».

Esta também parece ter sido a certeza das autoras de um estudo, feito em 1985 para o Instituto de Emprego e Formação Profissional, no qual se queixaram de os “métodos e conteúdos pedagógicos na Área Formativa Comum” da Acção Piloto, elaborados por “técnicos”, não diferirem dos da “escola tradicional”, pelo que, escreveram elas, “podemos considerar que traímos as expectativas dos jovens em relação a esta formação: a maioria deles decidem deixar a Escola porque não a aceitam e vêm encontrar aqui, uma outra, que é a mesma nos seus defeitos e limitações”. E, acrescentaram, “os professores da componente formativa comum”, colocados pelo Ministério da Educação, “não foram sensibilizados, por esta ou por qualquer outra entidade, para as características especiais desta formação e da população a que a mesma se dirige”.
Mas a estas queixas deverão ser acrescentadas outras. A componente «profissional» da Acção Piloto visava formar, na Siderurgia, electricistas, fresadores, serralheiros e torneiros. Mas no inquérito que dirigi aos meus 44 alunos de 1985-86, apenas 16 tinham como preferência a profissão que correspondia ao curso que frequentavam, estando na mente dos restantes 28 uma enorme variedade de alternativas. Adicionalmente, 31 destes alunos disseram que o curso deveria ser diferente: apesar de os seus principais argumentos focarem a falta de raparigas, as férias curtas e a impossibilidade de sair da empresa quando não havia aulas, estes aspectos também contam para o sucesso de um curso destinado a «jovens».

Comentários

Estes alunos ainda não eram adultos, pelo que não terá sido bom que cada um dos cursos em que eles foram envolvidos fosse dirigido a uma única profissão, num ambiente concentracionário de empresa, onde não havia contacto com outros jovens da mesma idade.
Quanto aos professores e aos programas, é de notar que quem tinha a formação escolar a seu cargo dispunha de uma redução do número de horas que leccionava, o que parece ter sido uma aposta na sua criatividade profissional; então, mais importante do que os programas deveria ser o modo como os professores os transformavam, à medida que conheciam os seus alunos e os cursos. Teria pois sido importante, dado o carácter experimental desta Acção Piloto, a existência de contactos regulares entre os professores envolvidos em empresas diferentes: o que parece não ter passado pela cabeça dos responsáveis por estes cursos …

O facto de não se ter pensado num contacto entre professores envolvidos em diferentes empresas, ou até entre os envolvidos, em anos diferentes, na mesma empresa, mostra como a ideia de que o professor trabalha isoladamente era então dominante …

Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Um (Doc. 03, Doc. 04, Doc. 06, Doc. 97, Doc. 98 e Doc. 120)

[011] Para além das aulas, na Siderurgia e nas Cavaquinhas

Memórias

Com base nos documentos que guardei, e na minha memória, houve, em 1986-87, diversos estagiários na Escola Secundária do Seixal, acompanhados por três instituições de formação inicial envolvidas, a Escola Superior de Educação de Setúbal, a Escola Superior de Educação de Santarém e a Faculdade de Ciências e Tecnologia. Só me recordo de três desses formandos, o Luís Carlos Carvalho e o Vítor Louro, da Mecanotecnia, que depois do estágio se manteriam nesta escola, e um formando de História, que, após o estágio, foi para outra escola.

Por aquela altura, muito daquilo que era «extracurricular» ainda não tinha uma base organizacional sólida; mas estávamos a tomar consciência de que essa base era indispensável. E nas reuniões do Conselho Directivo íamos estando em contacto com essa transformação e ganhando consciência de seriam necessários espaços específicos, e também financiamento, para que essas actividades pudessem existir.
Um pouco ao sabor do que foi surgindo nessas reuniões anotei os seguintes indícios de vida escolar para além da lectiva:
A Associação de Estudantes solicitou ao FAOJ o envio de um «monitor» para avaliar os computadores existentes na escola e propor o que fosse necessário para que se constituísse um Núcleo de Informática; é provável que esta intenção apenas quisesse consolidar o que já existia, pois há outras referências à constituição deste núcleo dois anos antes;
O Olímpio Pereira e o Vítor Solha participaram, na Escola Secundária do Monte de Caparica, numa “primeira reunião destinada ao lançamento”, em 1987-99, do Projecto Minerva na nossa escola; pretendia-se que este projecto tivesse impacto tanto pedagógico como administrativo;
A Câmara Municipal do Seixal estava a preparar um Plano de Acção Cultural Câmara – Escolas, a vigorar em 1987, para o que mantinha contactos com os Conselhos Directivos e as Associações de Estudantes do concelho;
A escola mantinha boas relações com o Clube Recreativo e Desportivo das Cavaquinhas (pelo que soube mais tarde, essas relações teriam a ver com a prática do Xadrez);
Duas alunas propuseram a criação de um Núcleo do Ambiente e a realização de “uma série de actividades a integrar no Ano Europeu do Ambiente”;
A nossa escola já contava com uma Psicóloga, a Manuel Menezes (que, um ou dois anos depois, seria transferida para a Escola Secundária do Fogueteiro);
Em Maio realizou-se a Semana do Inglês;
O Arlindo Carvalho tinha preparado o arranque do Núcleo de Fotografia;
O jornal escolar Nova Maré estava ligado a disciplina de Jornalismo, mas tinha ambições para além desta;
Um grupo de alunos queria constituir uma Juve Leo na escola, apenas para afixar propaganda;
O Grupo de Teatro «Os Arlequins», dinamizado pela Madalena Silva, estava muito activo;
Foi solicitada a realização das Olimpíadas da Matemática na escola e, para as preparar, iria ser lançado um concurso de problemas.

Este concurso de problemas de Matemática era da minha iniciativa, dirigia-se tanto aos alunos da Siderurgia como aos das Cavaquinhas e chamou-se Problema da Quinzena. Foi constituído por oito problemas para os alunos dos «Unificados» (3º Ciclo) e por outros tantos para os alunos dos «Complementares» (Secundário).

Um desses problemas, de que gosto especialmente, era o seguinte:


Uma parte do balanço deste concurso foi feita através de uma tabela em que descrevi a participação das diversas turmas da escola. A numeração de «1» a «8» corresponde aos problemas; o «1», o «1/2» e o «0» que figuram sob cada problema são as três classificações previstas; as turmas que a escola tinha estão numeradas pelo respectivo ano; o professor de cada uma delas está identificado à direita (nos Complementares nem todas as turmas tinham «Matemática»); e os números que figuram no interior dizem quantos alunos responderam, em cada turma, a cada problema.

Portanto, neste ano, a Escola Secundária do Seixal teria sete turmas no 7º ano, dez turmas no 8º ano, oito turmas no 9º ano (mais duas a ele equivalentes na Siderurgia), oito turmas no 10º ano, oito no 11º ano e 3 no 12º ano.
Total, só nas Cavaquinhas: quarenta e quatro turmas!
E ainda havia aulas à noite, não estando aqui recenseadas as correspondentes turmas.

Foi certamente através deste concurso que comecei a interagir com os outros professores de Matemática e a conhecê-los. Não sei se haveria algum de nós que apenas leccionasse os cursos noturnos. Mas os que leccionavam de dia são os que estão referidos acima: a Ana Chorincas, a Ana Pontes, o Carlos Lourenço, a Clorinda Agostinho, o Fernando, o Ismael, o João Aleixo, a Manuela, o Mário Rosa, o Olímpio Pereira e eu próprio. Todos, excepto o Olímpio, leccionavam pelo menos uma das turmas do «Unificado».

Houve uma outra parte do balanço deste concurso que foi mais extensa. Alguns destaques do que nela estava escrito:
Alunos participantes: 58, de 16 turmas;
Total das respostas dadas: 119; quase 15, em média, por cada um dos 8 problemas (conjuntamente pelos Unificados e Complementares);
As turmas do 7º ano contribuíram com 36 participantes (62 % do total), sendo este o ano em que a participação das meninas foi mais forte;
As turmas com maior número de respostas foram, por ordem decrescente, o 7º 7, o 7º 6, o 9º 1 e o 3º B (Siderurgia);
Os três melhores participantes dos Unificados foram: o Paulo Silva (3º B), com 8 pontos; o Paulo Alexandre Jacinto (7º 7), com 6 pontos e o Walter Manuel Carreiro (7º 7), também com 6 pontos, tendo os três recebido um prémio (não me recordo qual, mas provavelmente foi um livro … com mais problemas!);
O melhor participante dos Complementares (e único a receber prémio) foi o José António Portugal (11º 4), com 4,5 pontos.

Comentários

Por diversas vezes ouvi membros deste Conselho Directivo, e dos seguintes, referirem-se à importância do «local de residência» dos professores, estando subjacente a preocupação com o facto de muitos morarem fora do concelho, o que dificultava o seu envolvimento na escola. A escola não era vista por eles como estando reduzida à componente lectiva.

É bem possível que o Problema da Quinzena tenha sido o primeiro concurso de problemas de Matemática realizado nas Cavaquinhas, bem como estas Olimpíadas da Matemática (os melhores alunos da «fase escolar» poderiam, depois, participai na «fase distrital»).
Na página «Documentos» deste blogue foi colocado um PDF com os enunciados e as soluções do «Problema da Quinzena» (pasta «Concursos de Problemas»).

Em particular nos anos 80, muito do material didático, dos testes e dos relatórios eram escritos «à mão». Aconteceu o mesmo com este concurso de problemas. Nem sempre era prático usar as máquinas de escrever com que se trabalhava naquela época. Nalguns casos, em que era necessário introduzir desenhos, tabelas ou gráficos, recorria-se à sua fotocópia, depois recortada e colada na folha que depois seria policopiada.

Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Um (Doc. 117, Doc. 118 e Doc. 119); Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Dois (Doc. 06)

[010] A sublimação dos nervos durante as reuniões do Conselho Directivo

Foi difícil estar quase totalmente limitado a tratar de assuntos burocráticos durante os dois anos que estive no Conselho Directivo. Mas certamente não o foi só para mim.

Um dos modos pelos quais procurei «sublimar» os nervos que as burocracias e os intermináveis assuntos em discussão me provocavam foi desenhando durante as reuniões (além de tomar notas, de vez em quando também desenhava). Eis um desses desenhos, datado de 13 de Janeiro de 1987 (todos os membros do Conselho Directivo o assinaram, o que talvez signifique que todos estávamos a precisar de rir um bocado): 


Este outro, esboçado em 17 de Fevereiro do mesmo ano, lembra, a quem já se esqueceu disso, como naquela altura se podia fumar à vontade em qualquer local fechado:

Comentários:

Só possuo fotocópias dos desenhos originais; e a do segundo ficou cheia de «riscos verticais», produzidos pela fotocopiadora da escola (daí o contrato de manutenção de que estas máquinas estavam a precisar), pelo que tive de lhe dar, para este testemunho, um tratamento via «PAINT».

Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Dois (Doc. 17 e Doc. 18)

[009] O primeiro ano no Conselho Directivo

Memórias


Para quem nunca tinha estado num «Conselho Directivo», como eu, era impossível imaginar a diversidade de assuntos que aí era necessário resolver. E para quem, a partir do final dos anos 90, teve a experiência de fazer parte de um «Conselho Executivo», ou, na última década, foi «Director» ou fez parte de uma «Direcção», é inimaginável a quantidade de aspectos básicos do funcionamento de uma escola que, no final dos anos 80, ainda estavam por resolver.

As primeiras reuniões do Conselho Directivo de 1986-88 destinaram-se a ouvir o que o Conselho Directivo anterior (representado pelo Alfredo Monteiro e pelo José Filipe) tinha a transmitir.
Ficámos a saber que entre os problemas que iríamos enfrentar estavam:
* A falta de Funcionários Auxiliares (assim eram designados na altura);
* A saída de diversos Funcionários Administrativos (entre eles a Dª Ernestina, chefe da Secretaria);
* As infiltrações na parede de fundo do Ginásio, bem como as irregularidades do seu piso e a falta de água quente nos balneários;
* A fuga de gás e a falta de funcionários no Refeitório, que por estas razões estava encerrado;

* A falta de protecção contra o Sol, durante a tarde, nas salas de aula do 1º andar do Pavilhão B que tinham janelas para Poente;
* A necessidade de reparações em diversos retroprojectores (era através deles que se projectavam os acetatos», equivalentes aos Power Point de hoje);
* A necessidade de estabelecer contratos de manutenção para o material da Reprografia.

Outra diferença em relação aos tempos actuais era a data do início das aulas, que naquela altura só acontecia muito mais tarde. Por isso, só no dia 1 de Outubro se fez uma visita dos novos professores da escola ao concelho do Seixal, terminada com um almoço nas instalações da Timbre Seixalense. Estas eram ainda as antigas, um edifício com uma forma prismática, encimado pelas duas águas de um telhado. Se a minha memória não se engana, o almoço foi uma caldeirada, o que era bem adequado para uma terra que, então, ainda sentia fortemente a sua tradição pesqueira.

Não cheguei a trabalhar nas antigas instalações do Conselho Directivo (a partir de agora poderei designá-lo por «CD»), salvo erro situadas no bloco (b) referido no testemunho «001». Como se tratava de um espaço muito acanhado, este CD decidiu transferir o seu local de trabalho para o canto Sudoeste do andar superior do Pavilhão C, onde permaneceu durante mais de uma década, até à conclusão das obras do actual pavilhão principal:


Os pelouros deste CD foram assim distribuídos: o Louro como presidente e a Teresa como vice-presidente; eu como secretário (ajudava no Conselho Administrativo e tratava da Papelaria, do Bar, do Refeitório e do N.A.S.E., o actual S.A.S.E.) e e a Manuela e o Vítor como vogais (cabendo ao Vítor ser delegado para o ensino nocturno).

A nova chefe da Secretaria (que ainda não se chamava Serviços Administrativos) passou a ser a Dª Isilda, que se manteve nesse posto até à sua reforma, salvo erro em 2010.
A Secretaria, além da Dª Isilda, passou a contar, entre quem já estava na escola e quem chegou neste ano, com a Ana, a Elisabete, a Maria do Céu, a Delmira, a Helena Lopes, Dª Helena Silveira, Dª Madalena e o Roberto. Lembro-me também de aí terem trabalhado durante algum tempo a jovem Anabela e o Ladislau (que mais tarde foi professor de Inglês), mas não estou certo de ter sido em 1986-87, ou em 1987-88, ou em ambos os anos.
Depois de várias experiências (para saber quem ficaria melhor a fazer o quê), o funcionamento da Secretaria (em particular o do N.A.S.E.) estabilizou.

Os problemas do Refeitório arrastaram-se durante quase todo o ano. Chegou a sair uma notícia sobre isso no «Correio da Manhã» e o Partido Comunista tomou uma posição sobre o assunto na Assembleia da República (não possuo cópia do conteúdo do que foi escrito e dito); e também foram dadas entrevistas à RDP e à Rádio Palmela. Por fim, depois de muitas reuniões e hesitações, o Refeitório lá abriu, algures em Maio (o que deve explicar o grande número das minhas faltas às aulas, nesse mês, na Siderurgia, justificadas como «Serviço Oficial»).
Quanto aos problemas do Ginásio, foram-se agravando, tendo, em Março, acabado por fechar (não me recordo se, até ao fim do ano lectivo, chegou a reabrir).

Em Setembro, durante a transição entre CDs, ainda as aulas não tinham começado, o novo Conselho Directivo foi informado pelo Ministério da Educação (ou «ME», como a partir de agora o poderei designar) de que se estava a preparar o acrescento das instalações da escola com as da antiga Escola Preparatória de Vale da Romeira Nº 1. O estado em que essas novas instalações estavam (ver o testemunho anterior) não era o único problema: se em 1986-87 tínhamos 41 turmas, sem contar com as do 12º ano e com as nocturnas, para 1987-88 o ME queria aumentá-las para 62 turmas (assim foi dito numa reunião em que o Vítor Solha esteve presente, perto do fim de 1986-87): 22 do 7º ano, 13 do 8º ano, 10 do 9º ano, 9 do 10º ano e 8 do 11º ano.
Apesar de se estarem a construir várias escolas no concelho (Escola Preparatória de Corroios, Escola Preparatória de Vale de Milhaços e Escola Secundária da Sobreda), de a recente Escola Secundária do Fogueteiro estar a ser ampliada e de se ir iniciar, no Cavadas, a construção da escola que substituiria a da Vale da Romeira Nº 1, a chegada de novos alunos aos diversos anos de escolaridades estava a ser mais rápida do que a criação de novas instalações para os acolher …
Este seria o grande desafio deste CD em 1987-88.

Comentários:

Tenho 78 páginas manuscritas com notas sobre 76 reuniões deste CD, realizadas ao longo dos 2 anos da sua vigência, uma média superior a 3 reuniões por mês (trata-se de um documento interessante para estudar o tipo de desafios que uma escola secundária tinha de enfrentar na segunda metade da década de 1980 e numa região que nunca foi prioritária para o poder central).
As primeiras 40 páginas dessas notas e as primeiras 40 reuniões deste Conselho Directivo (a que se juntam mais algumas com outras pessoas ou entidades) dizem respeito ao ano de 1986-87.

De vez em quando penso nesta minha passagem pelo CD. Terei feito bem em aceitar? E terei sido uma boa escolha?
Se se pensar sob o ponto de vista «tecnocrático», foi um erro de «casting» terem-me convidado para o CD com a ideia de me atribuir os pelouros que me atribuíram, pois a minha «vocação» era trabalhar com alunos.
Mas, se se pensar sob o ponto de vista de uma «democracia participada», por que não haveria de me ser proporcionado um trabalho um bocado chato (para o meu gosto), pois ele teria de ser feito por alguém, e quem o fizesse passaria a compreender melhor uma parte da vida da comunidade escolar?
Portanto, acho que fiz bem em aceitar o desafio; mas poderia ter evitado a crítica de que fui alvo em casa, por não ter partilhado o convite antes de o aceitar.
Esta experiência mostrou-me também que ficava bem aos professores serem capazes de gerir as suas escolas, sem necessidade de recorrer a gestores profissionais. E, pelo que fui observando nos anos seguintes, ajudou-me a perceber que é bom que essa gestão por professores seja rotativa, não se eternizando, como aconteceu nalgumas outras escolas.

Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Dois (Doc. 6)

[008] No final dos anos 80: o problema das instalações escolares nos concelhos de Almada e do Seixal

Memórias

No dia 22 de Novembro de 1986 realizou-se, na Escola Secundária Emídio Navarro, um Encontro-Debate
sobre a situação do ensino nos concelhos de Almada e Seixal, organizado pelo Secretariado das Associações de Pais da Almada e Seixal, pelas duas Câmaras Municipais, pelo Sindicato de Professores da Grande Lisboa e pelo Secretariado de Inter-Conselhos Directivos de Almada e Seixal.

A capa do documento final, que registou as diversas intervenções, foi esta:
 

As preocupações expressas nesse Encontro dizem-nos muito sobre as dificuldades daquela época, mas também nos dizem que as escolas estavam atentas e procuravam participar na solução dos problemas que as afligiam. A primeira frase da apresentação deste documento esclarecia que, desde os anos anteriores, as escolas dos Concelhos de Almada e Seixal se defrontavam “com graves dificuldades, nomeadamente carências de instalações e equipamentos.” O que implicava atrasos “no início de sucessivos anos lectivos, com repercussões nas condições de trabalho e aprendizagem, com elevadas taxas de insucesso escolar.” No momento daquele Encontro, bem próximo do final de Novembro, ainda havia 2 500 alunos sem aulas em três das escolas destes dois concelhos.
As escolas estavam conscientes de si, mas também estavam conscientes para além de si: sabiam (assim ficou registado) que o insucesso escolar era um problema grave no país - 24 % no 5º ano; 19 % no 6º ano; 36 % no 7º ano; 34 % no 8º ano; e 32 % no 9º ano – e sabiam que por detrás desse insucesso havia programas desarticulados uns em relação aos outros, desadequados face ao “interesse dos alunos” e à “realidade do mundo actual” e insuficientes, quer como resposta às necessidades de “formação do aluno como pessoa e cidadão interessado, crítico e participativo”, quer como espaço para a manifestação da “individualidade de cada um”.
Ninguém havia decretado que era necessário realizar este Encontro, mas as escolas acharam que era necessário fazê-lo.

Entre os anexos que este documento juntou figuravam várias fotografias que mostravam a degradação a que chegaram as instalações de algumas escolas, como as da Escola Preparatória Vale de Romeira nº 1 (actual Escola Básica 2+3 António Augusto Louro), que viriam a ser incluídas, em 1987-88, nas da Escola Secundária do Seixal (e onde eu iria dar muitas das minhas aulas).
Eis três dessas fotografias, com as legendas originais:




Comentários

Nestes anos havia contactos entre os Conselhos Directivos dos concelhos de Almada e do Seixal, para definição de objectivos comuns e coordenação de esforços. A certa altura o Ministério da Educação fez-se convidar para as reuniões dessa estrutura informal e acabou por criar, inspirado nela, as «Áreas Pedagógicas». As escolas de Almada e Seixal foram agrupadas na Área Pedagógica 12, conhecida por AP12.

Quer o Conselho Directivo, quer a Associação de Pais da Escola Secundária do Seixal estiveram representados no Encontro Debate. No entanto, foi apenas nos finais de Abril de 1987 que eu encontrei na escola, em cima de uma cadeira, como se aí tivessem ficado esquecidos, vários exemplares do «documento final»; achei-o importante e guardei um dos exemplares.

É bem possível que as fotografias das salas degradadas da Escola Preparatória sejam únicas. Existem outras fotografias posteriores do respectivo pavilhão, quando ele já fazia parte da Escola Secundária do Seixal: serão divulgadas mais tarde.

Fonte: Câmara Municipal de Almada, Câmara Municipal do Seixal, Secretariado das Associações de Pais de Almada e Seixal, Secretariado dos Inter-Conselhos Directivos de Almada e Seixal e Sindicato dos Professores da Grande Lisboa, 1987. Encontro Debate / Situação do ensino em Almada-Seixal / Documento final (citei acima as intervenções de Luísa Beato, Óscar Soares e Rosa Oliveira)

[007] O segundo ano de aulas na Siderurgia

Memórias

Em 1986-87 o meu horário lectivo era este:

Com aulas na Siderurgia, três dias por semana, entre as 8h30 e as 10h30; o resto do tempo ficava disponível para o trabalho a fazer no Conselho Directivo.

Eis os meus alunos no 3º ano do Curso de Formação de Jovens (todos os que estavam no 2º ano em 1985-86):




Só me recordo de, neste ano, ter tido como colegas, vindos da Escola Secundária do Seixal, o António Figueiredo (na Educação Física) e o João Coelho (nas Ciências Naturais).
Mas o Alexandre Rodrigues, então aluno do 3º B, lembrou, há dias, no Facebook, dois outros professores da «casa»: o Delgado (no Desenho) e o Picard (na Tecnologia Mecânica).

Como professor, foi um ano lectivo em que senti as limitações resultantes do trabalho paralelo no Conselho Directivo (dos 9 dias em que faltei às aulas, 5 deles aconteceram em Maio, devido a «serviço oficial»).
Em termos lectivos, vivi do que preparara para o 3º ano do curso anterior. Apenas acrescentei um teste diagnóstico aos conhecimentos que deveriam ter sido adquiridos nos anos passados, que repeti no final do ano, para comparar e concluir se tinham ou não ocorrido melhorias ao longo de 1986-97. E ainda melhorei a ficha com os problemas dedicados às Potências.
E quanto às actividades não formais, apesar da ajuda que dei à preparação de uma visita de estudo à UCAL (concretizada em 14 de Maio), acabei por não poder participar nela, muito plausivelmente por razões relacionadas com o trabalho no Conselho Directivo (foi um mês muito difícil). Tenho registado que a partida da Siderurgia estava prevista para as 8h30, seguindo-se a visita à UCAL, em Águas de Moura, um almoço em Setúbal, a visita ao Museu de Arqueologia e Etnologia do Distrito, o regresso pela Serra da Arrábida e a chegada às 18h00: foi um dia inteiro para arejar ideias e para conviver …

Comentários

Tal como para os cursos nocturnos, os tempos lectivos na Siderurgia valiam 150 % para os professores (por exemplo, 2 horas reais equivaliam a 3 horas na contabilidade). Suponho que quem decidira esta regra esperava que os professores que tinham estes horários fossem criativos, dado se tratar de cursos não rotineiros.

Contrariamente à «abertura» que caracteriza muitos dos Problemas de Matemática propostos fora das aulas, os que são escolhidos por cada professor para apoiarem a aprendizagem de um determinado tema nas aulas são problemas mais «fechados». Nos anos 80, havia em Portugal uma grande falta de fontes onde pudessem ser seleccionados qualquer tipo de problemas (senti-o muitas vezes), pelo que as listas de problemas que foram surgindo, aqui e acolá, foram esforços pioneiros para constituir um corpo de materiais didácticos / educativos, quase sempre para uso individual, algumas vezes para uso colectivo. Só mais tarde, quando este desafio começou a estar resolvido, foi possível aos professores que o enfrentaram colocarem questões mais profundas sobre o conteúdo dessas listas, nomeadamente adequando-as aos interesses e às características dos alunos.

Das actividades não formais realizadas no ano anterior na Siderurgia houve uma a que dei continuação, alargando-a às Cavaquinhas: o concurso de problemas. Falarei dela num dos próximos testemunhos.

Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Dois (Doc. 100, Doc. 102, Doc. 104, Doc. 105, Doc. 106)

[006] As eleições para o Conselho Directivo de 1986-88 na Escola Secundária do Seixal

Memórias

No final de 1985-86 realizaram-se eleições para a equipa que assumiria o Conselho Directivo no biénio seguinte. Candidataram-se duas listas, e as capas dos respectivos programas de trabalho foram estas:


Nunca soube as razões que levaram a que me desafiassem a participar numa das listas, pois eu mal era conhecido na escola. E também não estava à espera do surgimento de uma segunda lista, pelo que fiquei um tanto desconfortável quando me apercebi da tensão que a proximidade das eleições fez surgir na comunidade escolar.

As eleições foram realizadas em 9 de Julho de 1986, tendo os resultados sido: 54 votos na lista A, 46 votos na lista B e 6 votos nulos ou brancos. A comunidade escolar estava, eleitoralmente, dividida quase a meio.

Como fui um dos eleitos, o meu ano lectivo seguinte iria subdividir-se por dois espaços: teria um novo «3º ano» na Siderurgia Nacional, com as duas turmas que haviam concluído o «2º ano», e, sobretudo, teria de estar na Escola!

Durante o ano lectivo que acabava, 1985-86, fora fundada a Confederação Nacional das Associações de Pais (em 7 de Dezembro), Portugal entrara na Comunidade Económica Europeia (em 1 de Janeiro) e tinha sido iniciado, em muitas escolas, o Projecto Minerva.
Depois, na transição para 1986-87, o iria Governo publicar os Regulamentos dos Conselhos Pedagógicos e dos Órgãos de Apoio (em 31 de Julho) e, já dentro do novo ano lectivo, a Lei de Bases do Sistema Educativo (em 14 de Outubro). Esta lei (numerada como Lei nº 46/86) resultara do debate das diversas propostas dos partidos representados na Assembleia da República e trazia uma novidade importante: a escolaridade obrigatória passava de seis para nove anos!

De 15 de Fevereiro de 1985 a 17 de Agosto de 1987 o ministro da educação tinha sido João de Deus Pinheiro, primeiro no governo de Mário Soares, depois, a partir de 6 de Novembro de 1985, no de Aníbal Cavaco Silva.
Lembro-me de ter visto e ouvido este ministro na televisão. Perguntaram-lhe, a dada altura, quem deveria tomar as grandes decisões sobre a educação. Ele, sem hesitar, respondeu: deve ser o respectivo ministro, pois é quem possuía mais «informação». Não gostei desta resposta.

Comentários

A minha efectivação na Escola Secundária do Seixal coincidiu com o vir residir neste concelho. Sentindo-me aqui «para sempre» (ainda hoje cá estou), tive um grande desejo de conhecer a «história» e os «costumes» da região envolvente (genericamente: a península de Setúbal), tanto para me «sentir em casa», como para me inspirar ao «interpretar o currículo». Esse desejo só muito lentamente se foi concretizando, pois leccionar deixa muito pouco tempo disponível.

Uma das linhas de força da «Lei de Bases» que se viria a tornar especialmente problemática dizia respeito à «formação contínua» dos professores.
Compreendia-se que ela definisse a “formação inicial” como devendo ser de “nível superior” (artigo 30º), apesar de a sua concretização através da chamada «profissionalização em exercício», que não atribuíra qualquer papel às instituições de «nível superior», tivesse sido um êxito (sendo, ainda hoje, considerada por muitos professores como «a mais interessante» de sempre).
Mas era difícil entender nesta lei que a “formação contínua” (artigo 33º) devesse ser “assegurada predominantemente” pelas “instituições de formação inicial” (ou seja, e de novo, as de “nível superior”), mesmo tendo em conta que ela seria concretizada “em estreita cooperação com os estabelecimentos onde os educadores e professores trabalham.” Este papel quase tutelar atribuído desde cedo ao ensino de “nível superior” viria a favorecer a hierarquização dos actores educativos e a dificultar a formação de uma «voz» representativa dos professores do ensino não superior.

A confiança do ministro João de Deus Pinheiro nas decisões que são tomadas por «quem dispõe de mais informação» há muito que deixou de ser aceite por aqueles que estudam os fenómenos organizacionais: para eles, qualquer actor, seja qual for o nível em que está numa organização, apenas dispõe de uma «racionalidade limitada», pelo que as decisões devem ser tomadas recorrendo à interacção entre todos os envolvidos.

Em alguns dos meus próximos testemunhos irei referir a existência de «conflitos». Estes possuem um «papel revelador», mostrando áreas em que podem ser necessárias «mudanças». Por isso, descrever «conflitos» não deve ser dramatizado, pelo contrário: deve ser encarado como uma oportunidade para «pensar». Já assim comecei a proceder, escolhendo para tal o ministro da educação.

Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Dois (Doc. 1, Doc. 3, Doc. 6 e Doc. 27); Wikipédia (para a identificação de quem era quem, e quando, no Governo)

[005] O interesse pela resolução de problemas de Matemática

Memórias

Neste primeiro ano na Siderurgia, além do problema trazido pelo Vítor Pais Augusto (do 2º A), que foi utilizado na Maratona da Matemática, houve outros problemas que me foram sendo trazidos e que, por alguma razão, não se tinham esquecidos por quem os trouxe.

Eis o enunciado daqueles de que tenho registo:

PROBLEMA: como ganhei este dinheiro?

Pedi emprestados 250$00 ao meu pai e outros 250$00 à minha mãe; fiquei assim a dever-lhes 500$00.
Comprei uma mota por 450$00, pelo que chegar a casa com 50$00. Paguei 10$00 ao meu pai e 10$00 à minha mãe, ficando com 30$00 no bolso e uma dívida de 480$00 aos meus pais.
Ora, 480$00 + 30$00 = 510$00! Como posso ter ganho 10$00?

(foi colocado em Outubro de 1985, pelo José Zambujinho, do 3º A; e, umas semanas mais tarde, pelo Fernando Rosas, do 2º A; foi discutido numa das aulas; já me tinha surgido em anos anteriores, e voltou a surgir-me mais tarde, com variantes, sendo a mais conhecida a do preço de um jantar).

PROBLEMA: enrolando e desenrolando

Rodando solidariamente os tambores da figura, quantas voltas são necessárias para enrolar completamente a corda?


(foi colocado em Novembro de 1985 pelo João Martins e pelo João Honório, ambos do 3º A, tendo o meu desenho sido discutido com eles para o adequar ao problema que queriam colocar).

PROBLEMA: onúmero de cabeças e de patas dos meus animais

Entre coelhos e galinhas, conto 42 cabeças e 100 patas no meu quintal. Quantos são os coelhos, quantas são as galinhas?

(foi colocado pelo Vítor Felício, do 2º B, e depois usado nas aulas; retomei-o nos anos seguintes, com as turmas da Escola Secundária do Seixal / José Afonso, sempre que tive de trabalhar os sistemas de equações).

PROBLEMA: qual o número de combinações do Totoloto?

(foi colocado, já com a solução, pelo João Honório, do 3º A).

DOIS PROBLEMAS E UMA ANEDOTA, no Almanaque Bertrand de 1924

(foi o Senhor Campos que trouxe fotocópias de partes deste almanaque; esta é uma delas).

Não encontrei um registo de outros três problemas:

O salto das peças do jogo das Damas: problema colocado pelo Joaquim Silva (do 2º A);

Quem é quem? Problema colocado pelo Manuel Pegas (do 3º B), podendo ser um dos problemas usados, em 1986-87, no concurso «Problema da Quinzena», de que falarei mais tarde; e

A soldadura das argolas: colocado pelo Norberto Estanislau (do 3º B).

Comentários

Terá interesse fazer um levantamento dos problemas de Matemática que circulam entre as pessoas que não usam profissionalmente esta disciplina (e que, por vezes, não gostam nada dela):
Por que razão gostam de uns problemas e não de outros?
Tentaram ou não resolvê-los?
Como os guardaram?
Por que os partilham?
Etc. …

Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Um (Doc. 83)

[004] O currículo informal na Siderurgia Nacional

Memórias

Em 1985-86, para além das actividades decorrentes do «currículo formal» (aquele que é centrado nas aulas), foram realizadas outras actividades com as quatro turmas da Siderurgia Nacional, que podem ser consideradas como correspondendo a um «currículo informal». Destaco três dessas actividades.

A
Maratona da Matemática, um concurso de problemas. Ele foi, certamente, o mais participado dos vários concursos em que estive envolvido. Foi constituído por dezoito problemas, subdivididos em seis temas (cada qual com três problemas): lógica; estratégia; números; geometria; condições; probabilidades. E era destinado apenas aos alunos da Siderurgia (eu tinha pouquíssimos contactos com a escola).

Dos meus 44 alunos, 34 participaram nesta Maratona, com um total de 280 respostas (aproximadamente 8 respostas por participante), tendo 13 alunos respondido a pelo menos doze dos problemas: o Paulo Patronilha Ribeiro foi o único aluno que respondeu aos 18 problemas; o Paulo Silva não respondeu a um e o Paulo Carvalho a dois.
Algumas respostas foram dadas conjuntamente, ou após discussão entre alguns alunos.
Como estes problemas estiveram afixados num expositor, à entrada do Centro de Formação, muito outras pessoas os foram lendo e se interessaram por eles (penso que, à noite, passavam por ali operários da Siderurgia que participavam em diversos cursos, mais os respectivos monitores). Isso explica que, no final, não só os meus alunos me tenham pedido fotocópias dos problemas e das soluções, mas também outros frequentadores do Centro de Formação o tenham feito.

O Vítor Pais Augusto trouxe um problema, de que desconhecia a origem, e que eu decidi utilizar como problema nº 17:


No início do 3º período foi realizada uma ambiciosa Visita de Estudo, pois incluía, nada mais, nada menos, do que cinco alvo na zona de Belém, em Lisboa.
Através da escola foram enviados ofícios para o Planetário e para o Museu de Marinha, solicitando a gratuitidade das respectivas visitas (não me lembro de termos concretizado a visita ao Museu dos Coches). E este foi o «plano»:


A seguir ao almoço, perto da Torre de Belém, foi tirada a única fotografia que tenho deste curso: estão os 44 alunos, mais o José Augusto (a contar da esquerda, é o terceiro sentado no murete) e o Senhor Campos (que não consigo localizar):


Para qualquer destas visitas foi previamente distribuída documentação de apoio. E pelo menos a visita ao Planetário foi posteriormente explorada nas aulas, através da ficha «A Matemática dos Astros».

O Xadrez foi a terceira das actividades informais que decidi destacar.
Houve jogos por «correspondência» (todos iniciados em Dezembro; num deles defrontei uma equipa constituída pelo Joaquim Paulino, pelo António Filipe e pelo António Braga).
E, no dia 24 de Março, de manhã, ao longo de 3 horas e 45 minutos, houve uma simultânea com 6 tabuleiros (não arranjei mais), em que defrontei 10 alunos, que se foram substituindo (e alguns repetindo), no total de 17 partidas (o Pedro Henriques empatou e o Joaquim Silva e o Sérgio Duarte ganharam-me). Em paralelo, esteve afixada uma exposição de selos sobre a temática do Xadrez.

Comentários

As actividades informais poderiam ter sido outras: elas dependeriam sempre de quem as sugerisse, de quem as fosse capaz de as implementar e dos que nelas quisessem participar.
No caso da «Maratona», foi muito interessante a mobilização de contributos que suscitou (à semelhança do que estava a acontecer com alguns dos temas do currículo formal): além do Vítor Augusto, outros alunos – e até o Senhor Campos – me trouxeram problemas, quase todos abordados mais tarde nas aulas, mesmo que só nos seus minutos finais; e, no fim, também foi interessante haver tanta gente querendo a documentação que havia sido produzida.

Na página «Documentos» deste blogue foi colocado um PDF com os enunciados e as soluções da «Maratona da Matemática» (pasta «Concursos de Problemas»).

Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Um (Doc. 83, Doc. 84, Doc. 91 e Doc. 92) e Álbum de fotografias analógicas ESJA Um [F52(86)]

[003] As aulas na Siderurgia Nacional

Memórias


As aulas do Curso de Formação de Jovens eram leccionadas no Centro de Formação da Siderurgia Nacional. Este situava-se por detrás do Pavilhão da Siderurgia (primeira fotografia), mas já lá não pode ser visto, pois foi demolido, restando dele apenas as suas fundações (imagem aérea do Google) e o portão de entrada (segunda fotografia):




As disciplinas leccionadas eram as seguintes (os anos do Curso correspondiam, escolarmente, ao 7º, ao 8º e ao 9º):


Apenas me recordo de alguns dos professores que leccionavam as turmas do 2º ano e do 3º ano em 1985-86: o José Augusto (História), o Vítor Campos (Física-Química), o engenheiro Santos Jorge (que talvez tivesse a seu cargo a Tecnologia) e, claro, eu próprio (Matemática).
Todos contávamos, ainda, com o senhor Campos, funcionário da Siderurgia, que cuidava de tudo quanto houvesse a cuidar para que alunos e professores fizessem bem o seu trabalho.

O currículo da Matemática não era muito diferente do escolar. A principal alteração seria a da Trigonometria, antecipada para o 2º ano, devido às aplicações que dela eram feitas na Tecnologia, o que percebi quando, logo no início do ano, o professor desta disciplina me solicitou que a Trigonometria fosse abordada o mais cedo possível. Pelo que este foi o primeiro tema que abordei com as turmas do 2º ano.

Para este tema, tal como para os outros, elaborei uma ficha com informações e problemas, tentando mostrar como a Matemática estava ligada ao quotidiano e às profissões. Mas, para além desta recolha, os alunos, durante as aulas, foram trazendo mais ideias. Eis as notas que tomei sobre a Trigonometria:


Quando abordámos as Homotetias (2º ano), o Fernando Rosa trouxe para a aula um Pantógrafo, um aparelho destinado a fazer ampliações e reduções de figuras. Apesar de incompleto, foi possível utilizá-lo como uma ilustração manipulável do tema em estudo.
Alguns alunos do 3º ano, ao trabalharmos as Potências, exemplificaram-nas com o Número de Avogadro (aproximadamente igual a 6,023 x 1023), que haviam estudado na Física. E, a propósito da Circunferência, lembraram-se do torno, da roda dentada, da secção dos fios eléctricos, da geração de corrente eléctrica por um motor rotativo e do traçado da sinusóide com o apoio de um círculo trigonométrico.

Os testes que me ajudaram a avaliar a aprendizagem destes temas foram «com consulta» (isto é, os alunos podiam consultar as fichas de apoio e os apontamentos que tinham tirado durante as aulas). Parecia-me ser mais importante os alunos saberem «o que fazer» com as informações de que dispunham do que terem-nas na «memória».

Dei 80 aulas às turmas do 2º ano (6 faltas) e 76 às do 3º ano (7 faltas).
As faltas resultaram de uma reunião do Grupo de Matemática, da realização de eleições autárquicas, de uma «ponte» concedida pela Siderurgia, de uma greve da Transtejo, tendo as restantes tido origem na minha utilização do «artigo 4º» (por doença, ou algo semelhante).

Comentários

A localização do Centro de Formação contou com a memória e a fotografia do Jorge Sezinando. E a identificação dos professores contou com a memória do Vítor Campos.
Quem teria leccionado Português? E Inglês? Terá o José Augusto acumulado História e Português?

As fichas temáticas que produzi eram fotocopiadas pela Siderurgia e procuravam compensar a ausência de um livro escolar (para o meu planeamento usei, como apoio, o «M8» e o «M9», da Texto Editora).
Talvez tenha sido na Siderurgia que me comecei a habituar a «criar o meu próprio livro escolar». E também a «recolher e registar ideias», com a intenção de as desenvolver e usar nos anos seguintes.

Na página «Documentos» deste blogue (e, aí, na pasta: «Didáctica da Matemática») coloquei uma versão em PDF da ficha que produzi para o tema «Potências». Será interessante analisar, ao longo de vários anos, os recursos que cada professor mobiliza para implementar o seu estilo de ensino, sobretudo numa época em que esses recursos ainda eram muito escassos.

Na década de 80 e durante parte da década de 90 manuscrevi as minhas fichas e os meus testes, o que, comparativamente a tê-lo feito recorrendo a uma máquina de escrever, me facilitava muito a paginação, nomeadamente para a introdução de tabelas, figuras e desenhos.

Foi pena só ter conhecido alguns anos mais tarde alguns dos professores de Matemática que se tinham envolvido nestes cursos, noutras empresas. Se tivéssemos conversado enquanto estes cursos duraram, teríamos elaborado um currículo menos «escolarizado» do que aquele que o Ministério da Educação nos tinha colocado nas mãos.

A minha dificuldade inicial para localizar o Centro de Formação da Siderurgia, o apoio dado pela memória do Jorge Sezinando e pelas imagens do Google Maps e a descoberta de que, afinal, o Centro havia sido demolido, restando dele apenas as fundações, são uma interessante analogia para o que é «reconstituir o passado»: apesar da articulação de diferentes contributos, grande parte do que «as coisas eram» e do que «aconteceu» já não pode ser recordado.

Fontes: para as «memórias», Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Um (Doc. 4, Doc. 18, Doc. 21, Doc. 41, Doc. 51 e Doc. 68), sendo as duas fotografias de 2021; para os «documentos», Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Um (Doc. 111)

[002] As turmas da Siderurgia Nacional

Memórias

Em 1985-86 as quatro turmas da Siderurgia tinham um total de 44 alunos.
Nas duas turmas do 2º ano, cada uma com 14 alunos, estavam misturadas as quatro possíveis opções profissionais: a dos Electricistas, a dos Fresadores, a dos Serralheiros Mecânicos e a dos Torneiros Mecânicos.
As duas turmas do 3º ano separavam os Electricistas (5 alunos no 3º B) de de todos os outros (11 alunos no 3º A).

Como era Director de Turma do 2º A e do 3º B, pedi aos alunos das quatro turmas, a meio do 1º período, numa das aulas de Matemática, para responderem a um inquérito (já que inquiria os alunos das minhas duas turmas, inquiria os alunos de todas!).
Uma das questões incidia sobre a localidade de nascimento. Sintetizei assim as respostas (a cada localidade, ou país, correspondem dois números, o da esquerda refere os alunos do 2º ano e o da direita os alunos do 3º ano):


Mais de metade destes jovens tinha nascido noutro distrito, ou no estrangeiro.

Outra das questões incidia sobre a localidade onde, na altura, viviam:


Para participar nas aulas, um em cada três destes jovens deslocava-se de concelhos vizinhos.

Os onze aprendizes de Fresador, de Serralheiro de Mecânico e de Torneiro Mecânico, misturados no 3º A, eram estes:


E estes eram os cinco aprendizes de Electricista, juntos no 3º B:


Comentários

Os jovens envolvidos nesta «acção piloto» foram seleccionados entre os muitos que se haviam manifestado desconfortáveis com a «escola regular». Estes cursos, portanto, deveriam ser cuidadosos quanto à alternativa que ofereciam, juntando-lhe os cuidados que se devem ter com os jovens de qualquer curso, nomeadamente para a socialização dos alunos, para a integração curricular, para as oportunidades de emprego e para o prosseguimento da formação (escolar e profissional). Numa das próximas memórias juntarei algumas notas sobre estes diferentes aspectos.

As «memórias» de uma pessoa existem independentemente dos «documentos» a que ela tem acesso; mas a existência de documentos sobre os acontecimentos a que as memórias pessoais se referem ajuda muito a alargar aquilo que é possível recordar. Sem a enorme quantidade de documentos que fui guardando, dificilmente arriscaria contar as minhas memórias sobre os anos em que trabalhei na Escola Secundária do Seixal, hoje José Afonso. E sem as memórias dos cursos que decorreram na Siderurgia a história desta escola ficaria mais pobre.
Parafraseando a actual terminologia informática, os «documentos» são como uma «memória externa».

Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Um (Doc. 06, Doc. 14 e Doc. 16)

[001] A chegada à Escola Secundária do Seixal

Memórias

Depois de um ano no Pragal, de três em Lisboa e de dois (de estágio) em Portimão, fui colocado como professor efectivo na Escola Secundária do Seixal ou, como ainda era chamada na altura, a «Escola das Cavaquinhas».

O espaço da escola era, em 1985-86, consideravelmente menor do que o actual. E os pavilhões outros, excepto o pavilhão C, naquela altura o mais novo.
A planta da escola seria, muito esquematicamente, assim:


No ano em que cheguei conheci muito mal este espaço, pois as minhas aulas não foram aqui. Mas tenho uma vaga impressão de que a Sala de Professores e o Conselho Directivo estavam no pavilhão assinalado com um (a) e de que o pavilhão situado em (b), de madeira e talvez pintado de verde, tinha umas escadas para nele se poder entrar.
Só nos anos seguintes me apercebi de que o pavilhão B estava encostado a uma barreira, que nos separava do espaço da futura expansão da escola.

Penso que o meu primeiro contacto com a escola, uma reunião geral de professores, terá sido no Pavilhão A. No fim dela, como se se tratasse de um ponto fora da ordem de trabalhos, falou-se de alguns «projectos» que estavam em curso. Esta foi, certamente, informação a que mais me interessou, pois não me lembro de mais nada.
Não me recordo da primeira reunião com o grupo de Matemática, que pode ter decorrido imediatamente após a que se destinou a todos os professores. Só sei que me calhou um horário bastante interessante: iria leccionar Matemática a quatro turmas cujas aulas decorriam nas instalações do Centro de Formação da Siderurgia Nacional, em Paio Pires. Duas dessas turmas estavam no equivalente ao 8º ano e as outras duas no equivalente ao 9º ano. Numa parte do dia os alunos destas turmas aprendiam para a «escola» e na outra parte aprendiam para uma «profissão».
Cabia-me, ainda, ser Director de Turma do 2º A e do 3º B.
Eis o meu horário (a letra mais clara e maior é a minha):


Estas turmas estavam inseridas na chamada Acção Piloto de Formação de Jovens. Nos cinco anos lectivos anteriores ela tinha estado a ser experimentada em várias empresas, cada qual com o apoio de escolas próximas, e a evolução do número de alunos inscritos em cada um desses anos está indicada no seguinte quadro:

A Península de Setúbal estava bem representada nesta experiência!

Comentários

O impresso utilizado para registar o horário (um modelo da Direcção Geral do Pessoal, do Ministério da Educação, como se nota em baixo, à esquerda) tinha espaço para 6 dias semanais: por esses anos ainda se trabalhava ao Sábado, o que seria (entre outras eventuais razões) uma forma de ocupar mais plenamente as instalações escolares que então eram muito deficitárias face à «explosão» de alunos inscritos nas escolas.

Nos anos anteriores tinha-me interessado pela ligação entre os currículos e os diversos saberes, nomeadamente os saberes profissionais (em Lisboa tinha trabalhado com adultos, profissionais da EPAL), razão pela qual o horário que me coube me interessou bastante. Mas não estou certo se tive algum papel na sua escolha, ou se pura e simplesmente ele sobrou para o professor que tinha acabado de chegar.

O quadro com as empresas participantes na Acção Piloto e o número de alunos nelas inscritos foi construído a partir de um documento que, na altura, encontrei no Centro de Formação da Siderurgia, intitulado “Acção Piloto de Formação de Jovens”. Tinha sido publicado em 1985, pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional, e as autoras eram a Maria Alice dos Santos Pombo, a Isabel Constança Oliveira Belchior e a Inácia Rosa Zambujo Canelas.

Em cada um dos anos lectivos referidos neste documento, as empresas participantes podiam iniciar um novo curso, com a duração de três anos: as colunas apenas referem o número de alunos que iniciaram um novo curso. No caso da Siderurgia, em 1985-86, os 30 que iniciaram o curso em 1983-84 iriam estar no 3º ano e os 30 que o iniciaram em 1984-85 estariam no 2º ano. Foram eles os meus primeiros alunos no concelho do Seixal.

Fontes: Pedro Esteves / Arquivador analógico ESJA Um (Doc. 01 e Doc. 03)